Without you
4 Capitulo 3
Notas iniciais
Após tudo acabar, voltamos todos para as nossas vilas. Mas nada tinha voltado à normalidade. Os destroços acompanhavam-nos para todo o lado que íamos, e a memória de familiares e amigos perdidos na guerra também. Os hospitais estavam cheios e todos os dias deparámo-nos com mais mortes, impossíveis de evitar.
Mesmo ganhando a guerra, perdemos muitas coisas mais valiosas.
Eu não tinha noticias dos meus pais desde o início da guerra mas fui informada que todos os habitantes foram levados para um lugar seguro após os primeiros ataques. Queria muito revê-los, porém não tinha se quer tempo para dormir. Saltava de sala para sala, paciente para paciente, de forma a tentar ajudar o máximo de pessoas possíveis.
Já haviam passado dez dias após o encerramento da guerra, mas apenas seis dias da nossa chegada á vila. Os Kages foram tratados ainda em campo de batalha, por terem alta prioridade e graves ferimentos, assim como vários membros da Aliança, também em estado crítico. Por teimosia, tanto Naruto como Sasuke se recusaram a ser tratados no local, sendo apenas feitos os primeiros socorros básicos. Vieram todo o caminho a ser suportados um pelo outro, basicamente, se arrastaram até á vila devido aos seus ferimentos graves, no entanto aqueles cabeças ocas ainda se achavam nas perfeitas condições. Agora estão num quarto de hospital, á seis dias, em coma. Os seus ferimentos eram graves mas quase todos foram tratados eficientemente, sendo previsível acordarem em poucos dias, quando recuperassem do seu cansaço evidente.
Eu passava os meus curtos tempos livres no seus quartos, ora fazendo pequenas sestas, ora cuidando dos seus sinais vitais. Normalmente passava mais tempo no quarto do Naruto, evitando ir ao outro quarto. A minha preocupação levava me, no entando, a fazer uma visita rápida ao do Sasuke. Mas com medo da sua reação , caso acorda-se na minha presença, eu evitava ao máximo.
Porém, havia alturas que eu me perdia a olhar para ele, tentando perceber em vão como ele estaria neste momento, quem seria ele.
Ao décimo primeiro dia, o Naruto acordou com a energia tão caraterística dele, e todos os dias era uma batalha para o fazer continuar quieto no seu quarto. Vários dias ficávamos no quarto dele, junto de Kakashi, conversando.
Ao décimo sétimo dia, após a guerra, o movimento diminuiu consideravelmente, e eu já conseguia respirar mais tranquilamente. A vila, ainda em confusão, ia-se aos poucos ajustando ao reboliço que sofremos, e todos estavam empenhados na restauração da vila. Os funerais das vitimas seriam em oito dias, a partir dali. Todos os dias eu via o sofrimento na cara das pessoas quando eram informados da morte dos seus familiares… maridos… filhos… pais … tantos os casos assisti, e em vários fui eu a portadora de más notícias.
Neste mesmo dia, Sasuke acordou… Eu havia ido ao seu quarto secar os seus sinais vitais Quando me preparava para sair, o meu nome foi ouvido… baixo, fraco, e eu me virei apenas quando a minha mão foi puxada de encontro a si. Os nossos olhos encontraram-se, os seus olhos estavam cansados e o seu esforço para tentar falar era palpável. Mas mesmo assim, ainda consegui ouvir antes de ele dormir outra vez “… Sakura... Obrigado…”
Desde aí eu evitava aquele quarto, e já tinham passado três dias. Logo no primeiro dia seguinte aquele, Sasuke acordara definitivamente, deixando o estado de coma. Eu apenas tinha noticias dos responsáveis pelo seu tratamento, e isso estava-me a matar internamente, no entanto, eu ainda não me sentia preparada para esse confronto.
Tinha-se agora passado exatamente vinte dias após o fim da guerra, e eu, como já era costume, dirigi-me para o quarto de loiro, ao fim o dia. No entando, tal foi a minha surpresa em encontrar não só o Naruto e o Sensei, como também o Sasuke, numa cama ao lado da do loiro, que tinha a certeza que antes não estava lá.
