Wizard

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Bom cap. para todos!

Estava deitado, escutando um velho MP3 que havia encontrado e concertado. Escutava uma música que sempre gostei, Lonely Day, enquanto pensava no que passei durante o dia. Não podia mostrar o boletim aos meus pais, não antes de explicar calmamente o por quê do tema do meu trabalho, da reação dos professores em geral, e depois, se eles ainda estiverem de bom humor, mostrar o tão esperado boletim. Quanto ao namoro, não me surpreendi, mas sinceramente, acho que conseguiria outra. Não que não confie em mim.

Tenho 1,75 de altura e peso cerca de 70 quilos. Não tenho aqueles músculos, estilo rato de academia, mas eu podia dizer que tinha o corpo definido (só que não). Tinha cabelos crespos, como todo bom mulato tem, mas os mantinha sempre cortados, combinava mais comigo. Tinha os olhos castanhos escuros, não eram muito chamativos. Não tinha um charme natural, não gostava muito de conversa, na verdade nunca entendi o que ela viu em mim. Talvez estivesse comigo apenas por causa de ter sempre as respostas dos testes a mão.

Olhei pelo o meu quarto. Não era dos maiores, devia ter uns três metros por três. Era ocupado por alguns móveis velhos, não, rústicos fica melhor, vieram junto com a casa, uma cama de casal, um guarda-roupa enorme, dois criados mudos, um baú em frente a cama, uma escrivaninha debaixo da janela e uma estante, onde ficam os meus poucos objetos, uns poucos livros, a maior parte da escola ou técnicos, mas tinham alguns muito bons, como o Ciclo da Herança, Instrumentos Mortais, etc. Tinha apenas dois em particular que nunca havia entendido. Vieram junto com a casa, estavam dentro da escrivaninha, mas nunca consegui abri-los. Não quis rasgá-los, poderia danificar o conteúdo interno e nunca me perdoaria. Desde então os mantenho guardados longe da vista de qualquer um, como um tesouro secreto.

Lá também ficava o meu material escolar e o meu xodó: a minha coleção de pedras. Nenhuma delas era preciosa, mas mesmo assim as guardava com muito cuidado e zelo, a mais valiosa era uma ametista, mas mesmo assim era tão pequena que não valia a pena me desfazer dela. Enquanto a observava, coloquei a mão dentro do meu bolso, retirei a minha nova aquisição e a joguei contra a luz. O meu pai tinha razão, ela era realmente linda. Não tinha o brilho próprio como as pedras devem ter; se fosse uma pessoa, diria que ela estava pálida, indicando doença. Talvez fosse alguma resina que estava cobrindo a pedra, afinal, ficou tanto tempo assim jogada no mato.

Levei-a até o banheiro, enchi um copo com água e a coloquei dentro. Ela tinha o tamanho de uma tampa de garrafa PET, muito bonita, mas podia se passar facilmente por aquelas pedras de aquário. “Vai ver é mesmo uma dessas pedras de aquário.” Pensava enquanto a observava dentro do copo.

Desci para o jantar, os meus pais estavam de bom humor. O jantar foi bem simples: arroz, feijão, salada de tomate e um ovo frito e pra acompanhar um copo de kisuco. Jantamos calmamente,não tínhamos o hábito de falar a mesa, deixávamos isso para depois do jantar. Depois que acabamos de comer, todos nós arrumamos a sala de jantar e a cozinha e fechamos o andar de baixo. Fomos para a sala de estar, meu pai ligou o rádio em uma estação de músicas românticas. Eu não gostava muito desse tipo de música, mas no final do dia, ambos mereciam escutar o que tivessem vontade, então nunca reclamava. Ele se sentou perto da minha mãe, então para deixá-los mais à vontade, decidi contar rapidamente sobre o trabalho da escola.

Eles me surpreenderam com a resposta.

– Bom filho, você gosta mesmo disso? – Disse o meu pai enquanto acariciava os cabelos da minha mãe.

– Sim, eu gosto mesmo de gemas, principalmente as preciosas.

– Então não tem do que reclamar.

– Mesmo com isso? – Entreguei o meu boletim a eles, eles olharam calmamente durante um tempo, assinaram e me entregaram de volta.

– Essas notas vermelhas são por causa do trabalho? – Minha mãe me entregou o boletim. Acenei positivamente com a cabeça. – Então não podemos reclamar. Temos certeza que você vai recuperar isso mais a frente, não é amor?

–Você consegue! – Disse ele fazendo um joinha com a mão, fazendo abrir um pequeno sorriso no meu rosto. Dei boa noite a eles e fui para a minha cama. Me sentei na cama, me lembrei que deixei o boletim em cima da mesa, então desci as escadas, mas sem fazer barulho, caso estivessem ocupados subiria e pegaria no dia seguinte. Quanto estava nos últimos degraus, escutei o meu pai falando com a minha mãe, baixinho, enquanto dançavam uma das músicas.

