Wrath of Orcs - Marés de Sangue
2 Capítulo II - Um novo mundo à frente
Notas iniciais
Eram nove da manhã. O sol já brilhava sobre as águas do Oceano Tropicálio, e os fazendeiros orcs já estavam cuidando de seus campos. Logo seria verão, e a época da colheita estava próxima. Na Cidadela Vermelha, Vhal Grock, o Chefe de Guerra, líder supremo da nação órquica, caminhava com suas botas de couro pelo piso de pedra dos corredores, em direção à Sala do Trono. Seu manto se arrastando no chão e seu capuz cobrindo a cabeça perturbada pelas visões que tivera na noite anterior.
Ele abriu as portas da Sala do Trono, onde o Conselho Vermelho o aguardava. O Conselho Vermelho era um grupo de oito orcs de grande importância para a cidade de Brado Vermelho (entre eles haviam duas mulheres, pois elas não eram desprezadas pela sociedade na época em que esses fatos ocorrem, diferente da Era da Opressão, quando elas só serviam para reprodução, mas isso já é outra história). De qualquer forma, o Conselho ajudava o Chefe de Guerra em suas decisões diárias, além de darem conselhos.
O conselho sempre se reunia na própria Sala do Trono, um salão enorme de teto alto, paredes vermelhas e chão negro. Havia quatro pilares de mármore negro decoradas com vinhas de ônix repletas de espinhos escuros. Ao lado de cada pilar, um braseiro ardia e dava luminosidade ao salão que possuía uma enorme mesa de granito no centro, onde os conselheiros se sentavam e cadeiras de ferro adornadas em madeira e forradas com almofadas de seda vermelha.
Naquele dia, quando Vhal Grock entrou pela grande e maciça porta de ferro esculpida com uma cena de batalha em alto relevo, todos estavam discutindo. Mas quando viram quem tinha chegado, ficaram em silêncio e se ajoelharam perante o Chefe de Guerra. Ele bateu no chão três vezes com seu cajado, como era de costume, indicando que os integrantes do Conselho podiam se sentar novamente. Zin’Thor, um dos conselheiros (o mais esguio de todos, que trajava um colete de couro marrom bordado com lobos vermelhos, um manto de lã de carneiro e colares de ouro e rubis, além de braçadeiras de couro e aço nos pulsos), foi o primeiro a falar:
– Meu senhor, como já é de seu conhecimento, o verão está chegando, e logo, as colheitas estarão prontas. Mas esse ano, nossa população cresceu muito. E, apesar de isso significar “mais lanças no exército”, também significa “mais bocas para alimentar”. Precisamos reformular nosso sistema de distribuição de alimentos, ou nossos cidadãos passarão fome!
– Se me permite interromper, acho que temos assuntos mais importantes para tratar. – disse Sinthar’Ro, uma das mulheres do conselho. Ela era uma exímia caçadora, e não se vestia luxuosamente. Seus trajes também eram de couro, mas tinham arranhões e estavam gastos. Ela não usava nenhum colar o jóia, mas prendia seus longos cabelos com uma presilha de ferro decorada com uma pequena pérola.
– Mais importantes do que o bem estar da população? – retrucou Zin’Thor.
– O que eu quero dizer é que devíamos expandir nossos horizontes. O litoral está ficando muito pequeno para nós. Acho que seria bom colonizar as terras além do Vale da Névoa.
Nesse momento, os oito se levantaram em surpresa, e não demorou muito para que a conversa se tornasse discussão, e a discussão evoluísse para um tumulto. Nenhum orc que já foi ao Vale da Névoa retornou. Era um lugar considerado maldito. Diziam que seres horríveis, piores do que os Trolls da montanha viviam naquelas terras e além delas. Todos os conselheiros estavam discutindo. Enquanto uns diziam que era loucura, outros achavam que, com um exército bem treinado, não haveria problema algum. Vhal Grock, que massageava a testa com o polegar e o indicador da mão direita devido à sua dor de cabeça, finalizou a discussão com um grito de raiva, e ordenou que todos saíssem. Após o silêncio tomar conta do salão, o velho orc pediu à um de seus criados, Grumdrick, pra ir até o general Thalldrow e chamá-lo à presença do Chefe de Guerra.