Ele foi o primeiro a notar-me, a manter o olhar em mim, e só depois os outros dois notaram a minha presença. Kakashi, como sempre, lia o seu velho livro, enquanto Naruto falava pelos cotovelos, chamando-me logo para ouvir as suas histórias.
Respirei fundo e finalmente me juntei a eles, depois de um momento constrangedor onde eu fiquei petrificada. O resto da tarde foi passada tranquilamente, todo o time 7 estava junto outra vez. Após isso, a nossa convivência diária foi melhorando, e eu já não me sentia tão desconfortável perto dele. Aquele Sasuke era o mesmo que um dia nós conhecemos, um pouco diferente, mas a sua essência continuava lá.
Faltava apenas dois dias para a cerimónia fúnebre, e eu estou a dirigi me para o quarto dos dois idiotas, a quem eu chamo de amigos. Á medida que me vou aproximando, estou a achar tudo muito calmo para onde o Naruto está. Porque, mesmo, sendo repreendido constantemente, ele não se sabe comportar num hospital. Bati á porta e ouvi uma baixa permissão para entrar. O Sasuke estava em frente á janela do outro lado do quarto, sozinho.
— Bom dia Sasuke, onde o Naruto se meteu?
Ele olhou para mim, quase como me examinando os pés á cabeça.
— Hum ele saiu.
— Onde?
— Foi comer ramén…
O que ele tem na cabeça, meu deus, ele está no hospital e tem que estar sobre observação. Aquele grande idiota, quando eu o encontrar, ele vai aprender a não sair assim. SHANAROOOO.
— Tsc.. Não vale a pena fazeres essa cara…
— O quê?!
— Essa cara de ele ter sido irresponsável. Ele estava a dar em maluco e a deixar me a mim também. E todos sabemos que ele se recupera rapidamente.
— Hahahah ninguém te obrigou a ficar neste quarto. Mas diz lá, o que ele estava a fazer?
— Tsc o mesmo de sempre. Reclamar que quer rámen e a falar da Hinata. Ele até á noite fala disso Tsc— olhou para o outro lado irritado. Eu ainda me impressiono como o Sasuke está falador, bem… mais falador comparado como era antigamente. Era notável o seu esforço para se integrar.
— Naruto sempre será Naruto …. Mas espera AÍ!!! DISSESTE HINATA?!!!!!!!
— Hum— e dá um sorriso de canto.
Eu continuo a olhar chocada para ele, sento me na cama perto de mim ainda sem conseguir acreditar. Mesmo após ela se ter declarado, eu nunca pensei que aquele tapado fosse perceber ahahah.
— Ainda ao menos aquele baka arranjou uma rapariga para lhe meter alguma coisa na cabeça. – mas com uma gota na cabeça continuo- Mesmo que ela o ame daquele jeito desastrado dele.
— Mas pronto, já que ele não está aqui eu vou
— Só vens aqui por ele?- olhou me nos olhos seriamente.
— O quê? .. Não é nada disso mas eu vinha falar com ele, quer dizer, com vocês os dois sobre o tratamento para o vosso braço.
— Hum
Levantei me e lentamente me aproximei dele. Antes que eu pudesse falar, ele se virou rapidamente para a janela, e interrompeu-me.
— Não quero — falou baixo.
— O quê? Sasuke.
— Eu não quero fazer o tratamento para o braço.
— Porquê? – a minha pergunta ecoou pelo quarto, mas não obteve resposta- Sasuke? Olha para mim… Sasuke- levei a minha mão ao seu ombro, e ele virou-se lentamente para mim. Os seus olhos focaram nos meus. Uma coisa que eu venho aprendendo é que mesmo se esforçando para não mostrar, ele tem sim, emoções e sentimentos, mas apenas os prefere guardar para si. No entando, ele não os consegue guardar a todos, e aos poucos e poucos eu vou conseguindo enxergar.
Neste momento os seus olhos exprimiam culpa e mágoa. Eram tão escuros que se vinha toda a escuridão que eles guardavam.
Ele ainda mais baixo que antes me respondeu, desviando rapidamente o olhar para a janela outra vez.
