With Me
3 Capítulo 3
Notas iniciais
CPOV
Damon tinha razão. Para onde eu iria? Todos que eu conhecia estavam mortos, e a cidade estava tão diferente que os únicos lugares que eu ainda reconhecia eram o cemitério e a floresta...
Eu já tinha tentada a igreja, assim que acordara, mas estava completamente destruída, e agora eu andava pela praça, sentindo o sol em minha pele, e ainda morrendo de sede. Ah não, quando perguntei a Damon se ele tinha algo para beber não era de álcool que falava.
Eu sabia como vampiros se alimentavam, sabia a teoria, e sabia que para isso precisava matar pessoas, mas não era algo que me apetecesse fazer. Não era do meu feitio, eu sentia isso, e, agora, a única alternativa na qual eu conseguia pensar era o hospital. Havia sangue de sobra lá, e eu podia toma-lo sem ferir ninguém. Talvez fosse mais seguro fazer isso durante a noite, mas eu precisava me alimentar, agora mesmo, ainda que isso implicasse maior chance de ser pega. Nesse momento eu só agradecia por ter um amuleto contra o sol. Mesmo lutando tanto contra as lembranças que ele me trazia...
Automaticamente, comecei a rodar o anel com o pequeno coração de lápis lazúli que ainda repousava em meu dedo anelar, acariciando a pedra de modo quase incociente.
Entrei no hospital andando no ritmo humano normal, seguindo as placas que deveriam levar à sala de armazenamento de sangue. Entrei com cautela e fui até um dos armários refrigerados que continham um cheiro indescritivelmente atrativo, abrindo-o e retirando apenas uma das muitas bolsas plásticas recheadas com sangue gelado.
Abri o tubinho fino que saia dali e comecei a sugar.
Não era ruim, mas também não era bom, e por isso tentei não pensar muito no sabor, me focando apenas em minhas necessidades sendo saciadas.
De um instante para o outro, a porta por onde eu havia entrado, se abriu, e sem saber bem o que fazer, larguei o pacote, agora quase vazio, que caiu no chão com um baque, me escondendo rapidamente em um canto escuro da sala sem iluminação.
Ouvi passos de salto alto no piso de linóleo cinza e então eles pararam, exatamente onde eu estava um par de segundos antes.
– Damon? É você? – perguntou uma mulher.
Bom, se ela conhecia Damon, isso quer dizer que não me faria mal... Certo?
– Não... Eu não sou Damon – falei, saindo do meu esconderijo para ficar de frente com médica parada ali com o pedaço de plástico na mão.
Ela era bonita, com o cabelo castanho e cacheado pendendo abaixo dos ombros, olhos amendoados castanhos e pele morena. Lembrava-me muito minha irmã mais velha, Elizabeth... Os mesmos olhos, a mesma tez morena...
– Ah, mas é claro que não. Você é... ? – perguntou, me olhando como um adulto que pega uma criança fazendo travessuras.
– Charlotte. Fell. Charlotte Fell. – respondi, gaguejando um pouco. Senti minhas bochechas corarem violentamente de vergonha.
– Fell? Como... A família Fell? Dos fundadores? – perguntou, a duvida e curiosidade tomando conta de seu rosto completamente.
– Sim... Por quê?
– Eu sou Meredith, Meredith Fell. – se apresentou, me fazendo estacar de choque.
– Por favor, me diga que você não faz parte do conselho! – pensei, só alguns instantes depois percebendo que havia realmente pronunciado aquilo, e que havia parecido bem desesperada.
– E-eu faço. Qual o problema? – disse, sem entender a razão de meu desespero repentino.
– Por favor! Por favor, não me mande de volta para aquela tumba! – pedi, me aproximando dela enquanto falava.
– O que? Qu-que tumba? Do que está falando? – perguntou, agora completa e totalmente confusa enquanto se afastava de mim como se eu fosse louca, e talvez eu fosse, por estar implorando desse modo algo tão estranho a alguém que sequer conhecia. O medo de voltar para o lugar onde eu acordara, porém, era maior do qualquer coisa, e eu não me importava em estar me passando por ridícula.
