– É aqui. – falei quando chegamos na porta de casa.

– Bela casa. – David disse.

Ainda fiquei me perguntando se eu deveria convidá-lo para entrar, se aquilo seria audacioso demais ou apenas me despedir com “nos vemos na faculdade”.

– Bom ...

– Bom ... – ele repetiu e parecia tão constrangido quanto eu. – Você já está entregue, sã e salva em casa.

– Por Deus, Sarah! Por que demorou tanto?

Era Irene gritando da porta de casa e eu queria que um buraco abrisse na terra, de tanta vergonha que eu estava sentindo.

– Irene, esse é meu professor da faculdade, David. Ele estava comigo no parque, acabei perdendo a noção do tempo, me desculpe.

Irene se aproximou e perdeu um pouco do ar quando viu David sorrindo pra ela. Acho que ele fazia isso com todas.

– Oh, me desculpe! – ela se aproximou. – David, sou Irene, madrasta da Sarah. – ela estendeu a mão e ele beijou a palma, como nos filmes antigos. – Ahh ... – sim, ela perdeu a fala e parecia uma adolescente. – Você não gostaria de jantar conosco? Já está quase pronto.

Meu coração quase saiu pela boca.

David me olhou, como se perguntasse se seria uma boa idéia.

– É, David, não quer jantar conosco? – perguntei tentando parece natural e sem nenhum desespero de passar mais tempo com ele.

– Não, não quero incomodar.

– Não será incomodo algum! – Irene foi puxando-o pelo braço. – Vamos, entre. Sarah, coloque o Merlin na garagem, não quero ele andando pela casa enquanto jantamos.

Obedeci Irene e quando voltei, David estava sentando no chão brincando com Toby.

– Este é o seu meio irmão que o Rei dos Goblins seqüestrou? – ele perguntou assim que me viu.

– Ele mesmo. Na verdade, eu pedi pra levar ele, porque Toby era um bebê ainda e chorava muito, nada fazia ele ficar quieto.

David riu de uma maneira tão gostosa, quase uma risada de criança. Era muito contagiante.

Me sentei ao lado dele e liguei a TV, Toby logo se concentrando no desenho animado que estava começando.

– Estou sem fome. – falei mais pra mim do que pra ele.

– Eu também. – David sorriu e de novo me perdi no olhar dele.

– Como você conseguiu esses olhos de duas cores? É de nascença?

– Não, foi numa briga na escola, por causa de uma garota que o meu melhor amigo era apaixonado. Dei em cima dela, ele me bateu direto no olho e fiquei assim. – David deu de ombros. – Considero isso um charme, não conheço ninguém assim.

– Eu conheço. – pensei alto, seguido de um suspiro.

– Sério? – ele parecia alegre com o fato. – E é de nascença?

– Ah, não, não sei. Nunca perguntei.

Se um dia eu reencontrar o Jareth, não posso esquecer de perguntar como ele conseguiu um olho de cada cor.

– O que foi dessa vez, Sarah? – David perguntou quando percebeu que eu não conseguia parar de olhá-lo.

– Nada é que ... – fechei os olhos e a imagem do primeiro selinho no piquenique nas fronteiras do reio me veio a mente. – É que você me lembra tanto uma pessoa querida, que às vezes dá vontade de chorar e de te abraçar ao mesmo tempo.

– E por que você simplesmente não me abraça?

Quase pulei pros braços dele, mas me contive.

– Ai, David, a gente se conhece há pouco tempo, você é meu professor. Tudo é muito estranho pra mim.

– Vem. – ele sentou-se sobre as próprias pernas e abriu os braços. – Me dá um abraço.

Meus olhos já estavam cheios de lágrimas, abracei-o tão forte que quase achei que íamos cair ao mesmo tempo.

David correspondia ao meu abraço, seus braços eram fortes, sua mão acariciava o meu cabelo e agora eu chorava de soluçar.

– Oh, criança! Quem foi esse infeliz que está fazendo você chorar assim?

– O Rei dos Goblins. – falei em meio ao choro e ele riu.

