Wreath of Flowers
1 A garota da coroa de flores e a Mulher de vestido
7:23 da manhã
Um dos motivos de eu ter escolhido o porão como quarto é que era uma parte da casa isolada, então eu poderia dormir até tarde sem ser incomodada e tudo mais... em teoria...
Liam já começou a bater na porta do porão e nem é hora de ir pra escola ainda! Páh, páh, páh... esse barulho era mais irritante que um despertador!
-QUE DROGA, LIAM!- grito pra ele e levanto pra abrir a porta e ainda caindo de sono pergunto: — O que você quer?
-NADA! -Ele sai correndo, dando gargalhadas.
E ainda tem gente que quer ter irmãos mais novos... NINGUÉM MERECE! Liam é o mais novo da família, ele tem 6 anos de idade, é um completo pestinha! Mas eu ainda o amo muito, ele nasceu quando eu tinha 10 anos de idade e me apeguei a ele muito rápido, ele era como um bonequinho nas minhas mãos...
Além de Liam, eu tenho outro irmão e outra irmã, são gêmeos, os nomes: Claire e Caio (nomes nada criativos, mas tudo bem), ambos tem 20 anos de idade, Claire trabalha como estilista, ela basicamente desenha e costura roupas finas e chiques para o lado Ocidente, quando sobra tecido, ela faz roupas para nós também, não que não tenhamos dinheiro para comprar, mas é melhor juntar para coisas mais importantes, como comida... Caio trabalha em uma empresa de automóveis, ele controla as máquinas de lá. Ambos os meus irmãos já moram sozinhos em outras casas, mas mesmo assim nos vemos o tempo todo! É bem legal, apesar de que eles quase não tem tempo, por trabalharem demais, desde os 10 anos de idade! Tem minha mãe e meu pai também, minha mãe se chama Clara (daí surgiu o nome da Claire) e meu pai se chama Daniel, minha mãe trabalha como cozinheira em algumas festas de ricos no lado Ocidente, mas ela não tem permissão para conversar ou fazer contato visual com nenhum deles, ninguém do lado Oriente tem, pra falar a verdade... Meu pai trabalha organizando a economia da nossa cidade, toda cidade tem alguém como ele, geralmente são poucos candidatos ao cargo, pois poucos estudam matemática nesse lado do mundo, o salário do meu pai é um dos melhores daqui, ele ganha o dobro salário dos meus irmãos, isso nos dá uma vida, digamos, boa!
E tem eu, uma pessoa que já passou da idade de trabalhar, mas ainda não decidiu o que quer da vida, é meio complicado pra mim tentar explicar pros oficiais que eu não tenho nenhum dom além de escrever... ah! e fazer coroa de flores, se isso for um dom... Eu estou no último ano do colégio, ano que vem não vai mais ter desculpa, eu vou ter que escolher alguma profissão! E escolher bem, porque só temos o direito de escolher uma vez, depois exercemos a mesma pela vida toda, sem direito de trocar!
Bom, como já estava acordada mesmo, decidi descer para comer alguma coisa, os waffles da minha mãe são uma delícia!
—Mãe? Tem alguma coisa pra comer? Com alguma coisa, você sabe o que eu quero dizer, não é?- sorrio, vendo minha mãe na cozinha, lavando os pratos, com um coque alto na cabeça e um avental, apesar de ter mais de 40 anos, a minha mãe era linda e bem jovem!
—Lana, já acordada? -ela olha pra mim com um sorriso bem maternal- Estão na mesa, cobertos com um pano! A calda está na geladeira... — depois de dizer isso ela volta a lavar os pratos.
Vou correndo pegar a calda na geladeira, é uma coisinha especial que minha mãe faz quando volta de alguma festa que sobrou chocolate... Chocolate é coisa do lado Ocidente, bem raro aqui, mas de vez em quando a gente dá sorte! Depois de pegar a calda, vou para a sala de jantar, sento na mesa e tiro o pano os Waffles, douradinhos e suculentos... Dá até água na boca... despejo a calda por cima deles e começo a comê-los.
