Wonderland
6 Capítulo 6
Amnésia retrógrada: incapacidade de lembrar experiências ocorridas antes do início da amnésia.
Amnésia anterógrada: incapacidade de armazenar, reter e lembrar conhecimentos recém-adquiridos (pós-traumática).
Amnésia global: amnésia típica da doença de Alzheimer.
Amnésia pós-hipnótica: ocorre na sequência da hipnose.
Amnésia pós-hipnótica, Hermione pensou. Era o mais próximo da verdade que chegaria. Passou diretamente para a página indicada e começou a ler.
Depois de alguns parágrafos percebeu que seria inútil. Era uma leitura muito avançava, cheia de termos que ela ainda não entendia. Hermione teria que conversar com um dos professores depois da aula para pedir ajuda. Pegou o celular e ligou para Margie, avisando que chegaria atrasada hoje.
***
Os pensamentos de Draco eram tão intensos em sua mente que ele só notou a falta dos passos de Hermione quando chegou à casa de repouso.
Onde ela tinha se metido?
Margie abriu a porta para ele e o mandou direto atrás de Oliver.
— Ele falou desse jogo de xadrez a tarde toda. Ele gosta de você, Draco.
O bruxo forçou um pequeno sorriso e foi atrás do velho. Ele estava na sala, onde os outros assistiam televisão, ou liam, ou conversavam. Oliver preparou uma pequena mesa para eles embaixo da janela, onde as peças do jogo já estavam arrumadas.
— Boa noite – Oliver cumprimentou de bom humor.
— Boa noite – Draco respondeu achando graça. Ele estava desesperado por atenção.
— Prefere peças brancas ou as pretas.
— Pode ficar com as brancas – ele respondeu se sentando.
Com cinco minutos de jogo ficou claro que Oliver sabia o que estava fazendo, mas Draco não podia se concentrar. Ficava olhando para a porta de cinco em cinco minutos esperando Hermione entrar.
Era claramente um sinal divino. No dia em que ele resolve pedir um favor a Granger, ela desaparece. Não, “favor” não! “Favor” nunca. Era um acordo, um negócio, lembrou a si mesmo.
Caralho, Granger.
Depois de duas partidas (em que fora derrotado) Draco é chamado para ajudar a pôr a mesa e foi somente nessa hora que Hermione chegou.
***
Uma pilha de pratos se equilibrava em seus braços quando Hermione irrompeu o salão. Ela sentiu o olhar acusatório de Draco sem precisar se virar para ele. A bruxa hesitou antes de levar alguns pratos para a mesa dele.
— Eu perdi alguma coisa importante? – ela perguntou.
— Onde você estava?
— Tive que ficar estudando até mais tarde.
Hermione passou quase duas horas com seu professor depois da aula, pedindo explicações detalhadas sobre o livro que estava lendo. Depois de algum tempo Dr. Gyllenhaal achou que a garota pedia informações muito específicas para ser mera curiosidade científica.
Hermione não teve alternativa senão contar ao médico sobre sua mãe. Ela não mencionou o pai, pois achou que teria que inventar explicações demais se contasse que ambos tinham os mesmos sintomas. Combinaram que a bruxa levaria os exames da mãe para ele dar uma olhada.
— Quer dizer que você fica lendo enquanto eu fico aqui trabalhando?
— Sério, Malfoy? Eu fiquei sabendo que você passou um bom tempo jogando xadrez com Oliver. Eu não chamaria isso de trabalho duro.
— Bom, foi isso o que Margie me mandou fazer – ele respondeu com o começo de uma grosseria, mas Hermione reparou que ele tentou se controlar. Quando o bruxo voltou a falar, sua voz estava calma. – O fato de eu me divertir um pouco te incomoda, Granger?
— Não, eu não quis dizer... Por Godric, Malfoy! Você tem que discutir o tempo todo? Isso é exaustivo.
A bruxa esperou por gritos, mas eles não vieram. Voltou a distribuir os pratos e teve a impressão que Draco abriu a boca para falar alguma coisa, mas logo em seguida desistiu.
Ele estava estranho demais hoje, mas a grifinória não teve tempo para pensar no assunto, o jantar logo foi servido e Draco se afastou dela. Thereza preparou cozido de carne com purê de batatas. Hermione adorava comer ali, a comida caseira a fazia se lembrar da mãe.
Mais cedo do que gostaria ela se encontrava na pia lavando a louça na companhia de Draco quando a enfermeira entrou correndo pela porta.
— Não acredito que me esqueci – ela reclamou abrindo um pote que estava em cima da geladeira. – Esqueci do remédio do sr. Oliver. Pode dar a ele, Draco? Eu preciso trocar as ataduras da sra. O’Conner – ela mostrou as ataduras que acabara de pegar em cima da geladeira como que para provar o que dizia.
— Precisa de ajuda? – Hermione ofereceu.
