Notas iniciais
Não sei vocês, mas eu ando sentindo um aroma ainda distante de limão começando a aparecer por aqui 8D.
Boa leitura.

Nem o frio que tomava conta da cidade àquela hora fora capaz de atingir Aoi que, ao despertar, sentiu o corpo de Uruha colado ao seu. Um dos braços estava pousado na cintura de Takashima e conforme o moreno o recolhia, a mão ia passando pela pele alva, parando na curva da região. Aoi se apoiou com o cotovelo livre encostando-se mais ainda no outro, seus olhos percorrendo o rosto de perfil, os lábios fofos entreabertos, o peito realizando movimentos cadenciados devido à respiração, as pernas ainda dobradas pela posição que dormira.

O moreno não podia desejar visão mais perfeita que aquela, abaixando-se apenas para fungar de leve na cabeça alva, depositando um beijo e se sentando com cuidado para evitar lhe acordar. Não havia tido uma confirmação do outro se iria ser acompanhado até a gravadora, então esperava que ele acordasse sozinho para ter uma resposta.

Limitou-se a pegar o que precisava e rumou para o banheiro do corredor, já decidido a não incomodar Takashima. Aquela era sua primeira noite longe do hospital e Aoi tinha quase certeza de que ele queria aproveitar o máximo que pudesse, descansando um pouco o corpo longe de todos aqueles aparelhos e paredes brancas, e das camas que não deveriam ser tão confortáveis.

O tempo também começara a piorar, como Aoi constatou ao olhar pela janela do banheiro. Não dava para ver com muita precisão, mas era certo que o céu estava absurdamente cinza e muito provavelmente choveria durante todo o dia, fazendo-o se perguntar como organizaram um festival com esse tempo. Claro que era um bom lugar e se chovesse não alagaria, mas ainda assim uma tempestade num meio de tantos shows não seria uma opção muito requisitada.

Ainda assim acabou se focando mais em seu banho, por mais que estivesse de costas para a porta. O box de vidro fosco e texturizado erguia-se até o teto, abafando e mantendo a temperatura do banho. Era um bom isolante, do qual Aoi escolheu com cuidado, afinal de contas não era agradável, num tempo tão frio como o japonês tomar banho com filetes de vento adentrando por partes que nem mesmo eram descobertos com facilidade.

Mas, ainda assim, mesmo com todos aqueles cuidados, Aoi ainda sentia um vento batendo em si. Estava devaneando sobre o festival e outras sentenças, mas o frio que aos poucos lhe abraçava estava começando a afastar aqueles pensamentos tão intensos, levando uma careta desgostosa ao semblante do moreno que se virou de imediato, tentando descobrir a fonte daquele frio.

- Mas que mer... URUHA?! – Parte do box estava aberto e de onde Aoi se encontrava podia ver metade do corpo do loiro que estava sentado num banco lhe fitando, a cabeça apoiada nas mãos, os braços apoiados nos joelhos.

- Que demora pra me notar Aoi. – Fez um falso bico descontente, rindo da feição ainda surpresa do outro. – No que está pensando?

- Em muita coisa. – Disse por fim, voltando ao que fazia. Acabou virando-se de costas, fazendo Uruha corar. Nunca o havia visto nu, no fim das contas. – Em você dormindo em casa finalmente, nesse tempo doido e no festival que vai ter mesmo assim. Isso preocupa um pouco.

- Ta feio mesmo, tava olhando lá do quarto. Pelo jeito a coisa vai ficar ainda pior. Aqueles diretores são malucos de organizarem um festival com esse tempo.

- Sendo a céu aberto é pior ainda. Mas, — Hesitou um pouco. – você pretende ver?

- Eu quero ver vocês sim, acho que estou bem com Sugizo-san no meu lugar.

- Desde que não fique pra baixo. – Desligou o chuveiro, pegando a toalha e encostando mais a porta do box. – Mas, porque já está de pé? Vai comigo?

- Não, minha cabeça dói. – Comentou tristemente. – Mas, acho que já me acostumei a acordar cedo.

- Mas, deveria deitar, nem que seja na sala pra ver tv. – Colocou uma Yukata branca com kanjis aleatórios, saindo do box. – Tem que tomar alguma coisa agora?

Uruha negou e foi levado por uma das mãos até o quarto, deixando-se cair sobre a cama e se cobrindo até a altura da axila.

- Vou ligar para o Kai e dizer que você ta doente.

- Eu bem que queria. – Aoi sorriu parado em frente a seu guarda-roupa. Selecionou primeiramente com o olhar as peças quentes que tinha antes de retirar do cabide, deixando a Yukata escorregar por seu corpo. – Mas, perto assim do festival e com as fotos para tirar o Kai é capaz de vir aqui e me levar mesmo doente.