O pequeno Grumdrick deixou a cidadela vermelha e desceu a escadaria que levava até o mercado ocidental. Sob a sombra das construções vermelhas, negras e cheias de espinhos de Brado Vermelho, os mercadores já haviam montado suas tendas onde vendiam roupas de couro, tapetes de lã, adornos de ferro, além de tâmaras, caquis, ameixas, bananas e especiarias como cravo, pimenta, azeite de oliva e óleo de Lhama para aromatizar ambientes. O criado deixou o barulho do mercado para subir o Morro das Lanças, onde as forjas abafadas abrigavam os ferreiros que martelavam e davam forma às armaduras e lanças do exército. No alto do morro, um edifício negro fortificado com muralhas duras e rodeado por um imenso pátio erguia-se sobre a fumaça das chaminés das ferrarias.
No campo de treinamento da fortaleza, ouvia-se o barulho de lâminas batendo em bonecos de treinamento, flechas acertando alvos e espadas de madeira se quebrando em duelos de recrutas, tudo supervisionado por Thalldrow, que dava ordens como “Mais rápido! Mais forte! Mais intenso!”, enquanto os mais novos e fracos deixavam cair seus escudos e quase despencavam ao chão com o peso dos machados. O pobre Grumdrick quase foi derrubado por soldados altos duas vezes, e chegou quase sem ar até o general, levando dois minutos para respirar e finalmente dar o seu recado.
Thalldrow deixou a fortaleza e, após alguns minutos, encontrou o Chefe de Guerra sozinho, na Sala do Trono. O general disse:
– O senhor me chamou?
– Sim. Você sabe que eu tenho total confiança em você. E por isso vou lhe confiar esse dever.
– Que dever? – Indagou o jovem general, que estava com um mau pressentimento.
– Ontem à noite, meu sono foi perturbado por um pesadelo horrível. Mostrava uma sombra nascia do Vale da Névoa e pairava sobre Ogríllia. Então surgia uma praga. Espalhava-se rápido, fazendo com que a população todo adoecesse e morresse. No final de tudo, surgia um Necromante, capaz de ressuscitar os mortos e transformá-los em escravos mortos vivos, sedentos de sangue. Ele montaria um exército e navegaria para as outras terras, causando o caos.
– Nossa! Isso é perturbador, mas foi só um sonho, não é? – disse Thalldrow.
– Eu temo que não, meu jovem. Já tive várias visões durante meu sono, e várias delas se concretizaram. Provavelmente, logo será o fim da nossa nação.
A ideia disso fez Thall tremer. Mas o que Vhal Grock disse a segur o deixou mais chocado.
– Você sempre foi como um filho para mim. Quando eu morresse, você iria se sentar nesse trono para governar. Mas devido às circunstâncias, terei que mudar meus planos. Quero que você parta com um terço da população e do exército e navegue para Leste, além do Oceano Tropicálio. Nas terras que encontrar lá, você construirá um novo lar para a nação órquica. Irá protegê-los e guiá-los até o fim de sua vida, para que fiquem a salvo. Então voc~e terá tempo para avisar os outros povos daquela terra para se prepararem e resistirem ao ataque do Necromante e seu exército. Seja o novo Chefe de Guerra. Salve seu povo. Por favor!
Thalldrow não gostou muito da ideia no início. Refletiu durante algumas horas e logo chegou à conclusão de que, se era para o bem dos orcs, então ele o faria de bom grado. Além disso, se o velho orc achava que Thall conseguiria então ele conseguiria. No dia seguinte, Vhal Grock decretou que um terço da população e do exército deveria ir aos navios, para participar de um “projeto de colonização de terras além do mar” (ele não disse o real motivo da viajem para não causar pânico entre os que iriam ficar). Dois dias depois, e os sete navios estavam prontos. Eles zarparam do porto com vários orcs assistindo e se despedindo. A única família de Thalldrow era seu irmão e seus companheiros do exército, e eles estavam ali, com ele. Ele não sentia dor ao sair de sua terra natal, e provavelmente, não sentiria saudade. Ele lideraria o povo agora. Não seria uma tarefa fácil, mas Vhal Grock era um líder sábio, e, se ele confiava em seu general, era porque ele conseguiria. Uma nova era tinha início. Era um novo mundo à frente, além do mar.
Fale com o autor