X X V
2 Capítulo 2
Notas iniciais
E mais um dia tendo que ouvir o barulho do despertador.
Depois de enrolar mais um pouco embaixo das cobertas e me espreguiçar no mínimo dez vezes, levantei para poder me arrumar para a escola. Meu corpo realmente não estava disposto hoje.
Mas depois de finalmente conseguir me arrumar, peguei a mochila e saí sem pressa, aproveitando aquele tempo nublado. Ele me deixava mais disposta. Bem contraditório, não?
Quando cheguei na escola, logo Bryan veio encher meus ouvidos com novidades desnecessárias. Ás vezes eu ficava esperando pelo dia em que ele iria dizer algo realmente interessante.
— Quais são seus primeiros períodos? — indagou, se aproximando do meu caderno para ver.
— Educação física. — realmente, o dia começou muito bem.
— Ciências. Tchau, idiota. — e saiu rindo da minha cara.
— Mas que babaca. — falei para mim mesma.
Fui para o vestiário feminino para poder me trocar. Eu odiava essa matéria, do fundo do meu coração. Era completamente embaraçoso me trocar na frente de todas aquelas meninas e praticar exercícios na frente de um monte de meninos — 90% idiotas pervertidos. Bufei.
Segui para a quadra, sentando na arquibancada esperando que a aula começasse de verdade. Me distraia com coisas bobas como meus cadarços mal amarrados e o jeito completamente estranho que minhas pernas ficavam naquele minúsculo short. Mas logo essa distração foi interrompida quando vi outra turma — que obviamente não era normal estar aqui — adentrar a quadra.
— Por que a turma do segundo ano está aqui? — perguntei para uma garota perto de mim, da qual falava uma vez ou outra.
— Diz que eles estão sendo obrigados a terem aulas extras porque se comportaram muito mal.
— Isso não é motivo o bastante, acha?
— Não sei, o diretor é maluco. — rimos.
Então voltei a observar as pessoas que entravam pelo portão, até lembrar de quem estudava no segundo ano. Não sei o motivo ao certo, mas fiquei nervosa, desejando que aquela não fosse a turma dele.
Por favor, não seja.
Porém, logo vi seu rosto no meio das pessoas. Jackson sorriu e acenou pra mim. Envergonhada, acenei de volta e escondi meu rosto querendo sumir naquele instante.
Logo, o professor nos chamou para fazer as atividades. Eu já sentia todo o constrangimento que eu iria passar.
Tenso.
Quando comecei a fazer aqueles alongamentos rídiculos, meu olhar foi direcionado para o canto da quadra, onde Jackson e sua "amiga" quase se comiam mais uma vez. Me senti incomodada, mas tentei me concentrar na aula ao invés de ficar encarando os dois fazerem sexo ao vivo. O pior mesmo era que ninguém parecia ver. Que patético.
Quando terminamos nossas atividades, tivemos um tempo para descansar, enquanto a outra turma fazia os exercícios. Observei com atenção os olhares de Jackson para sua "namorada", enquanto ela fazia os alongamentos quase rebolando pra ele. Eu mal conseguia disfarçar minha expressão de desgosto. Jackson quebrou o contato de olhares com ela e olhou pra mim, parecia que estava lendo a minha mente ao sorrir para mim. Logo depois tirou a camisa e voltou a jogar. Fiquei vermelha como um tomate, e me segurei para não encarar demais. Ele não tinha tanquinho ou qualquer coisa assim, mas sua barriga era atraente para mim. Oh, céus.
Logo que saí daquela aula, Bryan veio correndo e me disse que tinha que contar algo sério para mim no final da aula. Estranhei, mas não dei muita bola, até porque, ele só falava besteiras. O tempo todo. Então seria mais coerente — seria? — ficar pensando em Jackson sem camisa.
O tempo passou se arrastando, o dia fora longo mas por fim eu pude sair daquela sala de aula e saber logo o que havia acontecido. Vamos lá ouvir mais uma bobagem do Bryan.
