Caro leitor,

Toda sorridente, eu sei como enganar esta cidade
Eu faço isto até o sol se pôr, e através da noite

2:33am. Eu sorria. Eu dançava com vontade. Eu gritava. Eu cantava a plenos pulmões. Eu bebia. Eu ria. E tudo parecia estar bem.

A música era alta, as pessoas que eu amava estavam ao meu redor dançando e rindo, e as luzes que brilhavam no escuro me deixavam a vontade para dançar. Com o copo em minhas mãos, eu me senti livre. Não pensei em nada, eu só deixei a música me levar pela música e pelo álcool que queimava em minhas veias. Eu dancei em meio a estranhos perfeitos e me deixei envolver com a batida. Eu me entreguei de corpo e alma naquela música. E não tive vergonha, e não tive medo de me entregar. Era tudo o que eu queria pra aquela noite.

Sou tão confiante, yeah, estou incontrolável hoje

E eu me senti livre. Eu me senti infinita. Eu me senti sexy, caro leitor. A cada movimento, eu estava confiante, e deixei o meu dark side assumir esta noite, o lado safado, o lado que não se importa, o lado que só quer viver o momento e não pensar no depois... Eu deixei meu corpo assumir e apaguei a minha mente. Fui ousada, eu me senti selvagem. Eu me senti no controle, mesmo estando perdida. Eu me senti desejada enquanto dançava e provocava aquele barman que estava me encarando com um sorriso de lado enquanto preparava os drinks. Meu estranho perfeito daquela noite, caro leitor.

Mas eu somente vivi o momento. Eu somente vivi o momento e tentei não pensar. Eu somente quis viver o momento e esquecer um pouco da dorzinha que pulsava a cada batida em meu coração. Eu só queria viver o momento e me esquecer de tudo.

Eu só queria dançar. Eu só queria beber. Eu só queria me sentir livre naquela noite. Eu não queria pensar ou sentir em tudo o que eu estava prendendo atrás do meu sorriso. E eu consegui, caro leitor.

4:02am. Mas não por tempo o suficiente.

Derrotada, estou sozinha, então vou chorar agora
Você nunca verá o que estou escondendo
Escondendo lá no fundo, yeah, yeah

Eu sai no meio do povo que estavam dançando enquanto sentia as minhas pernas doerem, e fui para a mesa em que estava os nossos sapatos e objetos pessoais. Me sentei na cadeira, na mesa vazia, e peguei a garrafa da água, sentindo-a se misturar com o misto de batida de morango com vodca. Sim, caro leitor, eu amo vodca. E esse é um pequeno defeito meu. Tudo aquilo que você consome em excesso, te prejudica no final.

E caro leitor, eu estava em excesso de vodca, e em falta de amor.

Eu sei, já ouvi essa história de que temos que mostrar os sentimentos
Mas eu simplesmente não estou bem nesta noite.

Eu estava sozinha. Eu via quem eu amava dançando, eu via o barman sorrir pra mim, e como eu queia estar bem. Caro leitor, eu nunca estarei completamente bem. Nunca. Eu sempre terei essa pequena parte da minha alma que sempre será danificada. Eu sempre terei este coração que é tratado como vagabundo que sofre e que quer amar. Eu estava bem e ao mesmo tempo não estava. Mas eu queria estar bem. Eu desejava do fundo do meu coração estar bem.

Eu precisava estar bem naquela noite. Eu precisava. Eu estava em uma festa, com as pessoas que eu amava. Eu estava em uma festa, e meu estranho perfeito estava sorrindo para mim. Eu estava em uma festa, e eu queria poder desligar os sentimentos do meu coração. Eu estava em uma festa, e eu só queria poder viver o momento.

E eu tentava de todas as forças do meu ser estar bem. Eu tentei, caro leitor, eu juro que tentei. Eu bebi mais um pouco, eu dancei, eu ri, eu tirei fotos com as pessoas que eu amava, eu dancei com aquele estranho que tinha os olhos mais lindos que eu já tinha visto, eu tentei me abastecer de tudo o que eu vivia ao meu redor. Eu tentei me abastecer de toda a energia boa, de toda a música, de toda a felicidade e de todos os sorrisos que eu via. Mas eu estava vazia por dentro.

E eu desejava estar transbordando naquela noite. Transbordado felicidade, transbordando alegria, transbordando amor, eu queria estar transbordando por dentro. Eu queria estar repleta. Mas os cortes em meu coração não me permitiam estar repleta, a vida e a alegria, o pouco amor que ele tem guardado vão lentamente escorrendo para longe no meio desses cortes.

