Won't you spare me over til' another year
2 A Volta - Emily
Notas iniciais
– Vocês provavelmente têm pelo menos algumas ideias do por quê de estarem aqui — A policial rodeava a sala, com pés fortes, fazendo altos ruídos na sala silenciosa e parecendo ameaçadora. Nós um a um ficávamos mais tensos até descobrir do que ela realmente tratava. — Afinal, com um acontecimento como o de vocês ano passado, é bem difícil não ter noção de estarem na delegacia em um dia comum, sabendo que não fizeram nada de errado. — Ela vai chegando perto de cada rostinho assustado, soltando seu bafo matinal na cara de todos. — Ou fizeram? — Ela tenta quebrar o gelo, fazendo uma gracinha, que pelo visto, hahaha, é tão engraçado que me deu sono.
Então me fizeram acordar cedo e ir para uma delegacia por causa dos eventos de Blackwood Pines? Ah, por favor, não acho que tenhamos mais o que fazer. Depois de um ano, o que iríamos fazer aqui? Dar queixa? Se humilhar para policiais que sequer acreditam em algumas palavras do que dizemos? Se não acreditaram um ano atrás, não será hoje que acreditarão.
A porta se abre e dois jovens adultos entram na sala. Se sentam em duas cadeiras do lado contrário em que estamos e abrem algumas pastas cheias de papeladas e mais papeladas. Me pergunto de que são elas. Devem estar brincando que é do nosso caso, afinal, ninguém deu bola quando realmente precisaram.
– Hoje é o trigésimo dia do mês de Janeiro. Alguém sabe o que isso significa? — Ela aponta para todos nós. — Ninguém arrisca um palpite? — A sala fica totalmente silenciosa por alguns segundos, momento em que podemos ouvir nossas respirações.
– Faltam três dias para o Aniversário dos Eventos de Blackwood Pines — Ashley sussurra, com medo do que diz.
– Exatamente — A policial conclui. — Um ano do desaparecimento de Joshua Washington, dois anos do desaparecimento de Hannah e Beth Washington. O desaparecimento das gêmeas Washington. — Ela suspira.
– Estão mortas — Ashley fala para si, e seus olhos se enchem d'água.
– Que Deus as tenha — Sam abraça a amiga, consolando-a.
A policial, como todos os outros que dissemos isso, ignorou o comentário.
– Ano passado, após a volta de vocês, enviamos uma equipe policial para Blackwood Pines — Que surpresa! — Porém, não retornaram — Ela lamenta. — Não temos provas concretas nem ao menos ideias do que aconteceu. E então retornaremos, esse ano, para finalmente podemos encerrar o caso.
– Talvez tivessem ideias se nos escutassem — Comento para mim mesma.
– Talvez se fosse menos mesquinha, prestaríamos atenção.
Quem ela pensa que é para me chamar de mesquinha?
– E para retornarmos... Eu sei que é bastante arriscado, porém... Gostaríamos da ajuda de vocês. A equipe inteira concordou que se levássemos as testemunhas, no caso, vocês, o caso ficaria mais fácil de ser concluído. Vocês sabem onde a maioria das pistas estão, pelo o que disseram. Quem se voluntaria?
Silêncio.
– Vamos lá. Precisamos da ajuda de vocês. Mesmo sendo tão arriscado assim.
– Eu — Sam se levanta. — O Josh ainda não foi encontrado. É meu dever de amiga procurá-lo e achá-lo — Ela suspira levemente, o medo a consumindo. Porém, sua lealdade é maior que seu egoísmo. — Seria uma péssima amiga se não o fizesse.
Chris se levanta e se junta a Sam.
– Também é meu dever de amigo.
– Chris? Está louco? — Ashley retruca. — Isso é... Suicídio!
Christopher se aproxima de Ashley, e segura seus ombros.
– Se você fosse o Josh... Não gostaria que tivéssemos consideração por você e fossemos te buscar? — Ele comenta, com um olhar sábio e triste.
