Xis

2 II - Família


Jean não fora pra escola no dia seguinte. E, por algum motivo, me senti bem com isso.

Na terça-feira seguinte, cheguei em casa e joguei minha mochila no sofá e fui pra cozinha comer rápido antes de ir trabalhar na lanchonete da minha tia Louise Faria, irmã de meu falecido pai.

-Oi mãe. — disse, enquanto ela lavava um tomate, virada pra pia.

-Oi. — ela respondeu, normalmente, como em todos os dias.

-Cadê a Dri?

-Na casa do Vitor.

Dri é o apelido da minha irmã Adriana, uma garota de 14 anos chata pra caramba, mas que eu amava com cada pedacinho de mim. E Vitor é o primeiro namorado dela. Minha mãe, Cláudia, é mãe solteira há doze anos, quando meu pai, Juan Faria, morreu. Embora eu ache que ele fugira, na verdade. Eu não tenho... raiva, do meu pai. É mais como... saudade. Não sei explicar. Eu não convivera tanto com ele, só um pouco menos de três anos... até minha irmã nascer. E ele sumir. E, quando minha mãe diz que ele morreu, algo dentro de mim sabe que não. Mas eu não quero acreditar que minha mãe esteja mentindo. Então eu acredito nela. É mais cômodo.

Fucei as panelas, almocei e fui trabalhar.

-Oi tia! — disse, colocando o avental personalizado e guardando a minha bolsa num armário atrás do balcão.

-Olá querida. Tem um cliente na mesa sete que está lá há, pelo menos, vinte minutos. Pode atendê-lo? Hoje o movimento está me deixando louca.

E essa era minha tia. Tudo a deixava louca.

Eu peguei o bloquinho básico e fui até a mesa sete e, sem acreditar, me dei conta de que o cliente era, na verdade Jean.

-Olá, meu nome é Melissa e bem vindo ao Eat at the Beach. O que deseja? — ele era só mais um cliente. Eu iria tratá-lo só como mais um cliente.

-Poderia o robô olhar pra mim, pelo menos? — ele disse.

-Desculpe, mas não entendi seu pedido.

-O meu pedido é de desculpas.

E eu não pude tratá-lo como só mais um cliente e me sentei de frente pra ele.

-Desculpas? Pelo que? — estava sendo irônica. Mas queria que ele me respondesse a verdade. Queria ouvir da boca dele que ele fora um idiota.

-Por ter sido um idiota. Você só queria ser legal.

Eu ergui as duas sobrancelhas em sinal de “ah, saquei.”, mas como se não estivesse acreditando.

-Você trabalha aqui todos os dias? — ele perguntou. Ele estava estranho.

-Terças, quintas e sábados. Por quê?

-Ontem você não estava aqui.

-Você estava?

-É meio óbvio, você não acha? — que grosso! Eu não fiz nada pra ele. — Brincadeirinha – ele completou, rindo e girando os olhos. Que mania idiota!

-Por que não foi à escola? — perguntei por reflexo. Eu não estava interessada.

-Tive algumas coisas para resolver.

Eu queria perguntar que coisas. Mas se ele não falou direto, é porque ele não ia falar mesmo, então não insisti.

-O que vai comer? — perguntei, me levantando, quando vi minha tia olhando pra mesa.

-Que tal... você? — ele disse, levantando uma sobrancelha. Seus olhos desceram dos meus até minhas pernas nuas pela saia e voltou pra cima.

-Eu não estou no cardápio – pisquei. Ele girou os olhos mais uma vez.

Ele fez o pedido e quando eu trouxe o prato dele, ele tinha desaparecido. Assim, do nada. Ele simplesmente sumiu.

Eu fitei o prato na bandeja e... bom, o cheiro do sanduíche Brisa do Mar estava tão bom...

*

Ah, sexta-feira. Aquele dia da semana em que o clima de fim de semana invade a escola e a gente respira aliviado, certo? ERRADO.