Mas ela continuava a me encarar, de cenho franzido, olhos arregalas e expressão confusa. Ela realmente não sabia do que eu estava falando.
Aparentemente Damon estava mais certo do que eu pensava. Depois de me enterrarem, meus pais haviam me esquecido completamente, talvez até me apagado dos registros, e agora toda a nova geração dos Fell estava livre da vergonha que eu representava.
Mas, se ela não sabia, não era eu quem ia contar. Fiz uso da minha velocidade e sai do hospital, correndo por um curto período de tempo, apenas o suficiente para chegar ao ultimo refúgio seguro que conhecia: a floresta.
Fui pelo cemitério, rondando pelas lápides novas, mas só comecei a realmente prestar atenção no caminho quando cheguei à parte mais antiga, passando rapidamente os olhos pelos nomes conhecidos gravados na pedra.
Percebi quando o cemitério acabou, mas continuei andando. E quer fosse proposital ou não, acabei no que, vários anos antes, tinha sido o jardim dos Salvatore.
Me sentei entre as arvores, sem me importar com a terra sujando toda a parte posterior de minhas pernas, e fechei os olhos, sentindo os raios do sol em meu rosto, me lembrando de tudo que aquelas árvores centenárias já haviam testemunhado.
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Mystic Falls, 28 de junho de 1859.
Verita Estate
– Não vão dar pela nossa falta? Afinal de contas, é a sua festa de aniversário! – perguntei, receosa.
Damon tinha me tirado da festa, e agora me rebocava por entre as árvores, a barra do meu vestido branco arrastando-se na grama molhada do sereno da noite.
– Sinceramente, eu não me importo com nenhum deles – falou, se virando para sorrir para mim. Sorri em resposta, parando quando ele parou. – Ainda não entendo por que temos que nos esconder – disse, se virando para me segurar mais perto, me envolvendo pela cintura.
– Por que ainda está noivo de Elizabeth, e seria um escândalo se me pegassem com o noivo da minha própria irmã! Papai me mataria, sabe disso! – exclamei, passando meus dedos por seu cabelo negro e sedoso.
– Ele não teria motivos para isso – anunciou, mas continuou a falar quando eu estava prestes a perguntar se ele estava louco. – Falei com meu pai hoje mais cedo. Disse a ele que não vou me casar com Elizabeth por que estou apaixonado por outra – completou, sorrindo para mim.
Sorri ainda mais antes de colocar meus lábios nos seus, quase desesperadamente.
Damon soltou uma das mãos da minha cintura, colocando-a na minha nuca e me empurrando suavemente contra uma árvore ao mesmo tempo em que me puxava para ele.
– E agora o que? Voltamos para a festa de mãos dadas, nos beijamos no meio do salão? As opções são infinitas, e eu pensei em cada uma delas com muito cuidado durante todas essas noites sem dormir, se quer saber – riu, deixando meus lábios por um instante.
– Ainda não. Oficialmente, você e Lizzie ainda estão noivos. Precisamos esperar um pouco, alguns meses pelo menos, até a poeira abaixar – falei, sorrindo suavemente, lutando para me controlar.
– Tudo bem, tem razão...
– Eu não tenho sempre? – interrompi, nós dois rindo.
– É, você tem... Hey, há uma coisa que eu queria te dar – disse, se afastando um pouco para tirar uma caixinha de veludo preto do bolso do paletó.
– Mas é o seu aniversário! – protestei, apesar de sequer cogitar a possibilidade de recusar o presente. Não era de bom tom e eu simplesmente adorava ser presenteada.
– É, mas eu já tenho quase tudo que quero, então... – Damon abriu a caixinha, tirando um anel prateado de dentro. Tinha uma lápis lazúli, delicadamente lapidada no formato de um coração, alojada no topo do aro reluzente e no centro de uma coroa de diamantes brancos, no mesmo formato.
– Ah meu Deus, Damon! É lindo – exclamei, tampando minha boca com as mãos em um ato reflexo.
– Eu... sei que não podemos oficializar nada agora, mas mesmo assim, quero que fique com ele. Assim vai poder se lembrar de mim quando estivermos longe um do outro... – disse, pegando minha mão direita e deslizando o anel pelo meu quarto dedo, beijando-a em seguida.
