Wrestling & Romance
6 Capítulo 6: OutRun no Shopping
Eu e Nicole voltamos correndo até onde seus amigos estavam nadando, e pra começar bem o resto da manhã, já somos recepcionados por indiretas não tão indiretas assim.
—Os pombinhos voltaram finalmente, né – Beatriz começa
—E pelo tempo que levaram, daqui a nove meses teremos um Junior andando entre nós – Erick emenda
—Erick... Você tá pedindo pra apanhar – Meu tom não era brincalhão como o deles.
—E nós não somos pombinhos – Nicole diz, e cara, essa doeu em mim.
—Verdade... — Lara concorda com Nicole – O Diego é bobo demais pra perceber qualquer coisa.
Impressão minha ou o tom de voz da Lara estava um pouco diferente do habitual? Será que eu tô ficando paranóico?
—Se bem que eu até acho bonitinho esse lado mais ingênuo dele... — Lara conclui – Faz ele parecer menos pervertido.
—Olha só, a Lara flertando com o Diego... — Brenda provoca, já recuperada da zoada que eu havia lhe dado.
—Ei! — Lara protesta, virando a cara.
—Mas enfim... — Beatriz apazigua a situação – O que vocês estavam fazendo naquela parte da praia?
—Eu tinha ido caminhar e estava pensando na vida e na morte da Bezerra – me explico – Aí a Nicole trouxe uns picolés e ficamos nadando por um tempo... Enfim, nada demais.
—Ah... Se você fosse um pouco, mais corajoso, hein, Diego? — Erick provoca, de maneira nada discreta. Porque ele SABE o que eu sinto por Nicole.
—Que seja.. Vamos pra casa? — Nicole ignora totalmente a indireta de Erick – São dez e meia e vou começar a preparar o almoço.
—Beleza... — Respiro fundo, e nós seis retornamos para casa.
Enquanto caminhávamos de volta pra casa, pensava na possibilidade da Lara estar REALMENTE flertando comigo...
Claro, nossos gostos eram similares e compartilhávamos a ambição de sermos lutadores profissionais, só que enquanto ela fazia um nome na FILL, eu fazia alguns bicos transitando entre o Rio e São Paulo e tentava o contato com o Lance Storm para ir a Storm Wrestling Academy. E eu NUNCA tinha parado pra pensar na Lara como possível namorada, em todo o tempo que éramos amigos.
Já em casa, nos revezamos para um banho antes do almoço, porém Nicole se recusa, indo pra cozinha preparar as refeições. Algum tempo depois, sinto aromas diferentes vindo da cozinha e vejo saindo de lá, uma Nicole um tanto cansada.
—Diego... — Ela se dirige a mim, com a voz um tanto baixa – Você poderia olhar o fogão por uns quinze minutos pra mim, enquanto tomo uma ducha?
—Claro, pode deixar – Respondo, e ela abre um sorriso que me desarma – Alguma recomendação?
—Se a água subir, desligue o fogo – Ela responde, passando por mim – E evite que a panela vá parar no teto.
—Ei, eu posso ser desastrado com uma vassoura – Protesto, um pouquinho alto demais pro meu próprio gosto – Mas não chego a nível feijão no teto.
—Eu sei... — Ela ri – Tava só brincando contigo... Mas enfim, valeu! Eu sabia que podia contar com você.
Enquanto Nicole ia para o banheiro, eu entro na cozinha para vigiar o fogão. Eu não era nenhum ás na cozinha, conseguia me virar aqui e ali com o básico e só, mas principalmente, eu nunca cheguei ao nível de catástrofe do feijão no teto. Vocês sabem, feijão no teto, a maior prova de incompetência culinária.
Aproveito o momento para espiar o que Nicole estava preparando. Numa das panelas tinha macarrão talharim, e numa outra, molho de tomate com almôndegas cozinhando. Picado em uma tábua de cortar, haviam alguns temperos que cheiravam bem e um pacotinho de queijo ralado. Honestamente, eu sempre fui fã da culinária da Nicole... Não que ela cozinhasse pra mim o tempo todo, só uma vez ou outra ou dez. Cozinhar era meio que um hobby que ela aprendera com as empregadas de casa.
—Tá perdido? — Sinto um toque no ombro, enquanto ouço Nicole se aproximar
—É a fome... — Desconverso, dando uma risada nervosa.