—É uma memória, um resultado das escolhas que fiz. – eu não saia o que dizer, estava petrificada, e antes de qualquer coisa, ele continuou.
- Tal como não posso apagar as minhas ações …. Também não posso apagar as consequências…
— Isto servirá para me lembrar todos os momentos o que fiz…
— Sasuke … eu … eu— respirei fundo, e coloquei me á frente dele, encarando o sua surpresa.
— Eu não posso dizer que o que fizeste se vai pagar ou desvalorizar as tuas ações, no entando, tu não foste o culpado de tudo, nem se quer de um quarto desta história. Tu mais que ninguém sabes o que passaste e o que te levou a isso. Mas tu arrependes te, ajudaste-nos na guerra. No momento decisivo, tu escolheste o lado certo. E estás a tentar mudar e melhorar- quando o vi a abrir a boca para falar continuei – Sasuke, não vale a pena negares que nós percebemos teu esforço e o teu arrependimento.
— Tu não te podes prender ao passado, assim como também não o podes esquecer. Tens de aprender a conviver com o teu passado e usá-lo para seres melhor, não para te condenar todos os dias por uma pessoa que já não és.
— Sakura… eu… mesmo assim, eu… não quero fazer o tratamento. Não agora, não neste momento. – ambos ficamos perdidos nos olhos um o outro, aproximando nos espontaneamente, mas antes de qualquer coisa acontecer, fomos interrompidos pelo bater da porta.
— Nós ainda voltaremos a esta conversa Sasuke, mas por enquanto eu vou respeitar a tua decisão. Entre, por favor.
— Sakura-sama, eu tenho um pergaminho para ser entregue a si.
— Obrigada, sabes do que se trata? — perguntei ao ambu.
— Não, apenas me foi dito para entregar diretamente a si, Sakura-sama. Com a sua licença. – E desapareceu em fumaça.
Com o sebo franzido, Sasuke sentou-se na sua cama enquanto eu fiquei junto da janela.
Instaurou-se um silêncio no quarto, enquanto o Sasuke olhava em volta do quarto, distraído.
Porém a sua atenção foi direcionada para um papel caindo no chão, não um qualquer, a carta de Sakura. A rapariga estava petrificada no local, olhando para o chão, enquanto as suas mãos tremiam.
— Sakura…
Ela, como se tivesse acordado, virou-se rapidamente para a janela, no entanto, o moreno teve um vislumbre dos seus olhos agora marejados. Voltou a chamar por ela mas nada foi dito. Então ele lentamente apanhou o papel do chão, como se pedisse permissão para o fazer.
“ Sakura-sama, viemos informar sobre a situação dos seus pais, conforme foi solicitada. Infelizmente, Kizashi Haruno e Mekubi Haruno não sobreviveram após um ataque realizado o local em que estavam os civis alojados.
— Sakura… — Falou num sussurro, aproximando-se lentamente dela. Os seus olhos se encontraram, uns tão escuros como a propria escuridão, e outros tão verdes mas que agora eram disfarçados pelas lágrimas que lutavam em escapar. Lentamente, os seus corpos abraçaram-se.
— … Sinto muito… eu estou aqui…
E depois isso, ela finalmente libertou todas as lágrimas, e apertou-se ainda mais a ele, deixando o seu rosto refugiado no peito. Alguns segundos mais tarde, sentiu a mão dele afagando as suas costas e cabelo, enquanto a sua cabeça estava em cima da cabeça dela.
Desde que acordou, nunca sentiu tanto a falta do seu braço como sentiu neste momento.
Estivemos assim durante algum tempo, até que os soluços começaram a ficar mais baixos até silenciarem, e a senti ficar mais mole. Desviei um pouco o meu rosto, encontrando o seu rosto sereno ainda com marcas do choro recente. Peguei nela e levei a até a cama mais próxima mas mesmo dormindo, continuava abraçada a mim. Então deitei-juntamente com ela, e não sei quanto tempo demorou até eu adormecer também.
“Admitir nossos erros é aceitar que não somos perfeitos.
Justificá-los é mostrar o quanto somos fracos.”
Michel Telles
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