Wolf Prince

6 Capítulo 6 - Muita informação...


Terminamos de guardar nossas coisas nos guarda-roupas, e ficamos esperando Lyka. Joe ficou deitado na cama superior do beliche e eu me sentei numa das cadeiras e apoiei os pés na escrivaninha. Sim, dane-se a educação, eu estava com a cabeça cheia demais pra me importar com isso. Repentinamente me ocorreu um pensamento, algo que eu não tinha notado até agora.

― Joe, você viu aquele homem-tigre com o machado e também ouviu o barulho da explosão, certo?

― E teria como não ter visto e ouvido? ― respondeu ele se erguendo um pouco apoiado nos cotovelos para poder olhar para mim.

― Isso é estranho, Lyka disse que pessoas do nosso mundo não poderiam perceber coisas que não pertencem a ele, então como eu e você podemos? Bom, a principio pensei que, sei lá, eu fosse, na verdade, desse outro mundo ou algo assim, o que seria a suposição obvia levando em conta meu histórico. Mas isso não explicaria como você consegue ver também, tem provas de que você nasceu lá, que seus pais são de lá, não tem como você ser daqui, então como? ― disse pensativo. Eu realmente odeio quando não sei das coisas, estou acostumado a responder, não a perguntar.

― E você vem perguntar pra mim? Lupie, meu caro, eu estou boiando nessa história muito mais que você. ― disse ele sorrindo pra mim.

― Você está mesmo bem relaxado com isso tudo, não é? ― indaguei.

Joe deu um suspiro e sentou-se, seus pés ficaram balançando na lateral da cama, como uma criança fica quando está sentada numa cadeira alta demais.

― Pra ser sincero, não estou preocupado mesmo. Você está aqui comigo, e é o que me importa, por tanto o resto eu posso levar na boa. Sou um ator, me adaptar aos mais variados papeis e situações é que eu faço melhor. ― disse Joe com uma piscadela. Coração idiota, pode parar com esse solo de bateria? ― Melhor perguntar à bela Srta. Lyka Black.

Assim que ele terminou de falar ouvimos uma batida na porta.

― Sou eu, podem abrir. ― ouviu-se a voz de Lyka do outro lado.

― Falando no diabo... ― comentou Joe.

Eu fui até a porta e a destranquei. Lyka entrou.

― Hum, já guardaram tudo... ótimo. É melhor começarmos com as explicações, agora que estamos num local seguro. ― declarou.

― Boa ideia. ― disse revirando os olhos enquanto voltava para minha cadeira, mas dessa vez não pus os pés na escrivaninha.

― Por onde querem que eu comece? ― ela olhou para Joe e eu.

― Antes, você pode dizer por que eu e Joe conseguíamos ver as coisas deste mundo enquanto ainda estávamos no nosso mundo? ― perguntei.

― No seu caso é óbvio, você não pertence àquele mundo, Lupus. Mas quanto a Joe eu realmente não sei, provavelmente ele absorveu um pouco da essência deste mundo nos anos que passou próximo a você, mas isso é apenas uma suposição, a verdadeira razão pode ser bem diferente. Mas não é algo que precise se preocupar, depois eu dou um jeito de descobrirmos.

― Certo, agora volte um pouco pra parte do “eu não pertencer àquele mundo”. ― pedi. Hum, parece que meu primeiro palpite estava certo.

― Hum... bom, você é o filho do primeiro-ministro de Wolves, o país dos magos-canídeos, seus pais foram mortos num atentado, você também ai ser morto, mas eu abri um portal para o outro mundo e te deixei naquele orfanato. É quase impossível rastrear alguém no outro mundo, os feitiços não funcionam direito porque aquele não é um mundo adaptado à magia. As pessoas que estavam atrás de você eram do serviço de inteligência de Trigrad, nação dos magos-felinus e eterna rival de Wolves, embora eles estejam mais pra um espécie de máfia estatal. ― explicou ela.

Er... preciso dizer que estou meio chocado? Como ela consegue dizer isso de maneira tão casual? Eu não consegui nem formular uma pergunta, então Joe tomou a frente.

― Incrível! Como esperado do meu Lupie, isso é um passado e tanto! Mas... e quem é você? Era alguém que trabalhava para os pais do Lupie ou algo assim? ― perguntou ele.

― Não, não. Eu sou filha do primeiro-ministro também, sou a irmã mais velha do Lupus. ― ela puxou um cordão do pescoço, e nele havia um pingente exatamente igual ao meu, só que com “Lyka” gravado nele.

Joe e eu nos entreolhamos.

― O QUE??????????? ― dissemos em uníssono.

― Que droga de reação é essa? É só olhar para nós e dá pra ver que somos parecidos. ― afirmou “minha irmã”.

Joe começou a olhar de mim para ela várias vez.

― Agora que eu parei pra analisar...vocês se parecem um pouco, principalmente os olhos. Não a cor, é claro, mas ambos têm o mesmo olhar assustador. ― constatou Joe, sorrindo.

― Eu não tenho um olhar assustador! ― disse Lyka, olhando raivosamente para Joe.

― É exatamente desse olhar que eu estou falando... ― cantarolou Joe.

Ela pigarrou, ainda irritada, e continuou.

― Enfim, eu já tinha idade suficiente para me manter a salvo aqui por conta própria, mas não poderia proteger Lupus, a melhor opção foi manda-lo para longe. Eu ter ido junto, mas precisava manter os felinus longe do legado da família, um item magico poderoso que poderia desequilibrar a balança de poder entre Wolves e Tigrad, e esse item não pode sair dessa dimensão então tive que ficar aqui para protege-lo. Era muito arriscado manter Lupus por perto, eu sofri vários atentados ao longo dos anos, que tipo de irmã eu seria se o expusesse ao mesmo perigo? ― ela não disse isso com um tom pesado, mas deu pra sentir que ela com certeza passou por coisas muito piores do que deixou transparecer.

― Mas por que você foi busca-lo então? Se aqui não é seguro, por que o trouxe de volta? ― perguntou Joe, no mesmo tom de voz sério que eu o havia visto usar no orfanato.

― Porque eles conseguiram rastreá-lo, e mandaram Tora atrás dele, eu descobri isso quando Tora já estava o procurando no outro mundo, estava muito perto, foi muita sorte eu ter chegado antes. Lá se tornou menos seguro que aqui. A priori eu planejava abriga-lo no quartel general da Guarda Especial de Wolves, e é pra lá que nos vamos. Mas não foi tão ruim acabarmos em Reptiland, este é um país neutro, não seremos atacados aqui, por enquanto.

Eu estava sem palavras até agora.

― Muita informação... ― murmurei.

― Provavelmente. Tem mais algo que queiram saber? ― ela perguntou.

― Acho que já está bom por agora. ― ele olhou preocupado para mim.

― Bem... partiremos amanhã cedo. Lupus troque de roupa, o uniforme da escola chama muita atenção por aqui. Descansem agora, eu voltarei ao meio dia, vamos sair para almoçar e fazer algumas compras para a viagem. ― ela se virou e saiu do quarto.

Joe ainda olhava para mim, mas não disse nada. Ele me conhecia bem o suficiente para saber que eu precisava de silencio para pensar. Minha cabeça estava ainda mais cheia agora, não mais de perguntas, mas com toda aquela informação. Outro mundo, filho do primeiro-ministro, pais assassinados, irmã mais velha, magia... ai ai, acho que vou precisar de uma aspirina.