Wrath of Orcs - Marés de Sangue

6 Capítulo VI - A dança das lâminas rubras


Notas iniciais
Finalmente, após mais de um mês sem postar, minha criatividade começou a funcionar melhor, e acho que já estou conseguindo levar a história por rumos corretos. Espero que gostem.

Sunlight recebeu esse nome por sua beleza sob a luz do sol. Mas naquele dia, para Lylith Lorender, o sol não brilhava. E nunca mais iria brilhar. Aquele era o “grande dia”. O dia de seu casamento. Agora, ela estaria acorrentada à Lorde Baelin para o resto de sua vida. Apesar de, com o tempo que passaram juntos, ele parecer uma boa pessoa, ela não sabia se era aquilo que ela queria. Ela se sentia sufocada, obrigada a mergulhar em um lago de incertezas no qual ela poderia morrer afogada, ou não. Forçada a navegar no navio da insegurança pelo mar da dúvida onde o barco poderia afundar, ou não.

Em seu vestido branco de seda Khalahariana, ela observava pessoas entrando e saindo da Catedral de Theos, o deus do matrimônio, da mesma janela da qual vira seu noivo adentrando na cidade. Flores do lado de fora, fileiras de guardas e pessoas agitadas. Lylith desceu sozinha as escadas e, para sua surpresa, seu pai, o Rei Murdock, estava lá, com sua coroa e seu manto dourado. Ele não parecia muito bem, mas ele já estava muito velho, e era difícil velo animado ou com disposição. Seus cabelos eram brancos e ele também possuía um grande nariz (que por sorte, Lylith não tinha). Ela, surpresa, foi até seu pai, o abraçou e disse:

– Papai! Que bom vê-lo! Achei que estivesse doente, na cama.

– Sim. Eu ainda não me sinto muito bem, mas eu não poderia perder o casamento da minha filhinha! Sua mãe ficaria furiosa! – respondeu ele.

Lylith deu um risinho e comentou que seria bom se seu irmão, Alexander, estivesse ali. Seu pai respondeu, antes de levá-la para fora do palácio:

– Tenho certeza de que, se não fossem estes problemas no norte, ele estaria aqui. Afinal, somos todos Lorenders. Somos “Unidos Sob o Sol”. E você sempre será uma de nós. Mesmo que seus filhos tenham metade de sangue dos Menetheon.

– Mamãe já me disse isso. – disse Lylith, enquanto entravam em uma carruagem que estava estacionada no pátio da Fortaleza Dourada. Quando chegaram á praça, os dois viram algo que não esperavam. Havia uma multidão em volta da carruagem (que estava sendo protegida pela Guarda Real). Não uma multidão qualquer. Uma multidão furiosa. Composta de camponeses sujos, mal vestidos e magros. Parecia que não haviam comido ou se lavado por dias. Gritavam coisas do tipo:

– Veja o que você nos fez, Murdock!

– Que tipo de Rei deixa os nobres roubarem todo o dinheiro do povo!

– Estamos famintos por sua causa!

– Os Lorenders não merecem governar! Queremos os Vithory no trono outra vez!

Lylith e seu pai chegaram ao pé da escadaria que levava até as portas da catedral. No momento em que saíram, foram atingidos por pedras. Os guardas em volta brandiram suas espadas e começaram a tentar afastar o povo. Mas alguns deles foram acertados por flechas e caíram no chão. Foi aí que começou o tumulto: pessoas tentando agredir os guardas com pedaços de pau, guerreiros rebeldes que tentavam chegar até o rei para matá-lo e soldados golpeando tudo o que se mexia. Em um momento, na confusão, um grupo de rebeldes chegou perto da princesa e do rei. Ela acabou sendo empurrada para longe de seu pai, enquanto ele era espancado com chutes, socos e arranhões. Quando Lylith viu alguns guardas socorrendo Murdock, ela levou um soco na cara que a fez cair no chão. O rebelde que a socou pegou uma faca e, se aproximando dela, disse:

– Vou fazer coisas com você. Coisas que você nem imagina. Coisas que vão te dar pesadelos à noite.

O homem estava a ponto de agredi-la, quando outro homem fincou uma espada em suas costas. Ele retirou-a toda ensangüentada, apontou para a princesa e falou enquanto ria:

– Sabe onde eu vou enfiar isso? Bem na sua...