—Sei... — Nicole não acredita em mim – A sua cara não é de quem tá com fome.
—Tá, você me pegou... — Dou de ombros – Eu não estava faminto, mas só pensando que isso aqui tá com uma cara ótima!
—Sério? — Nicole abre um sorriso. Era fácil deixar ela de bom humor.
—Sem dúvidas...
—Obrigado pelo elogio, mas agora trate de me dar licença que eu preciso terminar o almoço.
—Tudo bem! — Eu bato uma continência zombeteira e Nicole mostra a língua. Sim, maturidade era nosso forte. E rindo, saio da cozinha.
Uns quinze, vinte minutos depois ela nos chama para finalmente servir os pratos. Cada um de nós serve uma quantidade de acordo com nossas necessidades, e claramente Erick coloca bem mais que nós.
—Erick, você tem uma alma de gordo – Brinco com ele, enquanto coloco meu prato na mesa
—Obrigado, obrigado – Ele se levanta e faz uma reverência pra mim.
—Isso não foi um elogio.
—Eu sei.
Definitivamente, mesmo após todos esses anos de amizade, ainda não entendo como o cérebro do Erick funciona. Enfim, a Macarronada da Nicole tem um gosto tão bom quanto o cheiro, e como ela não quebrou o macarrão na hora de fazer, não é difícil de pegar com o garfo; as almôndegas estão macias e temperadas no ponto certo, com o tempero de ervas com salsa, cebolinha e orégano dando um toque quase divino a esse conjunto. E pra completar esse prato simples, mas bem preparado, o queijo ralado minou qualquer resistência que eu pudesse ter a comida.
Aliás, momento confessionário: Eu sou um fanático por queijo, é meu ponto fraco em termos culinários... Com exceção do queijo minas, mas isso é uma história que eu conto outro dia. Ou não.
E para companhar o almoço, ainda havia bastante suco de maçã da Jarra que a Nicole preparara de manhã.
—Caramba, tô cheio! — E de fato eu estava saciado, mesmo comendo menos por conta da dieta que sigo – Eu poderia dormir o dia inteiro depois de um almoço como esse.
—Por incrível que pareça, eu também poderia dormir o dia inteiro também – Lara "me acompanha" no momento 'véi cansado'.
—Como assim, Lara? — Nicole pergunta com a voz acho que um oitavo mais fina.
—Nic, eu posso não estar estufada de comida que nem o Diego – Lara se explica – Mas eu tô de pé desde as cinco e meia.
—Cinco e meia? — Erick estranha, afinal, ele acordara quase nove da manhã.
—É, eu tava praticando golpes na praia... — Lara responde – Aí depois o Diego apareceu na praia e treinamos um pouco juntos.
—Entendi... — Erick coça o queixo – Brenda, Beatriz, que tal irmos ao shopping para conhecermos as lojas?
—E não é que você tem boas ideias de vez em quando, Erick? — Brenda responde – Vamos indo!
Eu mal tenho tempo de processar o fato da Brenda estar o nome do Erick ao invés dos adjetivos fofos de sempre, como 'inútil, idiota, imbecil e algum outro ofensivo que comece com i', já que os três rapidamente revezam no banheiro para escovar os dentes e colocar uma roupa mais adequada para irem ao shopping.
—Que tal a gente ir conhecer a área do Farol? — Nicole sugere, após nossos amigos irem ao Shopping
—Uma boa ideia pra evitar a mesmice da praia... — Concordo, acenando com a cabeça
—Diego... — Lara coça a cabeça – Não sei se você notou... Mas o farol FICA NA PRAIA.
Não sei a cara que fiz, mas deve ter sido hilária porque tanto Lara quanto Nicole caíram na risada ao ver a expressão em meu rosto. De qualquer jeito, pegamos apenas o necessário e nos dirigimos até a praia.
Nesse horário pós almoço a situação estava um pouco diferente do período da manhã, provavelmente o pessoal que estudava já terminou seus afazeres e agora se diverte um pouco no mar. Se bem que pelo que ouço, pra quem mora em região praiana, ir a praia é uma parada que tá tão enraizada que se torna chato. Talvez por isso o prefeito esteja investindo na reforma na cidade com o parque, o shopping e outras coisas.
