You Are Not Alone
49 Decisão
Notas iniciais
GEEEEEEEENTE ♥ brigada pelos reviews do cap anterior, morri com eles, de verdade ♥.
E sei que agora eu mereço os xingos porque não respondi, mas tem explicação: Eu to terminando a fic, alguns ainda não sabem, mas já to no cap 58, finalizando ele. E enquanto eu to com esse pique quero terminar tudo, inclusive pra começar uma outra fic (policial 8DD), por isso eu ainda não respondi eles. Mas, não se preocupem, assim que eu finalizar a fic, o que eu espero que aconteça amanhã, já respondo tudo ♥.
Boa leitura ♥.
Uruha vestia uma calça preta, combinada com sapatos da mesma cor. Colocara uma regada de algodão que ajudava a manter o calor no corpo e por cima uma blusa de cor vinho. Para completar, um casaco preto e levemente justo, que terminava um pouco abaixo do cós da calça. Cobriu a cabeça com a touca que ganhou de Aoi e resolveu ir sem a máscara, esquecer um pouco que estava se tratando de leucemia. Raphael o esperava na sala junto com Akemi e Takashi.
— Aproveitem o almoço. – Disse Akemi, beijando a testa de Uruha.
- Prometo devolver Kouyou inteiro Akemi-san. – Disse Raphael.
Os quatro riram e os dois homens se despediram de Akemi e Takashi e saíram. As ruas estavam quase vazias, mas havia um bom movimento dos carros. Os dois ainda estavam em silêncio, mas não era algo constrangedor, estavam bem na presença do outro.
— Como anda o tratamento?
- De acordo com o Viktor, progredindo. – Uruha enfiou as mãos nos bolsos do casaco.
- Isso é bom. – Raphael sorriu fechado. – E como tem se sentido com a quimioterapia?
- Ela ainda é um problema. – Comentou. – Amanhã eu tenho outra sessão e só de imaginar que eu vou passar mal e ter dor de cabeça já me da vontade de correr daqui.
Raphael riu baixinho. – Posso te fazer uma proposta.
- Não fiquei flertando comigo. – Uruha riu. – Eu não posso fugir com você.
- Eu sei que não, mas não podia deixar de tentar. – Sorriu. – E como foi com o...
- Aoi. – Riu. – Não foi muito complicado. Mas, foi uma surpresa, nunca imaginei um encontro desses.
- Pelo menos não foi complicado. – Raphael ficou em silêncio por alguns instantes. – Ele já foi embora?
- Sim, a... – Uruha compartilhou do silêncio. – A banda entrou em turnê, ele foi embora no dia vinte e seis.
- Você está bem com isso?
Uruha negou. – Não consigo. Tento não pensar muito porque é meio difícil aceitar isso.
- Então não vou te fazer lembrar dessas coisas. Vamos almoçar e conversar sobre outras coisas.
Uruha assentiu levemente e durante mais alguns minutos eles caminharam trocando conversas amenas e descontraídas como bons amigos que se conheciam há bastante tempo. Aquela tensão que Uruha sentira quando reencontrou Raphael não mais existia. Talvez se tivesse aceitado almoçar com ele naquele dia ficasse com algum tipo de culpa, mas agora estava feliz, ciente do que fazia e em nenhum momento seu coração batia diferente pelo loiro a seu lado.
Sentia-se confortável consigo mesmo, o que lhe rendia uma boa dose de calma por dentro. Raphael também não demonstrava nenhum interesse obscuro por trás de suas palavras e um clima tranqüilo pairava entre os dois. Logo foram atingidos por outra lufada de vento, mas já estavam perto do restaurante e o calor emanado pelo local assim que o adentraram logo se apossou de seus corpos. Não era um lugar oriental, na verdade era mais uma das poucas redes de restaurantes ocidentais que havia por ali. As mesas com suas toalhas brancas e impecáveis eram bem dispostas pelo grande salão, e os dois homens escolheram sentar perto da janela que dava para a rua.
Um garçom logo apareceu e entregou os dois cardápios para eles. A primeira parte continha pratos frios e Uruha se deu conta de que o local servia tanto pratos ocidentais como orientais. Raphael sentiu um frio subir pela espinha.
