Yes, I dance
8 Capítulo 7
– Você poderia ter me ligado! – Simon gritou.
Sarah olhou para ele, indignada e revirou os olhos, irônica.
– Ah, tá bom. Como se você nunca tivesse deixado de ver minhas chamadas quando estava com os seus amigos...
Era uma briga tola. Era a terceira briga tola neste mês. Analu viu os dois discutindo no corredor enquanto entrava na sala.
Bem, pelo menos não sou a única que está tendo problemas... Ela pensou. Vamos acabar logo com isso.
Daniel Banks viu Anna Louise se aproximar dele, com uma expressão séria. Isso não pode ser coisa boa. O olhar dela era triste, o que o deixou ainda mais preocupado. Piorou quando ela falou:
– Preciso conversar com você.
Não! Não, isso não podia estar acontecendo! Infelizmente para os dois, estava. Ela o puxou para o canto da sala, com lágrimas nos olhos e tirou algo da bolsa, enrolado num lenço. Daniel entendeu o que ela queria dizer antes de ela terminar de lhe mostrar o objeto.
– Você está mesmo? – Ele perguntou, mal conseguindo olhar para a garota, terminando por fitar o chão, tentando esconder parte do pavor. Ela precisaria que ele fosse forte.
– Eu... Eu estou.
Ela o abraçou, derramando as lágrimas, que havia segurado, em sua camisa. Ele retribuiu o abraço e afagou os cabelos negros dela. O sr. Taylor logo começaria a aula, mas Daniel puxou Analu para fora e sentou-a num dos bancos, ficando de joelhos, em frente a ela. Ele secou as lágrimas dela com a mão e deu-lhe um beijo na face.
– A gente vai conseguir fazer tudo dar certo.
– A gente vai? – Ela disse, olhando para ele, com o olhar cheio de dúvidas.
Em resposta, ele levantou e, furioso com a situação, pegou o objeto que ela ainda segurava. Em seguida jogou no lixo o teste de gravidez.
***
Bateu a porta. Não queria falar com ninguém. Pôs o fone de ouvido, ligando a música no volume máximo... Tinha estragado tudo! Jogou desajeitadamente a mochila e as coisas que ainda estavam em cima da cama para o lado, fazendo tudo cair no chão com um baque surdo. Depois, caiu na cama, de olhos fechados e passou a mão pelos cabelos aloirados. A imagem da namorada lhe veio à cabeça. Namorada. Nunca tivera nem ao menos coragem de realmente chamar Analu assim, como acharia forças para consolá-la e fazê-la acreditar que estava tudo bem? Que iriam achar uma saída rapidinho? Não iam e Daniel Banks sabia disso.
O que poderia fazer? Precisaria de dinheiro para ajudá-la, o que não seria um problema, não fosse pelo fato de seus pais serem cem por cento contra. Contaria a eles? Melhor não.
Gritou. Bem alto, até acabar o ar de seus pulmões e a raiva ser substituídas pelas lágrimas. Estava sozinho em casa, então não havia problema em extravasar um pouco. Olhou o relógio: Nem dera 6:00, ainda tinha bastante tempo antes de a mãe chegar. Pelos fones de ouvido, ouvia um rap qualquer. Um pouco mais tranquilo, abaixou o volume para não ficar surdo. Levantou-se e foi até a janela, de onde dava para se ver toda a imensa área do Loop, o centro da cidade e um dos locais mais caros de Chicago, ainda mais quando se mora em uma cobertura.
Ao longe, podia ver os raios coloridos do crepúsculo refletindo nos arranha-céus desse bairro. Não podia tirar da cabeça o choro de Analu em seu ombro, ainda nessa tarde. Percebeu-se pegando o celular no bolso e digitando uma mensagem. No momento era tudo o que podia fazer, mas pensaria em alguma coisa.
Do outro lado da cidade, Anna Louise recebia uma mensagem. Não tinha muita coisa escrita, mas relacionar aquelas duas primeiras frases com o nome do remetente foi suficiente para ter esperanças de que nem tudo estava perdido. Dizia:
Aguente firme. Eu te amo. 7:30 p.m., no Giordano’s?
Ela riu de leve ao ler o convite para jantar e foi separar algo bonito para vestir. Esta parte de sua vida, aquela da qual a moça não abriria mão, ainda estava intacta. Eles ainda tinham um ao outro.
