Wolf Woods

7 Capitulo 6 - Desnorteantes Descobertas


Os dias passaram e um novo ensaio chegou. Desta vez Jenna anunciou que devido a um imprevisto Marcus não iria comparecer, mas que isso não deveria influenciar o seu desempenho. Informou também que a partir daquele dia iam construir a peça e, por isso, as cenas seriam ensaiadas pela ordem que seriam apresentadas ao público.

— Começas a tocar e só depois as cortinas abrem, ok? – declarou a supervisora assim que Chloe ocupou o seu lugar ao piano.

Quando tudo já se encontrava no seu lugar e os dois protagonistas estavam prontos, Jenna deu o sinal para que a música soasse e que então o pano abrisse.

Aida caminhou em palco, olhando para o chão, como se evitasse possas de água enquanto arregrava um guarda-chuva. Kyle abriu a semi construída porta de farmácia que se improvisara, chocando com Aida. No processo agarra-lhe no braço e evita que ela caia, perguntando-lhe se ela estava bem.

— Oh, peço imensa desculpa! Vinha tão atenta às possas de água que me esqueci de ver por onde ia.

— Não se preocupe, o que importa é que não se magoou.

— Oh, não! Já estou atrasada! – exclamou ao ouvir o sino da igreja. – Até uma próxima. – acrescentou começando a correr.

Depois de Aida ter entrado na zona cega do palco, atrás das cortinas, Kyle sorriu e seguiu pelo lado oposto também ele ocultando-se do público. De seguida reapareceu anunciando a sua chegada a casa quando cumprimentou a mãe. Louise, que ocupava o papel de mãe tinha-se deslocado para palco com uma cadeira, dando sequência às cenas. Chloe tocava uma leve e clássica música de fundo para acompanhar a cena. Como Jenna não se contrapôs à troca de cena os restantes atores também o fizeram, até que esta bateu palmas e deu por finalizado o ensaio. Apontou um ou dois aspetos que deveriam ser melhorados e aconselhou-os a continuarem a trabalhar duro e o dobro visto que naquela semana não haveriam mais ensaios.

— Chloe, Aida e Kyle, por favor cheguem aqui. Queria combinar com vocês um ensaio em que treinaremos a parte em que a Aida e o Kyle cantam um para o outro. Algum horário em preferência?

— Se fosse à hora de almoço de quinta-feira eu agradecia. – pediu Kyle.

— Meninas.

— Por nós tudo bem. – respondeu Aida. – Mas onde é que vamos ensaiar?

— Se ninguém se opuser será no auditório da nossa escola. – adiantou-se Jenna. – Ninguém contra? Ótimo! Vão treinando em casa que na quinta vemos os pormenores.

— Então até quinta. – despediu-se Aida de Kyle quando este seguiu por um caminho diferente ao chegarmos à saída. Cumprimento ao qual ele não respondeu.

— Ele acha-se demais. – repreendeu Chloe.

— Ora não sejas assim. Faz parte da sua máscara de pedaço-de-pão-gato-enigmático-ambulante-sou-bom-demais-para-vocês-pessoas-meramente-comuns! – declarou Aida como de fosse um especialista a explicar algo seriamente fazendo com que ambas se riram.

Ao vê-las a rir, quando entraram na carrinha, Mickael perguntou qual era o motivo de tanta piada o que as levou a rir ainda mais.

*

Quinta-feira chegou antes que desse conta e ainda mais rápido a hora de almoço. Quando se apercebeu, Chloe estava sentada no banco em frente do piano com Aida e Kyle nele apoiados à espera das instruções de Jenna, que os observava da plateia.

— Muito bem. – bateu palmas – Façam o que quiserem, o que melhor vos aprouver e eu depois vejo se, dentro de contexto, resulta ou não.

Aida olhou apavorada para os outros dois. Kyle mostrava-se impassível, mas pareceu também um pouco atrapalhado, quebrando assim pela primeira vez aquele seu ar de ter sempre tudo sob controlo e de deus.

Chloe sorriu perante uma ideia que lhe ocorreu. Visto que era uma cena de saudade, esperança, promessas para o futuro e duvidas, em vez de tocar uma habitual melodia lenta que costuma acompanhar este tipo de desempenho começou por tocar algo mais mexido e composto. Piscou o olho a Aida que apanhou a ideia e deu início à canção na altura certa. Kyle entrou no ritmo e dado o enlaçamento, os três criaram uma boa harmonia.

No final Jenna estava estupefacta pelo seu desempenho e que apesar de ser preciso rever alguns pormenores estava bastante bom.