Cyndi estava com a língua enfiada na boca de Mateus, um dos garotos da outra turma de terceiro ano. Jean estava conversando com Rosana no portão da escola. Minha gata, Munique de Fleury, fez xixi na barra da minha calça e eu não pude trocá-la. Os exercícios de matemática que eram para entregar hoje ficaram na mesa da cozinha, onde eu os resolvera. E minha chapinha tinha ido embora com a chuva que caiu enquanto eu vinha pra escola.

Meu cabelo natural é castanho escuro e ondulado. Eu sempre o corto na altura dos ombros, porque ele cumprido dá mais trabalho que qualquer coisa. E combina bem com minha pele moreno-clara. Não que eu goste da minha pele. Pra quem mora no litoral, eu sou quase uma albina. Dá trabalho passar chapinha nele porque ele não fica preso por mechas por muito tempo. E aquele dia era o primeiro dia do mês em que eu fazia chapinha.

E a chuva me pegou.

Estou toda molhada.

Cheirando xixi de gato.

E sozinha.

O pior não é isso. A questão é que agora a chuva parou, as nuvens se foram e o sol brilha.

Fui pra aula e notei que Jean trocara de lugar com Mateus, que ficou ao lado de Cyndi e Jean ficou na mesa em frente a minha. Quando eu passei por ele para o meu lugar, o cheiro do perfume dele me atingiu em cheio. Por um segundo eu fechei os olhos e me deixei levar pelo seu cheiro, sentindo que aquele perfume deveria ter custado muito dinheiro mesmo.

E depois de um segundo de olhos fechados, eu voltei à realidade e me sentei. Me dando conta de que eu passaria o resto do dia com o cheiro de Jean vindo até mim. Me irritei.

Como alguém poderia ser tão... completo? Bonito, cheiroso, inteligente, sarcástico... ele parecia ter saído de um livro da Becca Fitzpatrick ou da Cassandra Clare. Aquele cheiro era algo tão indescritível, que eu poderia falar de um milhão de coisas cheirosas e o cheiro dele ainda seria melhor.

Ah, Melissa, qual é a sua? Ele é só um garoto!

Tentei respirar só pela boca. Quando o sinal do intervalo finalmente tocou, corri pra fora em busca de uma lata de cafeína, açúcar e gás. Coca-cola salvadora.

-Argh, isso vai tudo pra sua bunda, né!? — disse Cyndi, compartilhando uma opinião da maioria do mundo: de que minha bunda era extremamente exagerada e desproporcional.

-Nem me fale – disse, com a boca cheia de hambúrguer, queijo e alface do meu X-Salada.

-Eu só vim te avisar que você parecia um vampiro querendo morder o pescoço de alguém durante a aula.

-Morder não, eu só queria cheirar. Você não sentiu o perfume do Jean hoje?

-Você sentiu? — falando no diabo...

-Tchau casal. — Cyndi disse e saiu.

-Casal? — eu falei sozinha, enquanto acompanha ela com o olhar.

-E aí? Eu sou tão cheiroso assim? — ele perguntou, tirando um pedaço do meu lanche.

-Ah, Jean, que tal você ir lá na esquina? — disse, me levantando.

-Ei, relaxa. Eu gosto de te provocar porque você me lembra minha irmã.

-Quantos anos ela tem?

-Querendo saber demais, Mel.

-Mel? — ergui as sobrancelhas, surpresa.

-É. Tipo, Melissa sem issa. Você não gosta?

Jean me chamara assim no meu sonho naquela segunda-feira chuvosa.

Ninguém me chamava de Mel porque eu odiava mel. Aquele de abelha mesmo. Obriguei todo mundo a me chamar de Lissa, que eu achava muito mais legal. Eu simplesmente detestava ser chamada de Mel.

Na voz dele parecia um elogio. Me levantei.

- Eu... te vejo mais tarde? — perguntei.

-Não sei. Devo perguntar aonde você vai se esconder de mim? — ele disse, girando os olhos. Estava demorando.

-Eu não estou me escondendo! Eu só... preciso fazer uma coisa.

-Ok. A gente se vê – ele disse e eu me virei.

E, quando eu olhei pra trás, ele já tinha sumido.

Notas finais
Espero que gostem (: