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14 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Parte 6
Em antigos filmes de faroeste, sempre havia o momento em que o herói e o vilão se encaravam no meio da cidade. O clima era mudo, estático, suspenso, a música tensa, ameaçando explodir a qualquer momento, mas apenas prolongando. A câmera focava nos olhos de cada um dos duelistas, mostrava sua atenção, sua tensão, o movimento dos músculos das rugas, as nuances de cada expressão. Eventualmente, quando havia expectadores, a câmera passava por eles, mostrava a apreensão que os preenchia, e então para o relógio, onde destacava o bater dos ponteiros e a aproximação lenta do momento inevitável.
Se isso fosse um filme de faroeste, esse seria o momento em que tudo isso aconteceria. No meio do silêncio tenso daquele beco, enquanto a brisa quente soprava apenas com força o suficiente para balançar os cabelos e roupas das pessoas e Ekaterina, séria e ameaçadora, encarava Yun – olhos travados nos olhos, faíscas hipotéticas saltando no cruzar dos olhos. Os olhos de Ekaterina se moviam devagar pela figura de Yun, analisando cada pedaço, suas sobrancelhas arqueadas mantendo a ameaça constante. Yun não movia seu olhar, seu rosto era impassível, imóvel, inflexível. Presa à parede pelas mãos do chinês, Mami assistia ao desenrolar da cena em temeroso e expectante silêncio enquanto seu coração no peito disparava em batidas incontroladas.
O ponto de ebulição se aproximava.
Mami sentiu a pressão da parede em suas costas diminuir e o ar voltar a cruzar sua garganta. Ela caiu ajoelhada no chão, engolindo ar como um afogado, vendo com o canto dos olhos as pernas do chinês se afastando em direção a Ekaterina.
— Não precisa ficar no modo de caça – ele disse. – Eu pretendia falar de qualquer jeito. Na verdade, eu tive que arranjar essa situação toda porque eu queria falar com você.
— Você sempre sequestra pessoas quando quer falar com alguém? – Ekaterina falou. – Pensar que um Especial desceria tão baixo me dá nojo.
— Não me entenda errado, eu não sequestrei eles. Eu só disse para aqueles caras onde é que esses dois estavam. Não era ideia minha eles acabarem machucados.
— Então você admite sua responsabilidade?
— É o que eu falei. Mas esse cenário todo não precisa terminar em coisas desnecessárias. Eu só preciso que você me escute.
Os dedos de Ekaterina se moviam lentamente.
— Vai em frente – ela disse. – Fala. Mas se você não conseguir me convencer, eu vou te queimar aí onde você está.
— Não precisa ficar me ameaçando, garota. E nem devia. Mesmo que eu tenha vindo aqui falar com você isso não me impede de ficar irritado. Eu não tenho sangue de barata.
— Bom. Eu odeio amarelo.
Yun bufou e olhou para trás.
— Dá para a gente fazer isso em outro lugar? Não é assunto para se tratar num beco escuro.
— Esquece. Isso termina aqui.
Os olhos de Ekaterina continuavam encarando todo o corpo de Yun.
— Certo – ele disse, esfregando a mão esquerda atrás do pescoço. – Como você quiser. O fato é, os Distritos do Sul estão completamente fora de controle. Tem uma guerra acontecendo por lá. A Marselha e a Guilda estão no pescoço um dos outros. O DAE não vai conseguir segurar isso por muito tempo. Daqui eles vão parar de mandar gangues brigarem por eles e ir resolver o assunto pessoalmente. Se chegar nisso, os Distritos do sul vão virar um inferno.
— Por que você se deu ao trabalho de me dizer isso?
— Porque eu estou te pedindo ajuda para tentar controlar essa situação. Eu tentei falar com aquele maldito Rei Invisível, mas ele não ouve ninguém. Amaterasu e Anya estão sumidas desde a última vez que elas brigaram e o Nero se recusa a se envolver em qualquer coisa e eu não posso nem chegar perto dos Distritos do norte sem a Alice colocar todos os Coelhos dela atrás de mim. Você é a única opção que me resta.
Ekaterina empurrou os cabelos para trás e subiu o nariz.
— Só isso? – ela disse olhando por cima. – Acabou o que você queria dizer?
— Você não está entendendo a situação? Essa é uma guerra entre seis Especiais! Se ninguém fizer nada eles vão destruir o sul inteiro da cidade!
— Que destruam. Isso não é problema meu. O Distrito Central é o meu território. O que acontece além daqui não é da minha conta.