— Acho que não tenho coragem de tomar algo frio com esse tempo. – O loiro fez uma careta e seu olhar se voltou para o céu altamente nublado. Uruha concordou.
- Se eu tomar algo gelado nesse inverno sou capaz de pegar uma gripe. – Comentou.
- O que nesse caso não seria nada bom, principalmente agora. – O loiro estatuou. – Portanto, pode ir pulando para os pratos quentes.
Uruha riu. – Me recomenda alguma coisa ocidental ou vai ficar pela Ásia mesmo?
Raphael não respondeu de imediato. Seu celular havia tocado, mas ele também não fazia muita questão em atender então apenas desligou o aparelho e voltou a atenção para Uruha novamente.
— Hum, acho que vou ficar pela Ásia. Andei pensando bastante em várias coisas e quero aproveitar ao máximo a culinária japonesa aqui mesmo no país.
- Uou, pelo jeito são grandes mudanças. – Uruha apoiou o queixo sobre as mãos, mostrando interesse em Raphael.
- São grandes mudanças sim. – Ele sorriu. – Mas, vamos fazer nossos pedidos primeiro, depois conversamos sobre essas mudanças drásticas de vida. E só para constar, eu pago.
Uruha moveu-se na cadeira e tentou argumentar, mas Raphael ergueu uma das mãos indicando que estavam resolvidos e não adiantaria reclamar. E se o guitarrista o conhecia bem ainda sabia que Raphael não mudaria de opinião independente de quais argumentos ele tentasse usar. Ademais, também sabia que ele não o estava tratando como uma mulher, tampouco querendo algo de si.
Então bastou apenas dar de ombros e assentir. Raphael lhe sorriu e seus olhares voltaram-se novamente para o cardápio. Pediram duas porções de camarão, uma para cada, Yakisoba de carne e camarão e um boat apenas de sushi e sashimi numa quantidade menor que a comum de trinta e oito. Esperaram cerca de vinte minutos antes de o garçom aparecer com tudo e dispor sobre a mesa. Logo que se afastou Uruha fitou Raphael curioso.
— Sem ser pelo camarão só tem comida oriental aqui.
- Sim, mas as sobremesas ocidentais daqui são divinas. – Raphael sorriu animado e Uruha riu. Esquecera-se de como o loiro era viciado em doces e sempre gastava aos montes com as guloseimas. Afora que...
- E imagino que você vai querer que eu experimente alguma coisa dessas 'sobremesas ocidentais dividas'. – Fez aspas no ar. Raphael assentiu com a cabeça enquanto comia alguns camarões.
- Com certeza. – Disse em seguida. – E você vai querer comer sempre.
Uruha não disse nada de imediato, mas também não duvidava das palavras do maior. Assim que começaram de fato a comer iniciaram outra conversa amena e divertida. Atacavam suas porções de camarão com vontade e Raphael aproveitou para 'pegar' o nariz de Uruha em determinado momento com os hashis, obrigando o guitarrista a franzir o cenho. Os dois riram divertidamente e boa parte do tempo transcorreu tranquilamente com cada um apreciando a própria comida. E claro que pelo alto gosto pelos camarões estes acabaram primeiro que os sushis e sashimis e o yakisoba em si. Cerca de meia hora depois Uruha resolveu perguntar:
— Então, o que andou pensando tanto que vai trazer grandes mudanças pra você? – Indagou, levando uma porção de macarrão à boca.
- Ah é, quase esqueci. – Riu de si mesmo e limpou os lábios elegantemente com o guardanapo antes de pousar os hashis em sua base. – Esse provavelmente será nosso último almoço Kouyou.
- Por quê? – Uruha o encarou como quem havia acabado de ser pego de surpresa.
- Eu vou voltar para a Alemanha.
O Takashima engasgou.
— O que? Isso é uma mudança e tanto.
Raphael sorriu. – Mas, necessária. Você sabe, eu sempre estive aqui por você e pela Toudai. Quando nós terminamos eu fiquei só pela faculdade, mas depois de colocar a cabeça no lugar e ter me formado fiquei apenas por você.