***
Na quarta-feira, Daniel e Analu pareciam um pouco mais unidos do que de costume, como se houvesse algum conflito sendo resolvido entre os dois, mas ninguém se atreveu a chegar perto, à exceção de um professor, que lhes fez cara feia quando os dois concluíam a breve discussão com um beijo. Por outro lado, Sarah não estava com humor para namoros nesse dia, provavelmente em nenhum momento dessa semana. As coisas com Simon andavam complicadas. Brigavam por besteiras, ansiosos por discordar um do outro a qualquer momento.
Ela entrou na sala, atrás de Meredith e encontrou Simon, encostado numa das paredes, conversando com Kevin. Quando aquele encontrou os olhos castanhos de Sarah, pode sentir toda a tensão neles, apesar de não saber explicar direito o que a causara.
Volveu os olhos para seus cabelos presos e foi distraído ao ver as orelhas sem o par de brincos que ele lhe dera ao completarem um mês. Ela não estava lhe dando mais atenção como antes, estava diferente; e continuava a irritá-lo ao menosprezá-lo, como agora. Seria só desatenção? Provavelmente sim, se não fossem tão frequentes os deslizes de Sarah quanto ao relacionamento.
– Onde estão os brincos que te dei? – A voz de Simon assumiu um tom mais rude do que ele queria.
Infelizmente, isso não ajudou com o humor de Sarah. Ela começava a achar que estavam passando tempo demais juntos e deveriam dar um tempo. Voltando à cena, ela confrontou o rapaz:
– Eu não os trouxe, — disse com indiferença, porém bastante incomodada por causa do tom de voz do namorado – cansei deles e você não tem como nem por que me obrigar a usá-los.
Ele arregalou os olhos e continuou:
–... Você prometeu usá-los!
– E você prometeu que me mandaria uma mensagem toda noite! – ela ironizou, interrompendo-o. – Tá vendo como as coisas mudam?
– Qual é o seu problema afinal? – Simon estava quase gritando agora e um semicírculo se formara ao redor deles. – Já tem um tempo que você anda assim.... Hostil. E quando sou eu que critico você fica assim?! Até parece que sou eu que chego na sala e te olho como se você fosse a última pessoa que eu queria ver....
– Talvez seja. – Ela resolveu. – Talvez eu tenha me cansado de...
– De me namorar?! Bem, muito obrigado por ter me avisado com antecedência, – foi a vez de Simon usar ironia – agora que você já furou comigo no fim de semana e não dá mais valor aos meus presentes!
Sarah jogou os braços para baixo e soltou algo entre um gritinho e um gemido de raiva.
– Ahhh!!! – Ela o olhou bem dentro dos olhos, furiosa. — Você nunca tenta ver o meu lado da situação! Tá só me pressionando. Eu só preciso de um tempo pra mim e quando você chega a primeira coisa que faz é implicar comigo e....
Sarah Forman nunca teve como terminar essa frase, pois, sem nem ter tempo de perceber como isso acontecera, foi bater na parede, sentindo uma dor incômoda na face esquerda.
Simon tinha batido nela.
Ela levou a mão até o local do hematoma, absorvendo o acontecimento. Seu rosto ficou vermelho, com o ódio evidente em seus olhos cor de chocolate e ela encarava Simon Mitchell como se pudesse mata-lo ali, naquele momento, na frente de toda a plateia improvisada.
Alguém que assistia sussurrou:
– Agora é que ela explode...
Simon parecia tão surpreso quanto Sarah, olhando para as próprias mãos e, em seguida para Sarah, que o fulminava com o olhar mortal.
– Sarah... E-eu sinto m.... Digo, me perdoe...
De fato, o observador anônimo que soltou aquela sugestão estava certo, pois foi a vez de Sarah não deixar Simon terminar a frase e investir pra cima dele, com um instinto assassino. A moça gritava insultos, furiosa. O rapaz gritou, e tentou segurar os punhos da moça, mas suas unhas continuavam a atacá-lo, arranhando a pele, até que conseguiram libertar-se por um momento e rasgar-lhe a camisa branca.
Felizmente, os colegas conseguiram separá-los, no minuto em que a professora Jolene Brown entrava na sala, com o habitual rabo de cavalo bem alto, sapatos que faziam barulho no chão de madeira e olhos marcados por maquiagem negra. Ela olhou para a cena, parecendo severa pela primeira no ano. Uma garotinha de cabelos extremamente claros e olhos grandes, provavelmente uma das mais novas da turma, correu até ela e cochichou em seu ouvido:
– Ele bateu nela... – A pequenina disse, apontando para os dois.