— E você acha que isso vai parar quando eles se matarem? Isso vai destruir o equilíbrio de poder! Quanto tempo acha que vai demorar até que isso chegue aqui? E nessa hora você vai ter que lidar com uma situação muito pior!
— Quando isso acontecer eu penso nisso. Os distritos do sul não são problema meu.
Os dedos de Ekaterina desceram para o lado de seu corpo, seu olhar deslizou para o lado, para o chão, onde Marco estava inconsciente. Pequenas fagulhas saltaram ao redor de Ekaterina, dançando em volta de seus cabelos como uma aura de fogo.
Mami prendeu o ar por um segundo. Era como se, de repente, todos eles tivessem sido jogados dentro de uma panela de pressão prestes a explodir. Ela conseguia sentir em sua pele, entrando por seus ouvidos, nos seus olhos, o movimento das pupilas de Ekaterina a moção de seus músculos, os pensamentos em sua cabeça, tudo direcionado para uma única ação, para um único comando.
“Destruir”
Em qualquer nível para o qual ela dirigisse sua atenção, como quer que ela analisasse os dados que recebia, aquela instrução era a única interpretação possível.
“Destruir”
Naquele momento, com os cabelos envoltos em fogo, com o olhar flamejante e aquela aura ardendo ao redor dela, Ekaterina era indistinguível de um Demônio.
Não. Não era isso.
Se havia realmente um Demônio no mundo, se existia qualquer criatura para o qual essa palavra pudesse ser usada com propriedade, era Ekaterina.
O olhar dela se moveu até Yun, suas sobrancelhas desceram até transformar seu rosto num Hanya.
— Mas – ela disse – se um Especial vem até o meu território e decide atacar um dos meus súditos eu sou obrigada a transformar ele em cinzas.
A mão de Yun desceu apertando algo em sua palma, seu pé direito recuou um centímetro.
— Tenta ser razoável, garota – ele disse. – Eu estou tentando te pedir ajuda para impedir um desastre!
— É uma pena porque agora mesmo tudo que eu quero é causar um.
Fogo explodiu no chão, atirando luz pelo beco, manchando as paredes de vermelho. Antes que qualquer relógio conseguisse contar um segundo, o pé de Ekaterina rasgou o chão milímetros à frente do rosto de Yun. Ele saltou para trás, se apoiando em suas mãos, girando para ficar de volta sobre os pés.
Houve um estampido.
Uma parede rachou com o impacto de uma força devastadora enquanto a cortina trespassada dos cabelos de Ekaterina voltava a se fechar. Chamas novamente iluminaram o beco, sequências e sequências de ataques da Rainha espedaçaram o ar em explosões enquanto mais e mais buracos e rachaduras surgiam nos prédios ao redor.
Escadas de emergência despencaram, latas de lixo saltaram pelos ares, nuvens de pó voaram do cimento estourado. A devastação bruta de instantes de combate entre os dois Especiais rasgava o beco em pedaços.
Parada ali, Mami podia apenas observar a tudo de olhos arregalados, balbuciando sílabas sem ligação, sons estupefeitos enquanto o fogo derretia a pedra estouros partiam metal.
Calmacalmacalmacalmacalmarespirarvamoslárespirarespirainspiraexpira, inspira, expira. Inspira. Expira.
As pernas de Mami tremiam. Seu coração estava descontrolado. Sua garganta estava seca.
Só fica calma, por favor.
Caído num canto, Mami viu Marco. Ekaterina continuava prendendo Yun no combate, afastando ele metro a metro da posição de Marco.
Será que…?
Mami fechou os olhos. À sua frente, devagar, uma piscina de bolinhas surgiu. Pretas, azuis, brancas, roxas, bolinhas de todas as cores. Não importavam, não importavam. Era a vermelha, era essa que tinha que achar. Mami prendeu a respiração. E mergulhou. As cores saltavam ao seu redor em bolhas, flutuavam em todas as direções, umas sobre as outras, se fundiam, desapareciam, paravam e depois retomavam o movimento. Acima, abaixo, onde estava? No fundo, acelerando, correndo, estava a bolinha vermelha. Mami nadou atrás dela, contra a correnteza que a carregava, para frente, avançando, sempre avançando, respirando, remando. A bolinha vermelha se aproximava e então se distanciava, jogava com ela e Mami insistia. Chegou perto, tão perto, se esticasse a mão poderia…
Mami arregalou os olhos. Sua mão direita estava fechada – não tremia.
Mas… como?
