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1 Minha querida Alice perdida - Parte 01
É noite.
O lugar: região central, Décimo Quarto Distrito, a garagem fechada abandonada de uma transportadora, entre caminhões velhos, sobre graxa derramada no chão, sob as luzes piscantes de leds defeituosos.
Os indivíduos: quinze, todos jovens, vestidos em jaquetas, calças rasgadas, rostos cobertos por máscaras de coelho – números baixos da Alice Negra – armados de bastões elétricos, alguns com pistolas.
Dez minutos antes da meia-noite, toda a conversa para. Pela porta dos fundos, entram mais duas pessoas – um rapaz alto, vestido como os outros, carregando nas mãos uma espingarda. Ao lado dele, uma garota, loira, baixa, provavelmente não passa dos quinze anos, num vestido preto, usando uma máscara de borboleta.
No telhado da garagem, um pé pisa sobre a claraboia de vidro. Olhos por trás de um visor observam a movimentação no chão. Não olhe para cima ainda.
A garota se posiciona à frente do grupo, começa a falar, os ânimos se agitam por um momento, o grandalhão com a espingarda grita – todos se calam. A garota retoma a fala, gesticula, enfatiza, bate o pé. Dessa vez, não a questionam. Há gritos, todos de satisfação.
Os quinze começam a se movimentar para a saída, apontam as armas para o alto, gritam.
No teto da garagem, um sorriso.
— Finalmente – alguém diz.
Agora, vamos começar o show.
Num instante, a claraboia estoura e todos os olhos dentro da garagem sobem para o teto. Só há tempo para que eles vejam o rastro vermelho das chamas. No próximo segundo, o solado de um tênis toca o chão e uma onda de fogo se projeta ao redor dele, como a onda de impacto de um meteoro.
Todos no chão protegem os olhos até as chamas se dissiparem e então olham de volta.
Nesse momento, a imagem surge em partes nas mentes de cada um que vê a cena.
Meias vermelhas subindo até as coxas, shorts de corrida, top de corrida, luvas de direção, cabelos vermelhos dançando como fogo, “3” tatuado no ombro esquerdo, olhos magenta atrás de visores vermelhos, orelhas de gato saltando do topo da cabeça.
Todas as informações são processadas separadamente e juntadas na velocidade máxima dos ciclos cerebrais para calcular o resultado. As dezessete pessoas chegam à resposta simultaneamente. Há apenas uma explicação plausível, todos sabem. Ainda assim, é preciso um grito para que todos compreendam.
— É ela! É a Gata!
Num instante, a Gata está parada onde pousou – no outro, seu joelho está no queixo de um dos mascarados. Apenas o rastro de fumaça, como a trilha da turbina de um avião, indica o movimento. O próximo som que a boca que gritou “é ela!” gera é o grito abafado de alguém que teve a mandíbula esmagada por uma joelhada. O corpo do mascarado é então projetado ao ar. Na visão de todos, a cena ocorre em câmera lenta. O sujeito é jogado, se move num arco claro, desenhado, até amassar o baú de um dos caminhões com a força do impacto.
Os pés da Gata tocam o chão.
Como um despertador, o estrondo da carne contra o metal desperta a todos.
— Peguem ela! – a garota com a máscara de borboleta grita.
A Gata simplesmente sorri.
E então, vêm os tiros. As balas saltam das pistolas aos montes, se projetam a centenas de quilômetros por hora na direção da Gata. Ao ser disparada por uma pistola como aquelas, uma bala pode atingir velocidades muito superiores à do som, atingindo um alvo a cem metros em segundos. Em menos de cinco segundos, dezesseis disparos são feitos dentro daquela garagem.
Dos dezesseis tiros dezesseis miravam a Gata — 100%.
Os pés da Gata se movem para cima e descem. O movimento dura a fração de um segundo, menos que um piscar de olhos.
E então, uma lufada de ar.