Naquele momento Uruha não comia mais. Os hashis também estavam em sua base e as mãos por cima da mesa. Raphael pousou a sua sobre a do guitarrista e apertou levemente fundindo o calor dos dois corpos. Uruha o fitou em silêncio, mas não tinha pretensão de afastar a mão alheia. Watanabe continuou:
— Eu achei que ainda tinha chances com você, por isso esperei e te procurei. Achei que poderia te reconquistar, mas quando te vi com Aoi-san e vi como você estava feliz tive certeza de que você não poderia mais ser meu e pertencia a outro coração.
Uruha assentiu levemente.
— E eu ainda tenho sentimentos por você, mas não tenho muito mais o que fazer por aqui, e nem conseguiria recomeçar com você tão perto e tão inalcançável. Pedi então que meu pai passasse a empresa para o meu nome e eu vou embora dentro de algumas semanas.
- Isso é... – Uruha estava sem muitas reações. Fora pego de surpresa e mesmo assim não vinha ressentimentos nos olhos de Raphael. Apenas coragem. – Muito radical, tem que ter coragem para mudar tão rápido.
- Bastante. – Sorriu. – Mas, eu preciso. Eu quero continuar em frente, levar a vida que eu sempre quis, ser feliz e fazer outra pessoa feliz. Mas, eu sei que só vou conseguir ter essa força para seguir em frente se estiver longe de tudo que você representa. Mas, é claro que eu vou estar de olho aberto de vez em quando e se Aoi-san te magoar eu venho pra te buscar.
Uruha riu.
— Ele cuida de mim Raphael. Mesmo. E eu acho essa sua mudança muito forte, mas se é o que você deseja e precisa então eu te desejo que seja feliz na Alemanha.
- Digo o mesmo para você Kouyou. E trate de melhorar logo para eu poder te ver novamente dentro daqueles shorts curtos e ter inveja da sorte do seu namorado.
Ambos riram.
— Acho que ainda vou demorar para deixar as pernas a mostra de novo. – Disse Uruha. – A quimioterapia acabou comigo.
- Duvido. – Raphael estatuou num tom desafiador. – Aposto que você continua lindo.
- Que nada, to acabado mesmo. – Uruha riu. – Mas, talvez eu volte a ser o mesmo de antes. Por enquanto me conte mais sobre esses seus planos. Como se sente com tudo isso?
- Mais leve. – Respondeu de imediato. – Fiquei com medo aquele dia achando que vocês dois fossem acabar brigando e entendi que seu lugar é com ele agora.
- Isso foi gentil. – Uruha sorriu envergonhado e baixou o rosto quando o sentiu esquentar, fitando os hashis. Raphael sorriu e segurou suavemente seu queixo, fazendo-o o fitar novamente.
- É a verdade Kouyou, você é dele agora e me parece que vai ser pelo resto da vida, foi o que senti quando os vi abraçados. E eu posso aceitar isso e sei que vou conseguir recomeçar, mas como disse apenas se estiver longe de algumas lembranças.
Uruha assentiu com um meneio leve de cabeça e um sorriso apareceu em seu rosto e no de Raphael. Eram acolhedores e desejosos de felicidade e sucesso, mostrando que a maior vontade ali era que o outro pudesse ser feliz com quem escolhera. Dali em diante seu almoçou findou-se de maneira tranqüila e Uruha teve a oportunidade de experimentar a torta da qual Raphael começou a falar quando pegaram o cardápio das sobremesas, confirmando que era realmente saborosa. Saíram dali duas horas depois, satisfeitos, leves, e claro... Com frio. Como o local não era tão longe da casa de Akemi e Takashi não precisaram se alarmar, apesar de terem caminhado um pouco mais rápido.
— Passo aqui que horas para te pegar? – Raphael indagou assim que pararam em frente à casa de Uruha. Ele o fitou curioso.
- Me pegar? – Semicerrou os olhos. – Como assim?
- O chá Kouyou. – Sorriu. – Conheço um ótimo lugar.
Uruha o fitou desconfiado e cruzou os braços. – E aposto que não vai me deixar pagar de novo.
Raphael riu. – Acertou.
Uruha então apontou o dedo em sua direção.
— Se você for à falência depois não me culpe. – Raphael riu e o Takashima fitou seu próprio relógio. – Agora são duas horas, hum, não sei. Que horas prefere passar?