— Até que enfim. — apareceu do além, como de costume. — Vem, não posso falar aqui.
— Ok...
Fomos para a rua e sentamos em baixo de uma grande árvore um pouco afastada da escola. Olhei-o para o incentivar a falar de uma vez.
— Olha, só não me bate, ta bem? — suspirou. — Lembra que uma vez eu disse que estava em dúvida sobre minha orientação sexual?
— Sim, eu lembro.
— Então. Eu estava certo. Caramba Kess, tô gostando de um garoto.
— Que? — fiquei boquiaberta como uma idiota.
— Mas calma, tem mais. Ele não é hétero, eu tenho certeza disso. E mais, ele é amigo do seu novo amiguinho.
— O Jackson?
— Vou saber se esse é o nome dele. Só sei que você precisa me ajudar.
— Ah, claro, e eu vou fazer o que? — ri de leve.
— Você é amiga desse Jackson, caramba! Tenta fazer com que o amigo dele se aproxime de mim.
— Como diabos eu vou fazer isso, Bryan?
— Dá seu jeito, querida. — sorriu e levantou-se, sem me esperar. — E seja rápida!
E me deixou ali.
Mas o que diabos aconteceu?
UMA SEMANA.
Já era noite e eu estava há duas horas no meu quarto fazendo um trabalho imenso de história. Ás vezes, tentar ser a melhor aluna era extremamente cansativo. Gostaria de fugir por alguns minutos.
Parei de digitar por alguns momentos, ao ouvir batidinhas na minha janela. Franzi o cenho e levantei-me, indo até ela e abrindo-a. Tinha alguém lá embaixo, jogando pedrinhas — algumas por pouco não pegaram no meu rosto.
— Ops. — ouvi sua risada. Jackson.
— O que está fazendo aí? — sussurrei. Era tarde.
— Queria conversar com você. Tá ocupada?
Não pensei por um minuto sequer em dizer o contrário.
— Desce aqui. — ele sorriu.
Olhei-o por um segundo a mais e saí da janela, pegando o casaco em minha cama e saindo do quarto silenciosamente. Quando passei pela porta, Jackson já estava ali. Sorrindo, como sempre.
— Olá, nerd.
— Olá, Jackson. — sorri.
Fomos nos deitar no gramado, para observar as estrelas enquanto conversávamos.
— Desculpe por não ter ido falar com você hoje.
— Ah, sem problemas. — sorri de leve, mesmo que ele não estivesse vendo.
— Na verdade, vim aqui mais pra te fazer um convite.
— Convite? — virei o rosto para poder olhá-lo.
— Sim. Essa sexta vai ter uma festa na casa de um amigo, estava pensando se não gostaria de vir. — sorriu para mim.
— Ah...
— Por favor... não me faça implorar. — riu. — É só uma festa, sei que disse que não se da bem com festas, mas se não gostar posso te trazer de volta pra casa. Combinado?
Voltei a olhar para as estrelas e pensei por alguns minutos. Suspirei.
— Combinado.
— Obrigado. — sentou-se, sorrindo. — Eu venho te buscar, ok?
— Ok.
— Ah, aqui está meu número, se precisar de alguma coisa. — entregou-me um papel amassado. — Eu vou indo agora. Amanhã nos falamos.
— Até amanhã. — sorri.
— Boa noite, nerd. — e se foi.
Voltei a me atirar no gramado e suspirei, pensando na besteira que acabei de fazer. Aceitar um convite para uma festa? Parabéns Kess, você comprou seu ingresso para o mais novo momento mais constrangedor da sua vida. O jeito era tentar me conformar, porque já era tarde para voltar atrás. Entrei para dentro e tratei de terminar aquele trabalho, não parando de pensar na burrada que acabara de fazer.
Sou idiota.
SEXTA.
Esses dias passaram tão rápido que eu mal pude me acostumar com a ideia de que eu iria para uma festa. Bryan não parou de me encher o saco um segundo sequer, implorando para que pudesse ir também. Falei com Jackson sobre isso, ele não pareceu gostar muito, mas não recusou. Bom, pelo menos eu não estaria largada sozinha na multidão de bêbados. Eu espero.