- É ele é um chato.

Os dois riram enquanto Aoi ainda se vestia e Uruha acabou levantando novamente quando fora chamado para tomar café. Arrumaram uma mesa simples, mas apetitosa e Yuu se adiantou no preparo do café enquanto Kouyou cuidava dos sucos de laranja.

- Quer jantar o que hoje? – Apesar da pergunta direta, Uruha fitava o céu cada vez mais cinza, também decorrente do horário, já que ainda não passava das sete e quinze.

- Uru eu não quero que fique se esforçando, posso fazer alguma coisa quando voltar. – Terminava de adoçar o café, já se preparando para colocar sobre a mesa.

- Aoi eu já vou precisar fazer o almoço, não é problema fazer o jantar. – Shiroyama estreitou os olhos, havia se esquecido daquele detalhe.

- Você podia ir almoçar com a gente se estiver melhor. – Sugeriu, por fim.

- Se eu estiver bem apareço na gravadora, mas mesmo assim vou fazer algumas coisas por aqui.

- Coisas? Espero que só faça comida. O que pensa em fazer?

- Não sei, se precisar eu posso fazer compras ou limpeza aqui, sei lá, ajudar de algum jeito.

- Não se esforce, ta? Se for almoçar com a gente você me liga e se quiser ajudar mesmo faça só a comida então.

Uruha queria fazer mais, mas também entendia a preocupação de Aoi. Não estava bem para fazer muitas coisas e nem ao menos podia pegar em materiais químicos, então a limpeza realmente não estava cogitada. Mas, cozinhar Uruha podia e tinha certeza de que faria.

Não estava muito contente em se despedir do moreno, mas não podia impedir que não fosse por isso sustentaram o abraço por mais tempo que puderam, aspirando o cheiro alheio o máximo que podiam; Aoi sorrindo contra o pescoço alvo de Uruha.

- Promete que vai estar aqui quando eu voltar? – Beijou a curva do pescoço, fazendo Uruha se arrepiar.

- Prometo. – Se separou a contragosto, sorrindo por baixo da máscara. – Mas, é melhor ir logo antes que eu não te largue mais.

Aoi riu e beijou a testa de Kouyou antes de sair, o fazendo de uma vez para também não acabar hesitando e ficando. Só quando se viu realmente dentro de seu carro e já fora do prédio relaxou, afinal agora era apenas seguir para a gravadora. Claro que não estava contente, mas também não estava estressado, era apenas saudade, já que estava tão carente do outro, algumas horas separados já era como um martírio.

Não que para Uruha fosse diferente. Acabou se deitando depois que Aoi saiu, abraçando seu travesseiro, aspirando o cheiro gostoso de seus cabelos. Fitou ainda sua foto em cima do criado mudo enquanto uma lágrima solitária escapava pelo rosto. Fazia algum tempo que o moreno havia se declarado, mas ainda não tinham aproveitado aqueles momentos especiais e Uruha se perguntava se Shiroyama ia agüentar esperar.

Não achava que ia ser traído, mas tinha tanto medo que Aoi se cansasse de si e desistisse. Era seu direito, afinal ninguém gostava de quem empacava a própria vida e desde que fora diagnosticado era o que Uruha achava. Estava preocupando a todos, fazendo Aoi e Reita chorarem pelos cantos e precisarem sustentar sorrisos falsos. Aquilo lhe feria mais do que os outros imaginavam e mesmo tendo dito que provavelmente tinha depressão, ainda assim escondia muito mais.

Estava amargurado, guardando uma dor forte dentro de si que acabava lhe fazendo soluçar, tão perdido que se encontrava. Escondeu por mais de dois meses os sintomas da leucemia e se sentia tão mal agora que se pudesse teria escondido a própria doença. As lágrimas de culpa doíam tanto quanto guardar a dor e pareciam muito mais pesadas do que eram, molhando o travesseiro de Aoi.

Uruha estava em frangalhos por dentro. Tão quebrado que se perguntava se haveria conserto ou se continuaria naquela agonia desesperada por mais tempo do que seu coração – Principalmente. – desejava. Não conseguia raciocinar direito e muito menos se imaginar longe daquela realidade tão triste. Fora o nervoso que sentia nessas crises que apenas piorava suas dores de cabeça, como no momento.

Tentou se controlar e ficou abraçado com o travesseiro de Aoi, fechando os olhos e tentando limpar a mente de pensamentos intensos e que lhe machucariam mais ainda, aos poucos sendo levado por um estado de relaxamento, caindo no sono algum tempo depois.

xXx

- Ele não estava muito bem, acho que não foi bom deixar ele sozinho. – Aoi argüiu mais para si mesmo, apesar de Reita já estar na sala de ensaios.