Dos dezesseis tiros zero atingem a Gata – 0%.
Os dedos se movem para puxar outra vez os gatilhos.
Um dos atiradores voa para trás, atingido no peito por um chute.
As balas voam, mas acertam as paredes, o chão, os caminhões. Nenhum toca a Gata.
Sobrepostos aos estampidos dos tiros, os gritos dos atiradores e de seus corpos batendo contra as paredes, o chão, os caminhões.
Em menos de dez segundos, os tiros param. Não há mais dedos para puxar os gatilhos.
De quinze mascarados, seis estão caídos. Os nove que restam, armados com bastões elétricos, barras de ferro e os próprios punhos, olham todos para o mesmo lugar, o centro da garagem. A Gata está ali, apertando seus punhos enquanto olha para a tela projetada por um aparelho digital. Os dedos dela param devagar, logo acima de um botão.
— Vamos fazer assim – a Gata diz. – Eu não tenho nenhum motivo em particular para quebrar a cara de vocês hoje, então que tal eu dar cinco segundos para vocês saírem correndo antes de dar play e começar a fazer algumas cirurgias plásticas?
Não há nenhuma resposta. A Gata abaixa os ombros.
— Eu dei uma chance – ela diz.
E então, o dedo aperta o botão e uma distorção bombardeia por alto-falantes invisíveis. Antes que a voz de Ringo apareça, o primeiro mascarado salta, bastão elétrico em mãos, para golpear. Um chute, um estrondo, um baque e um mascarado dormindo. A Gata prende o aparelho na roupa e sorri.
— Vamos lá – ela diz.
Tênis batem no chão, impulsionados por fagulhas e fogo, barras de ferro zunem no ar, passam por cima de orelhas de gato, bastões elétricos miram um top de exercício e acabam atingido pescoços de mascarados ou barrigas dos braços que os seguram, socos são desviados por mãos, chutes acertam o ar quando uma Gata salta para trás, máscaras quebram com chutes, braços quebram com torções. A dança segue no ritmo da música, o barulho dos passos acompanhando a voz de Ringo, os golpes seguindo a batida da bateria. Ao fim da música, apenas a Gata dançarina continua de pé, seus acompanhantes, doloridos demais para continuar, haviam todos decidido ficar no chão, espalhados pela garagem, deitados como caíram.
— As ambulâncias já estão vindo – a Gata disse. – Achei que vocês fossem precisar. Agradeçam a polícia quando ela chegar.
O olhar da Gata corre para a porta dos fundos e as pernas fazem o mesmo logo depois. Antes de alcançar a saída, a mão direita toca a orelha no alto da cabeça.
— Consegue ver eles? – ela pergunta a alguém.
— Eles ainda estão no perímetro – alguém responde. – Mas toda cuidado, o cara da shotgun está te esperando na saída.
— Deixa comigo – ela diz.
Um sorriso salta ao rosto da Gata. Ela acelera a corrida, pisa. Um, dois, três, vai. A centímetros da porta ela salta para frente, sobe metros para cima desenhando um rastro de fogo e fumaça sob os pés enquanto o tiro da espingarda arromba um buraco no silêncio da noite. Um tiro sobe, a Gata gira e apenas o ar sofre com a força da bala. Os tênis tocam o chão centímetros atrás do mascarado, mas logo o solado encontra uma superfície mais interessante nas costas do atirador e não resiste em pisá-la com toda potência que conseguem encontrar e, pelo de ossos partindo e depois de um corpo tentando, por alguma razão, atravessar uma parede a força, o solado sabe que foi potência o bastante. Agora eles já podem voltar a ficar tranquilamente sobre o chão.
— Para onde a Borboleta foi? – a Gata perguntou.
— Ela está subindo para o elevado do monotrilho – alguém respondeu. – Acho que ela vai tentar fugir usando o monotrilho. Você tem que impedir ela!
— Não, sério? Estou indo lá.
