Yellow
2 Going with the flow
As primeiras semanas foram difíceis. Não, não foram pouco difíceis. Foram extremamente difíceis. Enquanto em outras universidades os calouros estavam sendo recepcionados com festas e bebedeiras, em Columbia, a aula começou no segundo dia e não parou desde então. De repente, no final do mês, Katie já tinha 3 trabalhos para entregar, já frequentava duas eletivas, e a única pausa que fazia era para ir ao banheiro.
– Isso é energético? – Perguntou assim que avistou Liz no refeitório da universidade, arregalando os olhos como se tivesse visto uma miragem. Estava exausta, completamente exausta. E não vendia-se energético em lugar nenhum do campus, e a cafeteria era longe demais para ela sequer considerar andar até lá, já que sabia que não teria energias pra isso.
Aproximou-se de Liz e dos amigos que ocupavam uma das mesas compridas do refeitório. Os calouros haviam formado uma espécie de amizade durante a primeira semana de aula, e com o tempo se tornaram bem próximos. O que era estranho para Katie, que nunca desenvolvera muitos laços assim. Mas não podia dizer que era ruim. Sentou-se no banco ao lado da amiga e olhou para ela com sua melhor cara pidona.
– Nem tente. Já pedi três vezes e ela não me deu nem um gole – Ouviu Nico se pronunciar, sem tirar os olhos de seu livro enorme. Nico Di Angelo cursava seu primeiro semestre de História, e Katie não sabia exatamente porque ele andava com eles. Afinal, Nico era ainda mais reservado do que ela (como se isso fosse possível), e mesmo assim não parecia muito incomodado com a falação infinita de Liz.
– Minha orientadora disse que podemos arrumar alguns no bar aqui da frente – Ethan, o calouro de Jornalismo, avisou, enquanto devorava algumas batatas fritas.
– Sua orientadora orientou você? Isso sim é algo surpreendente! – Katie disse, sarcástica, antes de afundar o rosto nas mais. Estavam todos péssimos, mas pelo menos os outros tinham seus orientadores para ajudá-los. E ela tinha Travis Stoll. Que era a mesma coisa que absolutamente nada, concluiu passadas aquelas três semanas de aula. Enquanto todos os seus amigos foram praticamente carregados no colo por seus orientadores, ela teve de rumar pelo campus sozinha a procura dos prédios em que teria aulas, dos banheiros e do refeitório. Para variar, tivera que se virar sozinha enquanto seu estúpido orientador que servia apenas pra ajudá-la com isso, nem dava as caras.
– Ainda com os problemas com Stoll? – Perguntou Charlotte, que encarava as batatas fritas de Ethan com um olhar de nojo. Charlotte fazia o primeiro semestre de Biologia, e aos poucos Katie descobriu que ela odiava qualquer coisa que fosse frita ou gordurosa – Você deveria dar uma chance a ele.
– Ele nem apareceu! – Katie defendeu-se, indignada. Estava tão irritada que nem se sentiu muito culpada de arrancar a lata de energético a força das mãos de Liz e tomar um longo gole, ignorando os protestos. Desde o primeiro disse aula, não havia visto nem a sombra de Travis Stoll por aí – O cara é um babaca.
– Perguntei para o meu orientador onde eu arrumava alguma coisa boa pra comer e ele disse “você encontra uma boa em qualquer aula de Educação Física!” – Nico resmungou, e finalmente fechou o livro, deixando-o ao lado de sua porção de fritas intocada – Meu orientador é um babaca, Katie. O seu é só…
– Idiota? Mal educado?
– Eu ia dizer ocupado – O rapaz completou, antes de suspirar e remexer nas suas batatas. Nunca comia nada no almoço, ou no lanche da tarde, ou nunca. Pensando bem, Katie nunca havia visto Nico comer, mas isso não vinha ao caso – Se quer tanto falar com ele, só procure. O prédio de publicidade não é tão longe.
– Ei, já compraram entradas pra festa de semana que vem? – Charlotte perguntou, antes de dar uma garfada considerável em sua salada.
– Não – Responderam todos em uníssono e a loira pareceu indignada.
– Como assim?! É a primeira festa do ano, vocês têm quem ir.
