Notas iniciais
Fic feita de madrugada, regada à muito sono. Sem mais comentários.

“Não estou mentindo”

Eu não minto. Eu sempre dizia isso para a minha mãe, mas ela nunca acreditava em mim.

“Tem um bicho embaixo da minha cama”

Eu não podia vê-lo, mas eu sentia, eu SABIA que estava lá.

E quando estava com sono.... Sabe aquele tipo de sono em que se está apenas meio-acordado? Você está vendo as coisas ao seu redor, mas não consegue se mexer. A vulnerabilidade e desespero que esse estado me causavam eram quase insuportáveis, mas só nestes momentos eu conseguia ver o “bicho”. Quantos anos eu tinha naquela época mesmo? Quatro, cinco anos?

Eu lembro de uma noite, a primeira, em que minha mãe não deixou eu dormir no quarto dela, foi no dia do enterro do meu pai. Eu estava sob as cobertas, apenas com uma brechinha para vigiar meu quarto, o sono e o medo foram tantos, que acabei ficando naquele estado de semi-consciência. Foi aí que eu vi uma sombra preta saindo por debaixo da cama. Não dava para chamar minha mãe, então fechei os olhos e esperei pelo pior.

Porém nada aconteceu.

“Vai ficar tudo bem, ninguém mais vai te incomodar”

Uma voz ecoou na minha cabeça. Não sei como descreve-la. Poderia ser tanto a voz de um homem quanto a de uma mulher, a voz de uma criança ou até mesmo a de um velho. Se era grossa ou aguda, suave ou rouca, realmente não sei, era uma voz que parecia ter todos os timbres e ao mesmo tempo nenhum, e ter um incrível poder de me acalmar. Era quase como um sonho.

Continuei com os olhos fechados. Mesmo com um voz tão linda na minha mente, o medo não passava. Então alguém acariciou meu cabelo por cima das cobertas, um carinho tão gostoso que toda a insegurança foi embora. Eu queria tanto abrir os olhos, ver quem era a pessoa dona daquela voz linda e daquele toque suave, mas tive a sensação de que se o fizesse, ela iria embora.

Desde aquele dia eu nunca mais pedi para dormir no quarto da minha mãe.

“Yoru”[*]

Decidi chamá-lo assim por que ele só aparecia à noite. Minha mãe ainda sofria muito com a morte do meu pai e Yoru era o único em quem podia me apoiar, ainda que não conhecesse seu rosto. Já naquela época perdi totalmente o medo do escuro e não me importava mais com os “bichos” que poderiam aparecer. Agora, a única coisa que eu poderia sentir, que eu poderia saber era que o Yoru estaria lá para me proteger.

Naquela época houve momentos em que cheguei a pensar que Yoru jamais sairia do meu lado. Comecei a ir para a cama mais cedo, mesmo sem estar com sono algum. Simplesmente deitava e esperava-o chegar. Ele ficava acariciando meu cabelo e cantando músicas que nunca tinha ouvido antes. O engraçado é que eu não conseguia recordar as melodias pela manhã, como nos sonhos em que você canta ou ouve uma canção e não lembra do ritmo ao acordar.

Pensando bem, Yoru inteiro parecia um sonho.

“Diga olá ao seu novo pai”

Eu não precisava de um novo pai, eu já tinha o Yoru e não queria ninguém além dele. Mas minha mãe parecia tão feliz, que não me restou alternativa senão aceitar a situação, o que talvez tenha sido um dos meus piores erros. Agora eu já estava com nove anos e ainda tinha dificuldades em aceitar o novo morador da casa, porém as coisas seguiam um bom ritmo. E teria continuado assim, se ele não quisesse “aprofundar” nossa relação.

Yoru ainda não tinha chegado, e quem acabou entrando no quarto foi o meu padrasto. Antes que eu falasse algo ele colocou uma das mãos na minha boca e usou a outra para segurar meus dois pulsos. Depois sussurrou no meu ouvido sobre sermos bons amigos e mordeu meu ombro com força. Fechei meus olhos pela dor, em seguida senti meus pulsos serem soltos e algo pesado sobre mim.

Pela primeira e única vez ouvi Yoru naquela noite.

“Eu disse que ninguém mais iria te incomodar”

Segundo os médicos não havia nada de errado com o meu “pai”. Coração saudável, ondas cerebrais perfeitas, sequer era necessário o uso de aparelhos para ajudá-lo a respirar. Ele estava simplesmente... Dormindo! De acordo com o hospital, seria questão de tempo até que voltasse ao normal. Não preciso nem dizer que aquele homem jamais acordou, certo? O problema maior era saber como ele foi parar no meu quarto....

Na noite seguinte escondi-me embaixo das cobertas. O medo tinha voltado. Meu padrasto estava dormindo, nada além disso. E eu sabia o por quê. Este fato me fez pensar sobre o Yoru. Eu nunca disse a ninguém sobre isso, queria que fosse meu segredo. Mas mesmo à uma criança como eu, pessoas que entram nos quartos das outras à noite estava longe do normal. E se um dia eu fizesse algo que Yoru não gostasse? Eu também dormiria para sempre?

E no meio destes pensamentos, Yoru chegou.

“Sem Sono?”

Tremi ao som daquela voz e segurei com força o cobertor. “Ei, aconteceu alguma coisa?”. A voz estava entalada na garganta. Apenas apertei mais os olhos e tentei ignorar, mas senti o lençol ser puxado e alguém deitar ao meu lado. Eu me afastei até que cheguei a beira da cama e quase caí. Quase. Ele tinha me segurado.

“Desde jeito você acabará caindo, tem que tomar cuidado...”. Meu corpo estava tremendo. Pensando bem, ver a pessoa que eu tanto amava me amedrontando deste jeito era quase engraçado. Hoje, olhando para trás percebo que meu medo não era bem “morrer”, mas morrer e não vê-lo mais, só que na época eu ainda não conseguia perceber isto. “Você está com medo de mim?”

Tudo que eu consegui fazer foi assentir com a cabeça.

E Yoru nunca mais voltou.

“Eu te odeio.”

Atualmente eu tenho 16 anos. Hoje eu tive uma briga feia com a minha mãe. Acabei de acordar e olhei para a janela, estava escuro e era possível ver meu reflexo no vidro. Os olhos inchados pelo choro, os cabelos revoltos precisando urgentemente de um corte e uma vida carregada de arrependimentos. Eu não sei por que eu pensei no Yoru agora.

Quando minha mãe me levou no psicólogo, por causa do meu padrasto, eu contei tudo e ele me disse que não passava da minha imaginação. Belo psicólogo. Mas, se eu pudesse voltar no tempo agora, se eu pudesse ter mantido o Yoru ao meu lado, com certeza o faria. O que eu não daria para estarmos juntos de novo. Fecho meus olhos mais uma vez, em uma vã esperança de que alguém apareça, acaricie meus cabelos e cante algo, mas nínguem vai aparecer, certo?

Afinal, Yoru nunca vai ser nada além disto, apenas um sonho de criança.

Yoru no Tsubasa
10/07/2010
by Kelen Yoru-Dono

Notas finais
Olá pessoal, Desculpem se a fic ficou meio surreal, mas a idéia era essa mesmo... (mentira!). Eu tentei deixar os personagens meio andróginos para que todos pudessem imagina-los ao seu modo. Bom, obrigada por lerem até aqui e espero que tenham apreciado. Ja Ne! *Yoru: Noite Yoru no Tsubasa: Asas da Noite
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!