Wrath of Orcs - Marés de Sangue

4 Capítulo IV - Dos céus vem a Fúria


Notas iniciais
Finalmente, o quarto capítulo. Me desculpem pela demora, mas essas semanas de Natal e Ano-Novo foram meio agitadas, e eu não tive tempo de escrever. Obrigado ao RishoN e ao CaptainSparrow por favoritarem a história, e muito obrigado ao RishoN pela ajuda que ele tem me dado com as opiniões dele. Espero que tenham tido boas festas. Divirtam-se lendo!

Pássaros cantando. Ventos sopram as folhas dos carvalhos. O céu estava azul e sol brilhava sobre os campos verdes de Lothemar, o Reino Humano do continente de Manorothian. Sunlight era a capital do reino, uma cidade onde quase tudo parecia dourado sob a luz constante do sol. Os muros continham vinhas, as telhas das casas eram vermelhas e havia vasos de planta por toda parte. Também se viam varais altos com roupas de camponeses postas para secar. As ruas, algumas estreitas e outras largas, eram pavimentadas com pedras em formato de paralelepípedos. Nas ruas mais largas, havia barraquinhas de comércio informal, onde comerciantes vendiam produtos das mais longínquas terras, desde as Ilhas Fúria do Trovão até os picos da cordilheira que rodeava o Monte da Eternidade. As praças possuíam fontes enormes, cuja água refletia intensamente o brilho do Astro-Rei. As casas dos mais ricos tinham flores debaixo das janelas e varandas com samambaias penduradas. Cortinas de seda, jardins, fontes, isso marcava quase toda a cidade, pois só viviam lá os nobres, os ricos, os comerciantes e algumas pessoas que não eram ricas, mas tinham algum dinheiro. A cidade era barulhenta. Vendedores anunciando preços, senhoras que fofocavam sobre a vida da elite, bêbados que discutiam nas ruas, guardas que tentavam prender arruaceiros. Na maior praça de Sunlight, havia a Avenida dos Reis, uma estrada que subia até os jardins reais e que possuía estátuas ao longo dela. Estátuas dos grandes reis da raça humana, feitas de mármore e ornamentadas com ouro, sempre muito altas e imponentes. Os jardins reais eram verdes, com árvores altas, arbustos, fontes, tudo isso acompanhado do cantar de pintassilgos e pelo aroma de flores. O palácio real, a Fortaleza Dourada, lar da família real que governava todo o continente, era um lugar imponente, com torres altas e estandartes azuis com um leão dourado pendurados, simbolizando o poder da família real, os Lorenders. Grandes salões com pinturas riquíssimas em detalhes, uma mobília feita de madeira de mogno e grandes pilares dourados marcavam o interior. Sim, parecia um lugar perfeito, pelo menos no verão. No inverno, as coisas mudavam, mas isso não importa agora.

Essa era Sunlight em toda a sua glória. Apesar de a sociedade estar em crise, com crimes pelas ruas, impostos altos e corrupção por parte dos nobres. Em um quarto da Fortaleza Dourada, na varanda de frente para a cidade, havia uma garota. Cabelos loiros, magra e um pouco alta. Via-se que tinha dezesseis anos. Seus lábios não sorriam. Seus olhos azuis como o mar pareciam tristes. Pela porta, entra outra mulher, parecida com a jovem, mas seus cabelos eram mais escuros, algo entre loiro e ruivo. Usava um grande vestido vermelho com detalhes em seda dourada, com pulseiras, anéis e colares. Seu rosto não era muito jovem, ela tinha quarenta anos, mas tentava se conservar. Era a rainha Helen, esposa do rei Murdock, Grande Senhora de Manorothian. Ela caminhou até a jovem, sua filha Lylith, e disse:

– Você passa tempo demais espalhando o cabelo no vento dessa janela.

– Não quero ouvir mais uma de suas conversas agora, mãe. – respondeu a filha. Enquanto isso, Helen começava a fazer uma trança com seus cabelos dourados. Lá embaixo, nas ruas, havia uma caravana de homens armados segurando estandartes roxos em volta de uma carruagem. Lylith disse, apontando para a carruagem:

– Aquele é meu noivo, não é? Lorde Baelin, o Castanheiro.

– É sim. Um duque com grandes terras e muito dinheiro. Tenho certeza de que vai gostar dele. Um homem nobre.

– Dizem que ele é um homem excêntrico, que dorme com animais.

– Não deixe se levar por estas mentiras que os camponeses inventam. Quem lhe falou isso? Foram aquelas mulheres da cozinha com quem você tanto fala? – indagou a rainha. Ela não gostava que a filha passasse muito tempo com os servos.

– Por que está fazendo isso? Forçando-me a casar com ele? Eu nem sequer o conheço direito.

– Estou fazendo o que é melhor para você, minha querida. Você mesma já me disse que gostaria de morar em outro lugar, longe da correria de Sunlight. Lorde Baelin mora em uma bela casa de campo com cavalos, riachos e uma enorme plantação de castanheiras.