A frase dele foi interrompida por uma machadada que ele levou de um camponês que gritava “Ela é minha!”. Aproveitando a briga da multidão, ela tentou correr para longe e achar sua família, mas um soldado rebelde a agarrou e arrastou para um beco. Enquanto ela gritava, o homem dizia:

– Fique quieta! Ou vou ter de cortar sua maldita língua. O que seria uma pena, pois acho que o rei pagaria menos pelo resgate de uma filha que não pode mais falar, não acha?

Mas ele caiu quando três flechas acertaram suas costas. Lylith pôde ver que elas não foram disparadas por um homem qualquer, mas sim por um homem de roupas negras, careca e com uma barba curta e branca, que ela logo reconheceu:

– Tio George! – gritou ela enquanto corria para dar um abraço nele.

– Como você cresceu Lylith! Não precisa me agradecer. Agora vamos. Temos que levar você de volta à Fortaleza Dourada.

– Não! – ela interrompeu – Me leve embora dessa cidade, por favor! Não estou pronta para me casar! Não ainda! Precisa me levar com você, pra onde for!

– Lylith, isto seria um desrespeito para com seu pai. Ele pode pensar que você está morta!

– Se eu me casar, aí sim estarei morta. Por favor! Você sempre foi um tio tão bom pra mim. Sempre foi meu favorito!

Mesmo relutante, George acabou cedendo. Ele sabia que seu irmão, o rei, se enfureceria se soubesse daquilo, mas, em sua memória, ele via sua amada Evelyn, uma mulher que George amou durante toda a sua vida, mas que lhe foi tirada, forçada a se casar com um nobre de terras distantes, enquanto ele não pôde fazer nada para impedir. Ele, de certa forma, sabia o que a sobrinha estava passando e precisava ajudá-la. Lylith e seu tio pegaram um cavalo em um estábulo próximo e cavalgaram pelas ruas vazias, longe da praça e da catedral. Surpreendentemente, encontraram os portões sem proteção, pois os guardas de lá estavam mortos. “Deve ser obra dos rebeldes” comentou a princesa, que estava com a bochecha direita dolorida (devido ao soco que levara) e com o braço esquerdo ralado, mas não se queixou. Eles cavalgaram para fora da cidade, pelos campos verdejantes de Lothemar. Somente agora a princesa viu quão grande era o mundo fora dos palácios dourados de Sunlight. Era algo maravilhoso.

Mas lá dentro, na praça, as coisas não eram tão boas. Os rebeldes usavam armaduras de couro e espadas de ferro não muito afiadas. Mas apesar disso, juntamente com a multidão enfurecida, os rebeldes estavam sobrepujando os soldados reais. Lorde Baelin saiu da catedral às pressas, e mandou um garotinho correr as pressas até a Fortaleza Dourada e chamar seus homens. Em alguns minutos, os soldados de Baelin chegaram com suas armaduras violetas e suas espadas curvadas. Logo, o sangue dos rebeldes e dos civis começou a jorrar, banhando as espadas com sangue rubro em uma dança doentia de dor e morte.

Ao final, pilhas de cadáveres e seu sangue sujavam o chão. Os soldados da Guarda Real por pouco não foram derrotados. Os homens de Lorde Baelin que ajudaram estavam exaustos. Dentro da Fortaleza Dourada, os médicos estavam tratando dos ferimentos do rei, enquanto a rainha andava de um lado para o outro. Então, Sir Jared Lorkbound adentrou no salão. Helen logo gritou desesperada:

– Minha filha! Onde está minha filha?

– Fizemos o possível para achá-la, mas ela não está na cidade e ninguém a viu.

Ela começou a chorar, quando Lorde Althor, o Conselheiro Real chegou e consolou-a dizendo:

– Não se preocupe minha rainha. Vou colocar meus melhores homens para achá-la. Tenho contatos em todos os cantos de Manorothian, e vou cuidar para que ela volte sã e salva. Além disso, ela não pode ir longe sem que alguém a note.

Mas ela já estava longe. Lylith e seu tio logo iriam atravessar o rio Mohan e subir as Montanhas Cinzentas. Elas eram como a fronteira entre sul e norte. Os dois pararam em um vilarejo. George comprou comida e água, além de roupas novas para a princesa. Agora ela usava um vestido marrom de camponesa, com uma capa negra e um capuz que escondia seu rosto. Eles repousaram ali durante a noite e partiram cedo. Havia duas formas de atravessar o Mohan: pelas pontes do vilarejo de Elskyrth ou pela ponte do Vale Kasther. A primeira opção os deixaria perto de Milthir, a maior cidade élfica do norte, e isso não é muito bom para alguém que é praticamente um fugitivo. Mas a segunda opção os levaria por uma estrada que atravessa o Bosque Sombrio, um lugar cheio de ladrões e assassinos. Eles concluíram que, apesar de mais longo, o caminho para o Vale Kasther seria melhor. Felizmente, só tiveram um problema no caminho: um trio de ladrões tentou atacá-los, mas eles não eram páreos para a espada de George.

