No dia seguinte, Iman foi me buscar de carro, como de costume, mas ela estava calada demais: todo assunto que eu tentava puxar, ela respondia com poucas palavras.

– Aquela coruja está no seguindo de novo. – falei na tentativa de chamar a atenção dela.

– É o que parece. – ela respondeu.

– Mas que droga, Iman! O que foi que eu te fiz que você não conversa comigo?

Ela brecou o carro tão bruscamente que se eu não estivesse usando o cinto de segurança, já teria voado do carro.

– Por que você não me contou sobre o professor David?

– Sobre o que?

– Eu vi, Sarah! Eu vi o professor saindo da sua casa ontem de noite e vocês dois se abraçando! – ela bateu com força no volante e a buzina tocou várias vezes. – Poxa, por que você não me disse nada?

– Dizer o que, Iman?

– Que vocês dois tem um caso! – ela quase gritou e eu comecei a rir da cena toda. – Por que você está rindo? Não estou vendo graça!

Contei resumidamente a tarde de ontem pra Iman, poupando os detalhes dos abraços e do algodão doce, explicando muito claramente que foi Irene que o convidou para jantar.

– Você jura que foi só isso?

– Juro, Iman! Você acha que eu não contaria pra você se realmente fosse algo a mais?

Ela riu e colocou as mãos no rosto, cobrindo-o.

– To me sentindo uma idiota! – ela disse ainda com o rosto coberto.

– Tem que se sentir mesmo! – tirei as mãos do rosto dela. – Vai, deixa de bobagem e vamos logo. Ainda temos que buscar o Mark, senão vamos nos atrasar.

Iman voltou a dirigir e logo avistamos a casa do Mark, ele já na porta com um caderno na mão.

– Mas Iman, por favor, não comente com o Mark sobre o que eu te contei.

– Por quê?

– Porque acho que o Mark não gosta muito do professor. – e nem ele dele.

– Acho que nenhum menino gosta do professor David.

– Talvez eles se sintam ameaçados.

– É, é beleza demais pra competir com esses garotos recém-saídos da adolescência. Mas que seria lindo você e o professor, isso seria. – Iman suspirou.

– Achei que você estava interessada nele.

– É, achei ele muito atraente, mas acho que é muita areia pro meu caminho. Estou me interessando por outra pessoa.

– Quem?

Iman não respondeu, pois Mark já estava se aproximando do carro, logo entendi que isso teria que continuar em outra hora.

Depois da aula, ajudei Irene com as compras do supermercado e tive que agüentar ouvi-la dizer todo um discurso de como David era um rapaz extraordinário e que eu deveria chamá-lo para sair.

– Sarah, ele é jovem e bonito e acho que gente algo por você, dá pra perceber no olhar dele.

– Irene, ele é meu professor!

– E qual o problema disso? Afff, vocês jovens me decepcionam demais! Mas não esqueça, Sarah, daqui há algumas semanas é meu aniversário e quero que você o convide para o jantar que darei em casa para comemorar.

– Convidar o David para jantar em casa de novo?

– Claro! Se você não vai chamá-lo pra sair, o jeito será convidá-lo para ir em casa novamente.

Eu estava em choque. Agora não havia mais duvidas de que ela estava me jogando pra cima dele.

Terminei de ajudar Irene a tirar a compra do carro e Merlim choramingava atrás de mim pela casa toda.

– Oh, Merlin, o que é? – eu estava no meu quarto, com um caderno de rascunho escrevendo todas as possíveis frases que me trariam Jareth de volta.

Ele choramingou de novo, saiu do quarto e quando voltou, estava com a coleira na boca.

– Ta bom, você venceu. Vamos pro parque.

Levei o fresbee mas parecia que ele queria só ficar correndo por todos os lados do parque.

Sentei na grama com o livro e o caderno, rabisquei algumas coisas, mas logo meu pensamento se perdeu em David, em como aquele jantar nos aproximou de alguma maneira e como eu me afastava cada vez mais do Jareth.

Larguei o caderno e deitei na grama, fechei os olhos por causa do sol e meu primeiro e único beijo com Jareth veio à tona como um filme. Eu não conseguia me perdoar por ter sido tão burra em dizer aquilo pra ele.

Senti Merlin deitando a cabeça sobre a minha barriga, mas não me importei.

Comecei a pensar que talvez fosse uma idéia ridícula continuar tentando encontrar as palavras certas para trazer Jareth de volta e que minha madrasta me incentivando a convidar David para sair fosse um sinal para esquecer tudo e começar vida nova.

Mas se fosse assim, Jareth não teria deixado o cristal pra mim. Se ele deixou, é porque ainda tem esperanças de que eu volte pra ele.

– Pelo jeito Merlin arranjou um travesseiro bem confortável.

Abri os olhos e David estava deitado ao meu lado. Quando foi que ele chegou e eu nem percebi?

– Há quanto tempo você está ai? – me assustei com o rosto dele tão próximo do meu, quando me virei para olhá-lo.

– Tempo suficiente para ver o cachorro pegar no sono.

Olhei pra minha barriga e Merlin estava de olhos fechados, parecia ate que sorria enquanto dormia.

– Seu pensamento deve estar fervendo pra não perceber o barulho da grama sendo pisada e me deitando ao seu lado. – David continuou. – No que você estava pensando?

– Em você.

Caramba! As palavras ainda saem da minha boca com tanta rapidez que nem lembro de ter pensado em dizer isso!

David sorriu, achei que ele iria ficar constrangido, mas pareceu gostar do que eu disse.

– Digo ... é que a Iman pensa que eu e você ... bem, que nós temos algo pois ela te viu saindo de casa e eu me esqueci de contar que você tinha jantando em casa ... enfim.

Ele riu e virou-se de lado, a cabeça apoiada na mão e uma mecha de cabelo caindo sutilmente pela testa. Eu me prendia tantos nestes detalhes dele que poderia descrevê-lo até de olhos fechados.

– Iman deveria procurar garotos da idade dela.

– O mesmo serve pra mim. – pensei alto, como de costume.

David riu de novo.

– Desculpe, David, as vezes penso alto demais, tenho que aprender a guardar meus pensamentos só pra mim.

– Eu gosto disso, dessa sua espontaneidade.

– Mas eu não, pois logo me arrependo do que eu falo.

– Uma pena, pois por um instante achei que se tratava de mim quando você mencionou que também precisa procurar por garotos da sua idade.

– Isso significa que você gosta de saber que suas alunas suspiram por você?

– Só uma em especial e já me deixaria bastante feliz.

Senti meu coração bater tão forte que achei que passaria mal ali mesmo.

– A Irene quer que eu te convide pro jantar de aniversário dela. – aplicando a tática de mudar de assunto novamente.

– Ficarei honrado com o convite. – David olhou pro relógio. – Falando em jantar, você já não deveria estar em casa?

– Sim. Atrasada, como sempre. – fiz um carinho na cabeça de Merlin e ele acordou, se espreguiçou e começou a lamber David.

– Oh, Merlin! – David disse, tentando afasta-lo.

– Acho que ele gosta de você.

– Fico feliz em saber que pelo menos o seu cachorro gosta de mim. – David se levantou e me deu a mão, me ajudando a levantar também. – Tem uma loja de cupcakes aqui perto, achei que você iria gostar de comer um antes de jantar.

– De chocolate?

– Do sabor que você quiser, Sarah.