Ah sim, a festa de boas vindas de Columbia. Katie até considerara ir, mas sabendo que seu primo fazia parte da organização, preferiu não arriscar.
Katie Gardner e Perseu Jackson nunca foram lá grandes amigos, é verdade. Deméter, a mãe de Katie e Poseidon, o pai de Percy, eram irmãos daqueles muito apegados. E quando Poseidon abandonou a mãe de Percy, Deméter fez questão de acolher Sally e Percy e apegou-se muito ao garoto. Katie cresceu na sombra de Percy por muito tempo, e não era fácil para ela conviver com sua mãe que praticamente o endeusava. Por conta disso, passou a ter uma relação distante com seu primo e todos os outros membros da família, raramente comparecendo a qualquer evento.
Quando recebeu a carta de aceitação de Columbia, fez a mãe prometer que não contaria a ninguém, principalmente porque por algum motivo infeliz seu primo também havia ingressado em Columbia alguns anos antes. Mas era um campus muito, muito grande para que eles se encontrassem. Felizmente.
– Nah, não sou muito de festas – Katie respondeu mecanicamente, dando de ombros.
– É Lottie, nem todos nós somos maníacos por bebida e festas – Ethan alfinetou, rolando os olhos. Ele não parecia muito festeiro, mas também não parecia muito isolado, e Katie concluiu que talvez ele dissera aquilo só pela diversão de irritar Charlotte – Vinte e cinco dólares por um monte de veteranos bêbados e música alta.
– Exatamente! O que mais se pode querer além disso?
– Uma noite de estudos? – Liz respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo — Desculpe, Lottie.
– Não, eu não quero saber. Todos vão, inclusive o Nico ermitão, nem que eu tenha que pagar! – Nico apenas rolou os olhos, sem dar se ao trabalho de levantá-los para ela e logo Ethan e Charlotte já estavam num debate sobre a perda de tempo que festas proporcionavam.
Enquanto seus amigos discutiam e Liz dizia algo sobre ter que entregar outro trabalho, Katie ficou martelando a ideia de procurar por seu orientador. Talvez não fosse uma ideia tão ruim, era a obrigação dele orientá-la, afinal de contas. Quer saber, ela iria lá e iria fazê-lo orientá-la por bem ou por mal.
Levantou-se da mesa murmurando alguma desculpa para os amigos e saiu marchando para o prédio de Publicidade, onde não o encontrou. Ótimo, ótimo. Procurou em todos os lugares possíveis e quando estava prestes a desistir, na frente do prédio de Relações Internacionais, lá estava ele.
E Katie Gardner perdeu completamente o controle.
– Ok, Travis, o negócio é o seguinte – Ela disse, se aproximando com os braços cruzados, sem se importar com o fato de que ele parecia estar bem concentrado em seu livro. Idiotas não tinham vez com ela, não mesmo – Eu não sei o que você acha que “orientador” significa, mas eu posso te explicar.
– Espera, eu n-
– Fica quietinho que eu tô falando! – Katie interrompeu-o, levantando as mãos no ar. O rapaz deu um passo discreto pra trás, claramente assustado – Seu trabalho é me orientar, tá legal? E dizer que eu tenho que tomar muito café e usar camisinha definitivamente não é orientação!
– Me escut-
– Você que me escute, seu idiota! Já se passou um mês de aula e eu tive que aprender tudo sozinha, você tem noção de como isso é difícil? Eu quase fiz xixi nas calças enquanto procurava o banheiro porque você não fez seu trabalho como orientador me dizendo aonde é a porra do banheiro! Xixi na calça, você está me entendendo?! – Quando percebeu, Katie já estava surtando. E quando ela surtava, era sempre a mesma coisa: Seu rosto ficava vermelho, ela gesticulava excessivamente e parecia a beira de um desmaio de tanto nervosismo – A partir de agora, você vai me orientar e vai me orientar direito, entendeu?!
– Eu não sou o Travis.
A frase atingiu Katie como um soco. Ela piscou algumas vezes, levemente estarrecida. Pensando bem, ele era um pouco diferente de Travis. Alguns centímetros mais baixo e porte físico diferente. E lia uma livro de Relações Internacionais, e não de Publicidade. Oh Deuses.