- Se precisar ele liga pra gente Aoi, não precisa ficar tão nervoso. – Esperavam os outros três, Kai que dissera estar no trânsito, Ruki e Sugizo sem conseguir se comunicar, apesar de que era bem provável que também estavam presos em algum engarrafamento.

- Eu sei, mas é que ele me falou umas coisas. Algumas boas, principalmente sobre a menininha que a gente viu com ele no domingo, e umas tristes, principalmente sobre depressão.

Reita ergueu uma das sobrancelhas e ajeitou melhor o baixo no pedestal, sentando-se ao lado de Aoi. O moreno entendeu que o outro não fazia nem ideia do que estava realmente acontecendo e suspirou baixo, lembrando-se das palavras de Uruha.

- O Viktor e ele acham que é depressão porque isso é bem comum para quem sofre de câncer.

- E ele não vai procurar ajuda?

- Eu não sei. – Aoi soltou os ombros, acomodando-se melhor. – Ele acha que vai dar mais trabalho e que vai preocupar a gente. Acho que nem a ideia de adotar a Kaoru-chan ta ajudando.

Reita sobressaltou no sofá e começara a indagar sobre aquilo quando os três restantes chegaram já preparados para ensaiar. Tiveram de lhes esperar por duas horas e não tinham tempo para conversar, ainda que o loiro tivesse deixado claro com um olhar que aquele assunto não estava encerrado.

Shiroyama concordou mudamente e todos se ajeitaram em seus lugares, já sabendo que apenas as músicas do festival seriam ensaiadas. Trocaram uma rápida conversa sobre o atraso e como o trânsito estava péssimo e com um gesto de Kai iniciaram mais um dia de trabalho.

...

- Eu ainda fico preocupado. – Aoi conversava isolado com Kai conforme se dirigiam para o restaurante. O tempo estava chuvoso e frio e talvez não fosse surpresa que logo começasse a nevar, ainda que não fosse inverno realmente.

- Eu também Aoi, e sinceramente? Não somos os únicos. Eu falei com o Saga e ele disse também está preocupado. Mas, eu duvido que a companhia vá adiar o festival.

- Eu também duvido, e a gente vai ter que se prevenir do frio e bem... Aquelas roupas são frias.

- Reita não vai ter nem mangas no colete e a sua jaqueta vai ser aberta. – Parou junto com Shiroyama enquanto ele olhava o celular, abraçando-se quando fora atingido por uma lufada de vento.

- Acho que vamos ganhar férias obrigatórias de algum hospital. E o Uruha não vem.

- Bem, vamos merecer um descanso depois de passar por esse tempo tão frio naquele lugar descampado. – Anuiu sobre a última frase de Aoi.

De fato o tempo não estava do lado dos cinco e de ninguém que fosse comparecer ao festival, sendo o público ou as bandas. As finas chuvas ficavam absurdamente geladas junto com os ventos frios e se nevasse havia o risco de escorregar e criar poças, fora uma chuva mais forte que se acompanhada de vento poderia molhar equipamentos e os músicos.

Ainda assim sabiam bem que não seria adiado e só lhes restava torcer para que o tempo estivesse de seu lado, apesar de terem quase certeza que algumas pessoas ficariam doentes por causa dos trajes usados.

Esse era, ainda, outro tópico que preocupava principalmente Kai. Os tecidos realmente não eram quentes, e mesmo que eles fossem os cinco iriam suar e ficar com calor por causa da apresentação e aquilo só agravaria a situação, já que o vento que poderia bater nos corpos em temperatura elevada só causaria mais problemas. Sabia que o evento não seria cancelado e só torcia para que nada desse errado.

xXx

Uruha estava devidamente agasalhado já que nem mesmo o calor vindo das panelas lhe esquentava o suficiente. O frio havia piorado como podia notar pela janela. O céu escuro e aquela chuva que demora horas, às vezes dias para cessar. O vento que entrava pelas frestas soprava gelado e como bom conhecedor do próprio local onde residia, sabia que as temperaturas poderiam cair ainda mais quando a devida estação chegasse.

Estava fazendo um pequeno e prático almoço, já que ainda não se sentia muito bem para sair e almoçar fora. Era normal estar receoso então precisou apenas mandar uma mensagem para Aoi e juntar alguns ingredientes para se sentir confortável no apartamento, desfrutando de sua comida naquele lar que também podia chamar de ‘Seu’.

