Without you.
1 Capitulo Único.
Notas iniciais
Paris é incrível. É sem dúvida alguma um dos lugares mais sensacionais em que já estive.
Hoje visitei uma das ruas construídas no Plano Hausmann, aquela de 70 metros que você nunca lembrava o nome. Não pude deixar de te imaginar andando ao meu lado, falando incansavelmente e movendo as mãos de forma apressada, como sempre faz quando tem muito a dizer sobre um assunto e acha que as palavras não são o suficiente.
"É assustadoramente lindo" você diria, "Quer dizer, não podemos negar os benefícios de tudo isso, toda a mobilidade que proporcionou, a melhoria na salubridade e é claro ficou bonito. Mas a que custo? Os fins justificam mesmo os meios? Imagina quanta gente foi expulsa de suas casas para que eles alargassem essa rua, quanta gente não morreu por não ter concordado com isso" e algumas frases até seriam desconexas "Até porque isso só aconteceu para conter as rebeliões da classe operária e essa padronização de 20 metros de altura é ridícula. Desde quando planejamento urbano significa embelezamento?" Nesse ponto você iria começar a usar um vocabulário que eu desconheço e provavelmente já estaria alguns passos a minha frente, inquieta com seus próprios pensamentos "O que as pessoas não fazem por controle? E ainda tinha aqueles idiotas do darwinismo social! Toda essa merda gerou essa sociedade panóptica que somos obrigados a viver..."
Aí você iria se dar conta da sua empolgação, se viraria para mim sorrindo sem graça "Eu to te cansando com toda essa falação sobre história né?" Iria perguntar enquanto julgava-se mentalmente por isso. Eu iria rir, passar o polegar nas suas bochechas sempre rosadas e afirmar com a maior convicção "Eu adoro sua falação sobre história"
Essa é a verdade excruciante: eu adoro a sua falação sobre tudo. Céus, não sabe o que eu daria pra ouvir sua falação agora. Eu nem me importaria o assunto, poderia até ser sobre a sua paixão desregulada por Supernatural.
Estou sentado em uma Patisserie comendo um croassaint maravilhoso sob um silêncio cruel. Você iria odiar esse lugar. Tudo é rosa e dourado, com arabescos e cheiro de champagne. Mas vai por mim, a comida te calaria a boca. Se ela não calasse os meus beijos iriam.
Mas não vão mais. Não sei o que mais dói em tudo isso: saber que nunca mais vou te ouvir ou beijar, ou ser obrigado a continuar vivendo apesar disso.
Conhecer novos lugares e pensar em como você gostaria de conhecê-los. Ver garotas colocarem uma mecha de cabelo atrás da orelha e lembrar que você fazia isso de uma forma que mereceria ser filmada e estudada, de tão perfeito que era o simples ato. Ver casais apaixonados aos beijos e sentir teu gosto em minha boca. Ter que seguir a minha vida, mesmo que ela tenha sido arrancada de mim.
Merda, te imagino agora soltando aquela frase ridícula "Você foi a minha vida Holly, mas eu sou apenas um capítulo da sua, haverá mais eu prometo." Mas adivinha só: você não é o Garry e eu não sou a Holly. E porra, você nem ao menos se dignou a deixar cartas para que eu sofresse ao ler e reler. Você só deixou silêncio. Me deixou sozinho nesse mundo maravilhoso e terrível, preso a uma vida inútil e interminável, fadado a terminar meus dias sem ouvir de novo a sua voz.
E eu te odeio por isso.
Te odeio tanto que espero que não descanse em paz. Que volte da sepultura como fantasma ou demônio (sim, andei vendo supernatural) e me assombre ate o fim dos meus dias.
Por que eu não quero ver nem mais um milímetro mundo sem a sua voz para narrar.
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