- As cinco, talvez. – Raphael pareceu ponderar, mas um sorriso surgiu em seu rosto. – Assim podemos passear na praça antes de irmos tomar o chá. Não parece que vai nevar ou chover.
- Bem, por mim tudo bem então. – Uruha lhe sorriu. – Te espero ás cinco.
Raphael assentiu e se despediu, indo de encontro ao próprio carro, apenas saindo quando Uruha já havia entrado em casa. Infelizmente nenhum deles sabia que não iriam estar sozinhos naquele encontro e que seu chá seria vigiado de longe.
xXx
Naquele domingo logo pela manhã enquanto navegava pela internet, Ruki já descobrira que várias coisas sobre o show do dia anterior haviam sido postadas, desde vídeos com os fanservices – Que, aliás, o baixinho adorou fazer com Reita. – até fotos que iam da pior até a melhor qualidade, e em vários blogs havia comentários. Aparentemente, pelo que descobrira Sugizo ainda estava sendo bem aceito por todos, mas suas palavras sobre Uruha também tocaram alguns fãs que trocavam diálogos sobre como seria a volta do guitarrista, como estaria sua saúde...
Afora isso, todavia, não ficou muito tempo em frente ao notebook e meia hora depois o havia largado dentro de sua bolsa para aproveitar a companhia de Reita. Agora mal podiam estar juntos que se pegavam o tempo todo e Ruki se culpava por ter demorado tanto para ceder. Ao menos agora estavam aproveitando à própria maneira. Por sorte Ruki não era o baterista.
Que, aliás, estava exausto. Kai dormira tranquilamente quando o ônibus o deixou em casa, mas como líder e detentor da maioria das obrigações da banda conseguira apenas comer um almoço rapidamente e voltar a trabalhar em cima dos set lists das apresentações. O segundo show seria fora da cidade, ainda mais longe de Kanagawa, e como seriam dois seguidos ele sabia que Aoi, ou mesmo eles não teriam como ir visitar Uruha nos três dias de diferença entre um show e outro.
Fora que desejava aproveitar aquele dia com Miyavi, mesmo sabendo de antemão que não daria. Nem ao menos teve tempo de pensar em ir trabalhar na casa do moreno para não perder tempo, e agora que a tarde começava a passar tinha mais certeza de que aquele domingo passaria sozinho, em companhia de detalhes sobre a cidade do show, as set lists e de vez em quando algumas ligações para o empresário. Pelo menos não era apenas ele que estava com o domingo comprometido.
Já Aoi tirara parte do dia para conversar com seus pais. Há um bom tempo não falava com os Shiroyama's e a saudade começava a apertar no peito. Avisou sua mãe que fariam um show perto de Mie e que se tivesse tempo passaria em casa para rever-lhes. A alegria da senhora Shiroyama fora imensa e desde já avisara que todos estavam torcendo para que ele conseguisse essa brecha para lhes encontrar.
E como não podia deixar de passar por sua mãe, esta lhe perguntou sobre como estavam seus relacionamentos. Aoi quis dizer que perfeito, que ele e Uruha estavam batalhando contra aquela doença, mas seria um baque muito grande falar de modo tão abrupto que por parte dele seus pais não teriam um neto. Portanto disse que estava tudo calmo e não pensava atualmente no assunto. A Shiroyama resolveu não insistir e desejou boa sorte ao filho.
Mal sabia ela que Aoi conversara fitando a foto de Uruha e que planejava conversar com eles sobre aquilo em algum momento. Antes, porém, largou-se em sua cama e discou outro número, um sutil que caía na província de Kanagawa.
xXx
Uruha continuava com a mesma roupa, mas havia tomado outro banho para se arrumar de novo, — Apesar de agora estar munido de luvas pretas e um cachecol por causa do tempo que havia piorado um pouco. — e desde as quatro horas falava com Aoi. Estava com saudade do moreno e a vontade de fugir era quase insana, mas ele mesmo não estava tão insano a ponto de largar tudo e ir embora. Também não ficara sabendo que a turnê havia começado e como tinha sido o primeiro show, e assim despediu-se bem do moreno, com o coração leve e despreocupado.
