You Could Be My Queen
15 Capítulo 15
Notas iniciais
– Você quer ficar de porre hoje, Sarah?
Mark me perguntou quando eu pedi uma terceira latinha de cerveja. Como eu odeio bebida e não sou acostumada a beber, na segunda eu já estava me sentindo estranha.
Eu não queria um porre, só queria me divertir, tentar ficar mais solta pra quando o David chegar. Se é que ele chegaria.
Iman estava longe de nós, bebendo acho que sua quinta ou sexta cerveja, junto com os rapazes do time de futebol.
Tentei unir Iman e Mark, mas tudo foi por água abaixo no momento em que chegamos e Mark dava uns amassos na Jéssica-lourinha-team leader, causando um acesso de fúria em Iman, que, óbvio, beberia pra esquecer e se jogaria nos braços do primeiro macho que aparecesse. Como ela é linda de morrer, pretendentes para uns amassos no carro brotavam ao lado dela, e ela até poderia escolher quem seria o sortudo.
– Não sabia que você era afim da Jéssica.
– Não sou. – Mark bebeu num gole só o copo de vodka. – Só queria alguém pra dar uns beijos e ela sempre pareceu muito interessada em mim, ao contrário de certas pessoas.
– Mark, você já percebeu que a Iman gosta de você?
– A Iman? – ele pareceu surpreso. – Ela nunca demonstrou. Quero dizer, se demonstrou, eu estava ocupado demais prestando atenção em outra pessoa.
Mark puxou a cadeira pra mais perto de mim, o hálito de vodka dele misturado com cerveja barata quase me deu vontade de vomitar ali mesmo.
– Pois então você deveria prestar atenção mais nela. – tentei empurra-lo para mais longe de mim, mas ele nem se moveu.
– Tudo certo por aqui, crianças?
Era David à nossa frente, calça jeans, camiseta branca e jaqueta de couro dando um ar muito sexy àquele homem, um copo de gin tonica na mão e um olhar matador para Mark.
– David! – eu praticamente me joguei nos braços dele. – Venha, sente-se com a gente.
– Você andou bebendo, Sarah? – David chegou muito perto dos meus lábios pra poder sentir o meu hálito.
– Só duas cervejas.
– Estamos num bar, é obvio que ela bebeu, professor! – Mark respondeu.
Atrás de nós, o barulho de uma garrafa caindo e se quebrando no chão atraiu nossa atenção. Ao lado da garrafa quebrada, uma Iman ligeiramente bêbada, caída e rindo junto com o aniversariante.
– Droga, Iman! – fui socorrer minha amiga, David e Mark atrás de mim. – Iman, caramba! Você prometeu que não ia beber demais! Quem vai dirigir agora? – eu resmungava enquanto a ajudava a se levantar.
– Eu consiiigoo, Saraah. – a voz dela era lenta e logo achei que ela cairia no sono ali mesmo.
– Você não tem carta, Sarah? – David me perguntou.
– Não, não tenho.
– Claro que tem! – Mark interviu. – Fizemos as aulas junto, lembra?
– Não, não tenho carta, Mark!
– Tem sim! Olha a porra da sua bolsa, a sua habilitação ta lá.
David me olhava intrigado. Peguei a minha bolsa, tirei a minha carteira e lá estava, a minha habilitação de motorista. Como eu iria dirigir, se nunca freqüentei a auto-escola?
– Você comprou a sua habilitação, Sarah? – David me olhava desconfiado.
– Não, não ... é que ... – minha cabeça rodava e eu só queria saber como eu tenho uma carteira de motorista se fiquei presa num reino mágico com o Rei dos Goblins no período em que eu deveria aprender a dirigir.
Iman tropeçou no próprio salto e caiu direto nos braços do Mark, que quase caiu no chão com o peso do corpo dela.
David largou o copo de gin, pegou as chaves do carro da Iman na bolsa dela e me pediu para mostrar qual era o carro dela.
Mark e eu íamos na frente, com Iman agarrada em nós dois, dizendo coisas desconexas e xingando Mark por ter ficado com Jéssica.
– Viu, eu disse que ela era afim de você. – eu repetia o caminho inteiro, irritando-o.
David abriu o carro e colocamos Iman no banco de trás, que já estava quase caindo em sono profundo.
– Vamos, entrem no carro. – David disse, abrindo a porta do passageiro. – Preciso de alguém pra mostrar o caminho da casa dela.
Eu já estava quase dentro do carro quando senti Mark me puxando pelo braço pra fora do carro.
– Não, você fica aqui comigo. Não vou ficar nessa festa sozinho. – Mark agora dirigia o olhar para David. – Você quem quis salvar a donzela indefesa, agora se vira pra descobrir onde ela mora.
– Mark, você está me machucando, me larga! – quanto mais eu pedia, mas ele apertava o meu braço.