Nesses dias que se passaram acabei criando uma certa "intimidade" com Jackson, acabamos nos falando muito por mensagens, e todos os dias ele estava no terraço da escola, porém muitas das vezes estava acompanhado, o que me impedia de ter alguma conversa com ele. Mas tudo bem, porque compensávamos isso com várias mensagens de texto. Sinto que ganhei um amigo.
Logo depois de acabar a aula, sequer esperei, saí correndo escadaria acima até chegar ao terraço. E lá estava ele, finalmente sozinho.
— Oi, nerd. — ele sorria alegre para mim.
— Oi. — sorri de volta.
— Como foi a aula?
— Legal.
— É incrível sua capacidade de ser nerd, sabia? — ele riu e eu o empurrei, rindo junto. — Está ansiosa?
— Nervosa seria a palavra certa.
— Não precisa ficar. — falava enquanto pegava um cigarro. Tentei não fazer expressões desagradáveis.
— Preciso sim, nunca fui em uma festa de verdade, Jackson. É estranho.
— É algo novo, não estranho. Vai gostar. — sorriu enquanto jogava a fumaça para o lado contrário do meu.
— Eu espero. — suspirei.
Então a noite chegou, e meu nervosismo só aumentava há cada segundo sentada naquela cama, esperando que Jackson viesse me buscar. Logo ouvi a buzina, meu coração parecia querer explodir. Era normal ficar tão nervosa assim por conta de uma simples festa? Não, não era. Mas quem disse que eu era completamente normal?
Levantei-me e respirei fundo, desejando que aquilo tudo passasse tão rápido que eu mal percesse.
Por favor.
Desci as escadas e saí para a rua, vendo Jackson encostado no carro, sorrindo levemente. Ao me aproximar, ele abriu a porta para mim, sorrindo, mas sem dizer nada. Também não ousei dizer nem uma palavra, aquilo tudo não estava sendo muito confortável para mim. Jackson acelerou e não muito depois, parou em frente a uma casa, da qual não me parecia ser o local da festa.
Logo percebi o porquê.
— Oi, linda. — ele disse enquanto a garota fazia a volta no carro para poder sentar no banco do passageiro. Fala sério.
Ela sequer disse alguma coisa, já chegou o beijando e indo para cima dele, quase que ignorando minha presença ali — ou talvez nem estivesse ignorando, mas simplesmente não se importando. Começamos a noite maravilhosamente, não é mesmo?
— Quem é essa? — ela perguntou quando finalmente se deu conta de que tinha uma espectadora para seu showzinho ridículo.
— Kess. A nerd. — Jackson sorriu para mim.
— Que idiotice, Jack. — bufou, virando o rosto para o lado contrário de Jackson. — Agora você sai por aí fazendo amizade com qualquer nerd estúpida?
— Ela não é uma nerd estúpida, Samara.
— Tanto faz.
Não disse que a noite tinha começado maravilhosamente?
Depois de alguns minutos com aquele clima tenso e estranho dentro do carro, chegamos por fim, na maldita festa. Só de ouvir aquela música já sentia vontade de sair correndo e não voltar mais. Inventar qualquer coisa só para poder ir para casa, mas sou péssima com mentiras e qualquer coisa que eu tente inventar seria rídiculo demais para alguém inteligente como Jackson cair. Resumo; estou ferrada.
Logo que entramos na casa, Jackson me largou e foi se divertir com sua namorada idiota, enquanto eu fiquei ali, sem saber o que fazer no meio daquele bando de pessoas bêbadas e drogadas. Droga, por que eu fui aceitar esse convite?
Até mesmo Bryan me abandonou, consegui achá-lo entre a multidão mas o idiota me ignorou completamente e foi correndo atrás daquele garoto que ele gostava. Sem ter muito o que fazer, sentei no sofá da sala tentando ignorar as pessoas em volta todas enlouquecidas. Primeira pior festa de todos os tempos. E por incrível que pareça, conseguiu piorar.