A area do farol é um pouco distante do local onde ficamos, mais ou menos 25 minutos a pé de casa, temos a parte de concreto, onde fica a casa do responsável pela manutenção do farol, e o farol em si tem uma largura bem maior que as que costumamos ver nos faróis regulares onde tem só a escada. Pelas janelas dispostas na estrutura de vinte metros de altura, o local foi projetado para visitação e turismo, com as funções do farol ficando como bônus.
E na praia mesmo ao lado do farol, um grupo de jovens jogava vôlei em grupos de três contra três, com pelo menos doze jovens esperando e se revezando conforme a jogatina flui.
—Caramba... — Assobio ao ver o farol, mais de perto – Ele é bem diferente dos faróis que costumamos ver.
—Verdade... — Nicole também está estupefata, e Lara está sem palavras, mas pela expressão do rosto dela, a reação foi a mesma de nós.
—CUIDADO COM A BOLA AÍ! — Ouço um grito ao longe e me jogo no chão, levando minhas amigas comigo.
Quando me levanto, juntamente com Lara e Nicole, um garoto de pele negra e cabelos cacheados se aproxima de nós. Ele não parece mais velho que a gente.
—Vocês estão bem? — Ele pergunta, preocupado e pela voz, fora ele que nos alertara da bola foguete.
—Graças a seu aviso, nenhuma concussão, valeu... — Agradeço, batendo a areia do meu corpo
—É, só um pouco de areia... — Lara bate a areia de seu corpo – Já estive pior.
—Foi mal – O rapaz se desculpa – Tem vezes que as coisas saem de controle e a galera é bem disputada nessas partidas... Mesmo sendo só uma brincadeira.
—Ninguém morreu, então tá de boa – Lara sorri, apaziguando qualquer coisa.
—Peraí, eu já vi você antes... — O garoto de alguma maneira reconhece a Lara – Você não é a Lara Lima... Que luta na FILL?
Caramba, essa era a primeira vez (pelo menos minha) que eu via alguém reconhecer a Lara pelo trabalho dela na FILL... Nem na escola o pessoal reconhece ela, talvez pelo fato da luta livre ainda não ser tão popular no Brasil.
—Em carne, osso e um pouco de areia – Lara confirma com um aceno.
—Mas o que você está fazendo aqui? — Ele pergunta.
—Férias.
—E o "Caos antes do Natal?" Você tem uma luta importante.
—Não se preocupe com isso...
—Ok... — O garoto parecia preocupado – Gostariam de jogar conosco?
—Bem... — Nicole responde pela gente – Não temos mesmo nada pra fazer essa tarde, então aceitamos.
—E qual o seu nome? — Pergunto, porque chamar ele de garoto o resto da tarde não seria nada produtivo.
—Meu nome é Carlos... — Ele me cumprimenta, sorridente.
—Eu sou Diego... Claramente você já conhece a Lara pelo trabalho dela, e essa aqui – Indico a Nicole – É a Nicole.
—Muito prazer... — Carlos cumprimenta Nicole de maneira simpática – Então vamos lá, se não houver problema com os outros lá, talvez vocês sejam os próximos.
Carlos corre até pegar a bola de vôlei e nos acompanha até a área onde eles haviam armado a rede e o espaço para jogar. Ele falou com os amigos e, aparentemente não deu problema com os outros e ele conseguiu nos encaixar na próxima partida.
O pessoal, apesar de competitivo, joga no nível escolar, então não deve ser problema para tentar jogar de igual pra igual com eles. A partida termina em 15-12 pro time de Carlos, então é a nossa vez de jogar.
—Qual vai ser nossa tática? — Lara pergunta, enquanto nos reunimos antes de jogar.
—Eu recebo as bolas por ter a maior força física – Explico, após pensar um pouco – Nicole levanta e Lara corta. Em caso de defesa, eu ou Lara subimos no bloqueio e Nicolefaz a cobertura nos defendendo. Se der certo, ótimo, se não, a gente improvisa.
—Estão prontos? — Pergunta Carlos, do outro lado da rede.
—Sim – Nicole sorri, diplomática e nós nos posicionamos na areia.
Carlos faz um saque por cima, erguendo a bola e batendo nela, fácil de recepcionar. Nicole levanta para Lara cortar, mas dois companheiros de Carlos sobem em um bloqueio que mandaria a bola no chão... Se a Lara não tivesse mandado ela por cima do bloqueio, sem força.
