Wonder4land

7 Carta 7. Para você, adeus.


Notas iniciais
Eu acredito que esta será a carta mais triste que eu já escrevi, ou que irei escrever. Desculpe, caro leitor, mas eu desisti. (o itálico é o momento do passado de algumas hora atrás, mas que foi determinante para que eu escrevesse esta carta).

Caro leitor,

O carro passa pelas ruas desertas do centro que levavam até a minha casa, e eu tento confortar a dor no meio das minhas pernas assim como oaperto dentro do meu peito enquanto olho para as luzes que vinham da janela do carro com respingos de chuva. A música do rádio está tocando, e ele fala algo amais sobre o cursinho, e sobre os milhares de amigos dele enquanto dirige, olhando fixamente para a rua. Eu fico quieta, falando de vez em quando "e o quê aconteceu?" e ria quando dizia "Meuuuu, é sério?", mas não se iluda caro leitor. Eu falava somente no final de cada frase dele, quando ele dava uma pequena brecha para eu me expressar qualquer coisa só para ele poder continuar a falar. Ele não me incluiu em sem sequer uma frase, caro leitor.

Estava tarde da noite. Ele continua. O carro parecia nunca chegar na rua de casa. E eu me sinto despedaçada por dentro.

Eu fui criada para acreditar no amor. Eu acreditava no amor quando o Nemo encontrava seu pai depois de quilômetros de distância, eu acreditava no amor quando a Fera se transformava no príncipe encantado da Bella no final do filme, eu acreditava no amor quando a Lilo disse que o Sticht era a Ohana dela, e eu acreditava no amor quando via meu pai olhando pra minha mãe quando ela cozinhava. Eles eram o melhor exemplo de amor para mim, caro leitor.

Eu acreditava fielmente nesse amor. Era um amor puro. Não era um amor de filme, um amor que não existia ou que era idealizado. Era um amor verdadeiro. Um amor de família, um amor de amigo, um amor de dois. Era um amor que eu via naqueles jovens na pracinha perto de casa segurando as mãos quando eu era pequena. Era um amor que eu invejava que a minha amiga no jardim de infância tinha com aquele menino loiro da sala dela. Era um amor inocente. Um amor bom. Era um amor que eu acreditava em ter quando me imaginava sendo médica e tendo três filhos. Era um amor que eu incluía nos meus planos. Era um amor que eu queria no futuro.

Eu ainda acredito que vou ser médica. Eu ainda quero ter filhos. Eu só não acredito que eu vou ter um amor.

Minhas pernas estão tremendo, e o ar entra em meus pulmões. Eu sinto o gosto salgado do suor dele na minha boca, e eu gemo quando ele me aperta na cintura. Ele morde meu pescoço e faz uma estocada mais forte. Eu sinto arder, eu sinto prazer e eu sinto doer. Ele era o maior que eu já havia tido, e eu gosto de me sentir assim, ardente à cada estocada. Mas faltava alguma coisa, caro leitor. Era quando ele gemia meu nome, era quando eu ficava de quatro ou em cima, era quando ele segurava a minha nuca ou me arranhava, mas faltava uma coisa.

E tinha algo dentro do meu peito que me machucava cada vez que ele me tocava. Era uma dor gostosa, cada estocada que ele me dava, assim como cada arranhada e mordida. Mas dentro do meu coração, tinha essa sensação de que algo estava errado. O prazer estava ali, mas dentro de mim mesma, lá no fundo, eu tinha dor.

Eu sempre fui doce como mel, mas em vez de atrair o melhor com a minha essência, eu atraia quem tinha água na boca para experimentar, só para depois que se saciar, ir embora à procura de algo mais doce.

E eu me acostumei com isso, caro leitor. Sempre foi assim. Nenhum cara jamais ficou mais do que três meses, ou três noites.

Ele beija minha boca com fogo, e eu sinto a ereção dele bem debaixo do meu short. E eu sinto saudade de tê-lo detro de mim (mesmo que tenha sido uma vez). Estávamos sozinhos na casa, mas eu me sentia mais sozinha com ele do que quando eu fico na companhia da minha solidão. E no entanto, eu fico molhada quando a mão dele deslizou para dentro da minha calcinha, e eu não pude conter o gemido quando ele enfiou dois dedos em mim.

— Vamos lá pra cima. — ele sussurra no meu ouvido. E eu me esqueci de como se pronuncia a palavra "não".

Nós subimos as escadas, e ele me joga na cama. Ele era forte, e Deus, que corpo maravilhoso ele tinha. Ele subiu em cima de mim e suas mãos começaram a tirar minha blusa lentamente. Seus dedos abriram agilmente meu sutiã, e sua boca foi ao meu peito, enquanto a sua outra mão descia para meu shorts. Eu não queria que ele parasse. Eu queria que esse sentimento no meu coração parasse.

E eu acho que sei porque, caro leitor. Não é só porque eu sou "muita areia pro caminhão dele" ou porque "eu sou um mulherão da porra", como eu descrevi na última carta. Nenhum homem jamais ficou ao meu lado pois eles não acredita mais no amor. Cresceram vendo a mãe ser agredida pelo pai, cresceram vendo a mãe ou o pai namorando em vez de verem casamento. Cresceram vendo o pornô que a mulher fica de quatro, e com a cara escondida no travesseiro. Cresceram aprendendo com as milhares de namoradinhas, com aquela mão que quer tanto descobrir, e com a boca que fala bonitas coisas.