Não fazia nada sofisticado, suficiente para ajudar seu corpo frágil e quente para deixar mais confortável no meio de um dia tão frio. E mesmo estando sozinho não era assim que se sentia onde o que mais predominava era Aoi. Cada cantinho daquele grande apartamento aquecia o coração de Uruha. Era o lar do amor de sua vida e isso lhe preenchia por completo apagando – Ao menos momentaneamente. – suas dores internas.

Ainda não conseguia se olhar sem touca e quando terminou tudo e foi escovar os dentes no quarto da suíte que Aoi havia reservado inteiramente para si, permaneceu com a peça e tentou não se olhar demais para a comida não voltar com toda a tristeza e agonia que sentiria.

Estava aliviado demais para pensar em tristezas e se aconchegou na sala, ligando a tv enquanto os olhos se dividiam entre ela e a janela, preocupado com os amigos naquele tempo tão frio. Esperava que estivessem bem dentro da companhia e depois de alguns minutos assistindo um filme sentiu seu corpo se deitar no móvel e abraçou uma almofada, deixando-se levar para a paz e tranqüilidade de uma boa soneca.

xXx

Seis da tarde estava praticamente escuro. A chuva havia piorado consideravelmente e Aoi praguejava por estar preso num engarrafamento que sabia, duraria mais do que ele desejava e se desse um pouco de sorte, menos do que aparentemente seria. Por sorte havia comprado um copo grande de café no estabelecimento ao lado da companhia e se sentia aquecer com cada gole dado.

Não havia mais recebido nenhum telefonema de Uruha e aquilo o preocupava um pouco, apesar de tentar não pensar em coisas ruins.

Deveria estar dormindo ou cozinhando, ou simplesmente esquecido de ligar, já que às vezes era realmente distraído. E Aoi podia sorrir facilmente com o amado todo atrapalhado, sujo até os pés com ingredientes culinários e um avental cor-de-rosa bebê, batendo alguma massa, vendo tv e tentando falar ao telefone sem usar as mãos.

Era uma imagem encantadora e engraçada. Aoi se deixou rir ao pensar em cada detalhe da cena, a pequena Kaoru em seu encalço toda suja de chocolate enquanto tentava fazer o bolo junto com Uruha e o moreno observando tudo feliz e rindo das trapalhadas de Takashima e da inocência ‘doce’ da menininha. Não negava que Uruha havia mudado sua vida e o que mais desejava era poder ver-lhe longe de tanto sofrimento e o amando com toda a intensidade que havia em seu coração.

Trocar beijos, abraços e carinhos sem medo, sem qualquer receio de algo ruim acontecer depois, se dar e receber tudo que tinham para oferecer ao outro, amor e prazer, um mix quase explosivo de sentimentos intensos misturados, noites memoráveis para se recordar.

Era como um sonho para Aoi, um objetivo a ser alcançado, ajudar Uruha em tudo que pudesse lhe apoiar nos momentos difíceis, dar passos com ele quando o medo acometesse seu coração, lhe segurar quando suas pernas fraquejassem e ele se sentisse caindo, lhe amparar quando a solidão tentasse entrar por entre portas, janelas e ínfimas frestas. Estar a seu lado sorrindo quando seu mundo parecesse negro demais por causa da doença.

Estar junto sem sufocar, sem pressionar, apenas a presença dando certeza de que uma mão sempre estaria estendida quando fosse preciso. Era assim que Aoi queria ser e era assim que queria que Uruha o visse, não só agora doente, mas para a vida toda. Alguém que lhe amaria com todas as forças, arrancando sorrisos e lágrimas de felicidade, estar junto nos momentos ruins. Ser completo para o outro.

Parecia utopia, mas Aoi não perdia em sonhar. Queria fazer Uruha feliz mesmo que seu amor pudesse parecer um conto de fada aos olhos alheios. Ainda assim era seu sentimento e seu Uruha e era aquilo que realmente importava.

Mas, apesar de divagar profundamente, ainda estava atento ao trânsito, afinal as buzinas não paravam de soar, mas os carros não conseguiam andar. Colocara numa estação para distrair e descobriu que um acidente, fora o horário de pico, estavam deixando tudo mais lento. Já havia socorro no local, mas algumas coisas levavam tempo, e Aoi apenas suspirou, deixando-se relaxar no banco.

Não ia adiantar brigar, chorar ou espernear, só podia esperar.

...

Chegou em casa exausto às oito da noite, desejoso de um bom prato de comida. De certa forma havia dado sorte, já que não ficou tanto tempo preso no trânsito. A chuva que havia piorado agora se reduzira a uma garoa fina, mas o frio ainda persistia. As luzes da sala estavam apagadas, mas como conhecia tudo, Aoi se dirigiu para o quarto na penumbra. Apenas no cômodo acendeu as luzes, erguendo uma sobrancelha quando não viu Uruha. Achava que o amado estaria dormindo, já que tudo estava em silêncio e deixou as coisas pelo chão mesmo, procurando-o pelos outros cantos.

