Wrath of Orcs - Marés de Sangue
3 Capítulo III - Ventos e tormentas
Notas iniciais
As palavras de Vhal Grock ainda estavam na mente de Thalldrow: “Funde uma nova terra.Seja o novo Chefe de Guerra. Salve seu povo.Por favor!”. Antes parecia fácil. Mas naquele dia, já em alto mar, ele pensava em todas as responsabilidades que teria pela frente. Via todas as pedras que bloqueariam seu caminho. Ele era um general, e nos campos de batalha, era preciso pensar rápido. Deliberar demais podia custar à vida de centenas em uma guerra. Ele não pensou direito. Ordens eram ordens, e com um juramento de lealdade ao Chefe de Guerra, não se pode desobedecer às ordens dele. Agora ele tinha um fardo enorme para carregar. Sua cabeça doía um pouco. O balançar do barco nas marés do Oceano Tropicálio também não ajudava, dando certo enjoo. Mas ele estava liderando a nova nação órquica, e não podia passar o dia todo na cama. Thalldrow se levantou e caminhou até a porta.
Quando a abriu, sentiu um bombardeio de sensações novas. A maresia, o barulho das ondas, o vento do mar batendo no rosto do general, espalhando seus cabelos negros que, por serem compridos, eram amarrados em um rabo de cavalo. Mas ele sentia que faltava algo. Ele percebeu que era sua armadura. Ele estava vestindo roupas de couro, e não a pesada armadura de placas vermelhas que vestia todos os dias enquanto treinava os jovens recrutas nos campos de treinamento. Mas aquelas roupas até que eram confortáveis, e ele não estava mais nos campos de treinamento. Ele estava em um sólido navio órquico, de madeira negra, com cordas trançadas pelas mais habilidosas tecelãs de Brado Vermelho e velas vermelhas com o brasão dos orcs, inchando-se com os bons ventos daquela manhã, que levavam a frota de sete navios para o leste. Thalldrow andava pelo piso, observando os tripulantes. Viu, de longe, um trio de camponeses conversando. Um deles disse:
– O que você acha que vamos achar do outro lado do Oceano? Será que são trolls? Lobos Gigantes? Seres horríveis que se escondem na névoa?
– Não. Isso são coisas do Ocidente. Coisas de Ogríllia. Há outras coisas no Oriente. Seres inteligentes, como nós, mas com peles claras, sem dentes afiados e que são liderados por um sujeito grande, que enfeita a cabeça com ouro em voa nas costas de dragões! – disse o outro. Um terceiro camponês complementou:
– Meu primo me disse que, no leste, as florestas têm árvores mais altas, que mudam de cor para vermelho, como se fossem regadas de sangue pelos espíritos. E há também lugares tão ao norte, que não se pode tirar o casaco, as colheitas morrem, e a neve cobre não só as montanhas, mas também o chão!
Thalldrow ouvia com interesse. Ele mesmo também não sabia o que os aguardava no leste. Seja o que fosse ele teria que guiar seu povo e dizer o que deveriam fazer. Mas continuou ouvindo. O orc que começou a conversa disse:
– Bobagem. Neve no chão? Dragões? Vocês pensam demais. Na verdade, acho que quem estiver lá não vai nos receber bem. Na certa, vai nos chutar de lá.
– Se tentar, eu vou lutar. Não vou descansar até que haja um teto sobre a cabeça de cada orc desses navios. – disse Thalldrow, que interferiu na conversa. Os três camponeses se levantaram das caixas vazias de onde estavam sentando e se ajoelharam. O general disse:
– Não se ajoelhem.
– Mas você é o novo Chefe de Guerra. É você que será nossa nova Estrela Vermelha, a primeira que surge e a última que some no céu. E quer saber? Tenho certeza que você nos levará à glória. – disse um dos três. Essas palavras comoveram Thalldrow. Por um instante, sua consciência pesou mais ainda, pela imensa responsabilidade que teria. Mas então, pensou: “Se eles e Vhal Grock confiam em mim, eu também posso confiar!” Nesse momento, seu amigo, Lothar, que estava na viajem com ele, colocou a mão em seu ombro e disse:
– Nossa Thall, você parece faminto! Vem, vamos achar algo pra comer.
