Yin Yang (Reescrevendo)
8 Oponente Digno
A respiração de Tigresa já era um chiado áspero, mas a intensidade não diminuía. O braço recuou mais uma vez, os ombros tensos sob a túnica dourada, prontos para desferir outro golpe contra o tronco.
Mas o som que ecoou pela clareira não foi o estalo da madeira se partindo. Foi um baque seco, o ruído abafado de um impacto interrompido no ar.
Po havia deixado as sombras em silêncio, posicionando-se exatamente na trajetória do ataque. Com a base enraizada no solo úmido, ele ergueu o braço direito e abriu a pata, interceptando o soco em cheio.
A força do golpe reverberou instantaneamente por todo o corpo de Po, fazendo os ombros estalarem sob a pressão. O impacto o arrastou centímetros para trás, as garras dos pés rasgando a terra e as raízes, mas ele não cedeu.
Nenhum dos dois proferiu uma única palavra; o único som que restava era o da respiração pesada, que subia como bruma no ar gélido da madrugada.
O punho trêmulo de Tigresa permanecia cravado no centro da palma aberta de Po. O sangue que cobria os nós dos dedos dela começou a escorrer, manchando a pelagem alva dele e criando um contraste sob a luz prateada da lua.
As íris âmbar, antes cegas pela fúria, arregalaram-se em choque puro. A respiração dela engatou. O olhar subiu devagar, traçando o braço estendido dele até encontrar o rosto de Po.
Po não a repreendeu. Não mandou que parasse. O rosto dele não tinha raiva. Apenas seriedade. No entanto, o esforço de conter tamanho impacto físico cobrou seu preço. O peito largo subiu e desceu em um espasmo; a ferida recente causada pelo machado do javali latejou sob os curativos, repuxando a carne machucada.
Mesmo sentindo a própria ferida queimar, ele não recolheu a pata. Manteve os olhos verdes fixos nos dela, uma barreira viva, esperando em silêncio.
Ela foi a primeira a romper o contato. Lentamente, recolheu o punho machucado, os músculos tremendo sob a adrenalina que começava a baixar.
Por longos segundos, manteve os olhos nele.
— Afaste-se — exigiu, a voz saindo seca e áspera.
O Dragão Guerreiro não recuou um único milímetro. Apoiando o próprio peso com firmeza, apesar da pontada no tórax, ele a encarou.
— O que está havendo aqui, Tigresa? — indagou, o tom beirando um sussurro grave.
— É apenas treinamento. Disciplinando o corpo — respondeu.
A postura dela era impecável, digna da líder dos Cinco Furiosos, sem deixar transparecer uma única gota de vulnerabilidade. O tom frio não o enganava; ele conhecia a rigidez que servia de escudo para mentiras.
Ignorando o próprio ferimento, Po deu um passo à frente, esmagando as folhas úmidas sob os pés.
— Essa árvore não é um oponente digno.
Com um movimento fluido e repentino, Po ergueu os braços e flexionou os joelhos, se oferecendo como alvo.
Tigresa paralisou, os lábios entreabertos em uma expressão de pura incredulidade, os braços caindo ao longo do corpo enquanto ela processava a audácia do gesto. Um vinco de confusão e irritação marcou sua testa.
Antes que Po pudesse articular qualquer outra frase, a atmosfera estalou. Tigresa não recuou, lançou-se à frente com a ferocidade de uma tempestade, a silhueta dourada tornando-se um borrão sob o luar. O ataque repentino pegou Po de surpresa, forçando-o a reagir por puro instinto.
O que se seguiu não foi uma briga desordenada.
Tigresa utilizava a agressividade pura do Estilo Tigre. Desferia golpes de pata aberta e rápidos, buscando os ângulos que lhe permitissem contorná-lo e atingir a árvore. Seus pés mal tocavam o solo úmido; ela saltava e girava no ar, as garras retraídas, mas a força do impacto capaz de quebrar ossos. Ela não poupava o amigo; cada movimento carregava o peso de sua frustração acumulada.
Po, no entanto, agia como o centro de um redemoinho. Ele adotou uma postura defensiva fluida.
Sempre que ela avançava com uma arremetida direta, Po girava sobre o próprio eixo, usando o peso para desviar a trajetória dela com um movimento circular de antebraço. Era um embate de contrastes: a forma impecável e técnica dos ataques de Tigresa contra a fluidez natural de Po, mantendo-se sempre entre ela e a árvore.
O som do embate preenchia a clareira: o impacto seco dos bloqueios, o rasgar das folhas sob os pés e o chicotear da túnica dourada a cada giro dela.
Tigresa tentou uma manobra de flanco, um salto acrobático por cima dos ombros de Po, visando o tronco às costas dele. Antecipando a intenção, Po ergueu-se, interceptando-a no ar com um abraço técnico que não visava prendê-la, mas apenas anular o impulso, forçando ambos a aterrissarem novamente no solo.
Apesar da maestria, o cansaço começava a cobrar seu preço. A cada movimento brusco, a ferida no peito de Po latejava como brasa, mas sua guarda permanecia alta.
O estalo da madeira se partindo foi tão violento que ecoou como um trovão seco no silêncio da noite. Po não se mexeu; sequer piscou. Ele sentiu o deslocamento de ar do soco passar raspando em sua orelha e as lascas da árvore atingirem sua pelagem como pequenos estilhaços. O punho de Tigresa não o acertou; ela havia desviado no último centímetro, afundando diretamente no tronco, logo ao lado da cabeça dele.
Tigresa mantinha o braço estendido, a escassos milímetros da têmpora de Po. O silêncio da clareira era preenchido apenas pelo som rítmico e pesado de dois peitos que lutavam por oxigênio.
O arfar dela era quente e úmido, batendo contra o rosto de Po em rajadas curtas e febris. Po, embora sentisse a pontada no tórax a cada inspiração, não desviou a mirada. Ele conseguia ver o reflexo da lua nas pupilas dilatadas e notar o tremor que percorria o braço dela.
Lentamente, ela desenterrou o punho da madeira. O som das lascas se soltando ecoou. Ela recolheu o braço, deixando-o pender ao lado do corpo.
Tigresa recuou um passo, a distância subitamente parecendo um abismo frio. Ela desviou o rosto.
Po continuou encostado no tronco, sentindo a vibração do impacto ainda reverberar em seu corpo.
Ela virou as costas para ele, escondendo o rosto nas sombras da madrugada. Seus ombros subiam e desciam em arfadas curtas. Tigresa apertou as patas feridas contra o peito, as garras retraídas esmagando a carne já macerada.
— Tigresa, espere — a voz cortou o ar, firme e desprovida de sua habitual hesitação.
Ela não parou. Seus passos eram pesados, cada fibra de seu ser gritando para que ela se escondesse nas sombras. No entanto, Po foi mais rápido. Ele não a segurou pelo ombro, — ele respeitava seu espaço —, mas posicionou-se à frente dela, bloqueando a trilha.
O vento soprou entre as árvores, agitando a túnica dourada que agora parecia pesada demais para seu corpo exausto. Por longos segundos, o único movimento era o tremor leve em sua cauda.
— Eu não vou a lugar nenhum — afirmou ele, a respiração ainda ruidosa devido ao esforço e ao ferimento. — E você também não. Deixe-me ver essas feridas.
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