Carlos dá três passos largos antes de se jogar na areia para defender a bola, que sobe no ar, para um de seus amigos, um loiro com pinta de surfista levantar e o outro, um garoto que definitivamente tem potencial pra ser o cara da academia cortar com uma força tremenda.
A sorte era que eu estava bem posicionado e recebi a bola com uma manchete, e ela subiu ao ar rotacionando, e Nicole se posiciona para levantá-la novamente, mas ela não o faz, ao invés disso, salta e manda uma pancada em direção ao fundo da quadra, e ela cai lá, um palmo antes da linha que indica os limites da mesma. Ponto para nosso time.
—Boa! — Nós três nos cumprimentamos com high fives.
A partida segue com um frenesi e brincadeiras típicas de estudantes, e como estávamos relativamente mais descansados, ganhamos pelo menos três partidas consecutivas. E o dia segue, até que dá mais ou menos quinze para as cinco da tarde e podemos dar como encerradas as partidas de vôlei.
—Caramba... — Tiro o suor da testa – Tô exausto!
—E a gente nem visitou o farol – Nicole comenta, com um tom meio triste
—O dia não acabou, podemos ir ainda lá.
—Então vamos... — Lara diz, indo até um dos chuveiros que ficam antes do trecho de concreto da praia.
Nos chuveiros, tiramos a areia e o suor do corpo, antes de ficarmos alguns minutos no sol para nos secarmos. A entrada no farol é gratuita, já que a renda dele é tirada dos souvenires vendidos nas lojas dos andares 2 e 3.
Entramos no farol, e subimos as escadas que sobem em uma longa espiral nesse térreo que não possui nada (apenas dois seguranças para evitar confusão). No segundo andar, vemos de perto as janelas, que são realmente enormes, permitindo uma visão em 360 graus da região, a partir do ponto de vista do farol. A área central do andar é ocupada pela pilastra de sustentação que é circundada pela loja de suvenires, que possui camisas, bonés e outros cacarecos (palavra que a minha finada avó costumava utilizar) relativos a região.
—A vista daqui é maravilhosa! — Nicole exclama, correndo até a janela, os olhos brilhando feito criança.
—Tem razão... — Lara concorda, se aproximando dela, admirada com o cenário – Usualmente faróis são apertados e projetados para a função marítima.
—Pelo visto o projetista disso aqui – Comento, lembrando de alguns artigos que li na internet sobre faróis. Sim, você sabe como a internet funciona, você começa procurando sobre o que quer, e trinta minutos depois está pesquisando sobre os métodos de reprodução dos marsupiais australianos – se inspirou em alguns faróis nos quais era possível viver... Se pudesse suportar a temperatura fria e as ondas fortíssimas. Só que claro, ele colocou janelas enormes aqui, já que o farol teria a função de ponto turístico. Isso é só um chute meu, não tô querendo bancar o...
—NERD! — Nicole e Lara exclamam ao mesmo tempo.
—O que foi? Eu não uso minha internet só para pornografia não – Me defendo, não sei de que acusação – As vezes eu também tento ser um membro útil da sociedade e busco conhecimento. Claro, que muitas vezes eu falho miseravelmente nisso e...
—Vamos subir mais.. — Nicole me corta, rindo e me puxando até a escada para o terceiro andar. Essa escada não era em espiral, mas uma escada regular.
—Me pergunto como adaptarão isso aqui para a acessibilidade – Lara pondera, enquanto chegamos ao terceiro andar.
O esquema dele era o mesmo do anterior, com muitas janelas enormes (provavelmente pensando na alta temporada, quando o andar inferior ficar cheio, aqui ter mais espaço para observar o cenário), mas a loja era focada em produtos de pesca e observação, como binóculos e telescópios portáteis.
Sem demorar muito no terceiro andar, subimos até o topo do farol, onde há todo o esquema para o qual o farol foi projetado, e embora não seja de muita utilidade em uma cidade pequena como Rio Azul, diziam que ele iluminava bem o mar durante a noite, pelo menos de acordo com Carlos.
—A vista daqui é mais espetacular do que lá dentro – Vou até a borda do terraço, onde uma mureta de um metro e meio impede que alguém caia e inspiro fundo.
