Wizard
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Caminhava calmamente pelo parque, não iria tão cedo para casa. Caminhei até um ponto onde eu não freqüentava muito, era mais movimentado. Fiz um desvio rápido no meu caminho, voltando para uma trilha onde eu, com certeza, sabia que levaria até um lugar mais ermo. Sentei ao pé do lago, um lago bem pequeno devia ter uns três metros de profundidade, quase ninguém ia lá. Minutos depois a Alice chegou, ela olhava para todas as direções como se esperasse um ataque a qualquer momento.
– Tem certeza que podemos falar disso aqui?
– Tenho. — Ela se sentara perto de mim, ainda com alguma desconfiança. – Acha que vou fazer algo com você?
– Sinceramente sim, não te conheço.
– Também não te conheço, mas mostrei a você algo que ninguém mais sabe. Se entregasse você, poderia perder a minha Cromatina também.
– Mas... tá legal, talvez, em uma hipótese bem remota, você seja de confiança.
– Só talvez? – Disse sorrindo. Olhamos por um tempo as ondulações do lago. Ele, por algum motivo, me chamava, queria entrar dentro dele e ficar por lá o tempo que pudesse.- O que você sente em relação a sua pedra?
– O que você sente?
– Levando em conta que eu a tenho por algumas horas, paz, calma, nada muito diferente do que eu já sentia antes.
– Elas demoram um pouco para mudar o usuário. Mas os dois primeiros passos ela já fez. – Ela viu a minha cara de interrogação. – O primeiro é marcar você, colocando esse símbolo na sua mão. Apenas por ele você vai conseguir realizar alguma magia. O segundo é mudar a sua personalidade. Você está mais calmo, tranquilo, isso já é uma mudança, certo? – Concordei com um aceno.
– E desde quando você tem a sua?
– Desde o ano passado. Eu queria muito ser piloto, voar pelos céus e ficar perto das nuvens. Ano passado, aos dezessete anos, ganhei um presente da minha mãe, ela disse que estava na família há anos e que eu deveria usar. No começo achei que fosse apenas uma presilha idiota, até que uma manhã, resolvi usá-la e quando eu a peguei e prendi na testa, o símbolo se fixou lá, custei a tirá-la, mas depois não sei porque não quis soltá-la mais. Minha mãe chegara nessa hora, ela me levara para o sótão da nossa casa e me falara que aquela Gem Navitas estava na nossa família há sete gerações e que eu era a próxima que guardaria aquela pedra. Desde então ela me leva a lugares assim para treinar o meu controle, mas não conseguimos ir muito bem.
– Ela tem uma pedra própria ou usa a sua?
– Ela consegue usar a magia por curtos períodos de tempo sem pedras, então sempre são treinos rápidos. Tipo assim. – Ela apontara a sua mão para uma pedra; a palma da mão, assim como a Gem Navitas, brilharam levemente. O ar em volta dela se movia rapidamente, ela começara a subir até ficar na altura dos olhos. Ela flutuou por um instante depois foi atirada com força em direção ao lago, quicando e criando diversas ondulações.
– Aí não vale, eu ainda não aprendi a usar! — Olhara para a água retirei o meu colar e o posicionei na palma da minha mão. Tentara levantar a mão, para ver se acontecia algo com a água, mas não deu certo. – Acho que eu preciso treinar mais. – Rimos um pouco continuando conversando sobre diversos assuntos até chegar por volta das seis da tarde. Tentei acompanhar a Alice até em casa, mas ela preferiu ir sozinha, então desci as ruas do centro até chegar a minha casa. Eles não notaram nada de diferente, contaria sobre o desfalque depois. Subi as escadas, tomei um banho demorado e dormi com o pendante repousando em meu peito.
Acordei minutos depois em uma colina gramada, o céu estava impecavelmente azul, com poucas nuvens a vista. Jurava que aquele era o papel de parede do Windows XP, com uma diferença que tinha umas poucas edificações e que todos os caminhos acabam em um lago no centro do vale. Não havia ninguém, estava deserto. Caminhara com alguma cautela até a cidade, a procura de alguém vivo. Depois de alguns minutos, pensei em desistir da procura quando um cara, com uma armadura medieval veio em minha direção com uma espada em punhos. A espada deveria ter uns 150 centímetros, devia ser pesada, mesmo segurando em duas mãos, era completamente prata, como a armadura, mas tinha alguns detalhes em azul, como os panos e a túnica por baixo. Eu comecei a correr na direção oposta, não ficaria ali nem mais um segundo, mas por mais que eu corresse, mais próximo de mim ele estava. Quando restavam apenas alguns metros entre nós, chegara a entrada de uma floresta e, pra variar, eu tropecei em um galho. Ele desceu a sua espada na minha direção, dei um rolamento e, por impulso, Estiquei a minha mão em sua direção e gritei. Senti uma onda de energia percorrer o meu corpo e sair pela palma da minha mão, criando uma onda e arremessando longe o cavaleiro, mas logo em seguida, quando a energia esvaíra do meu corpo, eu caí apagado no chão.
...
Acordara em uma cabana, ainda estava fraco devido a magia, não sabia que custava tanto assim. Tentei me sentar, mas depois de algum tempo desisti da empreitada. Me deitei e adormeci mais um pouco.
Acordara no mesmo casebre, mas estava bem melhor. Era uma casa de um cômodo e um banheiro, tinha além da cama uma mesa no centro e um armário, em um dos cantos repousava as peças da armadura do cara que me atacou. Reparando melhor, a espada mais uma adaga estava sobre a mesa, dentro de suas respectivas bainhas azuis.
O cara chegou um pouco depois, vestido com um terno e gravata, parecia uma pessoa que vinha da era vitoriana.
– Vejo que acordou, finalmente! Como se sente?