Perto das escadas, Jackson e Samara estavam pela terceira vez vista por mim, praticamente se comendo na frente de todos. Quando observei mais, Samara estava passando sua mão lá em baixo nele, enquanto sorria. Ele sorriu de volta e voltou a beijá-la, e ao parar, os dois subiram as escadas e minha imaginação tratou de terminar aquilo por eles. Mas que droga.
Realmente não teve como disfarçar minha expressão de desgosto enquanto ainda continuava olhando para o lugar onde os dois estavam segundos atrás. Eu senti minha bochecha arder, sabe se lá porque. Apenas levantei e tentei passar por entre as pessoas, sendo um pouco agressiva ao empurrá-las, mas elas nem ligavam. Eu também não ligava. Só queria sair dali, aquela festa não durou nem quinze minutos para mim e já ganhou o prêmio de pior festa da minha vida. Foi muita idiotice minha achar que seria no mínimo divertida.
Ao voltar para casa, tive que ir a pé, e eu sequer sabia o caminho direito. Foi difícil me encontrar, mas ao chegar, jurei para mim mesma que não aceitaria mais nenhum convite para festas.
Nunca mais.
Acordei tão mal que parecia até que eu havia aproveitado aquela festa ao máximo. Pois é, não foi dessa vez.
Levantei, sem realmente querer, e me vesti como qualquer mendinga só para não ficar de pijama. Antes que conseguisse descer para tomar café, ouvi batidinhas na minha janela novamente. Seria ele de novo...?
Nem precisei abrir a janela. Vi Jackson lá embaixo, gesticulando para que eu descesse. No fundo eu não queria falar com ele, de certa forma estava chateada, mas além de idiota, sou boazinha, então não tive como recusar. Desci e saí para a rua, o vendo sentar em baixo de uma árvore — isso era algum costume bizarro ou algo assim?
Sentei-me ao seu lado.
— O que houve com você ontem? — ele indagou, sem olhar para mim, apenas arrancando algumas gramas do chão.
— Eu disse que não me dava bem com festas. — passei a fazer a mesma coisa que ele com as gramas.
— Ah... Me desculpe por ter te abandonado lá. — ele parecia triste. — Eu te levei pra festa e te deixei lá, desculpe.
— Não, tudo bem. Não se preocupe. — sorri. — Você está bem?
— Talvez.
— Talvez?
— É, talvez...
— O que houve? — virei-me para ele. Jackson estava de cabeça baixa e não parava de arrancar aquelas gramas.
— Eu meio que terminei com a Samara.
— Oh... — era errado eu não ficar triste por isso? — Mas por quê?
— Sabe, por mais que nosso relacionamento fosse apenas sexo, tínhamos alguma coisa, entende? — ele finalmente olhou para mim. — E por mais que aos olhos dos outros ela estivesse comigo, ela estava por aí transando com um monte de outros caras. Eu cansei disso.
— Entendi...
— Eu... no fundo eu quero uma garota que seja só minha, sabe? É tão idiota querer isso?
— Não. — voltei a me encostar na árvore, sem olhá-lo. — Não é.
— Acha que ainda posso encontrar?
— Claro que pode. — pude ver de relance ele sorrir.
— Obrigado.
— Pelo quê?
— Você é uma boa amiga, nerd. — sorriu me puxando para si, fazendo com que eu encostasse minha cabeça em seu ombro. Lá vai minhas bochechas ficarem quentes como o inferno.
A tarde se passou assim, eu com a cabeça encostada no ombro de Jackson enquanto ele contava algumas coisas sobre ele para mim. Gostava de ouvir ele falando, era, por algum motivo, reconfortante. E ele não falava tanto, muitos momentos ficamos apenas ouvindo o som dos passarinhos sem saber o que dizer. Mas mesmo quando não falávamos nada, eu gostava, eu me sentia bem.
Acho que é isso afinal.
Acho que gosto de você, Jackson.
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