– Sou Connor – O rapaz se apresentou, num tom cauteloso, como se estivesse com medo de que ela surtasse de novo – Stoll. Somos irmãos, eu e o Travis – Explicou devagar.
– Por tudo que há de mais sagrado, me desculpe – Foi a primeira coisa racional que Katie conseguiu pensar em dizer – Eu sinto muito, muito, muit-
– Não se preocupe. Acontece mais do que você imagina, senhorita…
– Acho que nem vou te falar meu nome. Assim você não espalha por aí que eu dei uma de louca – Katie ponderou, rindo nervosamente e sentindo o rosto ficar corado – Eu sinto muito, mesmo. E… Sou Katie Gardner.
– Caloura de Arquitetura – Connor completou.
– Como você sabe?
– Eu sei de muitas coisas – Ele respondeu, com um sorrisinho no rosto. Estendeu a mão para Katie, que a apertou ainda sem graça com tudo aquilo de surtar com Connor – Eu faço o segundo ano de Relações Internacionais. De qualquer forma, é bom conhecer alguns calouros. Mesmo que eles tentem me matar. Ou matar meu irmão, mas sabe como é, é quase a mesma coisa.
x-x
Travis não pôde deixar de rir histericamente quando, algumas semanas depois enquanto eles planejavam os últimos detalhes da festa de boas vindas, Connor contou a ele sobre o ocorrido com a nova maluca de Arquitetura. Por um instante, ele quase se sentiu culpado, quase. Mas logo, já se distraiu a caminho da universidade, em que tentava não bater o carro enquanto Connor jogava uma imensidão de objetos nele.
Porém aquele sentimento de quase-culpa o perseguiu o dia todo. Nas aulas de Planejamento de Riscos, na seção de tutoria da Economia, até enquanto ele almoçava. A única coisa em que ele conseguia pensar era em como estaria a tal Katie Gardner.
Certo. Ele só precisava achá-la, dar alguma desculpa e ser um bom orientador. Não deveria ser tão difícil, certo?
Mas assim que colocou os olhos nela, pareceu impossível. Katie estava na biblioteca (o último lugar em que Travis pensava encontrá-la – ou encontrar qualquer pessoa sã. Mas lembrou-se de que ela fazia Arquitetura, não podia ser completamente sã) e parecia intocável atrás de enormes pilhas de livros, como se aquilo fosse seu forte e ela estivesse se escondendo de um exército inimigo.
Pôde ver que ela escutava música nos fones de ouvido, parcialmente escondidos pelos cabelos dela, que pareciam uma cor estagnada entre o loiro e o castanho e estavam amarrados desgrenhadamente. Suas mãos anotavam em um milhão de post-its diferentes, que ela colava por todo o seu material com uma rapidez que ele desconhecia. E ela parecia tão nervosa, mas tão nervosa, que por um momento, Travis só quis sentar ali e dizer a ela que ficasse calma.
Era pra ser uma tarefa fácil, então por que de repente parecia completamente impossível? Não que ele estivesse nervoso, claro que não. Mas ela parecia ter uma placa enorme de “Não chegue perto. Cão raivoso” colada em sua testa, seria mesmo esperto da parte dele ir até lá?
Mas de qualquer forma… Travis sempre gostou de desafios. E mais ainda, de ganhar.
– Kit Kat – Deu seu sorrisinho típico, enquanto puxava a cadeira vazia ao lado de Katie e se sentava, ignorando o olhar que deixava claro o desejo dela de despejar litros de ácido sulfúrico nele. Viu Katie arrancar os fones a contragosto – Então… Quanto tempo, huh? Bem, espero que tenha seguido meu conselho e usado camisinha.
– O que é que você quer? – Sem muitos rodeios, ela perguntou, fechando o livro que ele reconheceu como algo sobre Modernismo e virando-se para ele com as sobrancelhas levantadas. Travis abriu a boca para responder algo engraçado e que talvez a fizesse rir e tornasse aquela situação menos estranha, mas não conseguiu pensar em absolutamente nada.
Estranho. Ele sempre conseguia pensar em alguma coisa. Travis era o cara das tiradas engraçadas, que era 100% imune a qualquer momento constrangedor.
