Notas iniciais
Esse é o primeiro-capítulo. Espero que gostem.

– Oi, eu não sei como se faz isso, mas... você quer ser meu amigo?

A inocência com que Brian Wolfhart perguntara isso era de certa forma tocante. Não me recordo de senti-la tão vívida em alguém — ingenuidade não é tão comum esses dias. O menino ao qual a pergunta fora endereçada sentava-se a mesa, sozinho, com uma revista em quadrinho em mãos. Seus olhos a fitavam com gosto e sua boca esboçava um amarelo sorriso. Ambos os meninos eram bem claros, entretanto Brian ficou vermelho ao não receber resposta alguma.

– Se você não quiser ser meu amigo pode falar. Eu não ligo mesmo!

Óbvio que era mentira, mas Brian não queria se sentir desprezado. Apesar de não saber o que a palavra 'desprezo' (assim como muitas outras) significava ele já conhecia esse sentimento nada nobre há algum tempo. Seu corpo fez um giro de 180 Graus e seus pés deram vida a alguns passos, mas se sentindo culpado, eles os rumou de volta a mesa onde o menino se sentava.

– Olha desculpa, eu ligo sim. Tá!? É que é meio chato passar o recreio sozinho. E como você é a única outra pessoa sozinha aqui eu pensei que a gente podia ser amigos. O que você acha?

Demorou quase um minuto para que percebesse que não teria resposta alguma. Ou o menino estava encantado demais pela revista ou muito empenhado em não o responder. Apesar de ser hora do lanche, Brian era uma dessas crianças que não desgruda nunca da mochila. Era como se ela escondesse seus maiores segredos junto com seu enorme casaco de moletom, cinza da cor de seus olhos. Os dois caiam sobre o macacão Jeans azul claro que usava, de forma que o contraste das cores lembravam um céu de verão com poucas nuvens, tão poucas que não seriam suficientes para chover ou nublar. Exatamente como o céu estava naquele instante.

Sem saber ou ter o que fazer, Brian segurava as alças de sua mochila e balançava a perna encarando o chão, como se chutasse sua própria sombra. Sua mente rapidamente viajou; era como se não estivesse mais ali presente, até que algo quebrou o transe. Sua sombra crescia e engordava tomando uma forma que não conhecia, de modo que parou de chutar o chão. Teria seu pé esticado sua silhueta? Passou a mão pelo corpo rapidamente para ter certeza de que não e logo concluiu que a imagem formada não poderia ser sua. Virou novamente para trás.

– Olha só o que temos aqui, Hayden!? Não é esse que é o seu vizinho estranho? — disse um dos rapazes do meio.

– É sim e parece que além de estranho é burro, falando com o menino surdo. Que patético! — respondeu o da direita rindo, de modo que os outros 3 meninos o acompanhassem.

– Surdo!? — exclamou Brian sem ter certeza do que a palavra significava.

– É imbecil, surdo! Não sabe o que é isso? Porque não pergunta pro seu pai? Ah é, por que ele foi embora de casa! — zombou, dando enfase nas últimas palavras.

– Cara, isso não foi legal! — disse o da esquerda, num tom de desaprovação.

– Cala a boca, Hunter! Ninguém pediu que você falasse! — replicou e continuou — Pelo menos agora não tenho que ficar ouvindo seus pais malucos gritando a noite inteira! Bem-feito! — apontou para Brian.

– Não fala assim dos meus pais! — exclamou Brian com tova raiva do mundo.

O peso do grito foi tanto que como as leis da física o ensinariam anos mais tarde, teve uma reação. Como que por impulso, Eric, o garoto do meio, o derrubou no chão com apenas um golpe. O que não era nem um pouco difícil, já que apesar de Brian não ser nem um pouco magrelo, Eric era quatro anos mais velho, portanto mais alto e forte. Assim como os demais garotos em seu grupo. Mal deu tempo de se levantar e uma roda já tinha se formado, entoando 'briga' em uníssono.

"Briga, briga, briga, briga!" — mal sabiam que Brian não tinha medo de nada, pra sua infelicidade.