Não o achou em nenhum quarto ou banheiro e só faltava a cozinha e área de serviço, também não o encontrando. Não imaginava aonde o encontraria e estava quase entrando em pânico quando fora para a sala pegar o telefone, desta vez acendendo a luz e respirando de alívio ao ver Takashima dormindo no sofá, ainda abraçado a almofada. Se lembraria de acender a luz do primeiro cômodo da próxima vez, sorrindo ante a confusão que estava quase criando, abaixando-se em frente ao amado, acarinhando sua face. Imaginava que ele não deveria ter feito a comida, e torcia apenas para que não se culpasse.

Aliás, nem ao menos o acordaria se pudesse, mas como não podia deixar de comer, acabou tocando num dos ombros. Disse algumas palavras rente ao ouvido e não demorou muito até que Uruha abrisse preguiçosamente os olhos, fitando primeiramente o relógio digital do aparelho de DVD, sentando num pulo no sofá.

- Aoi, desculpa, eu sei, eu sei, eu disse que ia fazer o jantar, mas acabei dormindo e... — Dizia tudo rápido e sem muito nexo, corando e gesticulando mais do que o necessário enquanto o moreno apenas ria.

- Está tudo bem Uru, de verdade. Eu sei que não foi por mal, não se preocupe, e se acalme, sim? — Sentou-se num dos nódulos livre, trazendo Uruha para um abraço. — Posso descontar te congelando com essa roupa fria e te pedir ajuda para fazer algo.

Takashima riu sobre o tecido frio do casaco e concordou, se cobrindo novamente quando se soltou de Aoi.

- Se quiser ir tomar um banho eu adianto a comida.

Aoi concordou e depositou um beijo na bochecha alva, já feliz da vida por se imaginar debaixo da água quente e aconchegante.

Uruha aproveitou e arrumou o que precisava no sofá, levando a coberta para o quarto antes de ir para a cozinha, ligando a calefação, para ajudar Aoi que sairia com o corpo quente do banho. Ainda estava meio envergonhado de não ter feito nada mais cedo, visto que Shiroyama deveria estar cansado, principalmente por chegar aquela hora.

Aliás, hora que deixou o outro curioso, afinal de contas não se lembrava de ter saído tão tarde da companhia.

- Nós saímos às seis. — Já devidamente vestido e agasalhado Aoi explicava assim que saira do banheiro. — Mas teve um acidente e eu fiquei quase duas horas no trânsito.

- E eu aqui dormindo em vez de cozinhar. Jura que não vai me dar umas porradas quando a gente for dormir?

Sentiu ser abraçado pela cintura, as mãos de Aoi descendo pela lateral até chegar às coxas.

- Juro, só vou abusar de você. — Depositou um beijo na curva do pescoço, pressionando levemente o maior a sua frente contra a pia, obrigando-o a parar o que fazia para se apoiar no tampo de granito.

- Aoi, seu pervertido. — Riu baixo, sentindo mais toques em seu pescoço. — Quer me matar de cócegas?

- E de prazer.

Uruha riu mais alto, só agora prestando atenção na pressão em suas nádegas. Não duvidava que se pudesse já teria se entregado para Aoi. E com ele lhe provocando daquela maneira ficava ainda mais difícil se conter.

- De prazer eu até deixo, mas só depois que eu melhorar. — Tirou ele mesmo as mãos de suas coxas, ficando ao lado do moreno.

- Seu chato. — Aoi lhe mostrou a língua e os dois desataram a rir, cozinhando e brincando e Shiroyama contando sobre sua visão com Uruha de avental e sujo de farinha.

- Vou virar uma mãe de família quando estiver aqui com você.

- Só falta parir.

Aquela noite fora toda em torno de um sentimento bom e caloroso, risadas à vontade, claro que em seu tom aceito, uma janta apetitosa e quente para ajudar contra aquele frio, e às dez e meia os dois foram se deitar finalmente, desta vez Uruha ficou de frente para Aoi, aconchegando-se em seu peito. Não tardaram a dormir.

...

- Finalmente o sol deu as caras. Fraco, mas deu. — Uruha comentava fitando o céu um pouco antes do carro de Aoi adentrar o estacionamento da companhia. Sentia-se bem naquela quarta-feira e quis acompanhar o moreno.

- E pela hora parece que vai esquentar um pouco. — Não passava das oito, mas a estrela-rei já iluminava um pouco.

