Xis

13 XIII - Remédio


-O que você está fazendo aqui? — foi a pergunta de Jean quando abriu a porta de seu quarto e me viu ali, molhada, cansada, com cara de choro, morrendo de medo. — Carline sabe que você está aqui?

-Posso entrar? – sussurrei.

Eu estava molhada até os ossos. E Jean tinha acabado de acordar provavelmente (ele estava só de bermuda). Mas ele me colocou pra dentro de qualquer forma.

Eu chorei em seu ombro por pelo menos quinze minutos. Jean não falou nada. Não fez nenhuma pergunta nesse meio tempo. Só esperou que eu me acalmasse.

-Eu escutei alguém... ou algo... dizer que o foco dos ips era meus pais. Algo como arrancar o mal pela raiz. Sei lá. Só estou com muito medo, Jean.

Ele ficou em silêncio por alguns minutos.

-Primeiro de tudo, — ele levantou e andou até o guarda-roupa. Ele fuçou um pouco e depois me tacou uma toalha branca na minha cara.

-Ei! — protestei.

-Toma um banho quente. Eu vou tentar pegar alguma roupa com a Jaque. Você dorme aqui hoje. Amanhã a gente fala sobre isso.

Abri a boca pra comentar e ele me interrompeu.

-Não conteste, Mel, só hoje.

Ele me deu um beijo na testa e saiu.

Merda! Por que ele não é nem feio? Isso facilitaria a minha vida.

*

Entrei no banheiro com o chinelo 41 de Jean balançando no meu pé 36. Fui tirando a roupa molhada devagar enquanto as colocava temporariamente na tampa da privada, pensando em onde diabos eu ia deixar aquela roupa quando saísse do banho.

Tentei prender meu cabelo, já que eu não ia lavar. Mas aí descobri que era idiotice. Meu cabelo já estava molhado. Girei os olhos sozinha.

A água quente ia me relaxando lentamente.

E as brisas normais que vêm durante o banho chegaram e....

CLARO!

Me perguntei como não pensara nisso antes. Agora parecia até óbvio a solução do problema.

Saí do banho muito melhor, enrolada na toalha branca. Jean estava deitado na cama, fuçando o notebook.

-Seu viciado – falei. — Cadê minhas roupas?

Ele demorou ainda alguns segundos pra olhar pra mim. E quando o fez...

-Não consegui.

-Tá zoando com a minha cara, né!? — perguntei.

Jean mantinha o olhar em minhas pernas, quase toda nua pela toalha. Eu estava começando a me sentir estranha.

-Tô. Mas não vou dizer onde eu as coloquei. — ele respondeu.

-Por que? — perguntei. Eu segurava a toalha com mais força, com medo de que Jean a puxasse com seu poder maldito.

-Você tá tão bem de toalha. — ele piscou.

-Jean – girei os olhos – Isso é sério. Cadê?

-Eu não sei.

-Piadinha sem graça, hein?!

Mesmo que ele não tivesse buscado as roupas, ele saberia onde elas estão.

-Tá linda assim, mas acho que sem a toalha fica melhor ainda.

-Jean.... para de flertar comigo. — falei. — Me dá as roupas – completei, jogando o cabelo pra trás do ombro e lambendo os lábios.

Cara... eu estava correspondendo ao flerte sem nem perceber.

Ele fechou o notebook, colocou de lado e andou até a uma Melissa constrangida, parada no batente da porta.

Ele chegou bem perto de mim, sem camisa, e eu de toalha. Passou o braço por trás de mim e mordeu o lábio inferior.

Puta que o pariu.

Quando eu cheguei a conclusão de que ele iria me beijar, ele se afastou e me entregou uma pilha de roupas verdes.

-Valeu – respondi e me tranquei no banheiro o mais rápido que pude.

O que está acontecendo comigo?

O que está acontecendo com ele?

Por que cargas d'água Jean fez aquilo?

Por que eu queria que ele me beijasse?

Por que eu estava com frio na barriga até agora?

Eu estava sentada na tampa da privada, com o queixo apoiado nos joelhos, ainda enrolada na toalha, parecendo uma gatinha assutada.