– Ah, sempre o Rei dos Goblins. – ele beijou a minha testa. – Pelo menos não é o Mark.

Me soltei e comecei a rir, ele limpando as minhas lágrimas e dando mais um beijo na minha testa.

– Vai se recompor antes que a sua madrasta chegue. Não quero que ela pense besteiras se te ver assim chorando.

Concordei com a cabeça e subi pro banheiro, lavei o rosto e passei no meu quarto. Olhei no espelho e a minha cara estava um pouco melhor. Dei uma ajeitada no cabelo e passei uma maquiagem leve, só pra não assustar todo mundo.

Escutei meu pai chegando e cumprimentando David, os dois se conhecendo e trocando amenidades.

Olhei pra bola de cristal que estava na penteadeira.

– Oh, Jareth, é bom você aceitar logo as palavras que eu digo, antes que eu me apaixone pelo meu professor.

Se é que eu já não estava apaixonada.

– Sarah, o jantar está na mesa. – Irene gritou.

Desci e quando cheguei à cozinha, o lugar vazio guardado pra mim era ao lado de David, que sorriu e bateu de leve no assento da cadeira, como se dissesse que aquele era o meu lugar.

– Então, David, há quanto tempo você leciona? – meu pai perguntou.

– Na verdade, é meu primeiro ano como professor.

– Ah, então somos suas cobaias?

David me olhou do mesmo jeito que ele fez no parque. O bolinho de carne desceu quase que inteiro pela minha garganta.

– E você trabalhava com o que antes de dar aulas? – papai continuou.

– Eu era jornalista numa pequena cidade do interior. Mas sabem como é cidade pequena, o futuro nunca é muito promissor, achei melhor ampliar meus horizontes e me aventurar por aqui.

– E você é casado, David? Namora? – era Irene quem perguntou e percebi que o meu pai não gostou da pergunta, mas eu a agradeci mentalmente por sanar a minha curiosidade.

– Não, não sou casado e nem namoro.

Olhei pelo canto do olho e pude ver uma olhada dele leve do David pra mim.

– Mas um rapaz tão jovem, tão bonito como você não namora? – Irene continuou e papai agora tinha uma cara muito brava. – Você costuma sair? O que você faz pra se divertir?

– Bom, eu sou um pouco caseiro, costumo ficar em casa, lendo livros, estudando. Ou vou ao cinema, ao parque, ao teatro. – ele deu de ombros. – Essas coisas.

– Igualzinho a Sarah! – Irene exclamou. – Sarah também não costuma sair, temos que brigar com ela pra poder sair com a Iman e o Mark, se não ela fica o tempo todo trancada no quarto, fantasiando coisas com seres imaginários.

– Irene. – meu pai resmungou, como se percebesse que eu estava constrangida, mas isso não fez ela parar.

– Vocês dois precisam sair, conhecer pessoas, se divertir! São jovens, devem aproveitar a vida.

– Irene. – meu pai interviu de novo. – Querida, você está constrangendo os dois, parece até que você está jogando a Sarah nos braços dele. – ele disse baixinho, mas ainda pudemos ouvir.

– Me desculpe. – falei baixinho pro David. – Não sei o que deu nela hoje.

– Tudo bem. – David sorriu e tocou a minha coxa, me causando arrepios.

Meu pai mudou radicalmente o assunto, falando sobre esportes, economia e aqueles assuntos todos que usamos pra tentar mudar a conversa.

David foi embora depois da sobremesa e eu o acompanhei até a rua.

– Volte mais vezes, David! – Irene disse entusiasmada e eu começava a suspeitar que a minha madrasta também estava se interessando por ele.

– Obrigado mais uma vez, Sarah. – David disse quando já estávamos longe de todos, na rua. – Sua família é muito acolhedora e sua madrasta cozinha muito bem.

– Ah, obrigada também pelo abraço. Me ajudou bastante.

Ele sorriu e abriu os braços.

– Quer mais um?

Eu sorri e o abracei forte, sentindo melhor o seu perfume, me sentindo segura com ele.

Ai, Jareth, poderia ser você aqui e agora, não poderia?