Wolfs Journey
2 Cap. 1
Notas iniciais
Boa leitura~
Raiva.
Eu soltei o ar que segurava em meu peito, inspirando novamente.
Frustração.
As incontáveis bolhas de ar subiram por aquele recipiente, e chegaram à superfície.
Medo.
Porém, nem mesmo elas podiam sair dali.
Minha situação era crítica.
Eu já perdera a noção do tempo que passara ali; uma pequena câmara, um recipiente cheio de um líquido que não água, meio esverdeado. O tal era selado de cima a baixo. Meu corpo, coberto do pescoço aos tornozelos por faixas, tinha fios e aparelhos ligados a ele, monitorando-me de mil maneiras diferentes. Eu respirava por uma máscara de oxigênio, ligada a um tubo. E aquela era minha única ligação com o meio externo.
Eu pensava estar com quinze anos. Como me lembrava, fora parar ali dentro com cerca de nove ou dez. No mesmo ano, desisti de tentar sair dali.
~FLASHBACK ON~
Eu estava tão feliz. Claude e Hyuna eram quase como pais para mim, mesmo que fossem apenas meus serventes. Claude sempre fazia todo o tipo de comida que eu adorava comer; Hyuna sempre brincava comigo e me contava histórias. Meu passado fora completamente esquecido, agora fazendo cerca de três anos desde que eu acordara naquele quarto.
Eu fazia aulas; piano, violino, vilão, dança, literatura, françês, italiano, pintura. Tudo o que me interessasse. E estava adorando. Claude me dava a maioria das aulas, mas para outras eu tinha um professor que passava horas e horas me ensinando. É uma pena eu não me lembrar de seu nome.
Somente uma coisa realmente me era incômoda, ali.
No mesmo dia em que acordei, uma hora acabei por me olhar no espelho. Foi quando vi, enfim, o que acontecera com meu olho direito, que outrora quase me matara de dor. Minha íris mudara de cor; antes castanha-alaranjada, agora roxa. Assustei-me, de início, porém não me lembrava da morte de meus pais. Só lembrei-me da horrível dor que senti, o que me fez soltar um grito de meu banheiro.
Hyuna chegou correndo. Entendendo o motivo de meu grito, inventou de chamar um médico para avaliar minha saúde. Ela e Claude disseram-me que estava ficando doente; o que eu realmente não entendi, e hoje em dia, entendo perfeitamente, para minha desgraça.
Sem poder para contestar, o médico foi chamado. O maldito Dr. Lock. Ele examinou tudo o que qualquer médico examinaria; batimentos cardíacos, funcionamento dos pulmões, examinou meus olhos, tudo. Foi então que ele voltou a meu olho direito, examinando-o com mais cuidado.
Lembro-me de tê-lo ouvido, falando com Claude depois de sair de meu quarto. Palavras como “está na hora”, “impressionante, ela ainda é tão nova” e “vamos começar os exames”. Aquilo não me agradou nem um pouco.
E começou aí o que tanto me incomodava. Todos os dias, Hyuna furava um de meus dedos e coletava uma gota de sangue dali. Eu parecia diabética, mas não era essa a minha “doença”. Eu não sabia o que era, mas continuava deixando que examinassem as amostras de meu sangue, diariamente.
Aquela coleta diária e extremamente chata durou cerca de três anos. Durante todo esse tempo, eu não fiquei sabendo dos motivos para tal ação de Claude e Hyuna. Foi então que chegou aquele dia.
Hyuna me acordou mais cedo do que de costume – estava escuro, ainda. Ainda coçando os olhos, ela me tirou da cama, arrastando-me, ainda de pijama, pelo corredor.
- O que foi, Hyuna? – perguntei, com voz rouca, totalmente confusa.
- Temos uma surpresa para você, senhorita Miko. – disse-me ela, sorrindo. Aquilo de certa forma trocou minha confusão por curiosidade e ansiedade por saber o que era. Chegamos então em um quarto no final do corredor; um cômodo no qual eu de fato nunca fui permitida de entrar.
A porta foi aberta, e eu entrei num pulo. Meu horror foi tão grande que eu tentei sair em mais um, mas Hyuna já fechara a porta atrás de si, impedindo minha saída.
O que eu vi naquela sala?
Máquinas. Câmaras – como aquela em que eu acabaria, algumas com pessoas e outras com animais dentro, sendo monitoradas por fios ligados a computadores. Estantes com líquidos e substâncias diferentes, em recipientes diversos, cuja boca de alguns ligava tais substâncias às câmaras.
Entendi na hora que eu faria parte daquilo logo, logo. Ameacei gritar, mas Hyuna se ajoelhou atrás de mim e cobriu minha boca e meu nariz com um pequeno pano que continha algo cujo forte cheiro fez meus sentidos vacilarem criticamente – não o suficiente, porém, para me fazer desmaiar. Eu só não conseguia mais falar ou me mover, mas ainda conseguia enxergar um pouco do que acontecia.