São pequenos grandes momentos como esse, que fazem viagens valerem a pena. Claro, nem todo mundo tem o dinheiro para fazer qualquer viagem, mas mesmo um fim de semana simples no qual se vai ao zoológico, ou a locais na capital como a Quinta da Boa Vista, a Cidade da Música ou o Museu de Arte Moderna de Niterói (é, aquele que parece uma nave e foi projetado pelo Oscar Niemeyer) podem reservar momentos simples, mas que melhoram seu dia.
É claro, isso se você não for assaltado, e essa é mais uma das razões pelas quais eu quero conseguir essa vaga na Storm Wrestling Academy, fugir da violência que faz parte do cotidiano do carioca (e brasileiro em geral). Meu problema com isso é que eu não quero abandonar meus amigos, em especial a Nicole... Se ao menos nós...
—Terra para Diego, Terra para Diego! — Escuto a voz de Nicole interrompendo meus pensamentos
—O... Oi? — Eu preciso parar de divagar.
—Mais um pouco e você saia voando... — Lara comenta, e quando ergo as sobrancelhas, ela complementa – Falando de maneira figurada, claro, você estava no mundo da Lua.
—Só estava pensando no quão bons esses pequenos momentos assim, juntos – Puxo Nicole e Lara pra perto de mim e saco meu celular – melhoram o dia de uma pessoa. — Quando minha ideia de foto fica clara, as duas fazem pose e eu fotografo.
Passamos a próxima hora conversando aleatoriedades e tirando fotos em poses diversas, com destaque para minha pose fazendo o "Drink it in maaaaaaan" do Chris Jericho, que é basicamente eu, de braços abertos, com o queixo erguido e olhos fechados, Lara e Nicole numa pose a lá D-Generation X, com Nicole bancando o Shawn Michaels e sua pose característica e Lara imitando o Triple H, com a pose de "Suck it", com os braços erguidos em forma de X, e graças a um turista (ou morador da região) caridoso, tiramos uma nós três fazendo a pose da Shield, com nossos braços direitos estendidos e nossos punhos se tocando.
Quando paro para olhar a hora, percebo que são dez para as seis da noite e caramba, o dia foi longo! Nós descemos e saímos do farol (eu provavelmente voltaria algum outro dia para comprar alguma lembrança), até que Nicole dá um suspiro triste.
—Droga... Agora vou ter que fazer o jantar! — O tom de voz dela é insatisfeito.
—Como assim? — Pergunto, sem entender – Algum problema?
—É que eu queria passar no Shopping para comprar algumas coisas.
—Ei, ei, Nicole! Calma! — Lara tenta animar a amiga – Você pode ir ao Shopping tranquila, eu posso esquentar a comida, sobrou bastante do almoço.
—M-m-mas... Mas... — Ela gagueja um pouco
—Sem discussão, a Lara já decidiu – Digo, com uma coragem que não é minha – Eu te acompanho ao Shopping!
—C-como? — O rosto de Nicole fica vermelho.
E eu TAMBÉM havia ficado vermelho. Mas caramba, saiu meio que por impulso. Particularmente eu não sou fã de compras no Shopping, mas não deixaria a Nicole na mão. Pela cara que ela tinha feito, ela REALMENTE precisava ir ao Shopping fazer essas compras.
—Você precisa fazer essas compras, não? — Pergunto, e ela afirma com a cabeça – Então eu vou lhe acompanhar, ponto final. Somos amigos, não?
—Valeu, Diego! — Ela sorri e me dá um beijo no rosto. Bem, não tinha sido em vão.
—Com tudo decidido, vamos pra casa porque eu estou cansada pra caramba! — Lara diz, se espreguiçando.
Voltamos pra casa rapidamente, e eu e Nicole tomamos um banho rápido, antes de irmos ao Shopping. Eram mais ou menos sete minutos de ônibus, eu chutaria uns vinte ou vinte e cinco minutos andando a pé... Eram as vantagens de cidade pequena.
O Shopping de Rio Azul possuia três andares e, ainda que não tivesse a pomposidade dos Shoppings da capital, ele tinha diversas lojas de renome (as quais eu não decoro o nome porque eu não sou aquele cara que é fanático por comprar roupas/sapatos), algumas lanchonetes conhecidas (inclusive a Pizza Hut de onde vieram as Pizzas de segunda-feira fica aqui), uma Saraiva Mega Store, entre outras coisas.
O movimento não era intenso, mas havia um fluxo de pessoas constante, já que muita gente das cidades próximas vem aqui fazer suas compras ou passear. O primeiro local onde paramos, é justamente a Saraiva.
