Wizard
26 Capítulo 9 - Second Season
Notas iniciais
Abri os meus olhos e estava em uma maca hospitalar, escutava vagamente as palavras da pessoa que me examinava. Ele jogou uma luz no meu olho esquerdo, mas o olho apenas contraiu. Me senti extremamente fraco e acabei fechado os olhos de novo.
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Respirei fundo o ar a minha volta, sentia o ar límpido invadir os meus pulmões. Abri os olhos vagarosamente, vi o ambiente ao meu redor completamente desfocado, mas ao contrário do que esperava, estava escuro o bastante para não me preocupar com a dor. Assim que a minha visão melhorou, observei ao meu redor e estava em um quarto pequeno, estava a minha cama hospitalar macia, como aquela na qual acordei do meu coma. Havia alguns sensores presos no meu peito e uma agulha na minha veia. Tirando isso apenas uma cadeira acolchoada e o meu escudo encostado em uma das paredes. Tentei mover o meu braço, mas ele, assim como o meu peito, estava preso a cama. Senti algumas faixas recobrindo parte do meu tórax, assim como a cabeça. Por instinto olhei desesperado para o meu peito e respirei aliviado a conseguir ver que o pendante ainda estava comigo.
Tentei gritar a enfermeira, mas a minha voz mal saia. Fui forçado a esperar por quase uma hora, até a enfermeira aparecer no meu quarto. Ela me viu e bateu a porta, gritando tanto pelo médico quanto pelo Oliveira. Tentei me lembrar do que aconteceu para estar ali, aos poucos veio a memória da luta do ginásio e dos disparos da Gabriela. “No melhor cenário, ele tinha algum dívida com ela. No pior, ele realmente deixou ela me matar. Mas por que ainda estou com a minha Gem?” pensava na tentativa de formar algum pensamento lógico, mas raiva em meu peito apenas crescia, não mais que o medo que sentia ao lembrar daqueles disparos. Foi quanto eu percebi que por muito pouco eu não morri naquele lugar. “Se não fosse aquela magia... provavelmente estaria morto ou preso dentro da minha Gem como o Edu.”
— Não se mexa! – O Doutor disse assim que me viu. Ele passou por uma lanterna no meu olho direito, já que não deixei ele tocar no olho esquerdo. Depois de olhar a faixa da minha cabeça, suspirou e sentou na cadeira ao meu lado. – Consegue mexer as mãos? – Levantei ambas e movi todos os dedos, com um pouco de dificuldade. – E quanto as sua pernas. – Movi ambas as pernas, assim como os dedos. – Bela magia a sua, apesar de ter dificultado muito o nosso diagnóstico.
O capitão apareceu na porta do quarto. Senti o meu corpo formigar, o ambiente se tornou frio e rarefeito o bastante para assustar o doutor.
— Hey, seria melhor se acalmar e não fazer nada... – Movimentei o meu pulso esquerdo, criando uma parede de gelo translúcida.
— Eu quase morri lá, por sua culpa! – Tentei gritar, mas a garganta ainda estava seca, então não passou de um sussurro no quarto. Olhei para o médico, ele estava o mais afastado possível da porta. Olhei para o suporte no meu lado esquerdo e me concentrei, movi calmamente a minha mão criando um espinho fino de gelo e lançando em direção ao soro. Assim que começou a fazer, separei a água dos outros componentes e assim que estava potável, a levitei até os meus lábios e a ingeri lentamente. Ouvi um chiado vindo da porta, uma palma incandescente estava apoiada nela, derretendo o gelo.
Assim que terminei, desfiz o gelo da porta e, agora com a garganta um pouco melhor arrisquei falar.
— Você está bem? – Minha mãe se sentou ao meu lado e pegou a minha mão, o que criou uma queimadura nela.
— Tudo bem? Não foi você que disse: “eu tenho um plano”? – Ela perguntou com um belo sorriso no rosto.
— Calma eu posso explicar.
— Não precisa, ele já explicou. À propósito, eu vi os vídeos da câmera de segurança, apesar dele ter soltado a Gabriela, ele trouxe você até aqui e a impediu de levar o seu colar. – Ele estava apoiado na porta apenas observando. Deitei na cama e fechei os meus olhos por alguns instantes. Apesar do que ela disse, ele ainda a soltou e deixou que ela disparasse contra mim. Mesmo que fosse apenas pela fuga dela, ainda era responsável pelo que aconteceu comigo. Mesmo que no fundo eu saiba que o maior culpado por tudo era eu.
— Eu queria apenas soltá-la, afinal eu tinha uma dívida com ela. Mas ela sacou outra arma e atirou em você. Eu tentei pará-la, mas ela acertou um disparo no meu braço antes de fugir. – Ele se aproximou lentamente. Dava pra ver uma parte da bandagem no braço direito. – Eu realmente não sabia que ela tinha outra arma.
— Tanto faz. – Respondi friamente. – Ela ao menos foi capturada?
— Não, ela desapareceu. Mas o capanga dela, assim como o irmão, estão presos dentro do quartel e todos estão alerta.
— Ok.
— Bom o médico vai terminar de examinar você e ver quanto tempo vai ficar de molho. Até lá, você vai receber os honorários e a nossa proteção, principalmente a minha.