- Podia esquentar mais no festival. Vocês devem estar preocupados. — Falava um pouco abafado por causa da máscara, mas não poderia sair sem ela, o que lhe incomodava um pouco, principalmente para conversar, ainda que a maior preocupação fosse com a touca, já que nem se quer podia imaginar alguém lhe vendo sem cabelos. Era um de seus karmas, afinal.

- Principalmente com a saúde. — Aoi argüiu pondo-se a caminhar para o elevador que dava até a recepção. — Pegar uma gripe vai ser fácil. Vou ficar com medo de chegar perto de você.

- Melhor torcer por sol, ou para não chover. Se bem que eu acho que volto antes para o hospital.

- Nem me lembre disso.

Já na recepção Uruha foi alvo de olhares, ainda que sua conversa — Agora diferente. — com Aoi o deixasse desligado para as outras pessoas. Eles não podiam passar nenhum sinal suspeito sobre chegarem juntos ao local, mantendo a postura neutra de apenas dois membros de alguma banda da companhia que conversavam sobre trabalho enquanto se dirigiam para seu espaço dentro do imenso prédio.

Ainda assim se viram mais confortáveis em seu andar, adentrando a sala de descansos — Onde costumavam deixar suas coisas, já que haviam os devidos armários. — encontrando Kai e Reita conversando.

- Acordou melhor hoje Uruha?

- Finalmente Reita. — Sorriu, sentando-se ao lado do amigo. — Talvez seja por isso que o sol tenha saído.

- Não duvido. — Kai riu. — Veio pra ficar o dia todo?

- Se possível... Mas, acho que vou ter que ficar por aqui.

- A gente vai acabar te fazendo companhia. — Reita argüiu. — As roupas chegaram e o Koga-san quer conversar quando todo mundo chegar.

- E eu vou poder participar? — Seus dedos brincavam com os de Aoi que havia sentado a seu lado, as mãos quase se juntando de uma vez.

- Acho que sim, você não é nenhum estranho. Mas, o Koga-san deve ficar com medo de falar algumas coisas com você por perto.

- Aí é com ele.

Os outros anuíram e iniciaram outro assunto mais descontraído, apenas esperando. Sugizo chegou antes de Ruki e já com alguns Staffs trazendo as roupas, e claro, se assustando com a presença de Uruha. O ex-loiro apenas ria das expressões confusas, mostrando-se bem confortável diante da situação, ainda que o convidado não estivesse. Mas, não precisou de muito quando Takanori chegou, já animado para inclusive ensaiar com as vestimentas. Claro que não sem cumprimentar Takashima com vários abraços e seu jeito carinhoso de ser.

Entretanto não conversaram muito, já que, também surpreso com a presença de Uruha, o empresário chegou pedindo a todos que se arrumassem. Fora atendido de imediato, aproveitando para indagar sobre a saúde do verdadeiro guitarrista do GazettE enquanto esperava.

...

Reita quase tremia de frio dentro daquele colete azul-claro — Com fivelas pretas entre o fecho. -, levemente solto e sem mangas, as partes que formavam o corte, assim como nas laterais e na parte do ombro, formadas por tiras brancas um pouco largas, o fecho da peça sendo em zíper. Não era como um colete social, então não tinha um decote em formato em V natural, lembrando vagamente um apenas se o zíper não fechasse até o fim. A calça larga e preta, uma marca registrada sua — Só não ganhando da faixa. — também continha as tiras brancas, e fivelas pretas pela extensão. Já a faixa era num tom branco como normalmente, mas se vista de perto era possível visualizar os detalhes de linha azul-claro feitos exatamente para esse visual do baixista. Alguns detalhes como correntes, colares e anéis estavam previamente decididos, mas três correntes em tamanhos diferentes, partindo da menor para a maior pendiam sobre uma das laterais de seu corpo presas aos passadores da calça.

- Vai ficar doente. — Uruha deixou o dedo indicador em riste, rindo do amigo em seguida.

Kai, por ser o baterista não podia usar muitos detalhes que lhe atrapalhassem ou deixassem o visual em frangalhos, então vestia algo semelhante à Reita, mas a camisa lembrava mais uma regata do que um colete em si. A calça, no entanto, era branca, e a parte de cima preta, apesar de conter linhas absurdamente finas e verticais em branco, sendo visíveis de bem perto. Não havia nenhum acessório, como sempre, apenas algum colar que ainda não tinha sido decidido.

- Olha o outro que vai passar friiiio. — Takashima cantarolou, caindo na risada com o empresário.