– Por que você sempre tem que estar certo? — Ela se junta aos dois. — Sendo assim... Acho que tenho que ir. Não só por ele, mas em consideração também à Hannah e Beth.
Silêncio.
Eu definitivamente não quero voltar para aquele lugar horrendo. Afinal, as únicas pessoas que tenho consideração que estão por lá são Hannah e Beth, que por acaso, estão mortas. Não devo satisfação a alguém como o Josh, não depois de tudo o que ele fez.
– Vocês precisam de alguém que saiba usar uma escopeta e um lança-chamas — Mike se levanta, voluntariando-se e indo em direção aos amigos leais da família Washington.
Jessica engoliu em seco.
– Eu só vou porque sei que Mike não aguentaria meia hora sem mim para protegê-lo — Ela diz sarcasticamente, fazendo todos soltarem umas gargalhadas, inclusive eu, por mais que não goste daquela baranga. Ciúmes? Claro, mas prefiro viver do que amar Mike e arranjar confusão com loiras burras e sem noção de princípios.
Matt preparava-se para encontrar o grupo, porém seguro seu braço.
– Por favor, me diga que não vai voltar para o chalé amaldiçoado.
– Eu preciso — Ele larga minha mão friamente e segue seu caminho até os amigos. Estou me sentindo uma forever alone, e também na friendzone.
Porém eu amo viver.
– Em? — Mike pergunta.
– Tenho amor à minha vida.
– Nós também. Mas também amamos nossos amigos. Não se sente nem um pouco culpada por deixar o Josh morrendo com aqueles monstros?
O pior é que ele tem razão.
– Já que não tenho escolha... — Me dirijo até o grupo. — Felizes? — Digo, um tanto emburrada.
☠
– Lembrem-se: eu, policial Scott, vou com vocês, junto também com o sargento Smith — Ela aponta para um homem que aparenta estar na casa dos cinquenta que acaba de entrar no cômodo. — Esses dois repórteres aqui também vão conosco — Ela se refere aos dois jovens adultos com as papeladas. Então é isso que eles são, apenas suicidas, digo, repórteres.
– Vamos todos partir no primeiro dia de fevereiro, para chegarmos ao anoitecer. Assim, passaremos a madrugada de dois de fevereiro, assim como vocês passaram, em Blackwood Pines. Boa sorte a todos.
☠
Dia primeiro de fevereiro. Sim, o dia chegou. Pego minha mochila de costas e despeço-me de meus pais, enchendo meus olhos d'água e também os deles. Eles beijam minha testa e sussurram um "Boa Sorte" e um "Volte Inteira". Por favor, Deus, não me deixe morrer.
A viatura da polícia me busca em minha casa. Aceno para mais pais e os encontro em estado crítico emocional, aos prantos de desespero e saudade. Grito um "Eu amo vocês" e recebo o mesmo como resposta.
Ao chegar na delegacia, avisto um ônibus aparentemente confortável do exército. Poderia ser melhor, reflito. Poderia ser muito melhor.
Todos entramos no ônibus. Ao que parece, é bastante confortável. Poltronas acolchoadas e um pequeno ar-condicionado para cada passageiro. O teto está descascando e algumas poltronas estão rasgadas, fazendo com que procure a melhor delas. Sento-me no penúltimo banco à esquerda, aquele antes das quatro ou cinco poltronas no fundo do ônibus. Matt se senta comigo, enquanto Ash e Chris estão do lado direito e o resto no fundão. Os jovens repórteres se sentam na nossa frente e conversam sobre algumas notícias recentes, tentando deixar o assunto de morrer de lado. O ônibus começa a andar, e com isso todos ficamos um pouco tensos. A hora de nossa morte está chegando.
– Boa sorte, Em — Matt beija minha bochecha. — Eu te amo.
– Eu sei. Eu também te amo.
Coloco meus fones de ouvido no máximo e esqueço um pouco o mundo.
Adormeço.
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