Enquanto como, minha mãe chega na mesa, se senta e começa a falar:
-Então filha, ainda bem que acordou cedo! Assim poderá se arrumar bem para a ocasião de hoje...- ela dá um sorriso enorme, olhando pra mim.
-Que ocasião?- com a boca melada de chocolate, penso um pouco e lembro... Minha única chance de ir viver no lado Ocidente! A cada três anos, algumas pessoas, que não tem família nenhuma, do lado luxuoso do mundo, passam pelas escolas para escolher uma moça ou um rapaz de sorte para ir morar com eles, a pessoa escolhida tem a única função de servir quem a escolheu!É tipo ser um escravo... PARA O RESTO DA VIDA! — Mãe, qual a graça de ir pro lado Ocidente só para servir um desconhecido?- balanço a cabeça negativamente olhando para os Waffles
-Filha, eu já fui no lado Ocidente, lá é incrível! Quase mágico! — os olhos dela brilham e ela fica sorrindo
-Mãe! Eu não quero virar uma escrava! Nem ir embora... Não quero abandonar vocês, ir pra lá significa nunca mais poder ver vocês!
Minha mãe fica com uma expressão triste, olhando pro chão, quando ela fica assim é quase impossível saber o que ela está pensando... Fica um silêncio meio esquisito, mas ele não dura mais do que dois minutos, quando minha mãe quebra o mesmo dizendo:
—Não se preocupe com nós, se preocupe com você... Apesar de ser meio ruim, é uma vida melhor do que essa, MUITO MELHOR! E quanto a nos ver, se seu senhor for bondoso ele pode deixar você vir de vez em quando... -ela fala isso séria, sem nenhuma ironia ou ao menos um meio sorriso.
—Tudo bem, mãe, eu me arrumo, mas acho quase impossível que me escolham! — suspiro e vou pro banheiro tomar um banho, tentando pensar que não serei escolhida, assim como nenhum de meus irmãos foi...
O banho durou no máximo 15 minutos, não podia me dar o luxo de gastar água... Cada cidadão do nosso lado tinha uma quantidade exata de água que poderia gastar... Assim que terminei, me enrolei com uma toalha e coloquei outra no meu cabelo, corri pro sótão e passei uns 5 minutos escolhendo uma roupa... acabei optando por um vestido todo estampado com flores que minha irmã tinha me dado mês passado, com um cinto marrom amarrado na cintura, uma sapatilha listrada e, é claro, uma coroa de flores... porque quem não ama uma coroa de flores? Faço uma trancinha podrinha e prendo atrás do cabelo, deixando algumas mechas soltas, pra dar um efeito mais despojado ainda, deixo minha franja bem modelada e coloco a coroa de flores no cabelo. Não coloco nenhuma maquiagem, porque só uso em ocasiões que eu julgo importante e pra mim aquela não era uma ocasião importante... Para minha mãe não brigar, coloquei um batom cor de boca nos lábios...
Desço as escadas do sótão e vou até a sala mostrar o meu look para minha mãe... Ela fez uma cara de meia aprovação... meia, quase nada, mas pelo menos não mandou que eu fosse trocar de roupa. Pouco tempo depois meu pai chega para nos levar para a escola, Liam vai correndo e eu vou um pouco, digamos, menos eufórica e animada... Meu pai me observa, pelo olhar dele, já dava pra decifrar que ele estava torcendo para ninguém me escolher pra nada, que eu voltasse pra casa dizendo que outra pessoa tinha ido e não eu...
Entro no carro, que fez um barulho esquisito, porque já estava bem velho... meu irmão jogou a mochila praticamente em cima de mim e entrou logo em seguida, meu pai entrou no banco do motorista e a gente foi bem rápido para a escola, por causa do horário.
Assim que desci do carro, vejo Milla e Noah na frente da escola, conversando, vou até lá e eles sorriem pra mim.
-De batom? -diz Noah- Animada para o "concurso"?
Noah chamava aquilo de concurso, porque, na verdade, os mais bonitos é que eram escolhidos...
—Animada? -rio- Quero é que se exploda essa porcaria e todos daquele lado... Tô torcendo para não me escolherem!
