Xylos-4: Protocolo de Sobrevivência
6 O Silêncio de Xylos-4

O saguão da colônia Esperanza nunca pareceu tão pequeno. O ar, agora filtrado e livre da acidez da chuva, tinha um gosto metálico e seco que arranhava a garganta, mas era o gosto da vida. Todos estavam em algum estágio de recuperação, mas o silêncio que se seguia ao caos da batalha era pesado, preenchido apenas pelo zumbido dos sistemas elétricos e pela respiração pesada de Ortega ao fundo.
Kael, com os movimentos lentos de quem carregava o peso de mil quilos em cada ombro, indicou assentos improvisados para os sobreviventes. Ele retirou pequenas barras de proteína e cantis de água de seu cinturão tático, entregando-os com as mãos ainda trêmulas de adrenalina. Sanchez se juntou a ele logo depois, ajoelhando-se diante das crianças. Ele forçou um sorriso, tentando esconder o suor e a fuligem que cobriam seu rosto. Verificou pulsações, examinou pupilas e buscou por qualquer sinal de bioluminescência indesejada. Milagrosamente, eles exibiam apenas os sinais universais da guerra: fadiga extrema e desidratação severa.
Enquanto Sanchez verificava o mais velho, que segurava o cantil como se fosse um tesouro sagrado, o som estático do comunicador cortou a tensão como uma lâmina.
— UR-7, aqui é a Capitânia Aurora. A frente de tempestade está em 15% e caindo rapidamente. Estamos enviando o transporte de extração neste exato momento. ETA: 7 minutos. Preparem os sobreviventes para o embarque imediato. Bom trabalho, esquadrão.
Kael soltou um suspiro longo, um som que parecia guardado em seu peito desde o momento em que pisaram naquele planeta maldito. Seus ombros finalmente caíram, relaxando. Sanchez olhou para os sobreviventes; a mulher começou a chorar silenciosamente, escondendo o rosto nas mãos, enquanto as crianças se abraçavam. Ele sorriu para eles, um gesto genuíno de alívio, mas Miller permaneceu como uma estátua de grafite.
O sargento não relaxou um músculo sequer. Seus olhos estavam fixos no terminal que Sanchez deixara aberto, onde as linhas de código dos últimos registros do Dr. Aris piscavam ritmicamente, como um coração eletrônico.
— Sanchez, verifique mais uma vez os arquivos. Faça uma cópia completa para o seu equipamento de pulso — a voz de Miller era rouca, desprovida da celebração que o momento pedia. — Verifique se não deixamos passar nada. Quero cada log, cada nota de rodapé.
Sanchez sentiu o peso da ordem. Ele se levantou, a dor nas articulações protestando a cada centímetro, e foi até o terminal. Pousou seu fuzil ao lado do painel — um gesto de confiança que ele não teria feito dez minutos antes — e seus dedos começaram a voar sobre as teclas. O brilho azul do monitor refletia em sua pele escura, iluminando o suor e a concentração em seu rosto. Enquanto a barra de progresso da cópia subia, ele mergulhou nos logs de saída do hangar.
— Sargento... o Dr. Aris. — Sanchez parou, os olhos correndo por uma sequência de comandos que não faziam sentido no contexto de uma evacuação médica. — Parece que ele não morreu no surto inicial como os outros relatórios sugeriam. Ele ainda está por aí.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Todos no saguão olharam para ele com uma mistura de choque e descrença.
— O Doutor está vivo? — Perguntou o mais velho, a esperança lutando contra a confusão em sua voz.
— Nós achamos que ele tinha morrido nas primeiras horas — murmurou a mulher, secando as lágrimas. — Ele prometeu que buscaria uma forma de nada disso acontecer, que traria ajuda.
Sanchez encarou os civis por um segundo, sentindo uma pontada de pena pela ingenuidade deles, e logo voltou sua atenção para Miller. O sargento tinha os lábios cerrados em uma linha fina de fúria contida.
— Ele iniciou o protocolo de suspensão de isolamento do hangar privado manualmente. Ele saiu com a única nave de longo alcance disponível na colônia.
— Então ele nos deixou para morrer? — A voz da mulher não era mais de alívio, mas de um desapontamento amargo, quase venenoso.
— Por que ele faria isso? — Kael se aproximou do terminal, o cansaço dando lugar a uma indignação juvenil. — Ele era o líder científico deles! Tinha a obrigação de proteger essas pessoas!
— Isso apenas ele pode responder — Sanchez respondeu, apontando para o log de telemetria de decolagem. — A nave de fuga da colônia, a Vesta, partiu há pouco mais de duas horas, bem no pico da tempestade, usando um corredor de pressão que só ele conhecia. Pelas câmeras do hangar, ele saiu com uma maleta reforçada e nada mais. Sem passageiros, sem outros cientistas. Apenas ele e o que quer que estivesse naquela maleta.