Lothar era um amigo de infância de Thalldrow. Desde pequenos eles brincavam juntos. Lothar era um bom guerreiro, mas a única coisa maior do que sua lealdade era seu senso de humor. Ele era um piadista que não parava nunca. Era até um pouco arrogante, às vezes. Mas mesmo assim era um bom amigo. Quando Thalldrow estava nos treinamentos, tentando mostrar para seus superiores a sua capacidade, Lothar estava ao seu lado dando apoio. Quando Thall subiu de patente para comandante, Lothar estava lá. Quando Thall liderava seus orcs em uma batalha quase suicida contra o Rei Troll da Montanha Fogo Frio, Lothar estava lutando com ele. Quando Thall venceu e foi nomeado general por sua bravura, Lothar estava derramando lágrimas de alegria pela conquista de seu melhor amigo (ele era mais emotivo do que a maioria dos orcs).
Thalldrow e Lothar desceram uma escada que levava para a cantina do navio. Quem servia os pratos era uma orc fêmea velha e rabugenta, que tinha uma verruga com pelos horríveis perto do nariz. Lothar perguntou o que havia para comer. Ela respondeu:
– Eu cozinho os ratos que andam pelo navio.
Lothar ficou pasmo e, apontando para o amigo, disse para ela:
– Sabe quem ele é? Ele é Thalldrow, general, líder da expedição e futuro Chefe de Guerra da nova nação órquica! Ele merece coisa melhor do que isso.
– Bem, eu posso lavar o rato antes de cozinhar. – disse a servente da cantina.
– Está bem, então. – falou Thall, que já havia comido coisas piores (e não cozidas) em missões de sobrevivência na floresta.
Os dois se sentaram em uma mesa e continuaram conversando. Até que Lothar viu em uma mesa uma orc fêmea de longos cabelos castanhos, de pele verde-musgo e olhos azuis (o que era muito raro). Ele ficou fascinado. E como era um orc paquerador, foi logo ajeitando os cabelos espetados para tentar tragar aquela maravilha dos sete mares. Seu amigo logo avisou:
– Você não tem chance com ela. Ela é Sinthar’Ro, a fêmea mais durona daqui (eles não usavam as expressões “mulher” ou “homem”). Ela domou um bando de lobos gigantes do penhasco negro e transformou-os em bichos de estimação!
– Não brinca! Eu preciso falar com ela!
E lá foi ele, todo serelepe, pensando no que dizer. Chegou à frente dela e da sua caneca de cerveja e disse:
– Sabe gata, havia dois ursos na floresta: o Beijaeu e o Mebeija. O Beijaeu morreu. Quem é que sobrou?
Ela nem se dignou a responder. Virou-se para o outro lado enquanto Lothar dizia coisas como “Ah, qual é? Foi engraçado!” “Cadê seu senso de humor?”. Então Thalldrow chegou, interrompendo as tentativas frustradas de seu amigo e disse:
– Achei que você fosse do Conselho Vermelho.
Sinthar’Ro viu quem era e se ajoelhou. Thall disse para que se levantasse e ela respondeu:
– Eu era do Conselho Vermelho. Mas Vhal Grock me dispensou dizendo que, em breve, não haverá mais Conselho Vermelho em Ogríllia, e que eu seria mais útil aqui, na expedição.
– É um prazer tê-la aqui. Desculpe se meu amigo Lothar a aborreceu.
– Ei! Eu estava tentando ser simpático. – disse ele. Ela respondeu:
– Não tem problema. É que eu não estou acostumada com esse tipo de coisa. As pessoas sempre me veem como alguém durona, sabe? Por que não se sentam para conversarmos?
Eles se sentaram e Lothar disse:
– Espero que no oriente haja coisas tão bonitas quanto você. Ou que o mar seja tão azul quanto seus olhos.
Ela se sentiu lisonjeada, e a conversa dos três continuou por várias horas, movida à cerveja e ratos cozidos. Passaram-se três meses, com bons ventos que faziam os navios irem com rapidez. Nesse tempo, o trio acabou se conhecendo melhor, e a amizade deles ia crescendo. Sinthar’Ro via que Lothar era uma das poucas coisas engraçadas daquele navio (assim como a verruga da orc da cantina, que na verdade era mais nojenta do que engraçada). E os dois orcs perceberam que ela não tinha alma ou coração de pedra, e era gentil, leal e determinada. Tudo parecia perfeito e Thalldrow até tinha se esquecido de suas preocupações. Tudo parecia perfeito. Até que, em uma noite escura, enquanto dormiam, foram acordados pelo barulho de um imenso trovão. Repararam que o barco estava balançando mais do que o normal. Os três subiram até o convés. Viram que ventava muito e que o ar estava muito mais úmido do que o normal. Só podia significar uma coisa: vinha tempestade por aí.
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