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15 A Imperatriz, a Estrela e o Tolo - Última Parte


O barulho dos passos de Mami era engolido pelo estardalhaço de paredes partindo, fogo farfalhando no ar e o impacto brutal de alguma coisa contra pedra. A cena a cada metro que ela avançava se tornava pior — paredes estouradas como se uma bala de canhão as tivesse acertado, escadas de emergência derretidas pelo calor intenso de chamas, o chão chamuscado de cinzas e pedaços de cimento. Os estrondos da batalha se aproximavam e o coração de Mami disparava enquanto seus dedos se agarravam firmes à camiseta como se entre eles não estivesse pano, mas músculo pulsante.

Ao cruzar uma virada e cair num beco menor, Mami enfim conseguiu achar a fonte do caos. A luta entre Ekaterina e Yun tinha deixado para trás os becos e ganhado as ruas, quebrando carros e fachadas, garantindo os gritos nãoexatamenteanimados dos passantes enquanto o espaço ao seu redor era engolido pelo conflito crescente.

A quinze metros da luta, Mami parou. Pensar, apenas pensar. Não era tão difícil era? O espatifar de um vidro de carro discordou dela. Droga, droga, droga!

Respirar. Antes de tudo, respirar.

Mami fechou os olhos e tentou se encher de ar como um balão que, uma vez bem estufado, explodiria com ideias brilhantes. Os pulmões cresceram, cresceram, o oxigênio percorreu as vias aéreas quebrando conexões de alimento, oxidando células, regulando os batimentos cardíacos.

Vamos, Mami!

Você é um Especial também!

Ler.

É o que você pode fazer. Ler.

Então leia!

Mami arregalou os olhos, escaneando em instantes todo o espaço à sua frente. O campo de batalha, porém, já tinha se movido, forçando ela a fazer exatamente o mesmo. Seu movimento parou na rua, onde, trinta metros mais para o sul, a luta prosseguia transformando o distrito central num caos. Carros de polícia se aproximaram de repente e os gritos dos policiais mandavam aquilo se encerrar naquele instante. Os gritos pararam quando o ar foi cortado por alguma coisa viajando numa velocidade obviamente impossível para qualquer coisa que não uma bala ou um caça supersônico, atravessando a frente do carro até atrás, esmagando o para-choque, o motor e todos os outros órgãos internos do carro, atirando-o num choque bruto forte o suficiente para fazê-lo vomitar para os lados os policiais. Os outros três carros de polícia que chegaram pelos outros lados não tiveram mais sorte que o primeiro.

1320km/h.

Era a velocidade dos projéteis que atingiram os carros.

Pedras.

Eram os projéteis. Não pedras grades, mas pedrinhas, provavelmente pegas na rua. Nada demais. Para elas poderem causar tanto estrago, para elas alcançarem aquela velocidade…

A Especialidade dele, só pode ser!

Os olhos de Mami correram para a luta. As imagens do embate se desenharam com clareza na sua mente, mesmo que cada movimento não durasse mais que uma fração de segundo antes de acabar.

Mami teve que engolir um grito quando os dados terminaram de ser analisados pelo seu cérebro consciente.

Até ali, Ekaterina estava conseguindo se manter de igual para igual, mas isso não ia durar muito. A respiração dela estava acelerada, seu coração disparado, seu corpo jogando suor como se ela estivesse numa sauna em plena deserto. Yun não. Ele estava um pouco ferido, sim, com algumas queimaduras e marcas de impacto, mas fora isso, inteiro.

Se aquilo fosse um jogo de luta, Yun estaria com sua barra pouco acima do amarelo, enquanto a de Ekaterina seria de um vermelho claro e reluzente, a um ataque de ficar preta.

Droga, droga, droga, droga!

Mami procurava ao redor, escaneava cada centímetro da rua em busca de alguma coisa, qualquer coisa!, que pudesse ajudar Ekaterina a sair daquela. Nada! Nada!

A explosão de mais um carro forçou o olhar dela a voltar para os dois combatentes. Ekaterina estava no chão, caída no meio da rua, cinco metros depois de um carro em chamas, enquanto a silhueta escura de Yun caminhava em direção a ela, jogando uma sombra pesada sobre ela.

Naquele ritmo, ele chegaria até ela em dez segundos.

Se corresse até ele, Mami o alcançaria em oito.