– Não quero que fiquemos longe um do outro...
– Damon? Charlotte? Onde vocês estão? – Ouvi a familiar voz de Jonathan Gilbert chamar por nós, entrando nos bosques e ficando cada vez mais perto. – Já estão começando a se perguntar onde estão, é melhor voltarem antes que os encontrem – disse seriamente, chegando perto o suficiente para que o víssemos.
– O que faríamos sem você Jonathan? – disse Damon, andando ao meu lado até ele, nossas mãos entrelaçadas pendendo entre nós.
– Char? – Era a voz da minha mãe, ressoando, nervosa, pelo jardim.
– Vá! Antes que ela resolva alertar os outros – disse Jonathan. – Seguiremos de volta à festa em alguns minutos.
– Tudo bem – concordei, soltando a mão de Damon, e colocando meus lábios nos seus mais uma vez. – Vejo você mais tarde.
– Até mais tarde.
– Charlotte! – A voz de minha mãe ficava mais próxima, e entendi que precisava ir, andando em direção à borda da floresta, lançando um “obrigada” dirigido a Jonathan por sobre o ombro.
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DPOV
– Sabia que te encontraria aqui. – Charlie estava sentada no antigo jardim dos fundos da casa dos Salvatore, encostada em uma árvore qualquer, com os olhos fechados e o sol iluminando seu rosto. As roupas, completamente pretas, contrastavam com a pele perfeita de marfim e o cabelo oiro reluzente, criando a perfeita imagem de um anjo... Um anjo caído...
– Não parou para pensar que, talvez eu não quisesse ser encontrada? – disse, abrindo os olhos e se levantando para me olhar de frente.
– Se isso fosse verdade, então por que viria a esse lugar, especificamente? – questionei, sorrindo para ela.
– Talvez por que seja o único lugar que eu conheça que ainda está de pé... – respondeu, começando a andar em direção ao cemitério, mas este ainda estava longe, o que me dava algum tempo.
– O baile de máscaras é amanhã – falei após um instante de silêncio incômodo, andando ao seu lado por entre as árvores.
– Eu não tenho mais nada a ver com isso. Mystic Falls não é mais meu lar... Eu vou embora, hoje mesmo. E então vai poder ser feliz com quem escolher – disse, sorrindo pesarosamente para mim. Ela parecia tão sincera ao dizer isso, tão honesta ao afirmar que queria que eu ficasse com que quisesse, que chegava a doer. Por que era tão fácil para ela quando eu não conseguia?
– Mas eu não quero que vá embora! – exclamei. Por que ela não entendia?!
– Sabe, eu fiquei... Estonteante quando o vi entrar naquela quarto! Eu mal podia acreditar que estava mesmo vivo! Foi... Incrível, mas... Se estiver envolvido com Elena, então por que não tem coragem o suficiente para me dizer isso? Pelo menos isso, Damon! Me diga como se sente em relação a Elena, me diga que a ama... – falou, a voz falhando no final. – E eu vou embora, sem nem mais uma palavra, ou então eu fico e seremos eu e você, juntos, pra sempre...
– Que parte de “eu não quero que vá embora”, você ainda não entendeu? – exclamei, segurando-a pelos ombros na minha frente.
– Por que não diz logo? – pediu, as lágrimas finalmente tomando o controle e saltando de seus olhos, frescas e compulsivas.
Mais uma vez aquele sentimento me atingiu, e fui tomado por uma ânsia incontrolável de reconfortá-la, soltando seus ombros e trazendo sua cabeça para meu peito, em uma tentativa de aninhá-la ali.
– Não, Damon! – protestou, empurrando meu peito e cambaleando alguns passos para longe. – Eu... Eu preciso ir. Vou passar na pensão para dizer adeus à Stefan e depois vou embora.
– Charlie, eu acabei de te ter de volta, não pode me abandonar de novo! – pedi, com um terrível deja-vú daquela noite no baile.
– Eu não estou abandonando ninguém. Você está, e sabe disso – disse, se virando para olhar para mim uma ultima vez antes de desaparecer.
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