XXXVIII.V

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Hold it! Essa é uma continuação do último episódio de Black Sails, "XXXVIII". Portanto, se você não o assistiu ainda, volte mais tarde!

Havia tanto para ser dito naquele momento, mas nenhuma palavra foi proferida. Apenas um olhar, seguido de um abraço, e sentimentos antes enterrados desabrocharam em um instante.

Aquelas mãos gentis segurando sua cabeça novamente eram suficientes para que seu mundo cessasse. A guerra que tanto o assombrara e o alimentara por anos agora parecia distante, esquecida em alguma reminiscência perdida no tempo. Também não era possível dizer se aquele momento era real, mesmo sentindo seus lábios se tocando e quebrando a concepção de um luto infindável.

A ideia de ser apagado da história não o assombrava mais, contanto que pudesse passar sua mísera existência ao lado de sua única razão de abrir os olhos até aquele dia.

— Thomas...

— James...

Não havia reação ou realidade que os tirassem daquela dimensão onírica de realização e felicidade. E poderiam permanecer de pé, abraçando-se infindavelmente, não fosse o capataz para separá-los.

A conformidade começou a germinar em seus corações. Afinal, eles não existiam mais. E agora poderiam partilhar suas respectivas inexistências lado a lado até que cessassem permanentemente de fato.

Thomas continuou arando a terra, observando a silhueta do amado desaparecer em meio ao horizonte. O sol em sua fronte nunca fora tão gentil e cálido, assim como as mãos de Flint. A ansiedade, por várias vezes, tentou inundar seu coração, mas seu autocontrole prevaleceu até o sol se por.

Quando as luzes do casarão começaram a tremeluzir, os empregados deixaram a lavoura conforme as regras cotidianas de seus senhores. Thomas não tivera mais notícia de Flint e isto estava o corroendo por dentro.

Longe da grande mansão, ao sul, a casa dos trabalhadores proferia as primeiras vozes, até que seus tons crescessem e ganhassem contornos de conversas despojadas. Os empregados se banhavam antes de se sentarem à grande mesa digna de um banquete. Novamente, Thomas percorrera com os olhos todos os já conhecidos colegas, mas não encontrava aquele que fazia seu coração pulsar.

A comida em seu prato parecia desinteressante e nenhum assunto ao seu redor era capaz de chamar sua atenção. Por fim, o que Thomas temia passou a se concretizar. Ele começou a se perguntar se tivera vivido um sonho, se a imagem de Flint teria sido apenas uma peça que o calor e a labuta pregaram em seu cerne.

Já havia muito tempo em que se conformara com sua morte. Não possuía conhecimento de que James declarara guerra ao mundo por sua causa, muito menos que assumira a alcunha de um dos mais temíveis piratas do Novo Mundo, Capitão Flint. Quando estava quase convencido de sua alucinação imersa em desejo, uma mão repousou em seu ombro.

Ao seu lado, sentou-se o homem cujo semblante refletia o brilho de um sonho distante.

— A quem já foi dada tanta liberdade, esta prisão em forma de fazenda é uma tortura esplêndida.

Thomas não respondeu. Estava ainda em choque ao fitá-lo tão próximo depois de tantos anos.

— James, eu preciso saber se você é real.

— Para ser franco, eu mesmo não acredito que estou sentado ao seu lado neste momento. Gostaria tanto de poder iniciar uma conversa normal, mas bem sabemos que nossas vidas nunca foram pautadas em normalidade.

— Podemos começar do básico, se ajudar.

— Ótimo. O que aconteceu a você?

— Bem... Depois de nosso escândalo, minha família criou uma forma de me fazer desaparecer. Infelizmente, meu desaparecimento foi tomado como óbito, o que não deixa de ser verdade quando se entra nesta fazenda. E quanto a você? O que aconteceu a você para vir para cá depois de tanto tempo?

Flint hesitou por um momento. Por baixo da mesa, segurou a mão de Thomas gentilmente.

— Eu temo que... Seja melhor você não saber. Há coisas que eu fiz das quais eu não me orgulho. Depois de sua suposta morte, eu apenas... Desejei que o mundo queimasse, nem que para isso eu mesmo ateasse o fogo que o consumiria.