—Diego, me espera aqui – Nicole me pede – Volto em alguns minutos.
—Não quer que eu te acompanhe? — Pergunto, casualmente
—Não precisa, só quero verificar uma coisa.
—Beleza.
Enquanto Nicole entra na livraria, vou até a praça de alimentação e compro dois pacotinhos de pão de queijo. Como eu e Nicole provavelmente não aproveitaríamos o jantar, era melhor comermos alguma coisa. Cerca de cinco munutos depois de eu voltar para frente da Saraiva, vejo Nicole sair dela com um saco, então provavelmente ela achou o que procurava ali.
—Conseguiu o que queria? — Pergunto, só para confirmar
—Uhum... — Nicole sorri.
—Aqui – Entrego um dos pacotes de pão de queijo a ela – Como a gente não vai jantar, acheio que seria bom ao menos comermos algo.
—Valeu, Diego!
—Disponha. O que mais você vai comprar?
—Algumas lembranças pro pessoal de casa, nada demais... — Ela desconversa, claramente sem ideia do que comprar – Vamos circular pelo Shopping, e dependendo da loja, nós paramos.
—Tudo bem...
Ñós começamos a caminhar pelo Shopping, olhando as vitrines. Da hora em que chegamos até agora, o movimento crescera um pouco, ao menos o fluxo de pessoas parecia maior.
Estou lá eu, pensando na morte da bezerra e em nada em particular, até que Nicole me puxa pela gola da camisa.
—Diego! Diego! — O tom dela é ao mesmo tempo contido e empolgado.
—O que foi? — Pergunto, um pouco temeroso. Eram raras as vezes que a Nicole ficava assim.
—No Fliperama ali... — Ela indica o fliperama – Tem uma máquina de OutRun 2!
—OutRun 2? — Olho para dentro do fliperama e realmente tinha uma máquina de OutRun 2. Eram raras essas máquinas, cheguei a ver uma em um site britânico pelo valor de seis mil libras, mais ou menos vinte e quatro mil reais.
—E-e-eu... Nós precisamos jogá-la! — A empolgação de Nicole a fazia gaguejar.
A empolgação da Nicole era normal. Como nenhum de nós era um às em simuladores de corrida, adorávamos jogar partidas e mais partidas de OutRun 2006 Coast 2 Coast, que seguia o estilo Arcade (e era uma versão ampliada de OutRun 2). Mas isso era no PC e no PSP (Portabilidade domina!). Jogar a versão de Arcade era um sonho distante... Ao menos até aquele momento.
—Sim, nós precisamos jogar! — Exclamo, sorridente.
Como duas crianças, entramos meio que correndo no fliperama do Shopping e compramos uma ficha cada um. Nesse momento, um agradecimento especial a todos os donos de Fliperama de Shopping que ainda mantém o sistema de fichas. Cartões recarregáveis são práticos, mas eu acabo guardando os cartões e nunca recarrego.
—Nicole, joga primeiro, você meio que descobriu a máquina – Digo, e Nicole assente, se sentando na cabine e colocando a ficha na máquina.
Nicole resolve jogar no modo Heart Attack, onde se deve completar a corrida enquanto se cumpre os objetivos dados por sua 'Namorada.
Os primeiros acordes de "Passing Breeze" começam a tocar e Nicole começa a dirigir. Ela era boa nesse modo, ao contrário de mim, que sempre falhava na terceira ou quarta etapa.
—Caramba, as vezes eu queria ter encontrado uma máquina do OutRun original. — Nicole comenta, casualmente – Para a época em que foi lançado, ele é extremamente bonito.
—Concordo... Mas o que eu gostaria mesmo é que houvessem mais jogos de corrida com essa pegada arcade...
A Nicole consegue manter uma conversa coerente enquanto joga, focada no objetivo e isso me deixa encantado com a habilidade dela naquele jogo simples. Desviar dos carros, fazer drifts, conduzir a bola, passar pelos aros ou acertar fantasmas. Tudo o que o jogo pedia, ela fazia como se fosse nada. Seria isso uma consequência da rigidez nos estudos que ela tem?
Eu mal percebo que a Nicole estava terminando o percurso, pois fico admirado com a expressão focada nos olhos dela. Se fosse no meu caso, eu estaria nervoso e teria capotado pelo menos umas sete vezes antes de dar Game Over, mas ela conseguia manter uma conversa racional enquanto focava no jogo.