– Eu não vou brigar com ele, seria ridículo! — afirmou Eric, batendo na mão do quarto garoto que nada ainda tinha pronunciado. Se virou e espremeu-se entre as demais crianças da roda, tentando sair, mas antes que pudesse, Brian o agarrou por trás com todo impulso que uma corrida de 6 longos passos poderia dar e o atirou no chão. O público foi ao delírio.

– Você tá maluco!? — exclamou do chão. Brian estava incontrolável, como um lobo feroz abatendo sua presa. Quem dera ele soubesse que seus socos de nada adiantavam na verdade: eram fracos e descoordenados; nem mesmo ele sabia onde os acertava — Vamos, tirem esse pirralho de cima de mim! — pediu à sua gangue mirim.

Mas antes que eles pudessem agarrá-lo pelos braços, Brian viu algo que agradava seus olhos. Eric usava um casaco escuro com dois bolsos na frente. Um para cada lado separado pelo zíper, que estava fechado. E dentro de um deles saía algo quase que imperceptível para todos, mas não para ele. Brian era apaixonado por Lobos desde que sua mãe mostrou o animal em um documentário no Discovery Channel quando menor. Os únicos animais que conhecia eram os domésticos como cachorros e gatos, e aqueles usados para ensinar as vogais do alfabeto. A de avestruz, E de elefante, I de iguana, O de ovelha e U de urso. Nunca L de lobo. O menino havia sido educado em casa até o ano anterior e sua afeição por tais animais se tornou ainda mais obsessiva quando o seu avô o presenteou no aniversário de 6 anos com uma fantasia de corpo todo de lobo. Nossa, ninguém nunca tinha visto o menino tão feliz. Talvez quando ele fez 7 e o mesmo avô o deu uma cabeça empalhada de um lobo que havia caçado, dessas que se penduram em paredes, mas o presente foi devolvido após uma discussão ser iniciada, uma vez que o pai de Brian era um ativista protetor dos animais. Principal razão também do menino nunca ter ido à um zoológico e conhecido mais animais do que os iniciados com vogais.

Brian não fazia ideia do que era aquilo que havia caído do bolso de Eric. Era metálico e brilhante. Parecia um chaveiro, mas não tinha a parte de pendurar, o que nem importava: tinha a pequena gravura de um lobo uivando naquilo. Uma silhueta. Ele precisava daquilo e por isso simplesmente agarrou o objeto e jogou no bolço de seu macacão, de forma despercebida, antes que dois dos três garotos o agarrassem pelo braço, permitindo que Eric se levantasse.

– Você é sem dúvidas mas corajoso do que eu pensava. E também mais idiota! — Eric disse, logo antes de socá-lo no peito com força.

A dor aqueceu todo o seu corpo. Ele queimava mesmo sem chama alguma.

– Vamos Eric, arrebenta ele! — ordenou Hayden, segurando seu braço direito.

– Não é meio injusto, Eric? Nós quatro contra o pirralho? — indagou o outro menino, segurando seu braço esquerdo.

– Você também Fred!? Primeiro o Hunter, e agora você!? Vocês dois são uns maricas, deviam se casar! — profanou Eric no ápice de raiva — Agora, voltando pra onde estávamos, você sabe o que significa ambidestro pirralho?

Brian balançou sua cabeça em negação, eufórico, entretanto sem mais tentar escapar dos braços dos capangas de Eric. Ele não tinha ar suficiente para isso, uma vez que o soco parece ter esvaziado seus pulmões por completo. Sua respiração lembrava a de um cão após correr com seu dono: ofegante.

– Ambidestro é quem pode socar com as duas mãos! — Gritou Eric, dessa vez acertando o seu rosto.

Nota: Eric usava um anel em sua mão esquerda, que ao deslizar pela face de Brian, traçou uma linha reta logo abaixo dos olhos.

O grito do menino pode ser ouvido do céu. Era cada vez mais difícil respirar. Talvez se esquivar da fúria de Eric melhorasse isso, e se não podia o fazer com o corpo, faria com os olhos. Procurou um ponto no chão em que pudesse mirar enquanto apanhava e se surpreendeu ao ver sua mochila aberta jogada no chão. Quando foi que ela havia caído?

