20 de fevereiro, 15:45.

Depois de afastar meus lábios dos dele, mas ainda segurando seu rosto, senti transbordar dentro de mim um amor que eu nunca sentira antes por ninguém. Estranho, inédito, assustador, mas ainda assim, era como ópio para mim. Proibido, ilícito, mau, mas sagrado. Paradoxal, não? Nosso amor era. Eu podia ver gratidão naqueles olhos castanhos, por eu tê-lo afastado de tudo que o fazia mal.

Meses passaram, e meu amor por ele crescera a ponto de eu achar que todas as estrelas do Universo explodiriam no meu peito de uma só vez a cada momento que eu passava ao lado dele. Acho que palavra nenhuma explicava o arraial de borboletas que eu sentia voando em círculos no meu estômago a cada vez que ele me beijava. Era um ciclo vicioso; acordar, estudar, falar com ele, beijá-lo, niná-lo, comer, dormir. Todo dia, durante nove meses.

E então, veio o inverno. Eu não notara mudança alguma no comportamento dele; sempre atencioso, me dando o habitual carinho, dando um beijo na minha testa a cada vez que eu apoiava a cabeça no ombro dele, deixando eu usar seu casaco. Mas também não entendia o porquê de terem chegado esses tempos frios entre nós, e por quê eles vieram tão cedo. Ele era um cristal que servia de prisma, refletindo todo o lado de luz que o mundo proporcionava. Nem seus defeitos me pareciam tão alarmantes assim, mas tempos depois, eu consegui notar que aquilo tudo era sintoma da paixão arrebatadora que eu alimentava por ele.

Percebi que ele não era tão perfeito assim. Fui percebendo suas falhas, cada detalhe desfavorável, mas não que isso diminuísse a minha vontade de protegê-lo e tê-lo só para mim. Às vezes, eu me olhava no espelho e tentava achar o que ele vira em mim. Mas tudo que eu conseguia ver era uma capa, uma máscara de mulher, mórbida e fulminantemente apaixonada, uma máscara que cobria tudo que eu verdadeiramente era. E secretamente, aquilo começou a me deixar desconfortável.

O cristal foi exposto a condições impossíveis. E, como tudo que é finito, se quebrou.

15 de julho, 19:45.

— Por que está tão quieto?

Em silêncio, Brent levantou a cabeça. Ele estava com a boca entreaberta, e parecia tremer. Antes que eu continuasse a indagá-lo acerca de seu estranho silêncio, ele pulou da minha cama e num só fôlego, disse o que não deveria ter dito.

— Eu estou pedindo que você vá embora.

Senti como se um golpe de espada dupla tivesse me atingido na boca do estômago, e minhas pernas falharam. Atônita, me sentei na cama.

— O quê? – sussurrei, sentindo as lágrimas virem num rompante, descendo descontroladas pelo meu rosto.

— Já chega, Maya. – disse ele, instantaneamente ríspido. Virou-se para mim, e no rosto dele, eu pude ver que ele assumira uma fisionomia dura, ferida, porém impassível. – Foi o ápice. O limite.

Eu gritei. Um grito estridente, rasgado, enquanto meu coração parecia se quebrar em mil pedaços. Eu me joguei para trás, caindo entre os travesseiros e as almofadas. As cortinas erguidas do meu dossel impediram que eu o visse totalmente; tudo que eu enxergava era a silhueta de um homem curvado sobre os joelhos, e que parecia chorar.

Soluçando, o expulsei do meu quarto a gritos. Joguei um vaso de vidro, com flores que ele mesmo havia me dado, na direção dele enquanto ele descia as escadas. Não sei se o atingiu. No andar de baixo, na sala de estar, pude ouvi-lo lamentando o ocorrido. Certamente estava tentando se justificar, ou estava sendo socorrido por algum ferimento causado pelo arremesso de vaso livre que eu fiz. Ouvi a voz preocupada da minha mãe, a voz grave do meu pai abafada pelos gritos de explicação de Brent, que berrava meu nome.

