Wolf Prince
1 Capítulo 1 - Quando as coisas ainda faziam sentido
– Estou de volta.
– Hey, Lupie, como foi a aula hoje?
Tenho 15 anos e meu nome é Lupus. Sim, é um nome estranho, mas é o único que tenho, não tenho nem mesmo um sobrenome. Fui abandonado na porta de um orfanato no subúrbio apenas com um colar com o nome "Lupus" gravado no pingente e um cobertor pra que não morresse de hipotermia, bem clichê não é? Bem... como não conseguiram encontrar ninguém que que tivesse ligação comigo acabei ficando por lá mesmo. Mas não se deixem pensar que por eu ser um garoto de orfanato eu tive uma infância ruim, tá certo que nunca fui adotado, mas as pessoas que tomavam conta do orfanato cuidaram de mim, me mantiveram alimentado e me deixaram estudar, então eu fiquei bem. A propósito, sou muito bom nisso, estudar, ganhei uma bolsa de estudos semestre passado e agora estou estudado na Academia Cristtal, uma escola particular de elite que normalmente só aceita os super ricos de famílias importantes.
– Nada de mais, como sempre, Joe. Só aula e um monte de mauricinhos e patricinhas tentando encher o saco do plebeu órfão... Qual o problema dessa gente?
– Como quer que eu saiba? Um cara tão legal, lindo, bondoso e humilde como eu jamais saberia como essa gente esnobe pensa. – respondeu Joe com o tom dramático de sempre.
– Super humilde...
E esse é Joe Clove, meu colega de quarto no orfanato e meu teatral melhor amigo. Há oito anos seus pais morreram num acidente de carro e ele se mudou pra cá, ele tem sido minha constante fonte de aborrecimento e pagação de micos desde então.
– Diga logo de uma vez o que quer. Você só pergunta como foi meu dia quando quer alguma coisa. – indaguei erguendo a sobrancelha.
– Oh, como pode pensar isso de mim, Lupie? – Joe agarra minhas mãos e olha nos meus olhos com aquela cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança que tanto arranca suspiros da plateia feminina durante suas peças de teatro... Nem preciso falar que ODEIO quando ele faz essa cara. – Que tipo de homem você pensa que sou?
– D-do tipo... – desvencilho minhas mãos das dele e puxo sua orelha com força – ...idiota que sempre se finge de bonzinho pro melhor amigo ajudar ele com algo que com certeza vai mete-los em encrenca.
Um dos motivos de nunca termos sido adotados é que, por conta das ideias "geniais" de Joe, ficamos conhecido como os baderneiros do orfanato. Se bem que minha sorte com possíveis pais adotivos sempre foi péssima por causa dos meus olhos, de acordo com eles (e a maior parte das pessoas ao meu redor) eu tenho "olhos ruins", eles são prateados e "selvagens". Joe parece ser o único que não se importa com isso, ele define meus olhos como "belos de uma maneira exótica", c-claro que não levo a serio esse tipo de comentário do Joe... mas pelo menos isso prova que ele não tem medo de mim por ser diferente, acho que esse é o motivo de eu continuar amigo dele depois de todas as furadas em que me meteu.
– Aiiiii! Certo! Certo! Eu digo o que é! Mas juro que não vamos nos encrencar dessa vez! Me solta, tá machucando! – Implorou Joe.
– Como se eu acreditasse nesse "não vamos nos encrencar"... – Solto a orelha dele.
– É sério, só quero uma ajuda simples. – massageando a orelha dolorida – É o seguinte, a diretora do orfanato confiscou meu celular, e eu já peguei de volta, é claro... – reviro os olhos – mas ela bloqueou minha wifi, não posso acessar a internet. Só quero que você hackeie o computador da diretora que controla o roteador e desbloqueei o meu acesso. Simples.
– Pra começo de conversa, por que diabos ela confiscou seu celular? O que você estava vendo na internet?
– Eu só estava... quer mesmo saber? – Olhar pervertido detectado. Abortar pergunta! Abortar pergunta!
– Er... – Por que meu melhor amigo tinha que ser um pervertido? – Não, acho melhor não. Enfim, é algo fácil mesmo, mas o que eu ganho com isso? – Hey, não acharam que eu entrava nas roubadas de graça, acharam?
Um fato sobre mim é que por ter crescido num orfanato e não ter tido muitas coisas que eram exclusivamente minhas, era basicamente o pingente e mais nada, então eu me tornei um tanto capitalista, sempre tento levar alguma vantagem, gosto de ter coisas só pra mim.
– Eu. Você me terá todo pra você por um só dia, eu farei qualquer coisa que você queira, qual-quer co-i-sa, incluindo coisas indecentes... –Ele envolveu minha cintura com um braço, me puxou mais para perto dele e segurou no meu queixo com a outra mão para deixar meu rosto próximo ao dele e me encarou com aqueles olhos verdes de galã de mangá shoujo. Isso é altamente vergonhoso...
– D-dispenso! – Dei-lhe um soco na cabeça. Sabe, um dia eu ainda vou ter que colocar uma coleira nesse melhor amigo estupido... – Pare de fazer esse tipo de coisa, é vergonhoso!
– M-mas Lupieeee, você é tão pequeno e fofo que não consigo me segurar, parece um filhotinho de lobo – disse ele fazendo beicinho. Sério isso?
– Eu tenho 1,73, só sou 15 cm mais baixo que você, e ainda estou em fase de crescimento! E outra, eu DEFINITIVAMENTE não sou fofo. – Se eu fosse as pessoas não me chamariam de demônio, não é? – Francamente... me dê a sua sobremesa por um mês e hackeio pra você.
– Cinco dias. – Revidou Joe.
– Três semanas!
– Uma!
– Duas e você compra o mangá que eu queria!
– Fechado! – Ele nem imagina que isso era o que eu queria desde o começo, hehe.
E assim eu desbloqueei a wifi do celular do Joe, ganhei sobremesa extra por duas semanas e um mangá de graça. Mas um dia comum na vida do órfão Lupus. Mal sabia eu que dias como esse estavam prestes a serem extintos pra sempre.
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