Raphael chegara na hora marcada e também trajava a mesma roupa como Uruha notou assim que se encontraram na sala, um conjunto branco que agora também estava complementado por um cachecol. Cumprimentaram-se novamente com um abraço e Akemi os preveniu de não tomarem muito vento enquanto passeassem.
— Pode deixar Akemi-san, trarei Kouyou inteiro e com saúde. – Disse Raphael, pousando uma das mãos sobre o ombro do Takashima.
- Esperarei Raphael-san, se não vai se ver comigo.
Ambos riram e se despediram do casal Suzuki. Uruha pegou as chaves e logo os dois estavam novamente na rua, desta vez em direção a praça da cidade. O céu estava começando a escurecer, mas ainda assim não dava sinais de neve ou mesmo chuva. O vento enregelado também não soprava com muita força, mas Uruha não quis se arriscar e usava a máscara. Na visão de Raphael, mesmo que entendesse seus limites, a vontade de proteger o guitarrista era maior e por pouco quase não o abraçou. Todavia, lembrou-se de um ponto que quase lhe escapara:
— Quando vai tirar essa touca para eu ver o novo Kouyou?
- Brincou né? – Uruha o fitou. – Eu não seria nem maluco de me mostrar sem touca.
- Não precisa fazer tanto drama. – O loiro riu descontraidamente. – Deve continuar bonito como sempre foi.
- Esquisito isso sim. – Disse. – O pessoal da banda só me viu sem touca porque na hora não tinha como esconder. Mas, eu não tenho coragem de te mostrar o Kouyou frágil e careca.
- Eu não me importaria de conhecer seu lado frágil e careca, seria uma experiência nova, você sempre se mostrou forte. – Raphael disse sincero.
Seus olhares então se encontraram em simultâneo. Com um pouco de coragem Uruha parou na calçada e levou a mão até a touca preta, retirando-a aos poucos. Raphael continuava neutro, fitando o ex-namorado e sua cabeça completamente nua. Aproveitou a aproximação e num pedido mudo de licença desprendeu uma das partes da máscara revelando por completo o rosto de Uruha. Então sorriu e deu alguns passos para trás, não esquecendo seu limite.
— Eu disse, continua lindo. – Comentou baixo enquanto Uruha terminava de ajeitar as coisas, mas ainda pôde ver um sorriso em seus lábios.
- Você é bonzinho demais Raphael.
- Creio eu que o Aoi-san também é então. – Viu de esguelha Uruha cerrar os olhos. Sorriu. – Ele não pode ter te achado feio.
- Ah sim. – Uruha riu. – Não, ele não achou, disse que as coisas continuavam iguais entre a gente e não ia me largar.
- Se ele largar eu te levo comigo, já disse.
Ambos riram. Uruha comentou algo sobre Raphael não poder desejar uma pedra no sapato dele o levando para a Alemanha e o loiro até iria responder, mas já estavam próximos a praça. Alguns pontos ainda sustentavam montinhos de neve que estavam sucumbindo e derretendo. As árvores do lugar, assim como os bancos estavam úmidos por causa do orvalho e das recentes chuvas e nevascas, mas ainda assim várias pessoas caminhavam por lá.
— O frio é aconchegante. – Comentou Uruha. – Mesmo que eu prefira a primavera acho o inverno melhor.
- É bom para refletir. – Disse Raphael. – Pensar, sair por aí ou ficar em casa abraçado com quem ama. – Uruha concordou. – Só é ruim se tiver que ir trabalhar.
- Assino em baixo. – Kouyou riu. – Eu já me apresentei no frio com um short e não foi nada bom. Peguei uma gripe e atrasei todo mundo.
- E o empresário ligou para os papais avisando que o Kouyou-chan estava se comportando mal no trabalho?
Ambos riram enquanto caminhavam pelo espaço quase vazio. Algumas famílias ainda se encontravam no lugar com seus filhos, um ou outro os chamando para que não brincassem perto da água e não se resfriarem, mas a maioria deles já estava pronta para ir embora também. O vento estava um pouco mais forte e Uruha se abraçou, tentando se enfiar dentro do cachecol. Raphael o fitou.
— Acho melhor irmos indo antes que você tome vento demais.