—Nossa, eu estava enferrujada... — Ela comenta, enquanto coloca as iniciais dela na tela de High Score.
—Como assim enferrujada? — Pergunto, um tanto perplexo – Você fez a maior pontuação no Heart Attack.
—Pode até ser – Ela sai do cockpit – Mas eu demorei um pouquinho pra pegar o ritmo, e tive que usar a transmissão automática pra me reacostumar com o jogo.
—Não seja tão dura consigo mesma Nicole... Essa foi sua primeira vez no arcade de OutRun 2.
—Independente disso, foi divertido – Ela sorri, enquanto indica o cockpit para mim – Agora é a sua vez, Diego!
—Tem razão! — Me sento e coloco a ficha na máquina – Apesar de eu não ser louco de ir no Heart Attack que nem você.
—Frouxo!
—Sou mesmo! — Dou uma risada, enquanto seleciono o modo OutRun normal, onde só devemos completar a corrida, e a cada rival ultrapassado, um bônus maior de pontuação é adquirido.
E quando a corrida começa, começa também a tocar "Magical Sound Shower"... Que hino! Eu cantarolo junto com hum hum huns, pois sou fã desse tema desde que um conhecido na internet me mostrou a apresentação da S.S.T. Band, a banda residente da Sega.
Me concentro em fazer os drifts nas curvas necessárias e tirar o pé do acelerador nas curvas mais brandas. E muitas vezes não há qualquer necessidade de pressionar o pedal do freio nas curvas mais acentuadas.
—Ah, nada como dirigir uma Ferrari em alta velocidade... — Comento, aleatoriamente.
—Bem... — Nicole ri – Dirigir uma de verdade deve ser fantástico também.
—Não sei... Eu sou uma negação com qualquer tipo de veículo normal... — E repentinamente aumento um pouco meu tom de voz – E nem pense em pegar meus pães de queijo!
—Como você sabe? — Ela pergunta, com um tom meio infantil
—Eu te conheço – Tudo o que escuto após respondê-la, é sua risada.
A bem da verdade é que eu não ligava da Nicole pegar meus últimos pães de queijo, eu só queria me manter conversando com ela. Eu continuo concentrado em evitar qualquer batida que me faça capotar e perder tempo, sendo que tempo é uma coisa crucial quando se tem uma ficha só.
—Nicole... — Chamo ela depois de mais ou menos meio minuto de silêncio.
—Sim?
—Pode comer os últimos pães de queijo, eu tava só brincando.
—Sério? — O tom dela é novamente infantil e eu dor uma risada leve, enquanto termino meu jogo.
—Caramba... — Digo, após colocar minhas iniciais na tela de High Score – Fazia tempo que eu não relaxava assim com o jogo.
Nós dois saímos do fliperama e continuamos a passear pelo shopping, vez ou outra parando em alguma loja para que Nicole comprasse algo. Muitas vezes ela pedia a minha opinião, e mesmo não entendendo de muita coisa ali, eu ajudava o máximo que podia.
—Sabe Diego, nós precisamos fazer novamente uma noite da jogatina... — Nicole comenta, lembrando de algo que costumávamos fazer bastante no primeiro e segundo anos do colegial.
—Verdade... Pena que não trouxemos nenhum console pra cá – Suspiro, pensativo – Talvez possamos fazer aqui no fliperama, se sobrar tempo essa semana.
—É uma boa ideia... — Nicole sorri, até que repentinamente seu sorriso se desfaz.
—O que foi?
—Sabe... Aquilo me mordeu de novo agora.
—Aquela... Coisa de você não saber o que fazer agora que terminou o colégio?
—Sim...
—Olha, se eu fose você, não se preocuparia com isso... — Digo, um pouco pensativo – Não agora, nós estamos de férias, e francamente... Preocupe-se com a sua felicidade, uma hora o seu sonho vai ficar claro.
—Espero que sim.
—E nós, seus amigos, estaremos lá do seu lado pra te ajudar a torná-lo real.
—Valeu, Diego... — Ela passa o braço pelo meu ombro – Eu sei que tenho em você, na Lara, na Brenda, na Beatriz e no Erick, uma segunda família... Embora o Erick esteja mais pra primo mala distante.
