Wrapped In Darkness

1 Capítulo 1 - Bem vindo ao seu pior pesadelo!


Notas iniciais
Olá galera, esta é minha segunda fic. Espero que gostem! -V

O motorista do ônibus me deu um sorriso um tanto quanto pervertido, ele me olhou de cima a baixo e abaixou o chapéu moribundo e rasgado, deixando-o na altura dos olhos. Isso fez com que ele ficasse ainda mais assustador.
- Com licença. – digo com uma voz calma, tentando esconder meu nervosismo. – Este ônibus vai para o Internato Yamai?– sinto um pingo de chuva cair sobre minha pele. Olho para o céu, ele está parcialmente escuro e muito nublado.
O motorista concorda com a cabeça.
Olho pelo canto do olho para trás, meu pai está acenando, dou um leve sorriso.
Eu te amo, ele movimenta os lábios. E graças as minhas dezenas de aulas de leitura labial posso entender o que ele está dizendo. Simplesmente ignoro, afinal o motivo de eu estar me mudando para este internato idiota é por causa dele, para ser precisamente exata é por causa do conselho.
Bom para explicar direito esta história vou ter que começar do começo, obviamente. Meu pai é da alta sociedade do conselho dos anciões, ele exerce um cargo nobre pode se dizer assim dizer. Ele nunca me deixou bisbilhotar as coisas dele, então desde criança era restritamente proibido entrar no escritório de nossa casa estilo francês, lá era onde ele trabalha. Por este motivo não sei bem qual a função do meu pai no conselho dos anciões, para ser sincera eu nem sei o que é de fato o conselho dos anciões, este é um assunto pouco falado em casa. Nossa casa costumava ser um ambiente agradável e familiar, mas quando minha mãe nos abandonou toda alegria desapareceu junto com ela.
Meu pai deixou de ser aquele cara fácil de conviver, fechou-se de tudo e de todos e se esqueceu da própria filha. Pois é, minha mãe desapareceu quando eu tinha 7 anos, e depois disso fui crescendo sem o carinho do meu pai, nas mãos de empregadas e criados rabugentos, trancada com minhas bonecas e brinquedos sem vida que nunca iriam substituir um carinho de um pai.
Obviamente, cresci com essa amargura e melancolia no coração, afastada do meu pai e sem minha mãe. Os dias da minha infância e da pré-adolescência foram muito duros, e como meu comportamento não era muito bom, fui logo taxada como a “ovelha negra da família”, a criança problemática sem mãe que nunca obedecia o pai e vivia sempre sozinha.
Parei de obedecer meu pai porque quando eu fazia as coisas erradas ele me dava atenção, então desobedecê-lo me fazia ter uma doce ilusão de que meu pai estava ali do meu lado, cuidando de mim. Porém, era obvio que aquilo era só uma faixada para saciar meu desejo por atenção, a marca de “criança bagunceira” nunca saiu, pro resto de minha adolescência fiquei com fama de mal-criada por entre os membros do conselho, onde já se viu um senhor que exerce um nobre cargo no conselho dos anciões ter uma filha rebelde e má indisciplinada? Conclusão? Estou indo passar um ano inteiro em uma droga de colégio para disciplinar pra jovens com imperatividade e problemas sociais. O problema é que eu não tenho problemas sociais! Certo, posso ser até anti social mas isso é culpa do meu pai que vivia me dizendo que as pessoas não prestam, passei a não confiar em ninguém para meu próprio bem.
Mas já que eu sou uma pessoa “rebelde” devo ir para um internato idiota, tudo culpa do meu pai e daqueles anciões. Respiro fundo e dou um breve aceno pro meu pai, percebo pelo seu olhar que ele está triste, só não sei se ele está triste por não ter sido promovido ou por sua única filha estar partindo para um colégio. É, se conheço meu pai diria que é a primeira opção.
Os “eu te amos” do meu pai são mais falsos que nota de três reais, pode ter certeza, a única coisa que ele se importa é com aquele trabalho.
Entro no ônibus e sorrio para o motorista, ele ajeita seus óculos de sol na altura do nariz e pigarreia.
- Você poderia me dizer quanto tempo de viagem? – digo.
- Depende. – ele responde.
