Written Memories
4 Capítulo 4
Rondei o local com meus olhos e para minha surpresa não consegui encontrar o paciente! Pedi uma vela e, o enfermeiro e eu, entramos no quarto, rodamos com a vela por todo o lugar. Sem sinal do paciente. Eu estava a ponto de gritar por ajuda, estava tenso. Suava frio, minha visão tremia. Como um paciente poderia desaparecer assim? Era impossível. Meu terror e meus pensamentos ativaram meu cérebro mais e mais, até que a adrenalina tomou conta de meu corpo e mesmo naquela fraca luz que a vela oferecia eu podia ver tudo da melhor forma possível. Vi um traço de penas esbranquiçadas que havíamos deixado passar, junto um pouco de sangue. Tudo indo em direção à cama. Por um momento tudo ficou tão claro que fiquei decepcionado comigo mesmo. Fiz um sinal para que o enfermeiro me seguisse, andamos até a cama (Oh como fui tolo), e lentamente a empurramos. Como já esperava, encontramos o corpo do Sr. Henry. Rapidamente nós o pegamos e levantamos, o enfermeiro segurou o corpo enquanto eu analisava-o. Sua pele tinha um tom esverdeado, suas pupilas estavam levemente dilatadas, suava bastante, e suas orbitas giravam quase que freneticamente. Coloquei minha mão no peito dele, constatando o que já esperava batimentos acelerados. Reconheci um impulso que o corpo do paciente havia dado, e saltei para trás. Saltei a tempo de evitar ser atingido pelo vomito do paciente, que em seguida desmaiou. Olhei rapidamente para o chão e me espantei. Jaziam nele um liquido esverdeado, junto de um corpo desfalecido, sem algumas partes da pele e com um bico corroído por ácidos estomacais, que ainda apresentava contrações pós-morte, indicando a morte recente. Reconheci o animal em questão e tudo se encaixou em minha mente. Henry Stantdford havia comido todos os pássaros que havia recolhido nos últimos dias, vivos.
Notamos que a situação necessitava de procedimentos rápidos, então dispensamos o tempo que teríamos que aguardar por uma maca, nós usamos o colchão da cama como maca improvisada e partimos para os fundos do prédio, onde havia um pequeno centro cirúrgico. Como tem que se passar por praticamente todo o centro para se chegar ao local, atraímos bastante atenção. Logo, um pouco antes de chegar ao centro cirúrgico, mais três enfermeiros e uma freira nos seguiam. Com um chute de direita um dos enfermeiros abriu a porta trancada do centro cirúrgico, ignorando os pedidos da freira para que esperássemos ela pegar as chaves. Entramos no local e deixei outro enfermeiro levar a maca para um quarto especifico. Entrei rapidamente no banheiro do local e me preparei, lavando rosto, mãos e colocando os devidos trajes apropriados para a situação. Iria remover aqueles pássaros cirurgicamente. Os enfermeiros seguiram como lhes bem foi explicado, o procedimento numero 6657. Cirurgia emergencial. Procedimentos rápidos e eficientes. Em cerca de dois minutos fui chamado no banheiro onde me preparava, coloquei minha máscara branca e fui até o quarto dois do pequeno centro e encontrei o paciente deitado em uma maca cirúrgica, alguns enfermeiros estavam em volta e em poucos segundos pensei no procedimento cirúrgico que tomaríamos. Na verdade, acho que necessitei de mais do que alguns segundos para tomar essa decisão, me lembro de ter decidido a retirada manual dos corpos longos, termo medico utilizado para corpos de grande porte que ficam presos em alguma parte do aparelho digestivo. Após ver o paciente deitado e ter tomado minha decisão, que informei imediatamente aos enfermeiros presentes, pedi que um dos enfermeiros aplicasse a anestesia geral, que em poucos segundos levou nosso paciente à inconsciência. Comecei então com a laparoscopia, pedi para que, os enfermeiros, virassem um pouco o corpo, mantendo-o de barriga para cima e com um bisturi, de cabo três e lamina dez, fiz uma incisão no corpo. Comecei a incisão partindo dá região de três dedos acima do umbigo, exatamente abaixo das costelas falsas, fiz um corte longo, para que pudéssemos facilmente retirar os pássaros de dentro do corpo. Lembro-me exatamente como foi o momento da incisão, as lâmpadas já desgastadas do local às vezes falhavam e só me restava confiar em meus sentidos. A freira (Que insistira em vir ver a cirurgia) acabara desmaiando no momento em que eu começara a incisão, e como conseqüência, perdemos um de nossos enfermeiros que se vira forçado a cuidar dela. Mantive a mão firme, enquanto uma quantidade relativamente grande de sangue banhava minhas mãos. Terminara incisão, minhas luvas estavam banhadas de sangue e minha testa soava, eu havia feito muitas poucas cirurgias em minha vida. Continuei com a cirurgia e pedi um afastador cirúrgico Farabeuf de 13 mm, que um enfermeiro, que não prestei atenção em quem era, utilizou para separar a pele, criando uma abertura e deixando o estomago e diafragma visíveis. Continuei fazendo uma incisão longa no estomago, fui capaz de ver tudo que havia dentro e utilizei o máximo de minhas forças para me segurar em pé. Seis pássaros encontravam-se amontoados no espaço do estomago, enchendo-o por completo. As aves já não apresentavam mais as penas e algumas nem mesmo apresentavam pele, corroída pelo suco gástrico. Um enfermeiro me entregara uma pinça cirúrgica de tamanho grande, seria perfeita para extrair os corpos. Retirei os corpos um a um, lembro-me de cada corpo que retirei. O primeiro corpo havia perdido completamente a pele e parte do músculo da barriga, devido a isso, metade de seu intestino encontrava-se para fora do corpo. O segundo havia perdido o bico e os olhos, a pele tinha se mantido intacta, a não ser a da cabeça, que havia sido completamente corroída, restando apenas o osso do crânio, provavelmente somente sua cabeça havia tocado o acido estomacal. O terceiro e quarto corpos estavam apenas com parte da pele destruída, enquanto o quinto havia perdido o bico e o sexto as asas, que a essa hora já deviam estar no intestino e para evitar complicações, resolvemos não tentar retirar esses pedaços de corpos. Fiz calmamente a sutura do estomago, felizmente sempre fui bom em suturar afinal sempre costurava as feridas abertas de meus amigos “aventureiros”. Após fazer aquela sutura, utilizei as pinças para juntar a pele do abdômen do paciente e deixei-a na mão de um dos enfermeiros, após isso peguei uma agulha e a linha e principiei a sutura, me lembro do ziguezague da agulha na pele, percorrendo como uma cobra na espreita de sua presa. Rapidamente terminei a sutura e chequei-a para ter certeza se tudo havia ocorrido bem. Segundos depois, retirei a mascara e disse para meus colegas que a operação havia sido um sucesso e agora era só esperar o paciente se recuperar. Concordamos que para o bem do paciente seria melhor mantê-lo em um quarto do prédio principal, mantendo-o inconsciente por meio de soníferos intravenosos. Decidimos que pararíamos com os soníferos após a pele se cicatrizar. Escrevo isso hoje ao lado dele, enquanto o vejo dormir, acho que só vou escrever nesse diário quando ele acordar, portanto provavelmente vou demorar a voltar escrever. Acho melhor partir e ir dormir.
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