– Não interessa se ele tem cavalos, castanhas, ou se dorme com animais. Vou ter que passar o resto da minha vida com um homem que eu não amo.

– Quê? Você ainda está pensando em amor? Quantas vezes vou ter que te dizer: o amor é uma fantasia infantil idiota. Ele é como uma trepadeira que se enrosca no seu coraçãozinho. No começo, ele fica ali para se apoiar, mas quando mostra sua crueldade, ele te sufoca até que você morra lentamente por dentro. Amor, que coisa infantil. Não sei por que essas baboseiras ainda estão em sua mente. Você já tem dezesseis anos. Está na hora de parar de viver nesse mundo de fantasias e passar a viver no mundo real.

– O mundo real é cruel, mãe. – disse Lylith, tentando não se aborrecer ainda mais pelas palavras duras de Helen.

O amor não podia se comparar a uma simples trepadeira. Não com todas as pessoas que vivem felizes, sem muito dinheiro, mas com amor no lar e no coração. Para a princesa, o amor era como uma chave que poderia tirá-la da gaiola que a prendia naquele mundo cinza, abrindo passagem para um mundo novo de alegrias e vivências inesperadas. Sua mãe terminou a trança, virou a filha, olhou-a de cima a baixo e finalizou a conversa:

– Você devia ter se vestido melhor. Não vai ser bom lorde Baelin vê-la nesse vestidinho azul. Está parecendo uma filha de um duque qualquer. E você é uma Lorender. E nunca irá deixar de ser, não importa com que se case. Está no seu sangue. Agora vamos. Não queremos nos atrasar, queremos?

Ela queria se atrasar, sim. Queria pular por aquela janela em direção à libertação (ou à morte certa). Mas não tinha escolha. Ela e a mãe desceram as escadarias, passaram pela sala do trono (que estava vazia, pois toda a corte se reunira na praça), abriram as grandes portas de metal e madeira do palácio, e continuaram andando pelo jardim, pela Avenida dos Reis, e chagaram a Praça do Leão, onde havia uma multidão, e um espaço vazio para a carruagem. De frente para as pessoas, estavam alguns nobres juntamente com Alexander, o filho primogênito do rei. Era um homem de vinte e três anos, com cabelos loiros que iam até o pescoço, olhos verdes e, no rosto, vestígios de uma barba (cortada pela manhã). Usava uma armadura branca e azul. As duas mulheres da família chegaram e se posicionaram ao lado dele. Logo, trombetas tocaram, e vários homens a cavalo carregando estandartes roxos chegaram, cavalgando na frente de uma carruagem de madeira de altíssima qualidade, com ornamentos roxos. Os cavalos que a puxavam eram brancos, de raça pura, e seus arreios eram de ouro.

A porta da carruagem se abriu, liberando um bombardeio de aromas que pareciam ser dos mais variados perfumes. De dentro, saiu um homem não muito alto, cabelos negros que formavam um topete, de pele com cor de caramelo, uma pequena barbicha e roupas de seda marrons e vermelhas. Cumprimentou a todos com uma reverência, dizendo:

– Saudações! Barão Rabadesh Baelin Menetheon se apresentando com muito prazer! Eu esperava ver o rei Murdock, o que houve com ele?

– Meu pai, como o senhor deveria saber, está muito doente, e não pode se levantar da cama para recebê-lo, Lorde Baelin – disse Alexander.

– Bom, espero que ele melhore. Esta formosa Senhorita deve ser minha noiva. Lylit, não é? – perguntou Baelin, e ela respondeu:

– Sim. É um prazer conhecê-lo, Lorde Baelin.

– Hora bolas, não precisa me chamar assim. Você logo será minha esposa. Me chame apenas de Baelin. E essa bela senhora deve ser a Rainha Helen. – disse ele, dirigindo-se a Rainha e dando-lhe um beijo na mão. Completou, dizendo para sua noiva:

– Agora sei de onde veio esse seu rosto angelical digno de ter uma constelação entre os astros do céu, minha querida.

– Vamos. – interrompeu Alexander – Os cozinheiros prepararam um banquete digno de saciar a sua fome após essa viajem.

A sala de banquetes do palácio era grande. Possuía uma mesa dourada extensa, com seis cadeiras de cada lado. Cadeiras de mogno, acolchoadas com lã de carneiro da montanha, com adornos prateados. O teto era muito, muito alto, com pinturas de cenas da criação do mundo pintadas por grandes artistas élficos. As janelas eram compridas e estreitas, e iluminavam toda a sala. Entre cada janela, havia estátuas de mármore na forma de soldados. Acima das estátuas, estandartes com um sol dourado em um fundo branco. A mesa estava farta, com garrafas de vinho, carnes assadas, frutas, saladas e algumas sobremesas como bolos e tortas. O príncipe sentou na cadeira de seu par, na ponta da mesa, sua mãe á sua direita, e sua irmã à sua esquerda. Baelin perguntou:

– Então, já que seu pai está ausente, não é o Conselheiro que deveria ficar em seu lugar?