— Não, querida, só preciso que deem o remédio a Oliver. Está em cima do piano – Margie saiu da cozinha sem dizer mais nada.
***
Draco nem sabia que eles tinham piano ali. Ele não se lembrava de ter visto nenhum na sala onde jogou xadrez com Oliver, mas foi até lá conferir mesmo assim. Não havia nada, mas o bruxo reparou em uma porta do outro lado do corredor. Conforme ia se aproximando da porta ouviu alguém tocando o instrumento.
Quando bateu na porta. A melodia cessou.
— Entre – respondeu a voz lá dentro.
Draco deu de cara com uma pequena biblioteca, onde havia além das estantes uma mesa com uma cadeira, um pequeno sofá e o piano. Era Oliver quem estava tocando o instrumento.
— Pensei que já tivesse ido embora.
— Margie me pediu para te dar seu remédio.
Oliver ergueu a caixa amarela que continha os comprimidos.
— Fui mais rápido. Acho que a gente vê amanhã então.
— Impressão minha ou está tentando se livrar de mim? – Draco acusou e o velho se calou. – Quem é o mal-humorado agora? Você ainda me deve uma resposta.
— Não é uma história bonita, Draco.
— Não imaginei que fosse.
Oliver assentiu e esperou até que o bruxo estivesse sentado para falar novamente.
— Então? O que quer saber?
— A mesma coisa que queria antes – o bruxo respondeu – Por que foi preso?
— Fui acusado de mandante de assassinato – Draco arregalou os olhos. – O que foi? Não era a resposta que imaginava? – ele tinha pensado que fosse algo do gênero, mas ouvir a confirmação ainda o afetou.
— E você era culpado? – Draco perguntou enquanto reparava em uma sombra que se aproximou embaixo da porta.
— Sim e não – Oliver se levantou e começou a andar pelo cômodo. – Eu sou viúvo. E pai também, tenho uma filha chamada Kimberly. Minha esposa morreu antes que Kimberly se casasse com um homem que... bem, um homem que não era muito decente. Um dia Kim apareceu chorando em casa com um olho roxo e o lábio rachado. Deve imaginar como eu fiquei. Minha única filha, única família. Eu quis ir atrás dele, mas ela me impediu. Disse que a culpa foi dela e que foi apenas uma vez e não ia acontecer de novo. Ela me fez jurar que não faria nada. Eu concordei, mas pedi para a vizinha ficar de olho e me avisar caso acontecesse novamente, pois eu sabia que Kim não me contaria mais nada. E aquele bastardo bateu nela novamente. Em menos de dois meses, e ela estava grávida! Foi aí que eu contratei alguns caras para cuidar do assunto.
— Mandou matar o cara – concluiu Draco.
— Não, aí é que está. Não mandei! Mandei apenas que o assustassem. Que mandassem ele embora, e o ameaçassem se um dia ele voltasse pra cidade, ou chegasse perto da minha filha de novo. Eu não sei direito o que aconteceu, mas segundo a polícia, o imbecil revidou. Ele os enfrentou e... bem, eles brigaram e ele acabou morrendo. E eu fui preso – Oliver fez uma pausa e ficou perdido em pensamentos por um momento antes de voltar a falar. — E agora minha filha me odeia. Eu a vi pela última vez no tribunal, ela era uma das testemunhas. E não olhou pra mim, nem falou comigo em nenhum momento durante o julgamento. Nunca foi me visitar, nem me procurou quando eu saí.
O silêncio tomou conta da sala. Oliver parecia imerso em seu próprio mundo e mal ouviu quando Draco falou com ele.
— O quê? – ele perguntou confuso.
— Eu sinto muito – Draco repetiu.
***
Hermione não tivera a intensão de ouvir a conversa, ela estava só procurando por Draco. Imaginou que devia bater na porta logo antes que alguém a notasse. Foi o sonserino quem a atendeu.
— Oi, hum... eu só queria avisar que já acabei com a louça e estou indo embora.
— Eu vou também. – Draco disse antes de se voltar para Oliver. — A gente se vê amanhã.
— Claro, boa noite, meus jovens.
Os bruxos caminharam até a porta e Hermione esperou que Draco se afastasse dela como sempre fazia, mas ele não o fez. Pela primeira vez eles desceram os degraus da varanda juntos.
Hermione imaginou se devia se apressar quando a voz de Draco a deteve.
— Você ouviu tudo, não foi? – seu tom não era acusatório. Era apenas uma constatação.
— Bem... sim – ela admitiu envergonhada. — Não tive a intensão, mas sim.
— Ele só estava tentando proteger a família, não teve escolha. – Draco falava mais consigo mesmo do que com ela. – E ele pagou pelo que fez, e essas pessoas idiotas não querem nem chegar perto dele – a voz do bruxo ia aumentando enquanto falava. – Não é justo.
— Você está falando de Oliver ou de você mesmo?
— A psicologia Grifinória. – Draco desdenhou — Você tem sempre que ser espertinha, Granger?