Ruki, até o momento, parecia o mais protegido do frio. Usava uma espécie de camiseta preta e um pouco agarrada ao corpo, sobreposta por um tipo de sobretudo, ao menos no caimento, que ia cerca de um palmo abaixo do cós da calça, num tom prateado, assim como a peça de baixo. Na reunião haviam decidido que pelo menos um deles teria de ficar diferente dos outros, esse papel ficando para si. O tecido usado era levemente brilhoso, e dois colares, assim como anéis nas duas mãos, mas sem preencher todos os dedos, terminavam de adornar o vocalista.

- Ele não vai passar frio.

- Ponto pra mim. — Riu, sentando-se ao lado do amigo.

Tendo Kai e Reita balanceado as três cores escolhidas na reunião, — Azul claro, preto e branco. — ficou decidido que os dois guitarristas seriam extremistas, sendo Sugizo, o próximo que chegou, vestido com os dois tons claros dos pés à cabeça. A calça, branca, tinha cortes em toda sua extensão, nas laterais possuindo detalhes no tom azul. Duas correntes pendiam do lado direito de seu corpo, chamando atenção, já que eram mais escuras que a peça, enquanto uma outra solitária pendia do lado direito. Uma camiseta larga e de decote absurdamente fundo, na cor azul, era sobreposta por um sobretudo também em caimento — Apenas. — apertado para definir a silhueta do guitarrista. A Peça era branca com os mesmos detalhes em azul da calça, e um cachecol fino e longo também branco pendia de seu pescoço, assim como dois anéis na mão direita.

- Sugizo-san também não vai passar frio. – Uruha sorriu.

E se para o guitarrista convidado o tom fora claro, para Aoi era inteiramente preto. O moreno usava uma jaqueta aberta, parecendo muito com o antigo visual do Dim Scene. A calça também da mesma cor, era num tecido parecido com couro, mas, claro, não fazia barulho. O colar que ostentava era rico em detalhes e pegava boa parte do colo, como se fosse para compensar a falta de anéis e correntes no resto do visual. E claro, não era preciso indagar Uruha para descobrir quando dos cinco ele havia gostado mais.

- Bem, todos aqui, vamos conversar. – O empresário estatuou.

xXx

- Falar do frio que era bom ele nem tocou no assunto. — Aoi praguejava enquanto os seis esperavam pelo almoço.

- E pelo jeito nem vai. — Reita argüiu contente por estar longe daquele colete. — A culpa não é toda dele, mas vamos ver o que vai conseguir lá no dia.

- Algo quente depois do show vai ser ótimo. — Ruki estatuou. — Mas, acho que concordo com o Reita. Nem tudo ele pode fazer.

- Desde que a gente tenha um mínimo de calor depois do show. — Aoi ditou novamente. — Isso vai ser uma provação.

- E falando em provação, — Sugizo comentou. — Uruha-san, vai também?

- Eu bem que quero, mas, — Fez rapidamente algumas contas nos dedos. — acho que já vou estar no hospital de novo. Mas, se servir vou ver pela televisão.

- Talvez nem fosse bom você ir. — Agora Kai se pronunciou. — Doente ainda, uma gripe não seria nada bom.

Uruha deu de ombros, apesar de concordar. Era observado por algumas pessoas por usar a máscara, e quando a comida chegou hesitou realmente em retirar a peça. Estava sentado um pouco longe dos outros e quase se esqueceu de agradecer de tanto fitar os hashis e a peça branca em sua mão. Tremia levemente, mas agradecia pelo diálogo baixo que podia ouvir, apesar de sentir um par de olhos sobre si, tomando alguma coragem antes de erguer a cabeça e encontrar Aoi o fitando, sorrindo ternamente quando os olhos se encontraram. Tentava passar alguma confiança e pareceu conseguir quando Takashima sorriu de lado, conseguindo, por fim, levar a primeira porção de comida à boca.

...

- Está bem? — Aoi perguntou baixo assim que saíram do restaurante.

- Agora mais ainda. — Uruha respondeu no mesmo tom, mas já usando a máscara. Nunca achou que fosse ter tanto medo e pensar que tinha de ser reintegrado na sociedade em certos pontos era um pouco triste para si. Pelo menos tinha certeza absoluta de que tinha Aoi e os amigos, e que aos poucos conseguiria voltar a ser o mesmo de antes.

Sabia que seriam passos lentos, mas não estava sozinho, o que era realmente importante.

xXx

- Depois de ontem nós merecemos isso. — Aoi se deixou cair displicente em seu sofá prateado, entregando com algum custo a guitarra para Uruha. — Isso merecia até algo diferente na janta.

- Diferente como? — Takashima havia voltado para a sala e acabou escolhendo o sofá de dois lugares para sentar.

- Algo que relembre talvez a nossa infância, e adolescência e fase adulta, dependendo do ponto de vista.