O resto de dia de quinta passou rápido e sexta-feira também. Chloe não sabia o que se estava a passar com o tempo, mas agradeceu por chegar a sábado tão rapidamente, pois tinha deixado muita coisa pendente, muita coisa para investigar…

*

Passava pouco do meio-dia. Visto que a sua anterior pesquisa não tinha dado resultados tentava agora novamente. Chloe digitava nas teclas do teclado com cerca rapidez. Descia e subia páginas, abria sites que nunca ouvira falar e lia informações desnorteantes sobre o quer que aparecesse referente áquilo que procurava. Quando ficava sem ideias sobre o que digitar ou não entendia algo, encarava fixamente o ecrã até se lembrar de algo e recomeçar o processo. Perto das duas da tarde a avó arrancou-a do quarto e forçou-a a ir para a cozinha almoçar. Enquanto almoçava tentou discretamente fazer mais uma vez perguntas aos avós sobre avistamentos de lobos naquela área, mas este tornou a responder que não sabia de nada.

— Mas porque estás tão interessada nisso, querida? – perguntara a avó.

Como que salva pelo bongo, o telefone tocou. Era Sandra a perguntar se ela, Chloe, poderia substituir uma das suas empregadas que ficara doente. Sem demoras ela aceitou. Beijou a avó na face e subiu as escadas para o seu quarto mudando de roupa e saindo para o café.

Quando chegou ao café foi recebida de braços abertos por Sandra. O café abarrotava de gente e Sandra explicou que era assim todos os fins-de-semana em que faziam o dia dos 20%, ao que parecia ser um tipo de dia dos descontos. Apesar de cansativo foi mais divertido do que tinha pensado, as pessoas eram alegres e estavam sempre com um sorriso na cara, havia um homem já de idade que estava sempre a contar piadas ou histórias sobre o passado. A meio da tarde as pessoas começaram a ir-se embora e o café foi ficando vazio. O trabalho abrandou e Sandra agradeceu-lhe por aquele turno extra. Quando estava prestes a ir-se embora Kyle e os irmãos entraram e ocuparam a sua estimada mesa. Sandra pediu a Chloe para os atender e que depois poderia ir-se embora.

Com um pouco de receio Chloe aproximou-se da mesa e perguntou-lhes qual era o seu pedido. Fazia de tudo para não olhar para Kyle, não que ele estivesse muito interessado nela mas mais por medo de novamente ficar presa no seu olhar.

Anotou rapidamente os pedidos e levou-os para a cozinha. Ajudou a prepará-los pois tinha pressa, queria ter tempo para ir correr. Ainda havia luz do dia e, como as pesquisas não tinham dado resultado, queria ir correr para clarear as ideias. Assim poderia ser que se fizesse luz e percebesse se lhe escapara algo de que não se lembrava.

Quando finalmente saiu da cozinha tendo em braços um tabuleiro cuja sua estabilidade era precária deparou-se com algo que não só a deixou intrigada como bastante chateada. Eles tinham desaparecido. Tinham-se ido embora e não avisaram que já não queriam o pedido.

“Tempo e comida desperdiçados”, pensou.

Devolveu a comida à cozinha e explicou o sucedido, não havia forma de dizer como a cozinheira parecia aborrecida. Tirou o avental e vestiu o casaco. Agarrou nas suas coisas despediu-se e seguiu o mais rapidamente que conseguiu para casa.

*

Corria moderadamente pelo trilho entre árvores. Já estava no percurso da volta quando viu algo. Parou. Três lobos estavam agrupados numa espécie de clareira e encaravam-se como se falassem entre si. Aproximou-se misturando-se com a vegetação, mas pisou um galho e fez barulho. Barulho esse que fez com que os lobos virassem as cabeças para o sítio onde Chloe se encontrava. Escondida atrás de uma árvore rezou para que eles não dessem pela sua presença.

Nunca soube se foi sorte ou se fora mero acaso, mas o certo era que eles não a notaram, talvez por o vento estar para o lado contrário e não terem apanhado o seu cheiro. Mas mais tarde não saberia se isso tinha sido algo bom, pois logo a seguir ouviu uivos e latidos de dor que se transformaram-se em agonia humana. Não teve coragem para olhar até que tudo ficou em silêncio. Depois uma voz a dar uma ordem seguida de barulhos de passos a correrem cumprindo-a. Quando tudo estava calmo espreitou, sabendo que se arrependeria para sempre se não o fizesse. Dois já tinham desaparecido, mas ainda conseguiu ver as costas do terceiro. – E temia que se o seu olhar descesse era provável que visse mais do que queria. – Costas de um humano. Umas bronzeadas e musculadas costas de um rapaz bem desenvolvido. As costas de um rapaz que desde que se mudara para a vila a incomodava. E agora ela sabia porquê. Uma única palavra se lhe formou na mente.

*

Correu para casa o mais rápido que pode, se alguém estivesse a contar até lhe diria que havia quebrado algum tipo de recorde. Entrou em casa, mas só parou quando se sentou em frente do seu portátil e começou a digitar. Desta vez a sua pesquisa deu resultados e as peças que se juntavam na sua mente tipo um puzzle começaram a formar uma límpida e clara imagem.

O problema era: o que faria com a informação que acabara de descobrir?...