— Ok. – Ele pensou em dizer outra coisa, mas fechou o semblante e caminhou para fora do quarto. Assim que estava fora, minha mãe curou a minha mão e caiu pálida sobre a cadeira.
— Por que trata-lo assim?
— Sinceramente, eu não acredito tanto assim nele.
— Mas você não conhece toda a história...
— Exatamente por não conhecer. – Senti extremamente cansado, apesar de ter usado pouco da minha magia. O médico pediu gentilmente para que pudesse me examinar e assim que fez os testes necessários, trocou o soro e injetou algo nele que me fez adormecer rapidamente.
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Estava sozinho quando acordei, tentei ficar em uma posição mais confortável, mas qualquer movimento maior criava uma forte dor nas costas. Coloquei os meus pensamentos em ordem, tentando entender tudo o eu se passara comigo desde que ganhei essa pedra. E fiz diversas anotações mentais sobre o que fazer e que atitudes eu deveria mudar.
A porta se abriu e a Alice entrou, fechei o meu olho esquerdo quando ela abriu as grossas cortinas, fazendo com que o amanhecer invadisse o quarto. Ela abriu a janela e a brisa que percorria a mata entrou e revigorou o ambiente. Dei um pequeno sorriso, sabia que aquilo tinha sido obra dela.
— Como você está? – Ela disse ainda apoiada na janela.
— Bem, eu acho. Os médicos disseram que poderia acelerar a minha recuperação com magia, mas por causa do local das lesões, era melhor deixar curar naturalmente e evitar possíveis sequelas.
— Como você não morreu? Ela baleou você na cabeça. – Ela se virou, vi as olheiras e seus olhos um pouco inchados. Apontei a cadeira, ela ignorou e continuou em pé.
— Eu sabia que em algum momento enfrentaria alguém que dispararia fatalmente contra mim e apesar dos meus reflexos e encantamentos seres rápidos, eu poderia ser alvejado. Então estava trabalhando em uma magia defensiva que protegesse os ossos e criasse uma camada de gelo protetora sob a pele. Como se tivesse enrolado varias camadas ultra finas de kevlar sobre os ossos. Então quando os disparos me acertaram, os ossos se romperam, mas não afetaram os órgãos em si. A exceção do disparo na cabeça, por ser a queima roupa, o impacto foi maior e acabei desmaiando.
— Você já sabia? – Ela sentou na ponta da minha cama.
— Eu esperava isso logo de cara, mas acabei baixando a guarda quando ela lançou a arma pra longe. – Franzi o rosto, em um sinal claro de auto reprovação. — analisando friamente agora, percebi o quanto fui ingênuo e principalmente arrogante e prepotente.
— Não acho que tenha sido pra tanto. – Relembrei do momento em que recebi os primeiros disparos, de quando ela parou e sorriu ao atirar na minha cabeça. O medo e a certeza de que teria meu fim ali começou a dominar o meu ser novamente. Coloquei uma das mãos no local do disparo, como se pudesse de alguma forma acabar com essa dor e angústia apenas com esse simples movimento. – Hey, você tá me escutando, não tinha como você saber.
— Como assim? – Algumas lágrimas rolarão pelo meu rosto. – Eu quase morri lá. E se minha magia falhasse?
— Mas não falhou. É o que importa agora. – ela pegou a minha mão. A dor foi aos poucos se esvaindo, senti a maciez de sua pele enquanto acariciava levemente com o polegar.
— Só de lembrar o que aconteceu, do que eu senti. Eu não quero sentir aquilo de novo. – Chorei copiosamente, ela em nenhum momento soltou a minha mão, mas também não fez nenhuma tentativa de me consolar ou me confortar. Apesar de que por algum motivo, só a presença dela ali já fazia isso. Depois de uns poucos minutos, me recompus e olhei com um olhar vazio a janela.
— Melhor agora? – Ela perguntou, com um pequeno e doce sorriso.
— Um pouco.
— Tem mais ou menos a ideia do que fazer?
— Em partes sim. Acho que mais do que nunca eu tenho que melhorar e me tornar mais forte. Principalmente corrigir os meus defeitos, tanto físicos quanto morais. Mas só tenho uma certeza.
— O que?
— Caso meu caminho se cruze com o dela novamente, isso não vai sair barato. — Ela também olhou para fora, soltando a minha mão. Ela se levantou e recostou a cadeira, suspirando.
— Eu seria contra a sua ideia de vingança, mas levando em conta as circunstâncias... – Ela juntou as mãos e soprou, numa tentativa de esquentá-las um pouco. – Me diga, por favor, que não é você.
— Dessa vez não, é apenas o ar. – Disse apontando para a saída de ar condicionado. Ela riu levemente murmurando quem vivia em um lugar tão frio. Depois de conferir o horário, se despediu e saiu do quarto.
“Considerando as circunstâncias, hein...” pensava fitando o horizonte, o sol terminava de despontar sobre a copa das árvores. “Espero que no momento eu tenha realmente a frieza necessária. Por que a única certeza que tenho é quando ela souber que ainda estou vivo, ela voltará. E vai ser nesse momento que vou pegar a minha espada de volta e atravessar o seu coração com ela.”
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