Jolene olhou para Simon, o olhar sem expressão e lhe ordenou:
– Senhor Mitchell, na sala da diretora Light. Agora.
Isso encerrou a dispersão e ninguém ousou tocar no assunto, nem mesmo Meredith, que foi com Sarah até a enfermaria.
***
O auditório estava novamente lotado pelos alunos que participariam do festival. Michele participaria da Corte, no festival, mas agora apenas esperava os rapazes terminarem a coreografia do Mercado, sentada atrás de uma das coxias do lado direito do palco. Nas primeiras filas, Piedro liderava com os passos precisos e bem ensaiados, ao lado de Greg, que era meio engraçado de se ver em um ensaio, pois ele colocava emoção demais nos passos. Ela riu dos amigos enquanto levantava-se para ir calçar as sapatilhas de ponta, quando alguém esbarrou nela.
– Ui, — a loura ouvia a voz falsa e irritante da concorrente — espero não ter te machucado.
Os olhos acinzentados de víbora de Nathalie a encararam e Michele engoliu em seco. Tentou organizar as coisas que o empurrão derrubara. Um pote de gel, o celular... Onde estavam as sapatilhas? A garota lembrava que estava prestes a pegá-las. Olhou ao redor. Haviam caído em uma poça d’água causada pelo ar condicionado. Michele pegou as sapatilhas molhadas e tentou achar alguma toalha na bolsa.
No palco, chegara a vez de um solo de Nathalie e esta executava, como sempre, os movimentos com perfeição. Secretamente, Michele desejou estar no lugar dela, queria que algo tirasse da garota que dançava esse título de melhor bailarina. Baixou os olhos para calçar as sapatilhas, deixando seus pés gelados por causa da água, então não pode ver quando tudo aconteceu.
Provavelmente, foi culpa das más condições do auditório, ou talvez aquele conserto no telhado mês passado. Se a loira tivesse olhado para a rival por mais dois minutos que fossem, teria visto o lindo arabesque. Logo em seguida, ela saltou, jogando a perna esquerda subitamente para frente. Foi neste exato momento que se ouviu um som surdo de algo de metal caindo e todos viram o holofote vermelho do lado direito no chão do palco, a menos de um metro de onde Nathalie Hudson deveria pousar graciosamente. Infelizmente, não houve quem não se desconcentrasse do que quer que estivesse fazendo, inclusive ela.
E ela caiu errado.
Michele levantou os olhos da sapatilha, levando um susto ao ouvir o barulho da queda do holofote e da garota, ao lado dele. Largou a bolsa em qualquer lugar e saiu correndo para se juntar à multidão que se formara ao redor da protagonista. Só teve tempo de chegar e tentar abrir espaço por entre os colegas, conseguindo ver apenas o rosto de Nathalie.
– Afastem-se! – Todos ouviram a diretora Light gritar, enquanto subia as escadas que ligavam o palco à plateia. Ela estava acompanhada de um médico, que viera imediatamente da enfermaria, na sala vizinha.
Os alunos reclamaram uns com os outros, mas foram aos poucos se afastando. Finalmente, Michele pode ver o resto do corpo de Nathalie. Ela caíra por cima da perna esquerda, com a qual pisara primeiro, mas seu pé saíra quase completamente de dentro da sapatilha, ferindo-se muito e sujando a meia com uma linha fina de sangue. A perna se dobrava em um ângulo nada natural, e a solista tinha o desespero evidente em seus olhos, dos quais escorriam lágrimas.
Piedro veio aparecer ao lado da amiga e a abraçou de lado, ao ver seu espanto com a cena. Ela aceitou o abraço dele, que a conduziu para a saída. Ao passarem junto da parede, Piedro pegou a bolsa dela a colocou no ombro. Quando ela havia passado pela porta, o rapaz olhou mais uma vez para o palco, onde colocavam Nathalie em uma maca para levarem-na a um hospital ou, pelo menos, até a enfermaria.
Com certa indiferença, ele seguiu Michele. De qualquer forma, o ensaio de hoje fora cancelado. E ele sabia quem escolheriam para ser a nova Julieta.
***
Dois dias depois, toda a turma de balé estava novamente reunida, com exceção de Nathalie, que não iria poder dançar por um bom tempo. O professor Brown entrou na sala. Em vez de colocar o CD para tocar, no canto da sala, como era de costume, ele simplesmente caminhou até o centro do espelho q cobria toda a parede. Ele olhou fixamente para cada um dos jovens presentes e falou:
– Já não deve ser surpresa para nenhum de vocês que alguma das bailarinas nesta sala – ele se demorou no olhar de cada uma das moças, inclusive Michele, num dos cantos — deverá interpretar a Julieta no lugar de Nathalie.