Depende do quê? Tenho vontade de perguntar, mas prefiro ficar na minha. É visível quando uma pessoa não está a fim de conversar.
Bom, é melhor assim. Eu também não estou com vontade de conversar, para ser sincera nunca estou. Espero que as pessoas dessa nova escola também sejam assim.
A sacudida do ônibus me dá sono, assim como o passar rápido das árvores na janela. Meus olhos ficam mais pesados até que eu não vejo mais absolutamente nada.
***

- É aqui. – o motorista abre a porta do ônibus para mim. – Boa sorte.
Acordo repentinamente, assustada. Já chegamos?
- Obrigada. – observo o lugar no qual me encontro, é uma casa grande e antiga, uma mansão do século XIX para ser exata.
Caminho devagar com cuidado para não estragar a grama, é, eu tenho uma fascinação incomum por jardins e plantas, eles são ótimos pois te fazem companhia e não te perturbam fazendo piadinha sem graça ou debochando de você assim como os humanos. São ótimos amigos, as plantas e as flores.
Reparo no jardim mal cuidado e logo me imagino lá com meu quite de jardinagem fazendo maravilhas naquela terra fresca, graças à deus eu me lembrei de colocar meu quite na mala, pelo menos um hobbie que eu gosto para fazer nesse fim de mundo.
Há uma faixa grande na frente da porta de entrada escrita “Bem-vindo alunos”
Pelo que eu ouvi falar, este é um internato somente para pessoas entre 15 e 18 anos. Ou seja estou na média, tenho 16. É bom saber que não vou ser nem a mais velha e nem a mais nova.
- Boa tarde senhorita. – um senhorzinho de cabelo branco se ofereceu pra pegar minha mala. Fico um pouco receosa pois o senhor aparenta ser tão fraquinho...me pergunto se o peso da mala não iria quebra-lo em dois, mas acabo cedendo e entrego a mala para ele. — Aluna nova?
- Sim. – digo.
Ele sorri calmamente.
- Os alunos novos devem se apresentar no auditório, lá terá uma cerimonia de boas vindas, explicando as regras da escola. E depois você irá se dirigir para o salão principal juntamente com os alunos já antigos.
- Certo, obrigada. Onde seria...
O senhor não me deixa terminar a frase e aponta para o fim do corredor. Agradeço mais uma vez.
Os corredores são largos e um pouco escuros, desenhos rabiscados por alunos deixam a amostra que as paredes precisam urgentemente de uma pintura nova, além de algumas luzes falhas precisarem ser trocadas. Este lugar está bem desajeitado e sujo. Onde fui me meter meu deus?
Meu pai é rico, então sempre tive tudo do bom e do melhor. Cresci no luxo e na riqueza, rodeada por produtos de primeira linha. Mas nunca liguei para essas coisas, eu queria era o carinho dele, não o dinheiro dele. Engraçado, será que ele achou que está me mimando demais e resolveu me por em uma escola decadente? Isso não vai funcionar.
Uma moça sorridente e de cabelos cacheados está na porta de uma sala identificada como “auditório”
Ela abre a porta gentilmente para mim.
O auditório é cheio de cadeiras e mesas espalhadas, mas no fundo encontra-se um palco mal iluminado com um microfone no centro. Escolho uma cadeira mais afastada e me sento.
O lugar começa a se encher por adolescentes de todo tipo, baixinhos, altos, gordos, magros, emos, oferecidas (que só de bater o olho no micro tamanho da saia já dá para perceber o tipo de pessoa que elas são) garotos e garotas entre 15 e 18 anos.
Um homem gordinho e rechonchudo sobe as escadas que leva até o palco com dificuldade, ele se ajeita e toma o microfone nas mãos.
- Boa tarde caros alunos.
- Boa tarde. – um coro desanimado se forma.
Alguém assoa o nariz lá no fundo.
- Eu sei que muitos aluninhos vieram de muito longe, muito longe mesmo. – ele apontou para um grupo de pessoas à esquerda e dá um sorriso de ponta a ponta da boca. – Mas isso não é motivo para desanimo, amanhã será o primeiro dia de aula do internato Cross Swort!
Uma bandeira grande com uns símbolos estranhos desenhados em vermelho se ergueu da pilastra, uma menina magrinha e de cabelos incrivelmente loiros estava puxando e erguendo a bandeira. Todos em volta aplaudiram e ficaram de pé.