"Por que ela tinha de abrir justo aqui e agora?" — pensou.

Alguns desenhos de lobos, lápis-de-cor e um moleskine com o título 'Manual de Instruções' escrito na capa escapuliram da mochila, e agora decoravam o chão. Assim como um ursinho de pelúcia amarelo.

Apesar do desespero e de não poder fazer nada, Brian não podia deixar que descobrissem seu urso. Ele viraria motivo de zoação pelo resto do ano letivo ou algo ainda pior. Subiu o olhar para o rosto de Eric que fez exatamente o caminho inverso. Seguiu as pegadas deixadas no ar e não pensou duas vezes antes de tomar o ursinho em suas mãos.

Esse era o 'algo ainda pior'.

– Veja só o que temos aqui!? Ele ainda tem um ursinho galera! — fez um giro de 300 graus, segurando o objeto com o braço ereto, para que todos pudessem ver e rir também — Olha só o que eu faço com isso.

Enfiou a mão no bolso do casaco como quem procura algo, e era exatamente o que fazia. Procurou no outro bolso, mas não era tão importante sim. Deu de ombros.

Aviso: os acontecimentos dados a seguir podem ser muito fortes para qualquer um muito apegado a algum objeto tal como um urso de pelúcia.

1 — Eric deu um sorriso tão malicioso que ficou gravado na mente de quem quer que tenha o visto. Mesmo que por acidente.

2 — Em seguida, Eric dá um mordida no urso e o puxa com a mão, arrancando uma de suas orelhas (e muita espuma de dentro dela).

3 — Ainda insatisfeito, Eric dá outra mordida, dessa vez no peito do animal, abrindo uma fenda na costura. Porém, é interrompido por um grito antes que o rasgasse em dois.

– O que está acontecendo aqui!? — Indagou a diretora da escola, dissipando rapidamente a multidão.

Hunter (possivelmente agora conhecido como 'Hunter, o traidor') havia fugido da roda sem que ninguém percebesse e chamado ninguém menos que a diretora para dar fim àquela barbárie infantil. Eric instantaneamente cuspe o urso ao ouvir o grito, ao mesmo tempo em que Hayden e Fred largam Brian, que cai no chão desmaiado.

~ * ~

– O concurso de histórias vai começar! — gritou Atlas, ainda na enfermaria, acordando Brian no susto do momento.

Atlas e Brian eram irmãos.

– Quem é você? Atlas ou Ares? — perguntou o menino, esfregando os olho.

– Quem você acha que eu sou, lobinho? — abriu um grande sorriso.

Lobinho, de todas as palavras no mundo, devia ser a que Brian mais gostava de ouvir. Era como seu irmão mais velho costumava chamá-lo quando estava 'bem'. Talvez por ser leigo ou talvez por ser novo demais, ele nunca compreendera exatamente o que a bipolaridade significava ou porque agia, muito menos do porque com seu irmão. Tudo o que conseguia decifrar era que o irmão era gentil e raivoso, pacífico e estressado, dia após dia e que não gostava de quando ele estava 'mau'. Ele era mesquinho, sempre gritava e ofendia as pessoas, fazia coisas sem sentido que até o assustavam. E o principal: odiava ser chamado de Atlas. Assim como Lobinho era uma palavra que ascendia a alegria em Brian, Atlas a apagava em Ares, como ele exigia ser chamado.

Atlas usava uma calça de sarja branca com uma blusa também branca, ambas coloridas aleatoriamente como se tivesse acabado de sair de um paintball. E chinelos.

– Mamãe vai matar você! — disse Brian, sorrindo.

– Não se ela matar você primeiro! — respondeu, mudando a expressão feliz logo em seguida — Mas falando sério, o que tá acontecendo com você? Já é a segunda vez que a escola liga lá pra casa só essa semana. O pai e mãe não vão ficar nada felizes em saber disso.

– Ah, não, por favor. Você é o Atlas, o bonzinho, você não vai contar, né?