—Concordo – Dou uma risada da maneira como ela brinca com o status do Erick na nossa "família".
—E se eu não tivesse a minha família, eu ficaria ainda tranquila, pois tenho vocês... Eu amo a todos.
Essa frase me deixa abalado pela possibilidade de ter que deixá-la pra trás se eu quiser seguir em frente com minha jornada. A não ser que... Não, eu não cogitaria isso dela, afinal, somos amigos apenas.
Não demora muito até Nicole terminar suas compras, não eram muitas coisas. Apenas lembranças para seus pais, suas duas irmãs mais novas e as três empregadas domésticas, Maria, Rita e Gisele, as quais ela devia seus dotes culinários (e que eram super gente fina também). E com algumas sacolas de compras, começamos a caminhar de volta para casa.
Sinceramente, eu não queria que aquela noite acabasse. Tudo bem, eu e a Nicole só batemos perna no shopping, conversamos aqui e ali e jogamos OutRun 2, mas aqueles momentos simples eram preciosos.
—Diego, obrigado por ter me acompanhado ao Shopping – Ela diz, enquanto andamos pelas ruas iluminadas de Rio Azul.
—Não tem de quê, é sempre um prazer estar contigo – Respondo, com sinceridade, porque mesmo que eu não fosse apaixonado por ela, eu ainda assim iria adorar a companhia dela.
Nicole cora levemente, mesmo não tendo sido minha intenção e eu sorrio, enquanto entramos em casa.
—Enfim os pombinhos chegaram! — Erick ergue os braços, quando colocamos nossas sacolas na mesa da sala.
Não sei quem ficou mais vermelho naquele momento, se foi eu ou a Nicole.
—Fala um pouquinho mais alto, Erick, tem gente no quiosque da praia que não te escutou – Nicole rebate a provocação
—Tá, mas não fui eu, nem o Erick, nem a Lara e nem a Beatriz que passamos três horas e pouco com o Diego no Shopping – Brenda estranhamente defende Erick.
—Onde foi parar o "traste", "imbecil", "idiota", "trambiqueiro" e os outros adjetivos fofos que você chamava o Erick, Brenda? — Nicole devolve sem sequer ficar vermelha... Como EU tinha ficado agora.
—Eu, bem... Então... — Brenda começa a ficar vermelha e uma ideia passa pela minha cabeça
—De qualquer jeito, cadê a Lara? — Mudo de assunto, porque realmente era esquisito ela não estar com os outros ali.
—Ah, ela foi dormir – Erick aparentemente estava satisfeito com a mudança de assunto – Ela tava cansada demais.
—Considerando que ela tá de pé desde as cinco e pouca da manhã – Beatriz pensa um pouco – E já são quase dez da noite, faz sentido.
—Tem razão, estou exausto... — Sinto minhas pálpebras pesarem um pouco.
—Idem... — A voz da Nicole também demonstra um pouco de cansaço.
—Que horas você acordou, Nicole? — Beatriz pergunta.
—Vinte pras sete da manhã – Nicole fecha os olhos e suspira – Fui dar uma caminhada.
—Bem... — Erick não faz cerimônia – Se quiserem, podem ir dormir. Eu, a Brenda e a Beatriz vamos assistir a um filme.
Eu dou um bocejo bem longo, piscando algumas vezes e involuntariamente a própria Nicole boceja.
—Valeu... Nicole, bora guardar suas coisas – Digo, com a voz começando a se arrastar.
Nicole assente, claramente cansada. Nós dois pegamos as bolsas de Nicole, e nos dirigimos ao nosso quarto, onde Lara dormia profundamente. Colocamos as bolsas de Nicole em um canto do quarto e eu, sem cerimônia alguma, subo no meu beliche que fica acima do dela.
—Boa noite, Diego... — Escuto a voz de Nicole, enquanto ela se cobre.
—Durma bem, Nicole... — É o que tento dizer, mas só deve ter saído um "Durraem ole".
Antes do sono me pegar, escuto um risinho vindo da Nicole. E curiosamente, nos dois dias que cheguei aqui, eu tenho dormido relativamente cedo, totalmente o oposto de quando estou na capital, onde geralmente durmo próximo ou depois da meia noite. Mas não posso dizer que realmente foram dias mal aproveitados, porque coisas boas aconteceram nesses dois dias, então só posso supor que coisas AINDA MELHORES estão para acontecer.
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