Já eram seis horas da noite quando a princesa e seu tio chegaram ao pé das montanhas. Não era preciso escalá-las. Havia uma estrada (o Caminho de Casadrum) que passava pelo meio delas. Uma estrada difícil e longa, mas era melhor do que um túnel que havia sido cavado dezenas de anos atrás, que supostamente atravessava as montanhas, mas acabou desmoronando e matando seus construtores.

Lylith e George pararam em uma caverna, já em altas altitudes, para passar a noite. Fizeram uma fogueira e comeram frutas que haviam comprado no vilarejo. Os cavalos comeram um pouco de capim do lado de fora (que já era escasso devido ao frio) e beberam água de um lago quase congelado nas proximidades. Logo eles estariam em Harengard. Harengard era o lar da família Haren. Eles eram uma família rica que vivia isolada nas montanhas para não se submeter ao domínio dos Lorender (a razão disso será explicada mais tarde). Apesar de George não somente ser um Lorender, mas também o irmão do Rei Murdock, ele viva na mansão porque sua avó materna era uma Harengard (além de ele não gostar nem um pouco do ar da capital, mas sim de um ar frio, como o das montanhas).

Sob uma terrível nevasca, os dois chegaram aos muros da mansão. Eram feitos de pedra, e os portões eram de madeira e ferro. George os abriu, conduzindo os cavalos até o estábulo do pátio. A mansão tinha quatro torres redondas, altas e largas em volta de uma grande abóbada, que chamou a atenção da princesa. Entraram na mansão e se depararam com um ar diferente. Um ar aquecido pelo fogo das lareiras lamparinas. A maioria dos móveis era de madeira, e havia estandartes com o corvo cinzento dos Haren por toda parte. Lylith foi levada até seu tio até a sala de estar, que estava vazia, onde ela se sentou e se aqueceu perto da lareira. Ele saiu, e foi até o hall de entrada por onde haviam passado, e ouviu passos e uma voz que dizia “George? É você?”

– Estou aqui Marjorie! E eu trouxe uma visita!

Uma mulher de cabelos longos e negros, com um vertido marrom com bordas de lã de carneiro desceu as escadas dizendo:

– Visita? Nunca temos visitas aqui. Quem é?

– Você pode não acreditar, mas eu trouxe a princesa Lylith pra cá!

– Você o quê? Como assim? A princesa? A própria Lylith Lorender? O lar dela é em Sunlight. Seu irmão por acaso sabe disso? Se você a trouxe para cá sem a permissão dele no dia de seu casamento, nossas cabeças estarão nos muros da Fortaleza Dourada, pois seremos os Harens, os Traidores! Além disso, você bem sabe que eu não admito Lorenders sob o meu teto!

– Não se preocupe. Ela não vai fazer mal a ninguém. Eu sei que era para ser o dia do casamento dela, mas ela não quer se casar. Não ainda.

– Então você a trouxe para a minha casa?

– Por favor. Ela é minha sobrinha.

Marjorie podia ser uma mulher nervosa, mas também era compreensiva. Ela juntou todas as suas forças para se acalmar e tentar digerir todas aquelas informações. Ambos entraram na sala de estar onde Lylith se aquecia. A Senhora Haren deu boas vindas para a princesa e disse que ela poderia ficar lá o tempo que quisesse. O quarto que fora designado para ela era grande, com uma cama de penas de ganso e uma lareira de pedra. Também havia tapeçarias nas paredes, além de tapetes de lã, além de móveis de mogno. Ela se deitou em sua cama e, por um momento, se arrependeu. Pensou na preocupação da sua mãe. Pensou em seu pai doente e ferido pela multidão. E pensou em seu irmão, em algum lugar do norte, rumando para a escuridão.

Notas finais
Eu tive de arrumar várias coisas desse capítulo antes de finalizar, e não sei se o final dele ficou muito bom. Eu queria colocar toda a viajem deles em um só capítulo, pois assim não precisaria ficar fazendo vários capítulos com a mesma viajem. Sugestões? Coloquem nos comentários. Obrigado e até a próxima.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.