– Escute aqui, seu pivete. – David se aproximou, Mark me largou e eu quase fui pro chão. – Eu sei muito bem que idiotas como você gostam de se aproveitar das meninas bêbadas ou fracas pela bebida, mas você não vai encostar um dedo na Sarah ou na Iman enquanto eu estiver por perto, entendido? Volte lá pra dentro e procure outra garota pra você se aproveitar.
O rosto do Mark estava em vermelho vivo, a mão fechada, como se ele estivesse se preparando para socar David ali mesmo, mas ele apenas cuspiu no chão e voltou para o bar.
Encostei no capo do carro, minha cabeça girando mais ainda depois do que eu vi.
– Está tudo bem, Sarah?
Dei um abraço em David, que correspondeu me abraçando bem forte, seu perfume se misturando ao meu.
– Ai, David, eu deveria ter ficado em casa.
Ele riu e me beijou na testa.
– Beijo na testa é tão “eu cuido de você.” – pensei alto, mais uma vez.
– Eu gosto de beijo na testa justamente por isso, por essa mensagem de carinho e atenção. — a voz dele agora era doce, diferente do David raivoso de instantes atrás. – Vamos, vou levar Iman pra casa dela e depois eu levo você, ok?
Concordei com a cabeça e ganhei outro beijo na testa.
Entramos no carro e Iman já dormia profundamente, enroscada no casaco do Mark que ele deixou pela manhã depois da aula no banco de trás.
– Eu acho que a Iman não pode voltar pra casa. – falei quando David me perguntou como chegar a casa dela.
– E por que não?
– O pai dela é militar. Se a vir chegar nesse estado, tenho até medo do que ele vai fazer com ela.
– Hum. – David ligou o carro, manobrou e logo saímos do estacionamento. – O que você sugere?
– Melhor levá-la pra minha casa. Os pais dela já são acostumados com ela dormindo em casa nos finais de semana, não vão se importar se ela dormir hoje lá.
David concordou e logo já estavamos no caminho de casa.
– Você se importa se eu ligar o rádio? — perguntei na esperança do silencio constrangedor até em casa ser abafado pela música.
– Sem problemas. — David olhou pelo retrovisor. — Só não coloque no volume muito alto pra não acordar a Iman.
Coloquei numa das rádios que a gente sempre ouvia no caminho pra faculdade, uma baladinha pop terminando e emendando com uma rock.
Logo nos primeiros acordes, David começou a cantar junto com o vocalista:
"You are not alone dear loneliness
You forgot but I remember this
So stranger, stranger, stranger things have happened I know
I'm not alone dear loneliness
I forgot that I remember this
So stranger, stranger, stranger things have happened I know"
Meu corpo inteiro arrepiou quando eu o ouvi. Sua voz idêntica a de Jareth, o mesmo timbre, a mesma sonoridade.
"And I dream about somewhere, a smoke will fill the air
As I lay awaken and wait for you to walk out that door
I can change, I can change, I can change
But who you want me to be?
I'm the same, I'm the same, I'm the same,
What do you want me to be?"
Tentei me segurar, mas as lágrimas já escorriam pelo meu rosto.
– Por que você tem que ser igual a ele, David?
David parou o carro e ficou me encarando, eu chorando desesperadamente.
– Droga, você só me vê chorando, David!
Ele riu e tocou o meu rosto, enxugando as lágrimas.
– Não sei quem é esse outro, não sei o que ele te fez, mas detesto te ver chorando. Me sinto tão impotente.
– Me desculpe, David. Tive uma noite dificil hoje.
– Todos nós tivemos, criança. — ele suspirou. — Todos nós.
Ele continuou cantando até em casa, mesmo sabendo que isso estava quase me causando um colapso nervoso.
Paramos em frente a garagem e as luzes de casa estavam apagadas, o que significava que todos já estavam dormindo.
Abri a porta de casa e nenhum sinal de alguém acordado aquela hora. Fiz sinal para David fazer silencio e que o caminho estava livre.
Ele abriu a porta do carro e pegou Iman nos braços, carregando-a com facilidade e eu invejando-a eternamente por ter sido carregada por ele.
David foi na frente e estranhamente ele sabia o caminho do meu quarto, parou em frente apenas esperando que eu abrisse a porta pra ele.
Com cuidado, ele colocou Iman na minha cama, tirou os sapatos dela e a cobriu com o meu edredon.
– E você, onde vai dormir? — ele perguntou sussurrando.
– Tenho um colchonete no armario. Eu durmo aqui no chão mesmo.
Ele concordou com a cabeça e colocou a bolsa dela no meu criado-mudo e foi então que eu vi a bola de cristal, intacta, como se nada tivesse acontecido, no suporte em que ela ficava sob o móvel.
– Mas que ... — quase empurrei David da frente pra pegar o cristal. Olhei pro chão, no lugar onde deveria haver milhões de cacos reduzidos a pó, mas não havia nada, nem um mísero sinal.
– Tá tudo bem, Sarah? — David perguntou confuso.
– Está, eu acho. — olhei pro cristal e depois pra ele. — Só acho que preciso dormir, acho que estou vendo coisas.
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