– Bem, eu sou seu orientador, não sou? Provavelmente não o orientador dos seus sonhos, mas eu ainda sou seu orientador. E quero preservar a integridade do meu irmão. Então… — Travis fez uma pausa, ponderando se o que ele estava falando sequer fazia algum sentido. Estava se sentindo um completo idiota. Katie franziu a testa, mas continuou ouvindo o que quer que ele estava querendo dizer – Que tal começarmos por você ficando um pouco mais calma, Kit Kat?
x-x
– Não vou nessa festa, já falei. Preciso descansar e estudar – Nico foi o primeiro a tentar novamente dissuadir Charlotte de arrastar todos eles para a tal festa de boas vindas que parecia ser a coisa mais legal do mundo, pelo menos para ela. Estavam nos jardins da universidade, depois do almoço, jogados no chão perto de uma árvore e esperando até que desse o horário da próxima aula (e considerando muito deixar de ir nela).
– Vocês estão muito bitolados nos estudos! Precisam sair um pouco! – Insistiu novamente. Charlotte era o tipo de garota que ia para as baladas mais famosas de Manhattan no meio da semana e vinha para aula direto da festa e com uma disposição imensa. Ela era tão, mas tão acelerada, que às vezes Nico tinha vontade de socá-la só por isso. Até Liz, que era a mais sorridente do grupo, perdia a paciência com Charlotte.
– Alguns de nós têm que estudar mesmo, Lottie, não se esqueça que nem todos somos filhos de multimilionários – Ethan respondeu atravessado, sem se dar ao trabalho de levantar o olhar de suas anotações. Ah, sim. Charlotte era muito, muito rica. Ou melhor, seu pai era muito rico. Mas rico chegava até a ser um eufemismo, considerando que o dinheiro que ele tinha podia financiar mais três continentes, ou algo do tipo – Presença se escreve com s?
– S e depois ç – Liz respondeu prontamente – E não foi isso que Ethan quis dizer, Lottie, é só que nós…
– O que? Foi exatamente o que eu quis dizer – Ethan franziu a testa, confuso com o que Liz havia dito. Nico riu pelo nariz, balançando a cabeça. Ethan era um cara engraçado, principalmente por sua falta de tato em lidar com as pessoas. Ele era aquele cara que falava o que viesse na telha, e os amigos tinham que consertar por ele para não acabar transformando o momento numa coisa constrangedora – E é verdade, tem que nasça pra estudar e tem quem nasça pra ser rico e ir a festas. Eu sei a qual dessas categorias eu pertenço. Somos o proletariado desse grupo, Charlotte é a elite. Aceitem.
– Eu preciso estudar tanto quanto você! – Ela rebateu, rolando os olhos, mas sem dar tanta atenção assim para o comentário de Ethan. Acontecia tanto que ela nem ligava mais – E você, Kay? Vai me abandonar nessa?
Nico olhou para Katie, esperando sua resposta que fecharia o círculo de “nãos”. Mas ela parecia completamente distraída e absorta nos próprios pensamentos.
– Katie? – O próprio Nico a chamou – Kay? Você está aí? – Estalou os dedos na frente do rosto da colega, esperando alguma reação.
– Hmmm, distraída demais – Charlotte alfinetou, olhando sugestiva para Katie – Onde estão seus pensamentos?
– Ela está pensando naquele veterano de Publicidade, aposto. Vi os dois na biblioteca hoje cedo – Ninguém precisou olhar pra saber que era Ethan o dono do comentário.
– Não é nada disso – Katie rolou os olhos, jogando um de seus cadernos no amigo – Quero dizer, estou pensando nisso, mas não desse jeito. Que seja.
– Então, Kay? Vamos ou não vamos? – Charlotte insistiu. Katie abriu a boca para perguntar do que ela estava falando, mas pensou que seria muita falta de educação de sua parte deixar na cara que nem estava ouvindo o que a amiga falou.
– Ahn… Tudo bem, eu acho. Vamos – Respondeu incerta de com o que estava concordando. E se arrependeu assim que viu o enorme sorriso na cara de Charlotte e os olhares incrédulos dos amigos – Oh. Droga.
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