Faltavam quinze minutos para as nove da noite. Luna estava ansiosa. Queria e não queria descer, ao mesmo tempo. Pensar nos possíveis comentários de Snape sobre ela e Harry dava uma ligeira ânsia. Mas ao mesmo tempo ela queria vê-lo. Queria ouvi-lo. E queria observá-lo.

O que fazer?

Sem dar-se conta, já estava a caminho das Masmorras. Graças ao bom Merlin não havia ninguém conhecido nos corredores. O chão era frio, ainda mais por não ter pego seus sapatos e estar apenas com um daqueles presentes estranhos do sr. Weasley, uma meia para yoga (o que quer que yoga fosse, mas pelo menos eram confortável). Penteara os cabelos após o banho, e agora que estavam quase secos e soltos, pendiam como cascatas de cachos loiros ao redor de seu rosto. E ela foi assim mesmo.

Hesitou ao chegar na porta da sala. Já deveria ser nove horas, e ela tentou decidir se entrava ou não.

Entrou.

Snape estava sentado em uma poltrona que ela nào vira na noite anterior. Se ele a ouviu, não fez menção de olhá-la. Parecia ler um grande relatório manuscrito em um pergaminho, as pernas cruzadas, e o rosto vincado pela atenção. Luna foi se esgueirando sorrateiramente para as cadeiras, sem olhar para ele, apenas procurando um apoio seguro para suas pernas bambas.

— Boa noite, senhorita Lovegood.

— B-Boa noite, professor Sna-na-pe.

— Está nervosa? — Ele levantou os olhos do pergaminho e a perscrutou, com o sombra irônica de um sorriso nos lábios. — Ainda com medo de que eu possa ler seus pensamentos?

— N-não exatamente. Com medo ou não, o senhor o faria de toda forma.

— Sábia resposta. Espero que seja também sábia em suas decisões.

Luna foi escorregando, encolhendo na cadeira.

— O jovem Potter a beijou hoje?

— O QUÊ? EU... NÃO, CLARO QUE NÃO!

O sorriso de Snape aumentava.

— E por que não, minha doce lunática? Não é isso que os jovens costumam fazer hoje em dia?

— E-eu não sei, p'sor! — Luna fechou os olhos, tentando não chorar nem olhar para o professor. A maneira de falar dele era torturante. Snape aproveitou-se disso e levantou. Caminhando lentamente ao redor da sala, e de onde Luna se encontrava.

— Sou professor já há alguns anos, Lovegood. E fui também um aluno. E é sempre assim, o predador vai se aproximando de sua presa, lentamente. Vai sendo amigo, confidente, rodeando sua vítima até que ela se sinta em casa perto dele.

Luna apertava os olhos ainda mais, e segurava firme os braços da cadeira.

— E então ele vai preparando o bote. Vai criando a armadilha. Até que a doce presa caia.

A sala era toda silêncio. Um silêncio grave, sem ecos. Luna abriu um dos olhos, e não viu Snape. O medo tomou conta de seu corpo por completo. Tentou suprimir um gemido abafado de medo. Moveu o corpo, tentando olhar ao redor. E então duas longas mãos puxaram seu corpo novamente para o encosto da cadeira.

— AI, MERLIN!

Snape sorriu. A menina estava quente de medo. Os ombros tremiam, e ele podia sentir o sangue dela correndo nas artérias que ele tocava. Ele a recostou novamente, e com movimentos suaves em seus ombros passou a "massageá-la". A tensão de Luna era evidente em cada músculo ali presente. Demorou ainda mais alguns minutos para que ela começasse a relaxar e não tentasse se desvencilhar das mãos do professor.

— Você precisa trabalhar para que não seja vítima de predadores, Lovegood. Você tem de ser a predadora. — Os longos dedos dele corriam pelas laterais do pescoço de Luna. Ela nunca havia sido tocada daquele jeito. Era como se cada um daqueles movimentos deixasse uma trilha gélida, que depois incendiava. E a cada arrepio, Snape sorria para si mesmo. — A maioria dos rapazes só quer presas. Você não precisa deles.

— Eu... eu não sei se preciso de alguma coisa, professor... — ela disse ainda de olhos fechados, agora completamente entregue ao homem que a tocava. Falou entre os gemidos que tentava segurar, sem fôlego.

— Você precisa de um homem que enxergue e aceite uma mulher, Lovegood. E não de um rapaz que enxergue uma menina. Você quer ser uma menina pra sempre, Lovegood? — Essa frase ele disse inclinado por sobre a cadeira dela, próximo ao ouvido, na curva do pescoço.

Luna se sentiu desfalecer.

Não conseguia pensar em mais nada. Nem responder. Aquilo era um feitiço?

Snape sorria pelo efeito que produzia em Luna. Essas meninas de hoje nada entendiam de homens. Viviam como andorinhas, floreando ao redor de rapazes, que muitas vezes nem sabiam amarrar os próprios sapatos direito. Lembrou-se de Lily, e de como ela um dia se encantara por James Potter, um bully que nada possuía de especial.

Lembranças. Apenas dolorosas lembranças que nem o cruel tempo apagaria.

Snape observava a menina em suas mãos. Ele não tinha feito nada com ela. Nada além de uma massagem em seus ombros e seu pescoço. E ali estava ela. Vulnerável, entregue, sem fôlego. Severus não podia deixar de imaginar outras coisas.

Se ela ficaria daquele jeito em outros momentos.

Com outros movimentos.

Em outras instalações.

Podia imaginar os longos cachos loiros dela sobre seu rosto, roçando em sua pele. As mãos pequenas percorrendo seu corpo. As pernas entrelaçadas nas suas.

Perdeu o fôlego. Sua boca estava seca.

— Professor... por favor me ensine... como ser uma mulher para um homem...

Ela abriu os grandes olhos azuis e o fitou diretamente em seus olhos. Fora mortal. Letal.

— Por hoje acabamos, Lovegood. Vá para a sua casa. Recomponha-se e vá.

Puxando a varinha, Snape sussurrou um pequeno feitiço para reanimá-la e saiu da sala.

Luna levantou-se com dificuldade da cadeira. A sala estava vazia. Snape havia saído há bem mais de dez minutos. Com certeza colocara nela algum feitiço de calma, ela se sentia bem mais leve, calma. Mas lembrava com detalhes de tudo.

O que fora aquilo?

Era o que ela sentiria quando estivesse com alguém que gostasse? Aquilo era ser mulher, madura emocionalmente ou fisicamente?

Os cabelos estavam ainda úmidos de suor na nuca, e o corpo incomodava pela mesma posição durante muito tempo. E pela falta que as mãos de Snape faziam naquele momento.

Luna não era uma pessoa experiente em amor, ou relacionamentos. Muito pelo contrário. Mas aquele toque, aquela forma de fazê-la sentir... Definitivamente Snape tinha uma vida fora de Hogwarts. Uma vida social, uma vida afetiva. Ou teve em algum momento. Ninguém aprendia a fazer aquilo apenas manejando livros e tubos de ensaio o dia todo.

Ela estava mais do que curiosa para descobrir essas coisas sobre o professor de Poções. E estava disposta a fazer o que fosse necessário para isso.