Uruha assentiu e se puseram a caminhar para a outra extremidade da praça onde também havia um portão. Uruha sentiu uma nostalgia tomar-lhe o corpo todo ao se lembrar dos momentos de brincadeira com Reita ali, os beijos escondidos que dava em Raphael, os passeios com os pais, e ao mesmo tempo como tinha medo de que seus pais de sangue o vissem e tentassem algo. Sempre agradecera aos céus por aquilo nunca ter acontecido e agora enquanto Raphael o guiava para a casa de chá sentia mais confiança em si mesmo por ter se tornado um homem que sobreviveu aquela indiferença e preconceito dos próprios genitores.
— Se beijar algum poste eu prometo que vou rir muito alto.
Riu antes as palavras de Raphael e o fitou.
— Pensando nas lembranças dessa praça. Esse lugar guarda tantos segredos de quando a gente ainda sonhava em ser jogador de futebol.
- Eu sempre quis ser cientista. – Disse o loiro alemão com falsa voz desdenhosa.
- Porque você é almofadinha.
- Maldito apelido...
Uruha ouviu o maior praguejar e caiu numa risada gostosa relembrando o apelido nada agradável do ex-namorado. Raphael mesmo sem querer mostrava de longe que tinha mais dinheiro que os outros meninos e o apelido logo pegou. Uruha também o chamava daquela forma quando queria lhe provocar, mas raramente adiantava porque Raphael não se sentia provocado quando era o Takashima quem dizia.
Caminharam mais um pouco até chegarem a uma avenida. Mesmo sendo um frio domingo a noite boa parte do comércio estava aberta e havia uma maior concentração de pessoas nas calçadas. Algumas observavam Uruha por usar a máscara, mas ele não dava tanta atenção àquilo e continuava seu caminho com Raphael conversando amenidades, discutindo sobre a mudança do maior, rindo de piadas bobas que eram lançadas por ambos. Até chegarem a uma pequena loja que mais parecia a entrada de uma pequenina casa se não fosse pelo letreiro impecável que indicava o local como uma casa de chá.
A fachada era toda branca e a pequena janela era coberta por uma cortina de mesmo tom e alguns babados nas pontas. Mas, apesar de ser um lugar pequeno por fora era bastante aconchegante por dentro e as mesas eram dispostas de maneira que uma tivesse uma distância boa da outra. A maioria das pessoas se virou para fitar os dois e Uruha instintivamente baixou a cabeça receoso de ser reconhecido. Uma senhora fora a seu encontro e os dois foram guiados para os fundos do local onde havia uma janela também com cortina, mas esta estava afastada e os vidros levemente abertos para algum ar circular.
A mesma senhora entregou-lhes os cardápios que continham poucas bebidas além do chá e alguns aperitivos para acompanhar como biscoitos. Ambos pediram o mesmo chá e alguns biscoitos e logo que a senhora se afastou Uruha olhou rapidamente para a parte de trás da loja através da janela.
— Acha que pode ser reconhecido? – Raphael indagou baixo.
- Prefiro não arriscar. – Uruha devolveu no mesmo tom. – Tudo que eu não preciso é que descubram a minha localização.
Raphael concordou com um leve meneio. Não tiveram de esperar muito por seu chá que logo chegou em uma bonita chaleira de porcelana decorada, fazendo conjunto com as xícaras e pires, assim como o prato maior com os amanteigados. Os dois homens fizeram uma vênia à senhora que se retirou em seguida.
Agradeceram em voz baixa e sorveram pequenos goles do líquido verde que desceu por suas gargantas aquecendo-os. Quase gemeram de alívio pelo calor aconchegante. Raphael então pegou um dos biscoitos e fitou Uruha.
— Quantos anos fazem que tomamos chá pela última vez. – Comentou. – A gente tinha acabado de começar a namorar.
- É verdade. – Uruha sorriu nostálgico. – Eu lembro que fiquei com vergonha porque você também queria pagar tudo e não me deixou nem colocar uma carteira no bolso. – Riu baixinho. – E hoje em dia continua o mesmo.
- Você também não mudou muito Kou. – Pela primeira vez o chamou pelo apelido. – Continua o mesmo de sempre: desligado, meio inseguro... Lindo.