Morrendo de vontade de correr pra fora do banheiro e beijar Jean eu mesma.

Morrendo de medo de encarar ele de novo depois daquilo.

Quantos anos eu tinha? 12?

Vesti uma blusa de alcinha branca (hm, já vi a Jaque usando isso) e uma calça verde clara folgadinha. Prendi o cabelo num rabo de cavalo alto e saí do banheiro.

E parei na porta do banheiro, encarando Jean na cama dele.

Ele sustentou meu olhar por algum tempo.

Fez um sinal com a cabeça me chamando pra deitar do lado dele. Eu fui. Deitei do lado dele, com a cabeça apoiada em um dos braços dele e abraçando a cintura dele.

Ele estava com o iPod ligado e tocava My First Kiss da Ke$ha.

Ok. Esse não era o iPod dele.

-Quando você pegou meu iPod? — perguntei.

-Eu não devolvi pra você antes de irmos pra casa de Carline e tals.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Jean tirou os fones e colocou meu iPod em cima do criado mudo.

-Eu já pensei numa solução pra isso. — falei.

-Isso o que?

-Ips e etc. — respondi.

-Podemos falar disso só amanhã?

-Ok.

Ficamos em silêncio por alguns instantes. Eu estava quase dormindo com o cafuné dele.

-Quer ficar comigo? — ele perguntou.

Ok. Isso me pegou de surpresa.

-O que?

-Ok. Vamos dormir então. — ele disse, fechando os olhos.

Ah, não. Ele não ia jogar essa bomba em cima de mim e dormir, né!?

Olhei pra cima. Ele estava uma graça de olhos fechados, fingindo que estava dormindo.

-Jean... — sussurrei.

-O que?

Demorei alguns segundos pra responder.

-Nada não... — sorri.

E então, eu percebi o quão bem eu estava.

Com tudo aquilo acontecendo e o simples fato de estar dividindo a cama com Jean quase me fizera esquecer tudo.

Era como tomar um remédio. Estar perto dele recarregava as energias e curava as partes ruins do meu dia.

Meus pés já não doíam tanto, minha cabeça estava ótima, meus olhos já não ardiam em lágrimas e meus ombros? Muito mais leves. Como se eu tivesse divido o peso do mundo com ele.

Era bom saber que eu tinha um remédio particular.

*

-Não. Sério. O que acontece? Por que vocês não assumem que estão juntos e pronto? — perguntou ela.

-Jaque, meu amor, não dizemos que estamos juntos pelo simples fato de que não estamos juntos! — disse eu, como se falasse com uma criança. Ela mostrou a língua pra mim.

-Mas vocês estão ficando, certo? Ou é mais que isso?

-A gente não tá ficando – girei os olhos.

-Ai meu Deus, você tá girando os olhos igualzinho á ele!

-Não tô, não – resposta automática.

-Tá, sim – disseram Maria e Alice juntas, ambas sentaram na minha frente na mesa do refeitório.

-Ok, dá pra parar, vocês três? — eu disse – Nada está acontecendo e não vai acontecer.

-O que não vai acontecer? — perguntou Jean, me dando um beijo na testa antes de sentar do meu lado.

-Nada. — respondi, meio congelada.

-Nada não vai acontecer? — ele perguntou.

-Então alguma coisa vai acontecer. — completou Jaque, sorrindo de uma forma maníaca pra mim. Ela parecia a Overly Attached Girlfriend daquele jeito.

-Olha, já deu pra mim. — falei, juntando minhas coisas – Me encontra na biblioteca – falei pra Jean e sai da mesa provavelmente muito mais vermelha que o saudável.

Ok. Aqui vai uma confissão.

Eu sentei na biblioteca numa mesa onde eu podia manter contato visual com a mesa do nosso grupo no refeitório. Não dava pra enxergar muito, eu estava bem longe, mas dava pra saber que eram eles.

E eu tentei acompanhar a conversa pela mente de Alice, que estava de costas pra mim, mas era quem estava mais perto.

-Será que a gente pode falar de outra coisa? — diz Jean. Ele parece meio incomodado.