Não. Não era isso que importava. Mami se levantou e correu para Marco. Ele ainda estava desmaiado, mas estava respirando. Ela o levantou como pôde, e era difícil, acredite se não em mim nas pernas de Mami que se forçavam para conseguir pelo menos ficar de pé enquanto sustentavam a ela e a Marco. Passo após passo, ela ouvia o som da devastação espalhada por Ekaterina e Yun ficar mais distante, até virar só um eco após uma curva. Mami desabou no chão, deixando Marco apoiado numa parede.
Seus pulmões eram fogo e feridas, sua testa tinha se derretido em suor, seu cardiologista provavelmente diria que ela estava bem perto de morrer. Ela encostou a cabeça na parede, olhos fechados, boca tentando engolir ar.
“Tira o Marco daqui”.
— Como? – ela se perguntou.
O céu estava claro naquela noite. Era esquisito. As naves voando por cima da cidade, o céu escuro, os holofotes. Era tão esquisito…
Mami sentiu uma mão agarrar seu braço. Não deu tempo de fazer muito mais do que gritar um pouquinho antes dela ver Marco, olhos entreabertos, a segurando. O rosto dele ainda era todo dor, mas mesmo assim, por trás dos músculos dobrados, tinha um crânio de ferro plenamente visível.
— Ekat? – ele balbuciou.
— O… o quê?
— A Ekat… cadê ela?
Mami balançou a cabeça. Tinha que estar imaginando ou ouvindo coisas ou sei lá qualquer coisa assim. Não podia ser sério. Era absurdo.
— Você estava desmaiado! – ela gritou.
— Eu tô bem, relaxa. A Ekat… ela tá lutando com o chinês?
— Sim, mas…
Marco tentou começou a tentar se levantar. Mami foi mais rápida e garantiu com suas mãos que ele não fizesse isso.
— O que você tá fazendo? – ela gritou.
— Eu tenho que ir ajudar ela. Aquele cara é forte demais.
— Você tá machucado! Você precisa de um médico!
— Dá para esperar.
O garoto insistiu em tentar se levantar. Mami continuou o segurando, resistindo, empurrando.
— Por quê? – ela gritou. – Você viu como ele é forte! O que você ia conseguir fazer? É o que ele disse! Você não pode se jogar contra gente mais forte que você!
Marco cruzou olhos com Mami, sem tremer, sem balançar. E os olhos dele eram olhos de ferro.
— Mesmo que ele seja forte, tem alguma coisa que eu posso fazer – ele disse.
— Como você sabe?
— Eu acredito.
As mãos de Mami escorregaram do corpo de Marco, seus olhos se arregalaram e suas pupilas dilataram. Ela tentou dizer alguma coisa inteligente, algum argumento que conseguisse convencer Marco a parar com toda aquela burrada. Mas não, nada disso saiu. Ela só conseguiu dizer algo muito, muito simples:
— Isso é idiotice…
Marco simplesmente sorriu.
— Então me chama de idiota – ele disse. – Agora me deixa ir. A Ekat precisa de ajuda.
Marco tentou se levantar de novo. De novo, as mãos de Mami o pararam, dessa vez com solidez. Seus rosto estava travado no chão, os cabelos cobrindo a sua expressão.
— Idiota – ela murmurou. – Você tá machucado. Não vai conseguir fazer nada assim. Só vai deixar ela preocupada.
Mami empurrou o garoto contra a parede e se pôs de pé, levantando o rosto devagar para o alto, para cima, para o céu onde uma estrela solitária brilhava.
— Mas eu sou uma Especial, sabe? – ela falou. – Minha Especialidade não é nada impressionante como a deles. E eu realmente não sei o que eu posso fazer e se vou mesmo ajudar, mas… eu não sei como falar isso… não é que eu devo uma para ela, é que… eu não sei. Eu quero ajudar. Então, por favor, fica aí, tudo bem? Fica aí enquanto eu vou ajudar a Rina.
Por um momento em que o tempo resolveu não se apressar tanto quanto normalmente, Marco e Mami se entreolharam sem máscaras. Mami, subitamente, baixo o rosto ruborizado. Quando notou, Marco sorriu um sorriso envergonhado.
— Desculpa – ele disse. – Não deu para controlar.
— Tudo bem, não é culpa sua – Mami disse e ergueu o rosto. – Eu vou lá agora.
— OK. Boa sorte.
Acedendo, Mami partiu a correr em direção aos estrondos e luzes, à destruição e fogo, à batalha entre Yun e Ekaterina. Suas mãos tremiam, mas seu coração batia sólido.
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