— Finalmente hoje é quinta-feira, não é Sarah?

O humor de Iman havia melhorado, mas isso só acontecia quando ela não via Mark e Jéssica juntos, o que não havia acontecido ainda naquela manhã.

— Acho que chegamos muito cedo. – falei quando entramos na sala e havia poucas pessoas, algumas dormindo na carteira.

— Eu sei. – Iman concordou. – Passei mais cedo na sua casa pra evitar ... bem, você sabe quem. Quanto menos eu ver, melhor ficarei.

— E o grupo de teatro? – perguntei quando nos sentamos nos lugares da frente, como de costume.

— Boa pergunta. – ela suspirou. – Estou pensando em sair depois da apresentação, se eles ainda estiverem juntos até lá.

A conversa foi interrompida quando Rick entrou na sala carregando dois copos gigantes de cappuccino e sorriu quando nos viu:

— Oi, Sarah! Oi, Iman! – ele disse alegre. – Poxa, eu não sabia que a Iman já estava com você, só trouxe cappuccino pra nós dois. Vou buscar outro, fique com o meu pra você, Iman!

— Ah, obrigada! – ela respondeu sem graça quando ele entregou o copo. – Sarah, posso me sentar do seu lado?

— Claro, sem problemas. – sinalizei com a mão e ele colocou a mochila dele na carteira ao lado da minha.

Rick sorriu e saiu da sala em busca de um novo cappuccino.

— Não sabia que vocês agora eram amiguinhos. – Iman comentou.

— Na verdade, acho que ele quer me proteger. O Rick não me deixa sozinha nas aulas quando o Mark está perto, ele só dá uma trégua quando você está comigo.

— Hum. – ele bebericou o cappuccino dela. – Eu só acho que ...

Iman quase engasgou com a bebida e não completou a frase, apenas fazia sinal para que eu olhasse pra porta e lá estava Jareth, de braços cruzados, a cabeça encostada no batente, de jeans, camiseta branca, jaqueta preta e usando All Star. ALL STAR!

— Minhas alunas mais aplicadas chegaram cedo hoje. – Jareth disse sorrindo, ainda naquela pose tão despreocupada que não parecia o mesmo Jareth tenso com os problemas do Reino.

Por algum motivo, eu não conseguia falar, apenas ficava admirando o modo como ele me olhava e sorria, uma vontade absurda de abraçá-lo e beija-lo ali mesmo, na frente de todo mundo.

— As aulas de quinta são as preferidas da Sarah. – Iman falou depois de um longo período de silencio. – Chegamos cedo para garantir um bom lugar.

— Imagino que seja. – Jareth disse. – Bom, vou pegar o meu material e já volto.

— Vaiiii! – Iman quase gritou quando Jareth saiu. – Vai logo, Sarah!

— Ir pra onde?

— Sarah, você é muito inocente! Ele vai buscar o material dele, vai precisar de ajuda!

— E?

Iman estava quase arrancando o próprio cabelo.

— Sarah, vai logo atrás dele! Vai ajudar ele a trazer o material! – ela agora falava mais baixo. — Ou melhor, vai lá dar uns beijos nele antes da aula começar!

Larguei minhas coisas e obedeci Iman. Acho que agi mais pelo impulso do que pela ordem dela.

Os corredores agora começavam a encher de alunos e avistei Mark e Jéssica chegando de mãos dadas na direção contrária, um aceno rápido de cabeça foi o meu jeito de dizer bom dia para os dois.

Pensei em voltar por causa da Iman, mas logo Rick passou por mim e eu sabia que ela estaria em boas mãos.

Cheguei à sala dos professores, mas só encontrei meu professor de filosofia sentado, lendo o jornal.

— Oi, professor. – falei quando percebi que o jornal era mais interessante do que eu parada na porta. – O professor Jar ... David está por aqui?

— Ele foi até o estacionamento, buscar o material dele que ficou no carro.

Agradeci e sai correndo para o estacionamento dos fundos, que era reservado para os professores e diretores.

Fui andando devagar entre os carros, tentando enxergar Jareth dentro de alguns deles, mas não demorou muito para que eu o visse encostado no capô de um conversível vermelho, o último carro da primeira fileira.

Eu corri até ele e quando o alcancei, ele me abraçou e praticamente me rodopiou no ar.

— Que saudades, Jareth! – falei ainda abraçada, depois de rodopiar por alguns instantes.

— Que saudades, Sarah! – ele beijou o meu cabelo. – Fiquei com medo de você não entender o recado.

— Na verdade, eu não havia entendido mesmo. – dei um beijo no pescoço dele. – Foi a Iman que me ajudou.

Ele riu e me abraçou mais forte.

— Eu posso te beijar? – perguntei timidamente.

— E por que está pedindo permissão?

— Tenho medo de alguém ver a gente aqui. Não sei o que isso poderia causar. – olhei para trás e não havia ninguém, somente dúzias de carros enfileirados. – Uma aluna namorar o professor não é algo muito comum e ético por aqui.

— Eu sei que não. – Jareth passou os dedos pelos meus lábios. – Mas acho que um beijo rápido não vai criar problemas.

— Não sei se vou conseguir apenas beijar rapidamente. – respondi olhando para os seus lábios.

— É? – ele sussurrou no meu ouvido. – Eu também não sei se vou conseguir, mas podemos tentar. – ele mordeu de leve o meu lábio, até finalmente nos beijarmos de verdade.

— Eu vou te ver hoje depois da aula? – perguntei depois de mordiscar a orelha dele.

— No parque? – ele correspondeu mordendo a minha.

— Sim. – puxei o cabelo e ele gemeu.

— Perfeito. – Jareth apertou mais o meu corpo contra o dele.

— E amanhã também? – eu beijava agora o pescoço, que estava muito perfumado.

Jareth ficou alguns segundos calado, sem resposta, apenas brincando com o meu cabelo enquanto eu ainda continuava a beijar o seu pescoço.

— Tudo bem, fico até domingo por aqui. – ele respondeu finalmente. – Acho que o pior já passou no Reino.

Parei de beijá-lo para poder encará-lo.

— Hoggle me contou que uma mulher passou sem problemas pelo Labirinto.

— Sim. – ele respondeu olhando para algum ponto além do horizonte. – Não quero te preocupar com isso.

— Mas eu preciso saber, Jareth! Eu me preocupo com você.

— Se preocupa? – seus olhos agora brilhavam.

— Óbvio! – arrumei o cabelo dele, que por vezes teimava em cair na testa. – Afinal, eu vou ser a sua rainha, não vou?

Jareth não me respondeu, apenas me beijou tão apaixonado, tão sedento por mim, que eu sabia que aquilo era um sim.