Xis
1 I - Novato
Entrei meio cambaleante na sala de aula. Meus pensamentos estavam um pouco fora de ordem. Sabe, eram sete horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa! Era normal que eu estivesse meio... estranha. Tentei abrir a mochila sem deixar algum livro cair. Como se eu fosse coordenada o bastante pra pegar um livro da mochila, sem enxergá-lo e não derrubar nada.
Eu já estive melhor sob o efeito de álcool.
–Abram o livro na página 37, onde encontrarão um texto retirado do livro "Capitães da Areia" de Jorge Amado. Com base nesse texto, respondam as questões da página 38 com a ajuda de algum colega ou dicio... — dizia a professora, mas percebi que já estava dormindo.
Estava correndo. Tão rápido, que as árvores à minha volta se misturavam umas às outras e, aparentemente, não era o suficiente.
Meus pulmões ardiam, o chão do mato machucava meu pé e a bosta do vestido que eu estava usando parecia completamente fora de contexto.
Caí no chão e bati a testa num tronco caído. Senti o sangue escorrer na hora.
–Mel! — ouvi a voz de alguém. Um carinha, eu tinha certeza. E um carinha chato, porque eu odeio que me chamem de 'Mel'.
Logo o garoto me encontrou e me puxou pra cima, pela cintura. Ele tinha uns cachos negros e olhos cor de mel.
Puta que pariu, que cara lindo.
–Mel, eu preciso que você me ajude. — ele disse. Eu balancei a cabeça. Isso fez o mundo girar.
Acho que ele notou o quão grogue eu estava, porque começou a me chamar, como se eu estivesse dormindo.
–Mel? — senti ele passar a mão pelo meu rosto. — Melissa? — ele bateu na minha cabeça. Oi? — Melissa Faria! Acorde! — acordei com a Sra. Nânia Maria batendo aquela coisa que ela chama de batuta na minha cabeça. — A aula não está interessante? Talvez a sua casa esteja mais emocionante. Está suspensa, Senhorita Melissa Faria.
Ah, qual é? Suspensa por dormir numa segunda-feira chuvosa? Eu tenho esse direito, ok?!
Moro num lugar onde as pessoas chamam de “Povoado da Felicidade”, uma cidadezinha minúscula no litoral da divisa Rio-São Paulo e que ninguém nunca ouviu falar.
Na verdade, nada acontece em Povoado da Felicidade. E é por isso que prestarei vestibular no Rio de Janeiro ou em São Paulo, por uma questão de ver pessoas diferente. USP ou UFRJ são minha meta e era por isso que eu já tinha feito o exercício que a Professora Brannerita pediu e tinha o direito de dormir na aula dela se eu quisesse.
*
Correção básica. Nada acontecia em Povoado da Felicidade. Até na quarta-feira, quando eu voltei à escola.
Quando eu cheguei na escola, a coordenadora Rosana Marques estava esperando por mim no portão.
–Melissa Faria, pode me fazer um favor? — ela disse.
–Claro – eu respondi antes de me refrear. Ai que raiva disso!
Eu tenho um problema. Quando alguém com mais de vinte e oito anos diz “por favor” pra mim, minha resposta é automática. “Claro”. Quando na verdade eu queria sair correndo e me esconder.
–Hoje eu recebi um aluno novo e eu gostaria que você levasse ele pra conhecer a escola antes do início das aulas. Eu te escolhi porque você a aluna mais frequente da sua turma, ou seja, passa mais tempo na escola que os outros alunos, então...
–Ah, sim, claro – eu disse, entrando na coordenadoria depois dela e vi, um aluno sentando em frente á mesa, de costas. Os cachos bagunçados do cabelo dele me davam a ideia de como mais ou menos perfeito devia ser o seu rosto.
–Melissa, esse é Jean . — Rosana disse e ele se levantou pra olhar pra mim.
Meus olhos se arregalaram na hora.
O garoto em minha frente era o mesmo garoto do meu sonho de segunda-feira.
Eu não consegui fazer ou falar nada com sentindo, então fiquei quieta. Ele ergueu uma sobrancelha e estendeu a mão.
–Prazer – ele disse. E a voz dele ecoou até meu cérebro me fazendo lembrar de que voz dele era a mesma da que eu me lembrava no sonho. Ele era o mesmo garoto do meu sonho, mas eu nunca o vira antes. Os mesmos cachos escuros, os mesmos olhos cor de mel e os mesmos traços indescritíveis do rosto. Ele era o garoto dos meus sonhos. Literalmente.
Finalmente soltei sua mão e murmurei um “prazer” sem graça.
–Bom, Jean, Melissa irá mostrar as instalações da escola pra você. — disse Rosana.
–Legal – ele disse, pegando a mochila da cadeira e abrindo a porta. — Primeiros as damas – ele murmurou. Eu hesitei pra ver se ele não estava brincando. Então arrumei minha mochila no ombro e andei, prestando atenção na girada de olhos que ele deu depois de encarar Rosana.
Sai da sala e ele saiu atrás. Parei alguns passos depois e me virei. Mas ele continuou andando. Me ignorando completamente. Eu me virei de volta pra ver ele andando pelo corredor.
–Ei! — gritei. Ele parou e girou. Eu andei até ele — O que foi isso? Você esqueceu o que Rosana disse?