Quando voltasse a pensar naquela situação, algumas semanas depois, Mami não deixaria de notar como a decisão que tomou naquele momento foi inacreditavelmente idiota. E se perguntassem se ela teria feito algo diferente, bem… Mami provavelmente diria que é uma idiota.

Ela disparou na direção de Yun com todo o gás que tinha em seus pulmões, ignorando os machucados e o risco, seguindo em frente com a mesma coragem de um soldado que avançava sozinho contra um tanque de guerra.

A um metro de Yun, enquanto ele erguia sua mão em direção a Ekaterina, Mami saltou. No momento daquele salto, enquanto nada tocava seus pés, como se atingida pela compreensão de um fato óbvio, ela fechou os olhos. Seus braços também se fecharam, mas ao redor de Yun, empurrando o chinês no chão junto a ela, apenas um pouco longe de Ekaterina.

— Rina! – Mami gritou.

Uma cotovelada acertou seu rosto e seus braços largaram Yun. Quando ela se recobrou o suficiente para conseguir abrir os olhos, as costas de Yun foram sua primeira vista, seguidos pelo cabelo dele e, mais alto, para as meias pretas cercadas de chamas a se desfazerem e Ekaterina, a saltar em pleno ar, descendo a perna num chute contra o rosto de Yun.

Quando o golpe se conectou e os ossos da perna de Ekaterina bateram nos ossos do Rosto de Yun, o estrondo não foi nada menos que estarrecedor. O chinês voou cinco, seis metros para longe, até desabar no chão, agarrando o asfalto para se reequilibrar, se levantando e desenhando um arco com seu braço direito.

— Abaixa! – Mami gritou.

O corpo de Ekaterina obedeceu, se abaixando enquanto uma pedra estraçalhava o ar onde antes estava a cabeça dela. Mami se levantou quão rápido seu corpo ferido permitiu, partindo para o lado de Ekaterina. Oposto a elas, seu corpo destacado pelas luzes acesas dos carros, Yun esperava de punho fechado. Ekaterina agarrou o pulso de Mami, puxando-a sem explicações. Sob o disparo de pedras supersônicas, as garotas correram até uma esquina, tomaram uma rua e só depois de mais uma curva pararam para respirar.

— E agora? – Mami perguntou entre inspirações ardidas.

Ekaterina olhava para o lado de seu corpo, onde um rastro de sangue escorria até a saia. Mami tentou se aproximar da ferida, mas foi interrompida por um olhar pouco amistoso.

— Eu estou bem – Ekaterina disse. – Aquele cara é um problema muito maior do que um arranhão. Além disso, eu gosto de vermelho.

— Mas… você tá sangrando!

— Vai ficar pior se ele alcançar a gente antes da gente conseguir bolar um plano.

— Plano…?

Ekaterina encarou Mami como se tivesse ouvido algo muito estranho.

— Claro, um plano – ela disse. – Como Rainha daqui, é o meu deve deter qualquer um que invada meu território. Se eu deixar que ele faça o que bem entender, logo esse lugar vai estar transformado numa zona. Eu jamais aceitaria essa humilhação.

O corpo de Ekaterina não tinha se recuperado. As feridas, Mami sabia, eram mais do que uma garota de dezesseis anos devia poder aguentar. E, ainda assim, quando olhava para os olhos de Ekaterina, quando se concentrava em ver o que tinha por trás deles, não achava nada além de uma muralha de ferro, inquebrável, inflexível.

— Eu não entendo… – ela falou.

— O quê?

— Você… Por que você não deixa isso com o DAE? Eles vão resolver.

— Se eles tentarem, só vão se machucar. Só um Especial pode derrotar outro Especial. Essa é a natureza do nosso poder. E é por isso que lidar com ele é o meu dever. Além disso, ele ousou tocar num dos meus súditos. Eu nunca vou perdoar isso.

Ekaterina mordia os lábios enquanto falava, um fogo distinto brilhando em seus olhos.

Mami se ergueu e encarou a Rainha.

— Eu ainda não entendo, mas eu acho que eu posso ajudar – ela disse. – Você falou que todo Especial tinha uma Condição, certo?

— É. Eu estava tentando descobrir qual era a dele, mas no meio de todos os ataques nem eu conseguia espaço para isso.

— Eu faço! Minha Especialidade não é nada impressionante. Na verdade, ela é só dor de cabeça, mas… dessa vez ela pode ajudar! E vou descobrir qual é a Condição dele!