-Não. A gente não vai falar de outra coisa até você disser com todas as letras o que todo mundo já sabe. — diz Jaquelinne.

Se eu fosse Jean, certamente já teria dito tudo simplesmente porque Jaque sempre ganha tudo pelo cansaço.

Tive que concordar com Alice. Jaquelinne me dava medo.

-A gente não tá ficando. — ele diz de novo e gira os olhos.

Ai meu Deus. Deja-vú da Lissa agora. Seriosamente.

Ah, Alice, que exagero. Girei os olhos sozinha. E me arrependi.

-Jean... Eu sou sua irmã. Você pode me contar tudo sobre vocês. — Jaquelinne olha pra Jean como se quisesse dizer outra coisa.

Olho de relance pra Mateus. Ele está digitando no celular e com um sorriso de canto.

-Ó. Tô saindo. Se divirtam aí. — eu falo e saio da mesa.

Droga.

Essa foi a primeira vez que eu invadi a mente de alguém com segundas intenções.

Por que a Alice não ficou lá? Agora eu não ia ouvir a conversa dos gêmeos.

Aliás... por que isso era tão importante? Eu não precisava ouvir a conversa deles. E eu invadi a privacidade de alguém só pra ouvir...

A voz de Jean.

Qual é o meu problema?

-E aí? — ele disse, com as mãos no encosto da minha cadeira. Me virei ainda sentada e ergui o pescoço pra olhar pra ele.

-E aí. — respondi. Ele parecia muito mais alto agora, mas definitivamente não foi por isso que eu corei.

Ele cerrou os olhos e deu um sorriso de lado.

-Tá tudo bem?

-Essa é uma boa pergunta. — respondi, me virando para a mesa da biblioteca de novo.

Ele sentou do meu lado.

-A gente não conversou ontem.

-Não. — balancei a cabeça concordando.

-Então... — ele balançou a cabeça como alguém que espera que você continue a frase.

-Ok – desviei o olhar. Talvez fosse mais fácil falar se eu não encarasse ele. — Hm... A gente precisa descobrir a base dos ips e destruí-los pela raiz.

O caderno de Paula, que estava na outra mesa caiu no chão. Me lembrei de baixar mais a voz.

-Usar a mesma arma? Não seria algo esperado por eles? — ele perguntou.

-Sim. Mas, pensa comigo, eles estão esperando por outra coisa porque eles acham a gente tá pensando que é clichê.

-Isso é muito clichê.

-O quê?

-Fazer algo que eles estão esperando porque é óbvio.

-A gente precisa planejar direito, só isso.

-Você tá doida, né?! Eu não vou deixar você fingir que é Harry Potter agora e enfrentar o mundo sozinha, não.

-E por que não? Harry não morreu. — falei, zoando.

Jean ficou calado por alguns instantes. E sério. Percebi que minha piada não teve muita graça.

-Desculpa – desviei o olhar de novo.

-Eu não posso deixar nada de ruim te acontecer, entende? — ele disse, não exatamente bravo. O tom dele era quase suplicante. Era horrível.

-Entendo. — e realmente entendia.

Tudo isso era sobre Julia. Eu estarei sempre à sombra dela e ele sempre vai me proteger por causa dela. Legal, né?!

Encarei a mesa. Todo o meu plano arquitetado e escrito e...

Por alguma razão, nada mais fazia sentido. Eu senti uma vontade tão absurda de chorar, que eu só não chorei porque a gente estava com várias pessoas ali na biblioteca.

-Eu não vou te deixar enfrentar nada disso sozinha. Eu vou com você – ele sussurrou.

Eu ergui o rosto, surpresa.

-Oi? — perguntei, pra ter certeza de que era verdade.

-Diz aí o que a gente vai fazer. Eu estou aqui, não tô?!

Um sorriso involuntário brotou no meu rosto tão grande que chegou até o rosto de Jean.

De lágrimas ao sorriso. Jean era um antídoto, não é possível.

Ele puxou a minha cadeira pra mais perto dele e eu expliquei mais ou menos o que a gente ia fazer para acabar com os ips.

Ou, mais provavelmente, morrer tentando.