Notas iniciais
Bem vindo ao mundo de Yes, I dance! Espero que goste da leitura e não deixe de comentar ;)

Simon entrou na sala da diretora Isabella Light e ela fez um sinal para que ele se sentasse na estofada cadeira azul em frente à mesa. Em cima desta, entre os dois, estavam os papéis da matrícula do garoto. A senhora, com seus quarenta e tantos anos, deslizou para o lado do novo aluno a folha com os dados dele e, em seguida, ajeitou um botão da blusa rosa que usava.

Ele pegou o formulário que dizia “Dance-I Academy”, com uma bailarina desenhada de um lado e um casal de dança de salão de outro. O “I” era de “Isabella”, mas também era de “eu” e era isto o que importava ao garoto. Ele não pode esconder um sorriso.

- Então você quer dançar... – Ele ouviu a diretora falar, tirando-o de seus pensamentos. – Já fez dança antes, em outro lugar, Simon?

Ele fez que não com a cabeça. Essa era uma cidade com todo o tipo de gente e alguns nem sempre podiam desfrutar de luxo. Às vezes até nunca, a menos que o garoto tivesse, no caso de Simon, ganhado uma bolsa de estudos.

- Bem, você disse que quer fazer hip hop – ela disse -, mas no momento não temos nenhuma turma de iniciantes para a sua faixa etária. Claro que podemos colocá-lo com os mais jovens... – Nesse momento ela viu a negação no rosto do rapaz. — Acha que consegue acompanhar a turma normal?

- Consigo, sim! – O rapaz respondeu impulsivamente e só então percebeu que ela o olhava vacilante. – Quero dizer... Eu aprendo rápido, não pode ser tão difícil. Posso não ter tido aulas, mas dançar está na minha alma!

Já que estava ali, ele ia querer o melhor curso. Foi pensando nisso que, no verão, ao receber a carta, decorada do mesmo jeito que o formulário à sua frente, não teve dúvidas de que deveria tentar a chance. “Simon Robinson Mitchell foi aceito com bolsa integral na Dance-I Academy”, dizia a primeira linha da carta. Nas seguintes, estaria escrito algo sobre a competição interna de dança de seu colégio, sobre alguém ter lhe assistido e por aí vai.

- Eu posso não saber como viver todos os meus problemas, – ele continuou — mas, sim, eu danço!

Isabella se levantou para mostrar-lhe seus horários e o uniforme que teria que comprar.

***

Agora, Sarah entrava radiante, arrumando os cachos cor de chocolate e de braços dados com Anna Louise. Esta, com seus 1,58 de altura, encontrava-se um pouco mais tímida, mas estava tão nervosa quanto a outra. Trocaram um olhar que dizia “Preparada? Eu estou”.

As duas jovens haviam se conhecido há quatro anos. Na época, Sarah tinha acabado de se mudar, com os pais, da Califórnia. Mesmo que a amizade tivesse surgido em um trabalho do colégio, meses depois descobriram que eram primas, em uma festa da família, o que as dava sempre mais desculpas para estarem juntas, de modo que uma delas fazer algo implicaria em a outra também fazer.

- Já fizeram dança antes? – A diretora repetiu a mesma pergunta de sempre.

- Fizemos parte do grupo de dança de nossa escola e eu fiz jazz dos seis aos nove anos. – Sarah se apressou em responder, orgulhosa de seu “passado dançarino”.

A senhora as olhava e, depois de uma última conferida, empurrou-lhes as fichas de matrícula, dizendo:

- Uhum... Não falaram qual estilo vão querer.

- Hip hop! – Sarah se apressou em responder. –... Certo, Analu?

- Na verdade, ela quer ir para o hip hop. Eu quero fazer dança de salão. – Anna Louise respondeu, disfarçando um sorrisinho e causando espanto na amiga.

A senhora Light escreveu os estilos nas folhas e foi organizar os horários. Aquela garota, Anna Louise, parecia ser toda frágil, mas podia se ver que ela tinha atitude quando queria.

***

A próxima a entrar foi Michele, usando uma blusa com cerejas na gola, que ela arrumava constantemente. A garota sentou-se e pegou a ficha com seu nome. Ao ouvir a costumeira frase da diretora, respondeu:

- Fiz, mas era muito pequena. – Disse, com o olhar sonhador. Então, olhou para a senhora à sua frente, os olhos azuis esverdeados brilhando — Mesmo assim, acho que quando você aprende algo que, bem, ama você não se esquece. Além do mais, sempre me arrependi de ter parado. Por isso quero voltar a dançar.

Era realmente o sonho de Michelle ser uma grande bailarina, mesmo que nunca tivesse se destacado quando pequena. Ela estava disposta a se tornar uma estrela e, mais importante, a esquecer dum tal de Eric que a namorara, mas a deixara sem explicações.

Isabella podia ver que, se fosse por questão de querer, Michele logo se destacaria na Dance-I. A diretora pegou a loirinha com o olhar vago captando pequenos detalhes da sala.

- Senhora Light... – Começou.

- Pode me chamar de Isabella, se preferir. – A diretora interrompeu.

-... Isabella, você acha que... Eu vou me dar bem aqui?

Ah, então também havia insegurança nessa garota decidida!

- Por que pergunta isso?

Michelle respirou fundo, escolhendo as palavras e jogou uma mecha do cabelo loiro para trás.

- Eu quero ser artista. Quero que as pessoas me conheçam pelo que eu faço. Quero que gostem disso.

- Mas será que o mais importante – Isabella disse – não é você gostar disso, em vez de só fazer pelos outros?

Michele endireitou-se na cadeira, debruçou-se na mesa da diretora e respondeu confiante:

- Senhora, eu já gosto do que eu faço. Eu já amo a minha dança! É por isso que estou aqui.

***

Quando Michelle estava saindo, cruzou com Piedro, que entrava. O rapaz levantou o capuz do casaco azul escuro que usava, a tempo de uma rápida troca de olhares com ela, que sorriu.

O garoto se sentou e a diretora, mais uma vez, perguntou o mesmo de antes. Ele respondeu:

- É a primeira vez que farei aulas, mas fui do grupo de teatro do colégio e havia momentos com dança... Só isso.

Isabella falou outra coisa, que ele respondeu no piloto automático. A garota que passara por ele na entrada... Lembrava-se dela, do último verão, numa cidade do litoral da costa oeste... Talvez a visse nos intervalos das suas aulas de jazz. Seria bom ter alguém conhecido por perto. De repente, a mulher percebeu algo:

- Tem algo, no mínimo relevante, que você não falou. – Disse, ao notar a distração dele. – Não quero me intrometer em sua vida, mas consigo perceber esse tipo de coisa nas pessoas...

Piedro admitiu:

- Eu tinha parado de atuar para me focar nos meus estudos. Mas... Mês passado... Perdi meu pai. – Ele falou, por fim.

Ele parou por um momento, como se tivesse esquecido o que iria falar em seguida. Lembrou:

- Eu precisava... Preciso de alguma coisa para me distrair e... Extravasar os pensamentos ruins.

Isabella pode perceber nos olhos castanhos, quase negros, do rapaz que ele de fato precisava de algo pelo que se apaixonasse. Talvez pudesse ser a dança.

***

A diretora empilhou os cinco papéis que confirmavam a matrícula dos novos alunos. Alguns lembravam outros que vieram antes... Mas sempre eram assim! Finalmente, um novo ano começava.

Notas finais
E aí, gostaram? Querem mais?