– Está no sangue, não acha?

– Talvez, mas pelo bem dele espero que não.

– Acho que ele vai ser um bom joalheiro. Ou gemólogo, seja lá o que ele escolher.

– Espero que ele continue assim, apenas assim.

Subi para o meu quarto, sem entender nada do que disseram. Por que esperavam que não tivessem o mesmo sangue que eles? A única possibilidade era de ser um Wizard, mas não havia nenhum parente, próximo ou distante, das duas famílias, que tivessem tido posse de uma Gem Navitas ou que tivessem sangue Wizard, eu mesmo fiz essa busca. “Talvez seja apenas impressão sua. Talvez estivessem se referindo a outra coisa”. Caminhei até o banheiro para retirar a água do copo e pegar a minha pedra de volta.

Abri a porta e peguei o copo, mas não tinha mais água dentro do copo, apenas a pedra. Olhei para o copo, ele com certeza não estava rachado, muito menos furado. Na verdade não havia sinal de que teve água ali dentro. A pedra parecia mais viva, mas era quase imperceptível. “Estranho, jurava que deixei água aqui dentro. Devo ter derramado antes de jantar. Não, não poderia ser...” Por via das dúvidas, enchi a banheira com água, tampei bem o ralo e coloquei a pedra lá dentro. Se estivesse errado, pelo menos teria água para o banho. Fui até a minha cama e dormi.

Acordei uma hora mais cedo, na verdade mal dormi. Tentava de todas as formas entender o que ouvi na noite anterior, sobre mim e rezar para que eu não herde o sangue dos meus antepassados. O que poderiam ter feito de tão ruim no passado? E também, não conseguia deixar de pensar na pedra, Só de imaginar as possibilidades... Caminhei silenciosamente até o banheiro, meu coração estava a mil, a expectativa era muito grande. Cheguei a banheira e abri um sorriso enorme de felicidade. A banheira estava vazia e dentro dela repousava uma Gem Navitas pura, límpida, transmitia calma, como a água. Ela brilhava mais intensamente agora, como se tivesse acendido um LED dentro dela.

Peguei-a calmamente, com todo o cuidado e a posicionei na palma da minha mão esquerda. Parecia que era apenas uma safira, mas senti, de repente, um calafrio percorrer o meu braço e chegar ao restante do meu corpo, não um calafrio ruim, um calafrio gostoso, era a mesma sensação quando caí água gelada no nosso corpo. “Deve ser assim que Eragon se sentiu quando se ligou a Saphira.”, pensei, enquanto a sensação percorria cada vez de forma mais intensa pelo meu corpo. Chegou um ponto que começou a doer, meu braço começou a formigar muito, a dor começou a se alastrar pelo meu corpo, cada vez mais intensa, a pedra brilhava cada vez mais forte, até que o seu brilho cegou os meus olhos.

O meu corpo teve a reação mais natural diante de uma ameaça, queria jogar a pedra o mais distante possível, mas contive o impulso, ao contrário, apertei a pedra na palma da minha mão, não deixaria uma oportunidade como aquela escapar por uma fraqueza minha. Sentia a energia correr por todo o meu corpo e voltar para a pedra, sempre mais forte, meu corpo lutava contra aquilo com todas as forças. “É isso!” pensei quando essa última parte ficou evidente pra mim. Parei de lutar contra a energia e deixei que ela fizesse seu caminho por mim, que ela usasse o meu corpo como uma extensão natural. A dor foi cessando até que voltou a aquele calafrio inicial e se estabilizou. Foi quando aprendi a minha primeira lição: Seja fluido como a água. A energia devia fluir por mim, como a água que sempre segue o seu percurso, se adaptando ao meio, não impedindo, mas permitindo passagem.

Coloquei-a na pia, no lugar onde ficara a pedra um símbolo surgiu na minha mão da mesma cor e brilho da pedra, parecia uma letra grega ou um hierógrafo, mas rapidamente sumiu, não deixando vestígios que um dia estivera ali, desenhado na minha mão. Tomei o meu banho e, depois de me vestir, voltei até a pia e peguei a pedra. Ela voltara à opacidade anterior, mas quando a movia, parecia que algo líquido me movia lá dentro, como se tivesse armazenado a água da banheira dentro dela. Não sei como, mas entendi que ela estava quase na capacidade limite. Coloquei-a no bolso, sempre manteria contato com ela. Desci para o café, fiz o que eu sabia fazer de melhor, fingir que nada aconteceu e dar um sorriso bobo.

– Bom dia filho! Vai tomar café com a gente ou vai direto para o colégio. – Lembrar que ontem foi sexta e que teria que ir no sábado e domingo pra recuperação tiraria o humor de qualquer um, mas não o meu. Não hoje. – Filho?

– Não mãe. Tenho que chegar cedo ao colégio hoje.