Eu continuei sentada, sem entender. Internato Cross Swort? Não, deve haver algum engano. Eu fui mandada para o internato Yamai! Um colégio com disciplina japonesa para educar crianças com problemas sociais, logo alguém virá me buscar e esse terrível erro irá se resolver, certo?
-Ei. – um menino de capuz e de boné me cutucou. – Está na hora do hino, você tem que ficar de pé.
Meio relutante me levantei, pronta para começar a cantar “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas...”
Mas ao invés disso, começou a tocar uma música desconhecida para mim. Eu não conseguia identificar a letra, era alguma língua totalmente diferente. Porém, parece que era desconhecida apenas para mim pois todas as pessoas do auditório estavam cantando animadamente aquele hino. Fico com cara de taxo olhando para o diretor gordinho sem saber o que fazer, no fim acabei abaixando a minha cabeça e balbuciei os lábios fingindo que estava cantando, como todo mundo.
— É emocionante não é? Viva! – gritou o homem. O homem bateu na pança gorda duas vezes antes de começar a falar, todo orgulhoso. – Como vocês já devem ter percebido sou o diretor desse colégio, e deve dirigi-lo com respeito, bravura e ordem, muita ordem. Alguém sabe me dizer como se faz a ordem?
A menina loira que estava erguendo a bandeira levantou a mão.
- Com regras. – diz ela com uma voz suave, mas ao mesmo tempo sensual. Os meninos em volta de mim deram suspiros.
- Muito bem, Salvatori. – a garota ajeitou sua micro saia e bateu palmas. – Regras. Nesta escola há três regras que devem ser imperdoavelmente seguidas, e quem as quebrar. Será imediatamente expulso e entregue ao conselho dos anciões sem dó.
Um silêncio pairou sobre o auditório.
Espere, conselho dos anciões? Minha vontade era de voar no palco e perguntar para o diretor como é que ele sabia disso, meu pai sempre disse que o trabalho dele era absolutamente secreto, tanto é que fez segredo da própria filha.
- Essa é boa, duvido que eles entreguem alguém de bandeja para o conselho dos anciões, principalmente um aluno! – diz o garoto de boné para mim. – Não acha?
- Como você sabe sobre o conselho dos anciões? – consegui formular uma pergunta decente, dentre todas as perguntas que fervilhavam na minha cabeça.
Ele me olhou com uma cara de tipo “dã”
Resolvi protestar e força-lo a falar, mas não vai ser legal arrumar briga logo no primeiro dia, então fiquei quieta.
- Podem me chamar de Sr. Salvatori. – a menina ao lado do diretor sorriu. – E sim, esta aqui é minha adorável sobrinha. Ela já está no segundo ano, ela não é linda?
Os garotos bateram palmas concordando. A loirinha mandou um beijo e consegui ouvir alguns suspiros apaixonados.
- Aqui neste internato há 3 regras que não podem ser quebradas de jeito nenhum. Primeira regra: É proibido garotos no quarto de garotas e vice-versa. E também é proibido a entrada de alunos no terceiro andar.
Vários “humm” pairaram pelo auditório.
- Mais isso já não são duas regras? – perguntou um menino de óculos.
O diretor lançou um olhar mortal sobre o pobre garoto.
- Continuando, segunda regra, é proibido se relacionar com um humano, os humanos não podem saber da existência desse colégio, se os humanos souberem é provável que o conselho venha aqui e destrua tudo, de novo. Vocês querem mais derramamento de sangue? Querem que nossos semelhantes sejam mortos por aqueles humanos nojentos?
- Não! – todos gritaram, um garoto forte com uma camisa de futebol americano deu vários tapas ritmados na mesa.
Hã? Eu não estou entendendo mais nada. Será que meu ouvido está me pregando peças?
Muito legal pai, eu sei que você está escondido atrás dessas cortinas, pode aparecer. É alguma brincadeira? Vou aparecer na TV em algum canal do tipo “trollando as filhas dos anciões”?
- Isso mesmo. E terceira e última regra : É proibido revelar sua verdadeira forma em público, todos os alunos devem permanecer na forma humana para zelar pela segurança de tudo e de todos. Quem for pego na sua forma real vai ser expulso e exilado para o conselho dos anciões, compreenderam?