– Bem melhor.
– Foi idiotice tentar usar uma magia que seu corpo não suporta. Seu mentor não te ensinou as regras?
– Eu não tenho mentor, nem sei usar magia direito.
– Não sabe? Aquela magia não é vista a mais de trezentos anos. – Ele sentou em uma cadeira, e tocou a sua espada. — Pensando melhor, até que faz algum sentido. Qual o seu nome?
– Eduardo e o seu? – Falei rapidamente. Não conseguia me sentir confortável naquela casa.
– Respira garoto, respira. O meu nome também é Eduardo, Eduardo VII, filho da rainha Elizabeth.
– E eu sou o conde Drácula. – Disse sarcasticamente.
– É verdade, garoto, não te ensinaram respeito! Eu sou o usuário anterior da sua cromatina, devo ter ficado preso aqui para ensinar o próximo usuário, no caso você.
– E como ela veio para o Brasil, e como fala português fluente e cheio de gírias?
– Não faço a mínima ideia, mas quanto a minha linguagem informal, saiba que eu posso aprender com o usuário.
– Quer dizer que invadiu a minha cabeça para pegar informações?
– Não é isso. Os seus conhecimentos passaram para mim, só assim eu realmente vou poder te avaliar e escolher a melhor maneira de ensinar a dominar a magia. Eu te ataquei para forçar a revelar o que sabe de luta e magia, o que eu já vi que foi uma total perda de tempo. Já está melhor? – Concordei com um aceno de cabeça. – Então siga-me.
Fomos para uma área ao lado do casebre. Estávamos perto do lago, parte da margem era coberta por seixos, o restante era de areia branca. Ele pegou duas espadas de madeira e lançou uma para mim. Quase a deixei cair, mas peguei com as duas mãos.
– Já vi que vou ter bastante trabalho. – Ele ficou em posição de guarda.
– Por que mesmo vamos fazer isso?
– Para poder usar a magia você precisa estar bem fisicamente, principalmente se é um iniciante como você. E a melhor fora que eu conheço é treinando. Vamos, fique em guarda. – Tentei imitar a posição dele. Ele veio rapidamente em minha direção e ma atacou, defendi com o gume da espada, mas fui atingindo por um segundo golpe na coxa direita, me fazendo ficar de joelhos, recebendo por fim um golpe no rosto, me jogando no chão. – Já caiu? Você nem fez força pra se defender. Vamos levante e fique em guarda. – Me levantei, toquei no local onde ele me atingiu, doía muito. Tentei ficar de pé, mas não conseguia ter uma base firme por causa do golpe na coxa. Ele me atacou de novo, defendi com mais força e velocidade, temendo um novo golpe, mas depois de algumas defesas, ele me desarmou e me golpeou novamente no rosto.
– Isso não tá dando certo.
– Queria que o resultado fosse imediato? Tudo na vida se conquista com determinação e tempo. Não adianta treinar se acha que vai virar um guerreiro agora. Vamos pegue a sua espada e fique de pé.
Treinamos durante horas, não posso dizer que estava melhorando, a minha única função foi ser saco de pancada do meu “mentor”. Depois de entrarmos em outra casa, essa um pouco melhor que a anterior, ele me indicou um banheiro para poder tomar um banho. A água não era quente, mas senti muito melhor. Vesti a roupa que ele me passou, uma blusa social bem antiga, uma calça preta e uma sapato. Me vesti da melhor forma que pude, já que a cada movimento uma parte do meu corpo doía. Caminhei até a cozinha, onde ele colocou um chá em cima da mesa junto com pedaços de bolo. “Ah é, inglês. Nada mais inglês que chá.”, pensei bebendo um gole do chá. Quase cuspi o chá fora, aquilo estava fervendo.
– Minhas sinceras desculpas, esqueci de falar que o chá foi feito agora. – Disse ele com um sorriso nos lábios. Peguei um pedaço de bolo e comi rapidamente, estava com muita fome. Ele lançou um olhar reprovador para mim enquanto comia. – No seu tempo não existe mais bons modos? – Ele pegou uma bengala que estava do lado dele e bateu na minha mão, quando eu tentava pegar mais um pedaço do bolo. — Vou ter que te ensinar tudo?
Depois de um chá gostoso, aquilo estava muito bom, principalmente quando não estava apanhando do Eduardo. Descansei por uns instantes até ele pedir para ir ao lago, me indicou uma margem no lado sul, perto da floresta, lá teria, entre a floresta e o lago, uma pedra plana, que eu o esperasse lá. Caminhei durante uma hora até a pedra, era lisa no topo com um metro por 1,5 de comprimento, e uns setenta centímetros do chão. Ele chegou alguns minutos depois.
– Suba na pedra garoto. – Subi o mais rápido que pude. Ele subiu logo em seguida. – Quero que olhe em volta e diga o que vê. – Olhei em volta mais não tinha mais nada além do lago e da floresta.
– O lago e a floresta.
– O que mais?
– O céu e essa pedra.
– O que mais?
– Você?
– Isso foi uma resposta ou uma pergunta?
– Eu não entendi muito.
– Deu pra perceber. Você tem que expandir os seus sentidos aos do ambiente ao seu redor. Veja tudo o que puder, se esforce para escutar o máximo possível, sinta o cheiro e o gosto do ar. Sinta tudo o que puder. – Tentei fazer o que ele me disse, mas não adiantou muito, não percebi nada de diferente. Ele se sentou e me fez ficar em silêncio por duas horas, antes de voltar para casa e me mostrar um quarto. Ele disse que era pra descansar, que amanhã começaríamos de novo. Deitei na cama exausto, sem jantar, cheio de hematomas. No fundo, rezava para acordar na minha cama e perceber que aquilo fora apenas um sonho.
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