– Vê se merenda lá! Não quero filhinho meu desnutrido. – Ela me abraçou e beijou o meu rosto, se despedindo. Dei um breve aceno ao meu pai, ele insistiu pra que eu levasse ao menos a salada de frutas que ela fez com as frutas que ela colheu nos fundos da casa. Peguei o pote, guardei na mochila e parti em direção ao colégio.

Como saí cedo caminhei pelo centro da cidade, passar em frente às vitrines e sonhar com aquilo que um dia queria comprar. Coloquei o meu fone e coloquei uma música aleatória da minha playlist, a música selecionada foi Feel This Moment, do Pitbull junto com a Christina Aguilera, quanto ela terminou de tocar, voltou a reproduzir outra música qualquer da lista. “Talvez eu devesse mesmo viver o momento.” Parei em frente a uma loja antiga na cidade, um dia fora uma joalheria, mas hoje era uma loja de antiguidades, quase ninguém da cidade entrava lá. Entrei calmamente pela loja, fiquei curioso para saber o que tinha de interessante por lá. Tentei alcançar o colar em meu pescoço, mas agarrei ao vento. “Sinto falta do colar.”, pensei. Teria que arrumar algo para substituí-lo. Andei pelas mesas e prateleiras, a procura de algo que fosse interessante. Um relógio de bolso, livros antigos, um globo terrestre, mas nada tão interessante. Pensei em ir embora quando parei de frente a uma mesa de vidro, como as da joalheria, forrada no fundo com o que eu acho que seria veludo azul. Havia alguns colares, todos femininos, mas o que me chamava à atenção eram as pedras neles, tinha safiras, rubis, topázios, ametistas, esmeraldas e outras tantas, com vários formatos, lapidações, que me perdi ao olhar pra elas. Minha atenção depois de um tempo se voltou para um Pendante solitário, colocado cuidadosamente em um pedestal, mas não era provido de nenhum ornamento. Tinha algumas inscrições nele que não consegui compreender. Não percebi quando o dono da loja chegou sorrateiro, com um punhal em mãos. Escondera-o sobre a blusa e parara do meu lado.

– Pensei que fosse levar um colar para a namorada. Apenas ignore aquele Pendante velho, temos vários por aqui como esse... – Ele percebeu que eu não conseguira tirar os olhos do colar. Parara de olhar e me observara atentamente. – Ele é feito de prata pura, estava vazio quando comprei a loja. Os donos disseram que todas as outras pedras quebravam quando encaixadas dentro dele, não quiseram se desfazer dele, então o colocaram a venda. Mas ninguém o comprou, por mais que abaixassem o preço. Eu o tenho aí há anos, mas ninguém o quer você é o primeiro interessado. Pegue-o, ele é seu, desde que você leve algum outro produto da loja.

– Como? – Consegui retirar o olho do colar a menção dele ser meu. – Apenas um produto e ele é meu? – Ele acenou positivamente. Caminhei até um relógio antigo, daqueles que iam ao bolso e eram presos no bolso interno. Também era feito de prata pura e me custou bastante caro, praticamente todas as economias que eu tinha no banco, mas no final fiquei com o relógio, o colar e um livro que ele dissera que era uma cortesia. Caminhei até a praça onde eu ficava com a minha namorada. Estava vazia, sentei recostado em uma árvore e percebi a loucura que eu fiz. Gastei todas as minhas economias, que juntava para a minha faculdade, em um colar, um relógio e um livro. Retirei os três itens da mochila e coloquei-os na grama.

Observava atentamente os três, depois olhara para a palma da minha mão. Será que aquilo não era apenas um sonho louco? Iria acordar e encontrar a banheira cheia e ainda teria o meu dinheiro no banco? Deixei aquilo pra depois e passei a analisar mais atentamente o pendante que comprara. Ele tinha diversos símbolos, inclusive, pra minha surpresa, o mesmo símbolo que aparecera na minha mão de manhã. Tinha o encaixe perfeito da minha Gem Navitas, coloquei-a, apesar do meu receio de perder a minha pedra. O pingente se apertou em volta da pedra, parou e começou a emitir um brilho, menos intenso. A mesma letra que apareceu na minha mão brilhou na pedra e, o que antes era prata, agora a pequena linha era azul no canto inferior. Coloquei-o no pescoço e escondo-o. Observei em volta para ver se alguém estava por perto.

Peguei o relógio e o arrumei, de acordo com o horário que vi em um pequeno celular, que só servia para ver as horas e ligar. Prendi-o no bolso direito, ele realmente combinava com o pendante. Guardei o livro, vê-lo-ia quando tivesse tempo. Corri até o colégio para mais um dia de cão. Mas agora nada me tiraria o humor, eu tinha o meu amuleto. Foi quando caiu a ficha, eu agora era um Wizard.

Notas finais
Bom espero q tenham gostado. Comentem, favoritem, compartilhem e não deixe de ler a minha outra fic, O começo do Fim Até o prox. cap.!!!