— Você não precisa esconder que tem sentimentos, Malfoy. Não é nenhuma fraqueza se abrir pros outros.
O sonserino hesitou antes de responder. Parecia estar debatendo uma questão interna importante. Quando finalmente resolveu falar, as palavras saíram inseguras.
— Granger... eu... – ele limpou a garganta. – Eu gostaria de te fazer uma... proposta.
O queixo de Hermione caiu e ela ficou grata por Malfoy não estar olhando para ela.
— Uma... proposta? – ela conseguiu perguntar.
— Sim – Draco respirou fundo e continuou, como se achasse melhor falar de uma vez agora que já tinha começado. – Bem, você leu a carta. Eu tenho que ficar aqui por um ano e provar que de fato estou aprendendo as coisas pra poder recuperar minha vida. E, bem, você é... nascida trouxa...
— Malfoy, você por acaso está pedindo a minha ajuda? – Hermione perguntou.
— Claro que não, Granger. Você é louca? Não, eu quero fazer um acordo com você.
— Estou ouvindo.
— Eu quero te contratar para me ensinar a viver como um trouxa. E assim que eu recuperar meu dinheiro, eu pago pelos seus serviços. Se quiser o dinheiro antes, eu posso vender algumas coisas lá da mansão. Você diz o preço, é claro. – Draco se calou de repente e olhou para trás. Hermione estava parada alguns passos à suas costas. – Você ouviu o que eu disse? – ele perguntou irritado.
— Cada palavra – a voz de Hermione era um sussurro.
— E? – Draco perguntou ansioso prestando muita atenção às rachaduras da calçada.
O primeiro impulso de Hermione foi rir. Essa história de pagamento era claramente algo inventado pelo orgulho de Malfoy. Ele jamais admitiria que precisaria de ajuda. Especialmente a dela.
Ela, Harry e Rony ganharam muitas honraria, agradecimentos e prêmios depois da queda de Voldemort, o suficiente para que Hermione juntasse uma poupança generosa. Além disso, seus pais eram dentistas e nunca lhe faltou nada. E a ideia de Draco que o dinheiro fosse lhe parecer um atrativo, era risível. De alguma maneira isso fez com que sentisse pena dele.
No entanto, ela não sabia dizer porque se sentiu inclinada a aceitar a “proposta” assim que as palavras saíram da boca do sonserino. Talvez fosse pura curiosidade mórbida em saber onde isso daria, ou talvez fosse por Dumbledore. Ele morreu por Draco afinal de contas. Ela achou que devia isso a memória do antigo diretor. Para que ele não tivesse morrido em vão.
Ele não morreu em vão. Draco não os entregou quando foram capturados e levados para casa dele, uma voz disse em sua cabeça.
Ela o ajudaria, sim, mas conhecia Malfoy. Se aceitasse muito rápido ele iria encarar como um gesto de caridade e diria para ela esquecer a coisa toda.
Ela o encarou de queixo erguido e tentou espelhar a postura arrogante dele.
— Eu preciso pensar. E meu preço não será barato, caso eu aceite.
— Ok – ele respondeu e depois não disse mais nada.
Eles andaram lado a lado até voltarem à universidade, onde o bruxo murmurou uma despedida seca antes de seguir seu caminho.
***
Draco não sabia se estava aliviado ou se queria bater a própria cabeça na parede do quarto por ser tão estúpido. Ele pediu ajuda a Hermione Granger! Sim, não adiantava negar. Era ajuda que estava pedindo, foda-se Salazar!
Mas o que mais ele poderia fazer? Tinha que recuperar sua varinha. E sua mãe precisava dele. Tinha que tirar o nome Malfoy da lama.
— Draco... – a voz de Hunter chamou através da porta do quarto. – Quer jogar vídeo game?
— Hm... claro – o bruxo respondeu.
A sala o recebeu com sua bagunça habitual e mais uma vez Draco sentiu falta de sua varinha. Sua casa sempre fora imaculada, assim como Hogwarts. Ele não estava acostumado a viver no meio daquela zona.
Ele olhou para a pia e viu que a louça que usou para fazer o pão ainda estava lá.
— O que foi? – Hunter perguntou estranhando o comportamento de Draco.
— A gente devia dar um jeito nessa bagunça – ele respondeu.
Hunter olhou em volta como se apenas agora tivesse reparado nela.
— Acho que sim – respondeu resignado. – Você quer dizer... agora? – ele perguntou. Draco olhou ao redor como se a resposta fosse óbvia. – Tá bom... vamos acabar logo com isso.
Rapidamente Draco foi em direção a pia, já que era um dos serviços domésticos que sabia fazer graças à casa de repouso. Segundos depois ele ouviu música e Hunter apareceu com um cesto de lixo nas mãos recolhendo as embalagens vazias.
Em pouco mais de uma hora os amigos estavam jogando vídeo game em uma sala consideravelmente mais limpa.
Fale com o autor