Minha cabeça estava rodando, era muita coisa para ser digerida de uma vez só. Eles estavam falando sério? E o que eles queriam dizer com, sua verdadeira forma?
Alguém me belisque por favor.
- As demais instruções serão ditas no salão principal, por favor se dirijam calmamente para lá. Monitores do terceiro ano irão acompanha-los conforme a inicial de seus nomes.
Fiquei perdida por alguns instantes, sem saber o que fazer. O quê está acontecendo?
O garoto de capuz e de boné que estava sentado ao meu lado cutucou meu braço novamente.
- Está tudo bem? Você está pálida.
Assenti.
- Olha, melhor nos irmos. – ele ofereceu seu braço de apoio, mas eu recusei.
Deixei o garoto lá sozinho, não quero fazer amizades nesse internato. Não quero formar laços e daqui 1 ano destruí-los.
Tenho certeza que isso é apenas uma brincadeira e depois vamos todos rir juntos, não é? Melhor entrar no espirito da pegadinha.
Procurei a monitora com uniforme da insígnia do internato segurando uma plaquinha “K-O” e logo me apressei para entrar na fila.
- Nome? – ela perguntou com um sorriso amável no rosto.
- Katelin McGarden .
Ela ergueu as sobrancelhas para mim.
- McGarden?
- Sim. Algum problema?
- Não é que...- uma ruga se formou na testa da monitora. – Esquece. Enfim, aqui está a chave do seu quarto Senhorita McGarden. Quarto 302.
Ela me deu um crachá com o meu nome estampado, coloquei na alcinha da minha blusa de renda.
- Vish, quarto 302! Que azar hein. – diz a menina ruiva ao meu lado. – Peguei o 299, por pouco.
- Qual o problema com o quarto 302? – digo, intrigada.
- É um quarto do terceiro andar, lá há somente dois quartos. O 300 e o 302.
- Mas por que só tem dois quartos?
- O resto lá é região proibida, alguns dizem que a escola esconde alguma coisa perversa lá. Segredos misteriosos. – ela fez cara de assustada. – Lembra da primeira regra “proibida a entrada no terceiro andar” então...
- Quer dizer que eu vou dormir em um quarto onde é proibido a entrada de pessoas na região?
- Sim.
- Ótimo.
É até melhor assim, eu ficar afastada. Não tenho medo dessas lendas urbanas idiotas, mas é bom que as pessoas fiquem longe do terceiro andar.
- Nossa você é a primeira pessoa que eu descubro que gostou de ficar no terceiro andar. – ela inclina a cabeça a fim de ler meu crachá. — Katelin! Você é muito corajosa.
- Hã...obrigada. – leio o crachá dela também. — Melanie.
- Não há de quê! – responde com uma voz doce.
Melanie corre para se juntar as outras amigas. Ela parece ser simpática.
Pena que eu não estou aqui para fazer amigos.
***
O salão principal é exorbitantemente grande, cadeiras revestidas e castiçais estão espalhados por todo lugar, a iluminação continua sendo precária, mas o conforto já melhorou muito.
Dá para perceber que neste salão não está somente os alunos novos, mas sim os alunos antigos também.
Sento-me afastada em um canto, como sempre procurando não chamar a atenção. Ainda estou muito confusa, mas sei que tudo ira clarear logo, provavelmente alguém vai gritar e dizer “pegadinha” e todos nós iremos rir disso comendo biscoitos no chá da tarde.
Uma moça bem vestida e com um coque perfeitamente preso vai ao centro do salão com um microfone reluzente e pede silêncio. Centenas de cabeças se viram para olhá-la.
- Bem vindos à escola de monstros Cross Swort!
Está é a parte que alguém grita “pegadinha”, certo?
Já sei , eu devo estar encostada no assento inclinado do ônibus dormindo, é isso! Eu estou sonhando, logo o motorista irá me acordar pois chegamos no internato Yamai.
E eu acordarei desse pesadelo.

Notas finais
E então? o quê acharam? Pretendo fazer dessa fic o menos glichê possivel, estou cansada de ler histórias de romance em que tudo dá certo e a garota indefesa fica com o mocinho. Vocês podem esperar de tudo dessa fic, até mesmo o improvável! Tudo pode acontecer, beijinhos. - V