As duas garotas trocaram olhares, Mami se esforçando ao máximo para esconder o balanço em seu peito.

— Se você conseguir fazer isso, eu posso derrotar ele – Ekaterina disse. – A questão é se você consegue.

— Eu consigo! Eu vou conseguir!

O barulho de passos começou a se aproximar das duas garotas. Ekaterina limpou o sangue de sua mão na parede.

— Espero que esteja pronta – ela disse

— Eu estou – Mami exclamou.

A sombra de Yun surgiu na esquina, crescendo, crescendo até um pé aparecer e após ele um corpo surgir se jogando e disparando uma pedra.

Ekaterina empurrou Mami para o lado, contra a parede, a pedra explodiu no chão entre as duas, atirando pó e estilhaços ao redor. Mami sentiu sua perna ser atingida, seus olhos insistiram em se fechar, mas sua força de vontade os forçou a ficarem abertos, plenamente focados em Yun.

Vai, vai, vai!

Qual a condição!

A corrente de dados invadia a cabeça dela como uma enchente. Mami se agarrava a um galho f´rágil, gritando, se debatendo, usando toda sua força para não ser arrestada. No meio da correnteza, uma joia pequena brilhava, se aproximando rápido, muito rápido.

Por favor, não erra!

Mami esticou a mão para o lado e fechou os dedos.

Em sua palma, estava um diamante.

— A mão direita! – ela gritou. – Ele só pode [impulsionar] com ela!

Como que por uma resposta instantânea, Yun moveu toda sua atenção para Mami. Sua mão direita subiu devagar em direção a ela, seus dedos deslizando uma pedra até a palma.

Mami prendeu o ar.

A pedra alcançou a palma.

O ar frio da noite congelou.

E então, um clarão de fogo detonou.

Uma pedra caiu no chão, mas seu baque foi camuflado pelo urro de Yun a desabar de joelhos, agarrando sua mão direita quebrada, os ossos esmagados por uma pedra lançada de longe.

A quinze metros do chinês, Ekaterina ainda tinha seu braço esticado, seus dedos agora severamente queimados.

— [Impulsionar] objetos pequenos a velocidades supersônicas – Ekaterina disse, seu braço se abaixando. – Como uma arma de fogo. Mas armas de fogo também funcionam com explosões, então com um pouco de fogo, não é nada difícil de reproduzir. E o resultado você sentiu muito bem.

Mami finalmente exalou.

O barulho das sirenes chegou só alguns segundos depois e dali até o aparecimento dos helicópteros do DAE, o tempo não foi mais que alguns minutos. Enquanto os paramédicos tratavam de seus ferimentos, Mami viu Ekaterina ser levada embora numa ambulância.

No fim, depois de tudo aquilo, não houve muito tempo para que elas conversassem. Enquanto as portas da ambulância se fechavam, Mami se perguntava se voltaria a ver Ekaterina e Marco…

Mas a pergunta acabou nem ficando muito tempo no ar. Três dias depois, enquanto cruzava os portões grandes e bonitos para seu primeiro dia de aula no Colégio Wittgenstein, bem no pátio, no meio de todos aqueles alunos, Mami sentiu uma batida em seu ombro. Ao se virar, não conseguiu deixar de sorrir.

— Yo – Marco disse.

Ao lado dele, estava Ekaterina, sua mão direita ainda enfaixada e o cabelo agora, estranhamente, pintado de vermelho.

— Vermelho? – Mami perguntou.

— Gosto da cor – Ekaterina disse.

— Combina com você.

— Oh? Acha que elogios são o suficiente para comprar minha boa vontade? Vai precisar de muito mais que isso para conseguir as minhas boas graças.

— Ela só quer dizer que está feliz em te ver – Marco falou. – Não é, Ekat?

O sinal de início das aulas começou a tocar. Ekaterina tomou a frente do grupo, caminhando em direção ao prédio principal.

— Vamos – ela disse. – Uma Rainha deve ser exemplo para seus súditos.

— Certo, certo – Marco falou. – Vamos lá, Mami?

Mami sorriu.

Era um dia particularmente quente, não desses como qualquer dia de verão, mas um daqueles em que o mundo parece estar borbulhando e tudo que se quer é entrar numa geladeira e esquecer o mundo lá fora. Mas, por alguma razão que realmente não entendia, Mami realmente não se importava. Era um bom dia.

Notas finais
E a segunda história termina. Agora que o setup está pronto, hora de mergulhar em Asano.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.