São poucos, caro leitor, que não tiveram isso ou pior. E tem quase ninguém, que sabem o que amor realmente é.

Eu aprendi o que é amor quando meu pai beijou a testa da minha mãe, mas não senti esse amor quando o Felipe beijou minha testa. Eu aprendi o que é amor quando eu vi meus pais dormindo no sofá no meio do filme, mas não senti esse amor quando o Fernando deitou na minha coxa para ver o filme. Eu aprendi o que é amor quando, apesar das dificuldades, meus pais permaneceram juntos, mas eu não senti esse amor quando o Halysson desistiu no primeiro impasse do nosso relacionamento.

Halysson foi o primeiro a me mostrar que enquanto eu estiver em um relacionamento, eu nunca serei de mim mesma. Ricardo foi o primeiro a me mostrar que eu nunca serei a única. Fernando foi o primeiro a me dizer que deseja algo comigo, mas que "com a distância eu não consigo ser fiel". Jhonatan foi o primeiro a me mostrar a verdade que me rapazes só me desejam em uma festa quando estão bêbados. Felipe foi o primeiro que me fez sentir que, mesmo eu desejando amor, eu não sei fazer amor. Eu só sei fazer sexo.

Porque a minha primeira vez não foi pra mim. Foi pro Halysson. Ele pode até ter se preocupado, me beijado e sussurrado pequenas coisas no meu ouvido enquanto eu me sentia ser rasgada pelo meio, sentindo uma dor diferente de qualquer outra que eu já tinha sentido. Eu não estava pronta, mas ele queria. Era meu namorado e eu estava apaixonada. Mas eu não estava pronta. A minha primeira vez não foi de amor, caro leitor. Foi de sexo. Porque ele me virou de quatro, e eu enterrei meu rosto no travesseiro para que ele não visse as lágrimas.

O cheiro dele está na minha pele. O cheiro de café, de perfume e de suor. Ele deita a cabeça no meu peito, mas não fica mais do que alguns segundos ali. Eu estava suada, com o coração batendo forte, e com as pernas tremendo. Ele se levanta e me chama pra uma ducha. Lá ele não faz a massagem que prometeu no dia anterior. Sou eu quem faz a massagem. E eu sinto os nós de suas costasse desfazendo com a água quente e com os meus dedos. Sua mão toca minha barriga e desce para minha buceta. Ele começa a tocar, e a descobrir, mas eu não sinto prazer nisso. Era rude o toque, forte, como se não soubesse o que realmente deveria tocar.

— Deixa eu te mostrar como se faz. — peguei sua mão e mostrei de onde que meu mel jorrava, até onde meu clitóris berrava por atenção.

Mas nessa noite o meu mel não jorrou pra ele. Assim como não jorrou com nenhum outro cara que eu já estive.

Depois de todos os caras (e não foram poucos), eu realmente apostei no Felipe. É, esse das letras em Itálico. Ele sempre se mostrou ser tudo aquilo que eu queria intelectualmente e fisicamente, e sempre me deixou excitada de fogo e de amor. Mas depois da ducha, depois que coloquei minha roupa e deitei na sua cama, ele começou a falar, e caro leitor, eu queria estar bem ali com ele. Eu queria estar feliz, cheia. E ele conversava comigo naquelas infinitas madrugadas, e ele era tudo o que eu queria. Eu apostei nele. Eu apostei que ele ia me amar direito e seria o alguém reservado pra mim. Mas depois, enquanto ele dirigia e eu olhava para as luzes da janela eu percebi que ele era algo da minha esperança de ter achado amor. Nossas bocas, nosso toque, nossos corpos, nossas conversas. Fisicamente e intelectualmente nós somos perfeitos um para o outro. Mas em energia, em alma, somos completamente opostos.

E que tapa na cara, caro leitor.

Porque o Halysson foi o meu primeiro, e espalhou para todos os seus amigos o que aconteceu naquela noite. Ele quebrou meu coração dizendo que não sentia mais nada, e que terminou para poder ficar com as colegas da faculdade. E foi ele, caro leitor, que depois disso tudo, me ensinou que party girls don't get hurt. O Fernando me fez viajar vários quilômetros só para vê-lo, e ter meu feito coração de trouxa por dizer que ele não gostava tanto de nós para manter algo à distância. O Jhonatan me mostrou a verdade que se esconde em mim, que eu desejava amor e aceitava recebê-lo de qualquer forma, só para senti-lo, pois eu estava vazia. O Felipe foi a minha última aposta no amor. E ele mostrou que era fácil fácil pegar essa aposta e jogá-la no lixo. Teve tantos outros, caro leitor. Tantos outros. Eu não guardo rancor. Eu guardo decepções. Eu perdoo, eu amo, mas eu não esqueço. Minhas cicatrizes não permitem que eu esqueça.

Eu ainda acredito no amor. Eu só não acredito que ele foi feito pra mim.

Porque no final, quando ele me deixou em casa, o beijo foi só um beijo, e assim que o portão fechou e o carro deu a partida, eu permiti que as lágrimas caíssem, quentes e grossas.

E elas não pararam de cair até agora, caro leitor.

Eu ainda acredito no amor. Eu só não acredito mais que eu vou ter um dia.

Então para você, amor, eu digo adeus.

Porque você morreu pra mim quando meu pai traiu minha mãe.

Eu não sei terminar essa carta com carinho, caro leitor.

Me perdoe.

cacheada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.