Thomas apertou a mão de Flint, objetivando cessar seu sofrimento. Por fim, olhou seus olhos e replicou:

— Consigo sentir o ódio fumegando violentamente em seus olhos. Não posso imaginar pelo o que passou por esses anos todos...

— Thomas... Eu admito que me tornei algo diferente do que um dia eu já fui. Entretanto, o homem que você conheceu retornou. Eu já não mais preciso alimentar meu ódio ávido pela violência e liberdade imposta. Ao reencontrá-lo, eu reencontrei minha paz. Quero continuar de onde paramos, se for a favor de tais termos.

— Esta será a negociação mais rápida já registrada – e ambos sorriram. Depois de se recomporem, Thomas prosseguiu, com um semblante mais sério. – O que houve com Miranda?

Como temia, Flint novamente mergulhou em silêncio.

— Miranda... Nunca se esqueceu de você. Eu gostaria de dizer que a fiz feliz, mas sabemos que isso não é verdade. Espero que um dia você me perdoe por não ter sido capaz de protegê-la.

— Ela certamente estaria feliz se pudesse nos ver agora.

— Ela sempre foi compreensiva e seu apoio sempre permanecerá em minha memória.

— James... Por que os capatazes o seguraram por tanto tempo? Por um instante, passei a acreditar que você não passasse de uma ilusão.

— A sociedade me separou de você de uma forma muito brutal para não tomar medidas que previnam este acontecimento novamente. Eu garanti que possamos permanecer junto neste resto de existência. Também garanti que qualquer zombaria seja respondida de maneira proporcional.

— Desde quando você se tornou um líder tão bom em barganhar?

— Uma das características que descobri possuir após perder você.

— Ainda posso me referir a você como James McGraw?

— Sempre foi meu nome e sempre o será para você. Adito que não estou satisfeito em viver neste lugar, mas se isto é necessário para passar o resto da minha vida ao seu lado, eu o farei com prazer.

A conversa cessou de uma forma reconfortante. Ambos chegaram à conclusão de que, a partir daquele momento, diante de tudo o que já haviam vivido separadamente, não importavam mais as condições as quais estivessem submetidos, aceitariam a sina que os aguardava.

Graças às negociações de Flint, eles conseguiram um quarto reservado somente para os dois nas instalações próximas ao alojamento, também parte da cortesia que Long John Silver ganhara ao oferecer o temível Capitão Flint.

A intensidade inundou suas atitudes. Foram anos reprimindo angústia, dor, raiva, impotência, perda e saudade. A juventude escapara de seus dedos sem notarem, mas os sentimentos juvenis novamente preencheram seus corações.

Flint ainda exalava um sabor salgado graças aos anos abordo do oceano. Sua pele já não era mais alva como Londres o deixara. Agora, estava queimada não somente pelo sol que ardia em suas viagens, mas também pelas queimaduras que a pólvora lhe proporcionara. Thomas também não mais compartilhava da languidez londrina. O trabalho braçal do campo havia cobrado seu preço. O cansaço do sol proporcionava uma maturidade que agora seria refletida na nova etapa de seu relacionamento.

Suas mãos permaneceram entrelaçadas o tempo todo. Por que era tão errado amar daquela forma intensa e igualmente pura? Por que a batida mais rápida de um coração, um olhar terno e um toque suave foram suficientes para que suas vidas mudassem de maneira tão drástica? Já não importava mais. Flint havia perdido Nassau e sua guerra particular para sempre. Em compensação, reconquistara seu mundo. Seu mundo agora era Thomas, mais uma vez. Todo o ouro, toda a glória e poder: tudo se desmanchava nas areias do tempo.

A única fortaleza que permanecera erguida era aquela que guardava os sentimentos mais profundos por Thomas. E disso, Flint jamais se esqueceria. Havia muitos pecados para serem pagos, mas para um homem que ateou fogo no mundo por ter sido destituído de seu grande amor, existia um perdão de cada vez.

Ele o faria de novo, quantas vezes fossem necessárias, apenas para sentir a maciez do rosto de Thomas outra vez. Sua jornada se encerrou onde começou: envolto em seus braços. Nenhum tesouro jamais foi capaz de se que comparar a esta sensação. E nunca será.

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