- E isso seria?

- Besteira. — Aoi sorriu. — Claro que se não puder a gente janta normalmente, mas eu ficaria contente com um bolo pelo menos. A sugestão salgada seria tempurá.

- Tempurá eu não sei se posso, mas posso fazer outra coisa e te ajudar com ele.

- E se passar vontade? — Aoi finalmente se arrumou no sofá, fitando um pouco mais seriamente o outro.

- Mesmo que não fizesse Aoi, eu tenho que seguir a dieta, então não tem problema.

- De verdade?

- De verdade.

- Mas, tem uma condição.

- Que condição Aoi? — Olhou de esguelha para o outro que mantinha um sorriso suspeito.

- Eu quero te arrumar pra cozinhar.

Uruha se deixou pensar por uns momentos, imaginando como o outro planejava lhe deixar. Não eram nem seis horas ainda e provavelmente muitas risadas iriam rolar, então não tinha nada a perder.

Sorriu. — Está bem.

...

- Aoi, isso ficou... Ridículo. – Fitou a roupa incrédulo.

- Mentira Uru, ficou uma gracinha. – Shiroyama brincou, rindo.

- Porque não é com você. – Fez um bico.

- Claro, em você tudo fica mais bonito. – Mandou um beijo provocativo.

- Não seja cretino e nem tente puxar saco, Shiroyama, eu to parecendo um alienígena. – Riu da própria frase.

- Que nada, mais lindo não existe.

Sentado numa das cadeiras de frente para Uruha, Aoi observava sua criação. Se continha para não rir, mas não podia deixar de achar absurdamente fofo Takashima usar aquele avental rosa-bebê que ganhara da Senhora Shiroyama quando fora morar sozinho como uma ideia de que agora seria quase uma dona de casa. Claro que Aoi ter aquilo era quase embaraçoso, mas para o outro havia ficado tão bom que pensava em lhe dar de presente.

Ainda assim a cereja daquele bolo era o lenço preto de caveiras que havia prendido na cabeça de Uruha, como já vira muito em costumes ocidentais, mas que colocara de uma forma que deu ao outro um jeito absurdamente feminino, não fosse à cara estupefata que fazia.

- To parecendo... Sei lá, não tenho nem palavras pra descrever isso.

Não se agüentando, Aoi pousou o rosto no tampo da mesa e desatou a rir enquanto ouvia um praguejar vindo de Uruha que já se preparava para cozinhar. Ficou encarregado da própria janta e do bolo, e não conseguiu se segurar ao mexer com a massa, parecendo realmente uma dona de casa diferente e alegre, além de realmente feliz por ter um 'marido' tão bom quanto o que ganhou depois de nove anos de convivência.

Tinha seus altos e baixos por causa do câncer, mas Aoi lhe deixava tão leve e feliz que só podia agradecer aos deuses por estar vivo e com forças para enfrentar seu mal no momento, sabendo que quando estivesse finalmente curado, ‘Ele’ estaria lhe esperando em casa, muito provavelmente na porta em frente.

xXx

Passava das dez e todo o apartamento estava no escuro. Os dois já haviam tomado banho e dessa vez Uruha se deixou vestir um short, apesar de ter colocado uma camisa de manga comprida. Na visão de Aoi a camisa nem importava, já que a peça de baixo era agarrada. Ele, claro, estava de pijama, mas Takashima arrancou a camisa antes que pudesse se deitar, ditando que agora estavam iguais.

Ainda assim o clima não era mais de perversão realmente e Aoi acabou se deitando mais no meio da cama, trazendo Uruha para deitar sobre si. As cortinas estavam fechadas, e a pouca iluminação vinha da luz da lua.

Takashima tinha uma das bochechas acarinhadas pelos dedos do moreno, que dessa vez decidiu que usaria a máscara para poder livrar um pouco o amado daquele item. Seus dedos deslizavam pela pele macia e um clima absurdamente calmo e romântico se instalou no quarto.

- Pretendo passar muitas noites com você assim. — Passava a mão na cabeça nua, fazendo Uruha quase ronronar.

- Mas, da próxima vez eu estarei curado. — Eles falavam em sussurro, tão tranqüilos quanto o silêncio.

- É uma promessa?

- É uma promessa.

Aoi abriu as pernas para aconchegar Uruha melhor sobre si, fazendo-o se deitar sobre seu peito. Arrumaram-se devidamente e em pouco tempo as respirações estavam cadenciadas e o silêncio lhes velava.

- Eu te amo Uruha. Mais que a minha vida.

- Eu também amo você Aoi. Foi o melhor presente que ganhei.

Sorriam e fecharam os olhos, deixando-se levar pelo sono.