Na entrada para os acessos de emergência do monotrilho, o segurança prossegue sua rotina noturna de tomar café e assistir programas de comédia em seu holoprojetor de mão enquanto finge vigiar a entrada. Normalmente, é uma rotina ininterrupta.
Essa, entretanto, não é uma noite normal, como o caríssimo segurança acaba de descobrir ao ouvir passando vindo em sua direção. Ele corre até a grade e aponta a lanterna para a viela do outro lado. Primeiro, não há nada, porém logo surge uma Borboleta correndo em sua direção.
— Ei, o que está acontecendo? – ele pergunta.
— Cai! – é tudo que a Borboleta responde.
A resposta, porém, não foi para o segurança, mas para a grade, que prontamente obedece ao comando, se soltando e caindo em cima do segurança. Sem impedimentos, graças à gentileza da grade, a Borboleta salta para as escadas do monotrilho. Só mais aqueles degraus e poderia pegar o primeiro monotrilho e assim se livrar daquela Gata maldita. Segurando então as barras do vestido gótico, a Borboleta se atira a subir as escadas. Um, dois, três, quatro, seis, oito, doze, quatorze degraus e ainda muitos mais a frente e atrás um zumbido, como se um flecha se aproximasse.
A Borboleta pensa em virar. Não dá tempo. Á sua frente, surge um Gata de cabelos vermelhos. A Borboleta abre a boca, articula um “ca”, mas antes de conseguir fazer um “i” uma mão tapa a sua boca.
— Peguei sua língua – a Gata diz.
E então, a Gata solta a boca da Borboleta. A pobre Borboleta tapa a boca com as duas mãos, porém já é tarde. Ela afasta as mãos da própria boca e tenta acertá-las fechadas na boca da Gata, acertando, porém, só o ar, enquanto o pé da Gata sorrateiramente a derruba contra a grade de segurança. Enfim resignada, a Borboleta perde as asas e desaba sentada no chão.
— Idiota – ela diz.
— Você podia pelo menos tentar ser uma boa perdedora – a Gata diz.
Um peso cai no rosto da Borboleta, emburrando todo ele.
— Desculpe, Imperatriz – ela diz. – Por que você não vai cuidar da sua vida e me deixa em paz?
— Por que eu achei que eu tivesse deixado bem claro para a Alice que eu não queria nunca mais ver ela nem ninguém da Gangue dela no meu território e agora eu vejo um monte de Coelhos andando pelo centro e roubando pessoas. Por acaso ela quer me provocar?
— Você está errada.
— O quê?
As mãos da Borboleta tiram a máscara e por trás dela surge os olhos azuis e o rosto de uma garota.
— Alice não tem nada a ver com isso – ela diz. – Não, isso é tudo culpa dela, mas ela não está te provocando.
— Como encher o meu território de Coelhos não é provocar? Vai, fala. Cadê a Alice?
Um suspiro pesado e pesaroso escapa da Borboleta.
— A Alice Negra não existe mais – ela diz. – A gangue inteira quebrou e eu ainda estou tentando colher os cacos antes que dois idiotas estraguem tudo. Não tinha como a gente ficar junto sem a Alice.
— O que aconteceu com ela?
— Ninguém sabe. Ela simplesmente desapareceu um mês atrás. Depois disso todo mundo começou a brigar pelo controle da gangue. Eu sou a única que está tentando descobrir alguma coisa sobre ela.
— Você está falando sério?
Do seu bolso, a Borboleta tira um cartão de visitas.
— É a única pista que eu tenho – ela diz.
Em suas mãos, a Gata pega o cartão de visitas em que apenas duas palavras escritas em vermelho vibrante se leem.
“Circus Maximus”
— O que isso significa? – a Gata pergunta.
— Eu ia adorar saber, mas não, desculpa, não sei.
O papel continuava nas mãos da Gata, sem dizer nada. Longe dali, uma luz de neon começava a falhar.
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