– Obrigado pelo bonzinho, mas eu preciso. Não tem como te cobrir dessa vez porque a diretora quer conversar com eles. Pessoalmente. Você se meteu em uma briga cara, ou você acha que eu não soube?

– Briga!? Que briga!? — fingiu confusão.

– Então como conseguiu esse corte no rosto? Graças à Zeus foi apenas superficial!

Atlas tinha o costume de trocar Deus por Zeus ironicamente apesar de não acreditar na Mitologia de verdade. A mãe dos irmãos Wolfhart era professora de história em uma faculdade, além de lecionar em um curso exclusivo sobre mitologia. Essa era sua grande paixão além da família. E exatamente por isso deu tal nome ao primogênito (Brian vem em homenagem ao avô que o mesmo tanto gosta).

Nota: Atlas, um titã, era uma das encarnações do caos e da selvageria da natureza; foi condenado por Zeus a sustentar o céu sobre a Terra após uma revolta contra o Olimpo por poder. Enquanto Ares era o Deus sanguinário da Guerra.

Observação: seria por isso seu outro 'eu' tão agressivo?

Brian toca o rosto na altura do machucado e sente o curativo que foi posto enquanto dormia. Abaixa a cabeça como se mostrasse arrependimento, de olhos fechados.

– Qual é a regra numero 6 do manual?

– Não contar mentiras.

– Então não minta para mim, está bem? Eu quero que confie em mim. Eu sou seu irmão e só quero o seu bem. Mas pra isso preciso saber de toda a verdade. Estamos entendidos?

Brian balança a cabeça de forma afirmativa, entretanto permanece com ela baixa, de modo que ao abrir os olhos se depara com o estranho objeto que havia roubado de Eric em seu bolso, e o pega.

– O que é isso? — Atlas arregala os olhos — Eu não acredito que você trouxe um... — tapa a própria boca para que a palavra não escape — Onde que você conseguiu isso? Vamos me dê! — toma o objeto das mãos do menino.

– Ei isso é meu! Me devolve!

– Isso é meu agora! E você tem muito o que explicar quando chegar em casa, ouviu? Vamos, pegue o seu manual.

– Meu manual? Mas pra quê?

– Vamos, pegue-o. Tenho uma nova regra para você.

O manual de que tanto falavam era na verdade um moleskine preto que o menino havia ganhado logo que aprendera a escrever. Ali estavam descritas as leis que seus pais e seu irmão declaravam como fundamentais para que nada de ruim acontecesse. Eram poucas até então: havia algo sobre doces e algo sobre fogos de artifício, mas todas importantíssimas.

– Qual é a regra da faca?

– Onde tá minha mochila? — Brian olha ao redor e vê a mochila jogada aos pés da cama em que está sentado. Nunca havia percebido o quão pequena era a enfermaria daquela escola.

Ele desce da cama em que estava sentado, pega o manual e um lápis na mochila e folheia pelas páginas preenchidas por rabiscos, além das regras, até que para e responde:

– A número 8. "Não mexer com facas sem a mamãe deixar" — recita.

– Acrescente algo do lado: "E qualquer outro objeto cortante, afiado e/ou perfurador" — concluiu, enquanto desvendada as partes escondidas daquele objeto. Era um canivete.

Nesse momento a enfermeira entra na sala, assustando Atlas que esconde o objeto rapidamente.

– Como você se sente Brian? Vejo que já acordou, está se sentindo bem? Eu fiz um curativo enquanto dormia. Falando nisso eu preciso saber, é comum que ele desmaie normalmente, senhor Wolfhart? — perguntou a enfermeira.

– Por favor, não me chame de senhor. E bem, não é comum.

– Então deve ter sido o nervosismo mesmo. Espero não te ver aqui de novo nem tão cedo, ouviu? — colocou a mão no ombro de Brian — Vocês já podem ir.

– Vamos pra casa, lobinho.

Notas finais
E aí, o que estão achando? Comentem, gritem, rabisquem na minha parede: apenas seja sincero, que críticas são sempre bem vindas:)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.