Miller deu um passo à frente, a sombra do capacete escondendo seus olhos, mas sua postura exalava uma ameaça fria.
— Ele não fugiu apenas para se salvar. Ele saiu com informações sigilosas. Talvez amostras, talvez o genoma puro dessa coisa. Aris não é um sobrevivente, Sanchez. Ele é um desertor com uma arma biológica nas mãos. — O sargento olhou para o soldado. — Terminou o download?
— Sim, sargento! Tudo copiado e criptografado.
— Bom. Verifique a integridade dos dados enquanto esperamos. — Miller virou-se para o resto da sala, o instinto de proteção retomando o controle. — Kael, veja como está o Ortega. Quero ele pronto para ser movido no primeiro segundo em que a rampa da Aurora tocar o chão.
— Sim senhor! — Kael correu para a maca, enquanto Sanchez permanecia diante do terminal.
Os sete minutos de espera arrastaram-se como se o tempo tivesse sido infectado pela mesma lentidão viscosa da mutação. Cada segundo era pontuado pelo tique-tique do metal esfriando e pelo som rítmico das crianças sobreviventes, que tentavam respirar em uníssono para conter o medo. Sanchez permaneceu ao lado do terminal, os olhos alternando entre os monitores de segurança e o drive de dados em seu pulso.
De repente, o chão vibrou. Não era o tremor errático das criaturas, mas o rugido poderoso e rítmico de propulsores de íons rasgando a atmosfera rarefeita. O som cresceu até se tornar um trovão que fez os restos de vidro das janelas do saguão chocalharem. Uma luz branca, artificial e divina, inundou o ambiente através das frestas das barricadas.
— Extração na porta principal! — a voz do piloto ecoou, clara e sem estática. — UR-7, abram a passagem. O tempo está fechando novamente!
Sanchez correu para o comando da porta, suas mãos agindo por instinto. Com um chiado de pressão hidráulica, as pesadas placas de aço se abriram, revelando a rampa estendida de uma nave de transporte classe Valkyrie. O brilho dos holofotes era tão intenso que Sanchez precisou levar a mão ao rosto, protegendo os olhos acostumados à penumbra carmesim da colônia.
— Vamos! Movam-se! — Miller rugiu, recuperando a energia de comando.
Sanchez não hesitou. Ele passou o braço sob o ombro do homem mais velho, sentindo a fragilidade dos ossos do colono e o tremor de sua gratidão.
— Calma, senhor. O senhor está seguro agora — Sanchez murmurou, guiando-o com cuidado, mas com pressa, em direção à luz.
Logo atrás, Kael e Miller formavam uma unidade de força bruta, içando a maca de Ortega com uma sincronia nascida de anos de treinamento. Eles subiram a rampa sob o olhar atento de dois sentinelas de elite da Aurora, que mantinham seus canhões voltados para as sombras da Esperanza, prontos para pulverizar qualquer coisa que ousasse interromper o resgate.
Assim que os pés de Miller tocaram o deck de metal da nave, a rampa começou a subir. Sanchez ajudou os civis a se sentarem nos bancos de segurança e, sem conseguir evitar, caminhou até a pequena janela reforçada da escotilha enquanto a nave iniciava sua subida vertical.
Lá embaixo, o cenário era de um horror indescritível. A Colônia Esperanza, que um dia foi o símbolo da ambição humana em Xylos-4, agora não passava de um túmulo de metal retorcido. A floresta ao redor brilhava como se o planeta inteiro estivesse pulsando em uma febre alienígena.
A nave estremeceu ao romper as últimas camadas da atmosfera. O azul tóxico deu lugar ao negro infinito salpicado de estrelas. O silêncio do espaço mergulhou a cabine em uma paz súbita e quase irreal.
Sanchez sentou-se no chão vibrante da nave, as costas apoiadas na antepara fria. Ele soltou um suspiro que pareceu drenar toda a força que ainda lhe restava. Seus dedos, sujos de graxa e sangue azul, apertaram com força o drive de dados que carregava em sua mão. Ele olhou para Miller, que estava sentado à frente de Ortega, observando os médicos da frota trabalharem no cabo ferido. O olhar do sargento encontrou o de Sanchez por um breve momento e houve um breve aceno.
Eles estavam abandonando o pesadelo das garras e dos dentes bioluminescentes. A UR-7 estava voltando para casa, mas o silêncio de Xylos-4 agora ecoaria para sempre em suas almas.
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