Mas caro leitor, eu ouvi uma vez que buracos de bala não podem ser curados com band-aids. Mas eu senti naquela noite que os cortes do meu coração podem ser curados com band-aids, ainda mais, quando é colocado por quem você ama.

Eu estava sentada quando meu anjo saiu do open bar, com uma lata de cerveja na mão. Ele veio sorrindo pra mim e eu não consegui resistir aquele sorriso. Sim caro leitor, meu anjo. Talvez um dia eu te explique nossa história, mas tudo o que precisa saber é que ele é o meu anjo na terra. Ele se sentou ao meu lado e começamos a conversar sobre coisas bestas e banais por cima da música. Fazia tempo que eu não o via caro leitor. A faculdade e o trabalho dele o tomam tempo, e mas ele sempre tinha um tempo pra mim.

E enquanto conversávamos, o DJ havia colocado uma música de sertanejo sofrência, e ele começou a cantar fazendo careta e a dançar com a lata de cerveja. Eu ri, caro leitor, e foi uma risada sincera. Uma risada que vem lá dentro do nosso ser, que vai para cada célula. Eu me senti melhor. Estar com quem você ama faz toda a diferença. E quando ele começou a rir, ele olhou no fundo de meus olhos. E eu senti que ele sabia que eu não estava realmente bem apesar de estar sorrindo.

E acho que foi por isso que ele deu virote em sua bebida e se levantou pegando a minha mão. Caro leitor, eu levantei, e sem o salto, eu batia um pouco mais acima de seu ombro. Ele segurou mais forte em minha mão e então me puxou para a povão que cantava e dançava aquela música sertaneja. Meu anjo me levou até perto da mesa dos doces, um pouco afastado de onde todos estavam. E estávamos sozinhos.

Ele olhou no fundo dos meus olhos, colocou a mão na minha cintura, e começou a dançar. Caro leitor, pode parecer bobo, ou até mesmo romântico o momento, mas não era tudo isso. Era algo amais. Meu anjo era um cara que eu poderia confiar sem medo, que eu poderia cair de costas que eu saberia que ele estaria lá para me pegar. Meu anjo era meu amigo que eu não tinha medo de atravessar barreiras ou que eu tinha que pensar antes de falar algo. Era fácil ser eu mesma perto dele. Era fácil estar perto dele.

Ele dançou comigo e acredite ou não, caro leitor, eu naquela dança que ele me guiava, eu me senti livre. Enquanto dançávamos, eu senti tudo o que eu queria esconder naquela noite. Com a dança mais lenta, eu me senti pequena e frágil em seus braços. Com a dança mais rápida, eu me senti sexy e confiante em cada movimento. E ele me acompanhava, e ele me guiava. E caro leitor, durante aquela dança, ele foi colocando os band-aids lentamente por cima dos machucados do meu coração. Ele foi com cuidado, chegou devagarinho. E eu podia sentir que, além dos band-aids, ele foi colocando um pouquinho de amor junto.

E caro leitor, isso bastou. Meu coração estava com os cortes tapados com o band-aid, e os buracos estavam sendo preenchidos com o pouquinho do amor que ele me deu. As luzes estavam baixas, era mais escuro do que claro o salão, e eu e ele estávamos sozinhos perto da mesa dos doces. E eu finalmente recebi um pouco do amor que eu tanto dava e nunca recebia. E eu finalmente comecei a me preencher.

Enquanto a música parecia ir terminando, ele simplesmente me abraçou e ficou dançando de um lado para o outro lentamente. E o seu perfume ficou no meu vestido e em mim. Seus braços fortes estavam ao redor de minha cintura, e eu estava bem naquele momento, caro leitor. Eu estava bem. Eu simplesmente senti esse vulcão no meu peito, esse mar de sentimentos se acalmarem e então, eu senti os machucados do meu coração começarem a se fechar. Eu senti o calor que o corpo dele emanava, o perfume que preenchia meus pulmões, e a sua respiração em meu cabelo enquanto ele cantava baixinho a música que tocava.

E foi quando eu fechei meus olhos naquele abraço que era meu porto seguro que eu percebi:

Eu nunca vou estar completamente bem, caro leitor.

E está tudo bem em não estar bem.

Com carinho,

cacheada.