Wrong Choices
3 Capítulo 3
Notas iniciais
01/04
Daniel On
Estava um dia calmo em Marataízes. As pessoas passavam na rua cumprimentando umas às outras, os surfistas nas praias, os adolescentes em alguma festa de final de férias e as demais casas em total silêncio. Exceto a minha, que parecia vibrar a cada solo de guitarra vindo da minha mais nova caixa de som localizada no canto do meu quarto, ao lado do meu computador.
Começou a tocar Panic! At The Disco, e eu obviamente comecei a acompanhar enquanto tocava minha guitarra imaginária.
{Yes, but what a shame, what a shame, the poor groom's bride is a whore. ...}
Deixei chegar no refrão antes de colocar um de meus pés sobre a cadeira de rodinhas do computador e começar a girar na mesma enquanto cantava a plenos pulmões.
— I'd chime in with a... — cantei com os braços para cima como se estivesse em um verdadeiro show.
Continuei cantando, mas como alegria de pobre dura pouco, ouvi meu pai esmurrar a porta.
— Daniel — ele gritou enquanto chutava a porta — Abaixa essa porra, ou você quer que os vizinhos liguem pra polícia de novo?!
Aumentei mais ainda.
— Daniel — disse chutando a porta novamente, mas após não obter sucesso parou, pensei que me deixaria em paz, foi quando o idiota soltou o que mais me irritava, e o que usou para me azucrinar as férias inteiras.
— Quer saber, foda-se, foi justamente por esse comportamento que não te aceitaram no colégio militar — no jeito que ele falava era perceptível seu sorriso — Eu vou sair, não me espere acordado.
Eu iria embora no dia seguinte e ele nem fazia questão de passar os últimos minutos comigo, nem que fosse na mesma casa que eu, mas dane-se...
Não é como se a convivência com meu pai sempre tivesse sido assim, quando eu era pequeno, nos dávamos bem, éramos realmente pai e filho, mas ele passou a comer minha prima, se divorciou de minha mãe e fez questão de não nos deixar nada, mas mesmo assim minha mãe fez questão de manter uma boa imagem sobre seu ex-marido para os filhos, talvez por isso, não consiga odiá-lo, mas faço questão de culpa-lo por não poder viver com minha mãe hoje em dia.
Se lembra quando eu disse que ele fez questão de não nos deixar nada, minha mãe se desesperou, o país não estava em crise na época, mas isso não queria dizer que arrumar emprego era fácil, ela não conseguiu, foi quando uma brilhante ideia passou a rondá-la, se ela fosse presa eu teria que passar a morar com a minha avó, já que meu pai não queria a guarda dos filhos, e a mesma receberia um salário mínimo para nos criar. E foi isso que aconteceu, minha mãe foi presa para que eu e meu irmão tivéssemos o que comer, meu pai é um idiota que só me procurou quando pensou que eu poderia lhe servir de alguma coisa seguindo sua carreira no exército, e eu não passo de um bebê chorão criado pelos avós que por alguma razão necessita ser aceito pelo pai.
~.~
No dia seguinte acordei cedo, meu pai estava jogado no sofá, completamente bêbado, deixei-o um recado "agradecendo" a estadia, peguei o dinheiro trocado que ele havia me deixado para pagar o ônibus, junto estava um bilhete, que li durante a viagem. A letra garranchada e apresada deixava tudo mais a cara do velho.
"Por que você vai embora? Para que você possa voltar. Para que você possa ver o lugar de onde veio com novos olhos e cores extras. E as pessoas de lá te verem de forma diferente, também. Voltar ao ponto de partida não é o mesmo que nunca ter saído."
Não sei se aquele texto, obviamente retirado da internet, me dava esperança de algum dia meu pai ser o homem que eu tanto desejava ou se era só mais uma prova de que ele não possuía amor suficiente por mim nem mesmo para escrever uma simples mensagem que fosse realmente dele.
Encostei minha cabeça na janela do ônibus e comecei a dormir.
~.~
Sentia alguém me balançar levemente, como se quisesse me acordar, mas preferi ignorar.
— Hey, garoto – a pessoa continuava a me balançar – acorda carinha.
— Tavares, da logo um sacode no garoto, é óbvio que ele tá de fingimento.
Resolvi abrir os olhos e não tive a melhor visão do mundo, geralmente garotos de 15 anos esperam ser acordados por mulheres bonitas e bem dotadas os convidando para uma jornada épica, eu só fui acordado pela polícia, que parecia fazer uma revista no ônibus, muitos passageiro estavam nos encarando.
— Oi, oi, to acordado – respondi grogue e um pouco desengonçado, me levantado logo para que me revistassem e a viajem pudesse continuar.
— Viu Tavares, é obvio que o muleke ta chapado. – acusava o policial que estava mais atrás.
— Só se for chapado de sono né Consuelo. Bora garoto
O homem me levou até as escadas de saída do ônibus e começou a me revistar, enquanto o tal Consuelo revistava as minhas malas, e a todo momento parava de examinar os meus pertences para me lançar um olhar de poucos amigos.
Terminada a revista veio a pior parte,enquanto o outro policial já havia saído do ônibus, Consuelo esperava que eu chegasse ao meu lugar, apenas para me dar um cascudo e proferir as palavras que todo garoto com a cor de pele mais escura já teve que ouvir nessa vida.
— Ná próxima eu te pego, trombadinha.
Preferi voltar a dormir, ignorando os olhares alheios e fingindo que tudo não passará de um sonho ruim. Precisava estar bem quando chegasse em casa, minha aulas já começavam no dia seguinte,e eu tinha certeza que eu não conseguiria dormirem casa.
Dito e feito, assim que cheguei na rodoviária do centro da cidade, meu irmão mais velho e a sua namorada me esperavam ansiosamente em frente ao carro. Assim que Lizzie me viu saiu correndo ao meu encontro, enquanto Miguel caminhava pacientemente e sorrindo até nos dois. Assim que entramos no carro percebi os enfeites de festa mal escondidos no porta-malas, e o fiasco da festa surpresa quando chegamos em casa, já que praticamente nada estava pronto. Lizzie fingia chorar enquanto desferia soquinhos nos garotos que riam da desgraça que aquela festa estava sendo.
No fim tudo foi extremamente divertido, curtimos até umas quatro da manhã, todos bebiam, mas como eu era o mais novo curtiam ficar me impedindo de beber, mas Lizzie como o amorzinho de pessoa que era sempre conseguia me dar um pouco de álcool as escondidas.
Naquela noite antes de dormir, pude ver Miguel e Lizzie deitados na varanda, completamente bêbados, sorri, eles realmente mereciam o relacionamento maravilhoso que tinham depois de tudo que foram obrigados a passar. Dei um beijo em meus avós e fui dormir pelas últimas três horas paz que eu iria ter em minha vida.
Fale com o autor