Minhas roupas foram tiradas. Meu corpo foi coberto por bandagens do pescoço aos pés, e me senti estranhamente mais fraca quase que imediatamente. Fui colocada em uma maca, e por sobre a faixa, colocaram fios pelo meu corpo inteiro. Sentaram-me, e um pequeno aparelho, uma pequena caixa de metal foi instalada na base de minhas costas. Recebi também uma máscara de oxigênio, e por fim, Claude me ergueu da maca e colocou dentro de uma câmara.
Eu cabia de pé ali, tranquilamente – tanto que ficaria ali mesmo pelos próximos anos, mas não parei de pé, caindo sentada no chão da câmara. Um tubo foi anexado à minha máscara e em uma abertura do recipiente, que foi fechado em seguida. Fechei os olhos, enquanto Hyuna ativou o dispositivo que fez o líquido esverdeado preencher logo a câmara. Acabei boiando em meio ao líquido, e verificando que conseguia mesmo respirar, entreguei-me ao torpor.
~~~~~
Quando acordei, sabia que haviam se passado no mínimo dois dias. Assustei-me, lembrando em seguida de onde estava. Minha primeira reação foi tentar fugir, já que a máscara me impedia de gritar devidamente.
Desferi um soco no vidro. Sem sucesso. Tentei novamente, e fui socando e chutando o vidro até começar a me sentir cansada. Foi quando vi Claude parado em frente à câmara. Seu olhar me deixou com medo e com raiva ao mesmo tempo. Tentei ignorá-lo. Olhando para cima, vi a aparelhagem toda que tampava o recipiente, e fui até lá, tentando empurrá-la para cima.
- Eu pararia de tentar, se fosse você. – disse Claude, como que me avisando de algo. Fiz questão de ignorá-lo, voltando a tentar sair. Um segundo depois, a caixa metálica em minhas costas fez um rápido “bip”, e em seguida eu fui tomada por uma corrente elétrica insuportavelmente forte.
Perdi as forças rapidamente, afundando pela câmara até quase me ajoelhar no chão da mesma. Senti que comecei a chorar, embora minhas lágrimas fossem anuladas pelo líquido que me envolvia. Claude entendeu rapidamente que eu não voltaria a tentar sair, e foi embora.
De fato, eu não voltei a tentar, naquele dia. Eventualmente, eu voltaria a tentar, mas as correntes elétricas ficavam cada vez mais fortes, fazendo-me desmaiar, vez ou outra.
E foi assim que os próximos anos se seguiram.
~FLASHBACK OFF~
E eu ainda estava presa àquele lugar. Com ódio de Claude, de Hyuna, de mim. Mesmo que, por algum motivo, eu estivesse me sentindo mais forte com o passar dos meses, a cada tentativa de quebrar o vidro ou romper o lacre da câmara, os choques que levava ficavam mais fortes. E ainda assim eu continuava tentando.
Quando entrei no laboratório, anos antes, lembro-me de ter visto algumas câmaras com animais, ao invés de humanos. Mais tarde, entendi que aqueles animais eram humanos, porém com a capacidade inexplicável de assumirem a forma animal.
Comigo não era diferente.
Durante um dos testes que Claude realizava comigo, ele começou uma conversa comigo como se fôssemos os melhores amigos. Eu não respondia a nada do que ele perguntava, mas ele parecia feliz em sua conversa com o nada. Falou sobre animais, sobre o que eu gostava, sobre o que combinava comigo.
Depois de mencionar várias espécies, algumas que me fizeram arregalar os olhos, outras que me fizeram quase sorrir e outras que me fizeram negar com a cabeça, ele acabou mencionando lobos. No instante seguinte, um dispositivo ligado a alguns fios de meu corpo foi ativado.
Por algum motivo, sabia que aquilo ia doer. E doeu, muito. Claude apenas sorriu, saindo do laboratório, e me deixando a mercê daquela dor insuportável, que durou dias inteiros. Desejei a morte durante todos eles, até que um dia, parou. O alívio foi grande, até que percebi que estava diferente – muito diferente.
É, eu de alguma forma virara um lobo. Abri os olhos devidamente, e através do vidro, vi na tela de um dos computadores algo como uma foto minha, naquele estado; pelos brancos, ambos os olhos roxos. É, se aquilo não tivese sido forçado, eu teria amado. Mas naquele momento eu apenas senti ódio por ter feito parte de mais uma experiência.
No fim, acabei me acostumando com a ideia de virar lobo de vez em quando. E é lógico que cheguei a usar dela para tentar sair dali, embora tenha fracassado tanto quanto em minha forma humana. Com o passar dos anos, passei a transitar entre minhas duas formas, apenas como meio de distração. Era minha única “diversão” ali, já que conversar com outras experiências estava fora de questão.
De qualquer forma, naquele momento, eu pensava. Mantive o mesmo pensamento por semanas, e eu estava por conclui-lo em breve. Eu ia sair dali, logo. Era quase suicídio, mas podia dar certo. O máximo que aconteceria se desse errado seria mais um choque, e eu voltaria para a câmara.
É, valia a pena tentar. Eu só precisava calcular e processar os próximos movimentos dos dois desgraçados que me visitavam todos os dias.
Notas finais
É viagem mesmo, como devem ter reparado. Espero que não me odeiem por isso e que continuem lendo com muita paciência -n
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