Ouvi batidas na porta. Abri-a. Aidan estava parado, apoiado no batente da porta, sério. Eu não disse nada; apenas o puxei para um abraço, e deixei que o restante das lágrimas levasse um pouco do choque inicial e da dor embora. A camisa dele ficou molhada com meu pranto, enquanto ele tentava argumentar sobre as possíveis causas do abandono que sofri.

Dias se passaram e eu não consegui engolir o fato de não acordar mais ao lado de Brent. De não apertar suas bochechas, nem de beijar seu rosto em momentos aleatórios. Não haveriam mais conversas e debates sobre Guerra Fria, Independência do Brasil. Não haveria mais quem atendesse prontamente ao meu chamado, quem me acalmasse antes das provas, que me acompanhasse para onde quer que eu fosse sem objetar. Não mais.

26 de julho, 06:05.

Milhões de perguntas colidiam na minha cabeça enquanto eu estava sentada no balcão da cozinha, quase catatônica, comendo cereal de chocolate de manhã, antes de sair. Minha cabeça não parava de girar um só minuto, o que não me deixava dormir, e consequentemente, isso se manifestava na demonstração de um comportamento totalmente estoico, e assustador para as pessoas que me conheciam, e sabiam que eu não era assim. Era absurdo, eu sabia que estava agindo como um zumbi. Mas simplesmente não conseguia sair daquele estágio.

E a culpa disso não era minha.

Por onde devo começar a explicar para quem quer que pergunte? Em ordem cronológica, talvez. Mas não que eu queira expor esse fato; daria muito trabalho, e certamente muita dor, traçar um caminho que cruzava toda a trajetória de duas pessoas que em dezembro aparentavam se amar intensamente, se amar como se o mundo fosse acabar no instante seguinte, e em julho, tudo que restou entre elas era mágoa subliminar, porém explícita, e uma linha tênue que os separava da guerra e da morte. Não digo isso metaforicamente. Então, concluí que me recolher à própria dor soava muito mais cômodo, e mais barato. Agir como um poeta parnasiano às vezes é muito conveniente.

No entanto, não era como se eu não quisesse compartilhar a avalanche de merda que me atingiu com alguém. Eu queria falar para alguém próximo, como Ruby, Erin, Serena ou Violet. Mas elas não estavam aqui, elas não sabiam ainda do que estava acontecendo. Pelo menos, eu achava que não – alguém certamente já deve ter me delatado no jornal da cidade.

Sentei-me no banco do passageiro do carro, encarando as gotas de chuva que atravessavam a janela de vidro preto. Duas gotinhas pequenas cortavam o vidro verticalmente, e aquilo chamou minha atenção. Uma das gotas chegou primeiro à borda da janela, enquanto outra ainda deslizava. É, isso não tem nada a ver. É só que eu via arte em tudo; até onde ela não existia. E se ela não existia, ali, eu a criava.

Uma trovoada me fez levantar, sobressaltada. Bati a cabeça no teto do carro, e xinguei. A tempestade, que dera trégua, voltara a cair, impetuosa. Xinguei mais uma vez, irritada. Eu estava na rua, presa em um engarrafamento, e os céus simplesmente resolveram mandar um dilúvio a fim de testar a minha capacidade de não mandar um desconhecido ir para a casa de certos elementos.

Olhei meu reflexo no espelho. Eu estava horrível. Mais magra, pálida, cadavérica. E era tudo culpa dele. Tudo. Eu queria passar as clavículas que saltavam do meu tórax bem diante dos olhos dele, e culpá-lo impetuosamente, sem nenhum tipo de culpa ou remorso, pelo estrago que ele sabe que fez, ainda que não admita isso.

O milésimo de impassibilidade com que eu levava minha vida me permitia refletir que talvez ele ache que não tem culpa, ou que eu tenho tanto a pagar quanto ele. Mas aquele desgraçado do Brent, possivelmente, deve dormir com amargura agora, isso se consegue dormir, pois bem dizem as más línguas – vulgarmente conhecidas como Violet Caroline Hampton e Florence Helena Evelyn Edwards – que ele ligou para o meu irmão chorando, pedindo pelo amor de Deus para que o deixassem falar comigo. Obviamente, e como era de se esperar que fosse feito, Aidan não deixou que ele tocasse em mim. Ainda bem.