Houve vários murmúrios de especulações sobre quem deveria ser a nova protagonista. Seria aquela garota de cabelos bem escuros que fazia o terceiro ano de academia? Ou a de cabelos claros e sardas no nariz que já havia feito um papel principal?
– Mas antes – ele disse, interrompendo as conversas – temos que esperar os alunos da senhora Campbell chegarem, afinal também é de interesse deles saber quem será a nova solista. Então, vamos dar as boas-vindas a uma nova aluna que está chegando hoje na Dance-I.
Todos se viraram em direção à porta, ao ouvirem passos se aproximando no corredor. A nova aluna entrou na sala e ficou ao lado do professor, enquanto dizia um oi para os bailarinos. Ela era negra, alta, com os cabelos cacheados presos num coque. Não usava maquiagem alguma, mas tinha os traços bonitos, bastante delicados para uma afrodescendente. Ela sorriu meio de lado, com um sorriso meio malandro, do tipo característico de alguém que não prioriza coisas monótonas como a escola. Sua expressão se completava no olhar, com sobrancelhas arqueadas de dar inveja, com um sinal de nascença do lado direito.
O queixo de Michele quase caiu quando reconheceu a garota. Seus olhares se cruzaram e esta confirmou com a cabeça. Assim, não foi nem necessário ouvir quando o senhor Brown completou:
– Classe, esta é Elizabeth McKinley...
– Podem me chamar de Liza. – Ela interrompeu.
O professor a olhou com um olhar incomodado com o jeito dela, mas logo balançou a cabeça murmurando algo como: “adolescentes...”; enquanto Liza ia se juntar ao grupo. Antes que todos pudessem sufocá-la com perguntas e saudações, a turma de jazz entrou na sala, liderada pela professora Campbell e o garoto que faria o Romeu, cujo nome era Travis.
Eles ficaram do lado esquerdo da sala, mais próximos à porta, enquanto os bailarinos ficaram do lado direito. Piedro olhou para Michele, que sorriu de volta. Ela surdamente perguntou-lhe se ele sabia algo sobre a escolha. Ele deu de ombros e fez que não com a cabeça.
Os dois professores foram se encontrar na frente da sala e confirmaram silenciosamente que o Brown já falaria quem seria a dançarina escolhida. Ele tentou fazer o máximo de suspense possível, mas já era bastante difícil segurar a ansiedade das suas alunas. Por fim ele disse:
– A escolhida para interpretar a Julieta no lugar da veterana Nathalie Hudson é quase tão capacitada para este papel quanto esta. Acreditamos que, com os ensaios, ela será nada menos que maravilhosa.
Vendo a impaciência de todos, que começavam a reclamar sobre como este seria um discurso longo e chato, o homem foi direto ao ponto:
– Essa garota nos deixou, na verdade, bastante indecisos na hora de selecionar originalmente quem seria a protagonista. É por essa razão que não poderíamos deixar de conceder esse papel à aluna...
O tempo parou. Toda garota naquela sala gritava furiosamente em sua mente que ela deveria ser a escolhida, que era a mais talentosa, que tinha certeza de que seu teste era o que havia empatado com o da tão falada Nathalie. Alguns garotos, do mesmo modo, torciam por suas respectivas namoradas ou paixões, mas apenas um acertou quando o tempo voltou a passar: Piedro.
– Michele Williams! – disse o senhor Brown.
Alguém jogou o que quer que fosse que segurava com força no chão. Uma garota começou a chorar. Vários rapazes foram imediatamente consolar as moças indignadas. Muitas pessoas praguejaram contra a decisão dos professores. E Michele só conseguia ficar parada, olhando atônita para todas as cenas ao seu redor, sem acreditar. Ela ganhara? Todas aquelas bailarinas haviam sido superadas por ela? Ela viu quando Liza abraçou-a, vinda de um lado da sala, e Piedro e Greg vieram de outro. Ela só saiu do transe ao sentir o corpo quentinho de Piedro junto ao seu. Ele a soltou e, com os olhos repletos de felicidade sincera, ele disse:
– Eu te disse que você era a melhor.
Ele segurou a mão dela e Michele começou a observar a cena por outro ângulo: o de uma vencedora.
Fale com o autor