– Sim, mas não estou substituindo meu pai. Estou apenas ajudando Lorde Althor com suas responsabilidades. – respondeu Alexander.

Lorde Althor era o Conselheiro Real, a pessoa que ajudava o Rei em suas tarefas de administrador do reino. Lorde Althor não gostava do jeito de Murdock de controlar o reino. Murdock já estava velho, com oitenta e dois anos, não tinha mais condições de governar. Mas, segundo a lei, ele é rei até que a morte o leve. E ele também é um Rei teimoso. Quando sua mente velha e perturbada tem uma ideia, é difícil fazê-lo desistir dela. O sonho de Althor era governar sobre Lothemar os Menetheons como a nova família real, acabando de vez com os Lorenders. Era um home de quarenta anos, cabelos negros e um olho cego com uma cicatriz. Ele era tio de Baelin, pois sua irmã se casou com um estrangeiro de Aun’Khalahara, dando origem ao barão castanheiro. Foi ele quem arranjou o casamento de Lylith com seu sobrinho, o primeiro passo para colocar sua família no poder. Agora só restava se livrar de Alexander e Helen, e esperar Murdock morrer. Mas essa história está saindo dos trilhos. Por enquanto, vamos focar apenas no banquete.

– Adorei a cidade. É um pouco quente, como a terra do meu pai, Sebastian. Ele é de Aun’Khalahara. Você ia gostar de lá Lylith. – disse Baelin.

– Ouvi dizer que lá não passa de um grande deserto. – disse ela.

– Bom, pode até ser deserto na maior parte, mas os palácios das cidades são maravilhosos.

– Estou curiosa sobre uma coisa. – disse Helen – Você disse que seu pai era estrangeiro, e sua mãe, uma Menetheon. Quando eles se casaram e tiveram você, por que você não recebeu o sobrenome de seu pai, e sim o de sua mãe?

– Meu pai não tinha muito prestígio lá em sua terra natal, e aqui não foi diferente. Por isso recebi a honra de ter o sobrenome dos Menetheon. Vocês devem saber que ser de uma família que possui seu próprio estandarte é um privilégio que abre portas. E uma dessas portas me trouxe até minha querida noiva.

Lylith estava começando a gostar dele. Parecia ser gentil, engraçado, e era até bonito. Uma ponta de esperança florescia nela. Talvez a vida com ele fosse mesmo boa, como sua mãe disse. Ou até melhor! Baelin continuou falando:

– Mas é claro, eu não estaria aqui hoje sem a ajuda do meu tio Althor. Aliás, onde ele está agora?

– Como Conselheiro Real, ele tem muitas obrigações. – disse Alexander – Mas tenho certeza de que você poderá vê-lo mais tarde.

– Acabei de me lembrar. É verdade que as pessoas que moram perto do Monte da Eternidade estão morrendo e seus cadáveres estão desaparecendo?

– Lorde Baelin, eu tenho a certeza de que é uma mera lenda, mas na semana que vem, eu e alguns homens iremos até lá para ver isso com nossos próprios olhos.

A conversa durou mais duas horas, até que Alexander e a rainha tiveram que voltar a seus deveres. Baelin e Lylith tiveram a tarde para se conhecerem melhor. Já era noite quando o lorde das castanhas andava pelos corredores do palácio, indo em direção ao quarto de seu tio. Entrou pela porta, e Althor disse:

– Você não me visitou o dia inteiro.

– Passei a tarde com a princesa. Gostei dela. Obrigado por arranjar nosso casamento.

– Era o modo mais discreto e sensato de tirá-la do palácio. O peixe já mordeu a isca?

– Alexander disse que vai para o norte investigar as mortes. Mas eu já mandei nossas “pessoas de confiança” para lá. Logo ele estará rumando para sua morte.

– Então só vai restar esperar aquele velho idiota morrer naturalmente. Se demorar demais, eu o enveneno. Depois será a vez da Rainha. Ela é uma mulher um pouco sensível, há a chance de ela morrer de desgosto por perder seu filho e seu marido.

– E aí, o senhor poderá pendurar os estandartes do dragão roxo e sentar no trono. E os Menetheon serão os mais poderosos de Manorothian!

– “Dos céus vem a fúria!”

– “Dos céus vem a fúria!”

Notas finais
Gostaram? Só para constar, "Dos céus vem a fúria" é o lema dos Menetheon (me inspirei nas Crônicas de Gelo e Fogo...) Prometo que o próximo capítulo terá mais ação (apesar de eu não ser muito bom em escrever esse tipo de cena). Deixem sua opinião nos comentários, mais uma vez, me desculpem pela demora. O próximo virá mais rápido. Obrigado pela atenção, fiquem com Deus, e até o próximo capítulo!