—Tanto faz pra mim, mas não seria ruim ter uma vida luxuosa... -diz Milla
—Uma vida luxuosa ou uma vida de escrava? — digo, com tom irônico
Skye e Josh chegam logo em seguida, mas assim que vamos começar a falar, o sinal toca e ai de nós se nos atrasarmos! Vamos correndo para a quadra da escola e a diretora nos orienta da seguinte forma: Meninas de um lado, meninos do outro, bem organizados!
Eu fico no meio de Milla e Skye, nós somos inseparáveis desde o maternal! Nossos pais são amigos, elas viviam na minha casa, sempre foi super divertido ficar com elas!
Nós ficamos lá, parados, sem poder falar nada, parecíamos manequins! Fiquei olhando para os lados e consegui ver quem REALMENTE queria MUITO ser escolhido! Pessoas totalmente produzidas arrumadas, super perfumadas... Na verdade, 90% das pessoas estavam assim, os outros 10% ou eram eu ou nem sabiam o que estava se passando...
Demorou um pouco, mas logo algumas pessoas finas e ricas começaram a entrar, pouco a pouco, iam escolhendo seus escravos, ops, protegidos. Várias pessoas passaram por mim e graças a Deus, não me escolheram! Mas foi quando uma mulher, absolutamente LINDA! Ela tinha olhos azuis e cabelos negros, preso de forma formal e um batom vinho, cheia de jóias e um vestido vermelho entrou... Ela tinha uma expressão bem formal, mas um pouco dócil e educada... Ela ficou observando um por um, até parar em mim, ela ficou me analisando por algum tempo, vendo minhas expressões, gelei quando ela pegou em meu braço e disse:
—Venha comigo querida...- ela sorriu, como se aquilo fosse aliviar meu medo, que estava estampado no meu rosto.
—O quê? -digo, bem assustada
—Não tenha medo...- ela continuava sorrindo- apenas venha...
Eu fui, para não arrumar mais problemas, pensei que íamos direto para um carro super luxuoso, para eu buscar minhas coisas em casa e ir de avião para o outro lado do mundo, mas não, fomos em alguma sala do colégio, pelo que a mulher me disse no caminho, eu iria ser "interrogada", agora sim, de escrava agora me sinto uma criminosa!
Ela sentou numa cadeira e eu sentei na da frente, ela me fez algumas perguntas, que eu respondi, tentando ao máximo mostrar que não estava nenhum pouco interessada em ir com ela para um lugar totalmente estranho e desconhecido... Mas ela parecia estar gostando das minhas respostas!
Depois de, no máximo, duas horas tentando ser rude, ela olhou nos meus olhos e disse que antes do almoço iria ligar para dizer se iria me levar ou não... A mulher voltou pra quadra e logo depois a diretora veio correndo ao meu encontro e disse, animada:
—E aí, ela gostou de você?- a diretora sempre gostou muito de mim, ela sempre me via como a queridinha dela! Sempre! Nunca soube ao certo o porquê, acho que é pelo fato de eu dar "bom dia" pra ela todos os dias ou nunca dar trabalho... Mas sempre gostou!
—Eu não sei, ela só disse que me ligará depois para dizer se vai me levar ou não...- digo, meio desanimada.
—Por que não está feliz? -ela olha nos meus olhos
—Não quero ir, não quero largar a vida que tenho aqui!- digo, quase chorando
Ela me abraça e diz:
—Vá pra casa, querida, você pode ir andando, se quiser... — ela me solta e volta a olhar pra mim- Tudo vai ficar bem!
Eu sorrio pra ela e acabo decidindo ir andando mesmo... Começo a pensar na minha vida, nos meus amigos, em tudo que eu vou perder se caso eu for escolhida por aquela mulher esquisita de vestido vermelho... Olho ao redor, vejo o ambiente que estou acostumada a viver, seguro as lágrimas e chego em casa, conto tudo para minha mãe e vou correndo para o meu "quarto", fico olhando a vista da janela de lá, agora só me resta mesmo esperar...
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