No jantar de Ação de Graças, Aidan teve a audácia de convidá-lo. Eu estava prestes a dar a primeira garfada no arroz da minha mãe quando ele invadiu a minha sala de jantar, arrumado, e com a maior das caras de pau. Eu olhei para ele e mexi os lábios na direção dele, sussurrando um “Eu vou trucidar você” cheio de ódio.

Me levantei num ímpeto quando ele se sentou, pasmem, numa cadeira vazia exatamente diante de mim. Estarrecida, observei-o sorrir discretamente para mim e erguer a taça de vinho.

— Que absurdo! – gritei. Toda a mesa ficou em silêncio. Ruby, minha melhor amiga ruiva, se encolheu na cadeira, assustada e constrangida. – Como você se atreve a vir até a minha casa, seu rato imundo?

— Maya! – advertiu minha mãe. Meu pai riu discretamente, esfregando as mãos. Aidan estava vermelho, e eu o encarei com um olhar furioso.

Brent estava perplexo, me olhando com os olhos arregalados. Colérica, eu fechei as mãos em punho e as apoiei ruidosamente na mesa. Os talheres tilintaram.

— Não acredito que fui traída dessa forma – continuei a gritar, enraivecida de uma tal forma que nem eu mesma estava me reconhecendo. – Como se atrevem a convidar essa cria de nematelminto a ficar no mesmo espaço que eu?

Ouvi risadas. Inapropriadas, por sinal. Ajeitei as pulseiras e me levantei.

— Brent é meu amigo há anos – argumentou Aidan. – Eu achei que pudesse convid...

— De que lado você está? – interrompi, com a voz aguda. Me virando para Brent, estreitei os olhos e baixei a voz.

— Olhe aqui- falei, me inclinando na direção dele. – Se você não sair das minhas propriedades num espaço de quatro minutos, saio eu.

— Incrível como você é dramática, Maya. – disse ele, se aproximando de mim. Senti vontade de enforcá-lo. Eu odiava quando alguém mencionava meu nome do meio. – Deve ser por isso que interpretou Cleópatra tantas vezes na escola, até ninguém aguentar mais.

— Eu te odeio. – sibilei, escorrendo veneno.

— Não foi isso que você me disse enquanto arranhava minhas costas, naquela...

Interrompi-o com um tapa. Um tapa dado com a mão que escrevo, que deixou o rosto de Brent vermelho e um pouco inchado.

— Sua... – sussurrou ele. – Pare de achar que o mundo gira em torno de você. Que as pessoas são suas súditas. Seu trono só existe na sua cabeça.

Dei outro tapa nele.

— Pelo menos, eu tenho um – respondi, sorrindo ironicamente.

Brent se levantou num impulso e eu recuei, pensando que ele fosse me bater.

O tapa não veio. Tudo que eu vi foi o homem que um dia eu amei profundamente diante de mim com vontade de me matar. Virei as costas e saí correndo, descalça, pelo enorme jardim. Brent vinha atrás de mim, seu rosto iluminado pelas lâmpadas azuis assumindo uma posição sombria, predatória, animalesca.

— Você não me odeia – gritou ele, atrás de mim. – Apenas está nervosinha porque eu não me submeti aos seus caprichos.

— Ralé! – grunhi, possessa.

— Supere – rebateu ele. – Volte a ser aquela moça linda que eu amei um dia. Eu te amei, Maya Nicole. Eu te amei muito. Você não tem a mínima ideia do quanto. Eu ainda te amo, eu só estou cansado. Mas você mal me deixa falar, explicar.

— Não se dê ao trabalho de decodificar seu egoísmo – retruquei, virando-me para ele.

— Perdoe – sussurrou Brent, fraquejando. Eu podia ver dor e remorso naqueles olhos castanhos, ou talvez eles fossem apenas um reflexo dos meus.

— Você se lembra da criança que eu costumava ser? – falei. – Eu não sou Jesus, Brent Bellamy. Eu não vou te perdoar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!