–Não. — ele girou os olhos. Aquele menino era viciado nisso?
–Ótimo. — ironizei. Suspirei, fechei os olhos e os abri de novo – Tudo bem, vamos começar. Eu posso montar um roteiro ou a gente pode simplesm...
–Olha, Melissa, isso é bem legal, mas você não precisa fazer isso só porque Rosana pediu. Eu me viro — ele disse, sem me olhar nos olhos.
Ele estava começando a me irritar. Muito. E era bom pra ele parar. Me ergui na ponta dos pés, coloquei uma mão em cada lado do rosto dele e girei seu rosto pra mim, o forçando a me encarar.
–Sempre olhe nos olhos de uma garota enquanto conversa com ela – sussurrei enquanto o sinal para a primeira aula tocava.
Soltei seu rosto e fui pra aula. E ele que se virasse.
*
–O que foi aquilo? — perguntou Cyndi, minha melhor amiga, que não era a Cyndi Lauper, mas a mãe dela queria que ela fosse. Eu estava sentada na ultima mesa do lado da parede de vidro que dava pista para o pátio. Dava pra ver Jean conversando com Rosana. Cyndi sentava do meu lado, mas ela não parava de quicar na cadeira, me deixando nervosa.
–Não foi nada, ok, Cyndi? Ele só estava me irritando e eu estava descarregando a raiva. — respondi, sem olhar pra ela. Talvez, se eu me concentrasse, poderia ler os lábios deles e saber sobre o que falavam.
–Como alguém com aquela beleza e perfeição toda pode irritar alguém?
–Cyndi, chega. Se você estiver afim dele, vai lá e agarra ele, mas, por favor, me deixa em paz? — eu disse, batendo meu caderno com força na mesa.
–TPM? — ela estava afim de apanhar?
–Eu vou te bater se não parar.
Ela sorriu e finalmente me deixou em paz.
Pena meu sossego ter durado tão pouco. Logo Jean entrou na sala e Cyndi ficou me mandando um sms a cada passo que ele dava, a cada respiração dele, a cada piscada de olho dele.
E isso aconteceu até a aula anterior ao intervalo. Filosofia. Eu queria gritar com Cyndi, mas o professor estava filosofando lá na frente. Se eu suspirasse a classe inteira ouviria. Me contentei em desligar o celular e ignorar Cyndi.
–E para o mês que vem, estou passando um trabalho em dupla. Eu já separei as duplas e vocês deverão fazer algumas perguntas a seus parceiros sobre a influência da filosofia em sua vida. A partir disso, montar uma apresentação. E as duplas estão nesse papel colado na parede da sala, ao lado da porta. Por favor, não deixe sua dupla na mão para fazer o trabalho sozinho, afinal, esse trabalho valerá toda a sua nota bimestral.
O sino tocou e a sala toda foi ver a lista, menos eu, Cyndi e – por que, meu Deus, por quê? — Jean. Eu e Cyndi sempre esperávamos nossos parceiros em nossas mesas para evitar a fadiga. E por que Jean também não fora olhar a lista era algo que eu desconhecia.
Quando uma menina oriental, baixinha e de óculos estilosos que eu esqueci o nome agora chamou Cyndi pra decidir o trabalho, a maioria dos alunos já tinham ido para o intervalo e ninguém tinha vindo em minha mesa ainda, a lógica começou a martelar minha mente.
Trinta segundos depois, não me refreei e fui correndo até a lista, passando o dedo pela folha de papel até ler meu nome e confirmar meus medos.
Virei pra trás e procurei meu parceiro com olhos.
Me surpreendi ao ver que Jean já olhava pra mim com uma sobrancelha erguida. Ele girou os olhos (isso estava começando a me irritar) quando viu que eu estava olhando e levantou. Andou até mim e, ficando de frente pra mim, quase me pressionando na parede, falou:
–Eu também não quero fazer mais um trabalho com você. — mais um? Ele era idiota? — Mas por algum motivo os adultos desta escola decidiram me empurrar pra cima de você, então vamos fazer isso da forma mais profissional possível. A gente faz a merda do trabalho e depois vai cada um pro seu lado. Quarta-feira, não a que vem, mas na outra. Na biblioteca da cidade.
E saiu pela porta. Assim, sem mais nem menos. Sem me perguntar se eu poderia ir á biblioteca naquele dia. Ele era idiota? Senti a raiva da Tendência Pra Matar aumentando cada vez mais. Eu poderia matá-lo se eu quisesse. E, sinceramente? Eu estava bem afim.
Sai da sala em direção a uma cantina bem menos vazia e pedi um pão de queijo. Frio. Com um suco de goiaba. Sem açúcar. Eu poderia matar a tia da cantina.
De longe, vi Jean em pé, sentado em uma das mesas de pedra do pátio do colégio, falando com Rosana. Ele girou os olhos e olhou pra mim. Ergueu uma sobrancelha como quem pergunta “perdeu o quê na minha cara?”. Dei um tchau pra um ponto qualquer atrás dele pra que ele pensasse que eu não estava olhando pra ele.
–Ridícula – li nos lábios dele.
–Também te amo – sorri. Eu conseguia ser muito cínica quando eu queria. Era algo bom pra contar.
Ele se despediu de Rosana e foi pra sala de aula. Eu fiquei ali pensando em qual era o lance entre ele e a coordenadora da escola.
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