Agora que Uruha estava sem a máscara Raphael pôde vê-lo corar e sorrir envergonhado enquanto dava uma mordida sutil num biscoito. Seus olhos demoraram um pouco a se encontrar e mesmo com toda aquela boa intimidade e companheirismo ambos sabiam que apenas uma amizade fiel reinava ali. Uruha e seu coração eram livres e agora pertenciam a outro e Raphael estava disposto a começar a uma nova vida em seu outro país de origem focando-se no trabalho e na realização de seus sonhos.
Ainda assim um clima gostoso reinava sobre eles e ambos apreciavam o chá lentamente, aquecendo-se e saboreando o líquido. E por mais que os minutos parecessem correr nenhum deles tinha pretensão de sair apressadamente dali, assuntos não faltavam, assim como perduraram por longos minutos mesmo quando seus chás haviam terminando e apenas um biscoito restou, do qual Raphael quebrou ao meio e ele e Uruha deixaram-se degustar.
Eram quase sete horas quando saíram do pequeno local, caminhando já às escuras pelas ruas. Os portões da praça haviam se fechado e por isso eles precisaram fazer um caminho maior, mas que não apresentava tanto perigo, apesar de quase não haver mais pessoas na rua. Ainda assim não sentiam que precisavam temer algo e caminharam tranqüilos trocando mais diálogos até se verem em frente à casa dos Suzuki's. Novamente pararam no portão.
Raphael aproveitou e tirou pela segunda vez a máscara de Uruha.
— Isso é uma despedida? – Indagou o Takashima.
- Creio que não. – Disse Raphael. – Antes de ir ao aeroporto se ainda estiver aqui eu passo para te cumprimentar, e se possível queria ficar com o endereço de Akemi-san e Takashi-san para mandar cartas quando der.
- Claro, eu falo com eles. – Uruha sorriu.
Ambos os rostos estavam bem iluminados pelas lâmpadas na frente da casa e um brilho a mais parecia surgir em seus semblantes. Raphael lentamente tocou uma das bochechas de Uruha acarinhando levemente ali enquanto seu olhar azul permanecia focado no Takashima.
— Eu não pretendo te agarrar, apenas queria sentir sua pele novamente. – Disse em voz baixa. – Entende porque eu preciso ir embora?
- É uma pena que tenha de fazer isso por minha culpa Raphael. Eu não queria que se machucasse.
- A culpa não é sua Kou, não escolhemos a quem amar.
Com lágrimas nos olhos ambos se abraçaram de maneira apertada como se aquele fosse seu último contato antes de se separarem de vez. As lembranças de seus quase três anos juntos voltaram com força enquanto sustentavam aquele toque intenso entre seus corpos. Quando foram se separar Uruha impediu Raphael de se afastar completamente e depositou um beijo em sua bochecha.
— Eu quero que você seja muito feliz Kouyou. Que Aoi-san consiga te fazer sorrir todos os dias.
- Desejo que seja feliz também Raphael. E encontre uma pessoa especial que possa mimar como eu sei que você adora.
Ambos riram baixo ainda com lágrimas remanescentes nos olhos. Trataram de enxugá-las e se despediram com acenos enquanto Raphael adentrava seu carro e Uruha a casa. Novamente o loiro só deu partida quando viu que Uruha já havia entrado em casa.
— Foi bom o passeio Kou-chan? – Akemi inquiriu enquanto recebia um beijo em sua testa do filho.
- Muito agradável. – Sorriu. – Mas acabei ficando sem fome, então se me dão licença eu vou me deitar.
- Pode ir filho, tenha uma boa-noite. – Disse Takashi.
- Obrigado. – Os senhores também.
Uruha sorriu para os pais e subiu as escadas para seu quarto com os dedos já discando o número de Aoi. Precisava ouvir sua voz e dizer que o amava com todas as forças que tinha.
Notas finais
Melka ♥;
Su Shibasaki ♥;
vampire_kawaii ♥;
ChunLi W Malfoy ♥;
freeasabird ♥;
Ringo-sama ♥;
ninfanegra ♥;
AlineVKei ♥;
Obrigada pelas reviews minhas coisas lindas ♥.
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