Winter
1 Único
Notas iniciais
Quando criança — ainda que fosse extremamente inteligente – me vi sufocado por quilos de neve durante horas. Não havia um minuto que se passava sem eu derramar lágrimas. Distante de tudo, preso, mais em minha mente do que na neve eu era asfixiado, eu esperneava e, com o pouco fôlego que restava a cada pesada respiração eu gritava por minha mãe. As piores imagens que uma criança pode imaginar baseado em sua realidade mal formada vinham em minha mente, iam me tornando cada vez mais fraco e desesperado. Além da dor e do desespero, havia o frio. A cada segundo que se passava eu congelava mais e mais, meu corpo perdia a força e eu espirrava a cada minuto. Após desistir de lutar com a branca neve que me cobria (nesse momento a noite já chegava) eu pude ver um vulto me circulando. Por causa das lágrimas em meus olhos eu não conseguia identificar quem ali estava. Independente do nome, essa pessoa me salvou. A neve nunca mais foi ao menos agradável.
Já adulto, em meu quarto, em um inverno no final do ano, me encontrava entretido com um livro sobre psicologia, durante uma tempestade violenta. Sentado na minha cama, lendo vagarosamente ouvi um estrondoso ruído vindo da cozinha. Tomei um susto. Uma pequena pausa na leitura, o silêncio perturbador após o medo. Meu corpo estremeceu como se eu tivesse levado um choque. Por um instante eu só ouvia o vento correndo pelos cômodos da casa. Eu respirava com dificuldade, parecia que pela janela de meu quarto alguém me espreitava.
Mas um ruído, dessa vez, mais baixo, abafado. O silêncio novamente. Aos poucos rangidos iam ficando mais freqüentes, rangidos como passos cuidadosos pelo chão de madeira. Cheguei a brevemente duvidar de minha sanidade, já passava da meia noite, eu tinha um enorme cão-vigia em meu quintal e minha casa ficava numa calma vizinhança. Mas foi apenas brevemente.
Minha filha dormia em seu quarto, não queria que sua segurança fosse arriscada por algum invasor infortúnio. Os rangidos continuavam, certamente eram passos. Eu quase podia sentir as vibrações deles no chão de meu quarto. Eles vinham da escada em direção ao corredor de quartos. Eu estava imóvel segurando aquele livro. Aqueles sons que aos poucos ficavam mais próximos estavam me matando.
Um calafrio. Pensei por um momento no pior. Respirei fundo e deixei o livro de lado, sem tomar cuidado para marcar a página em que havia parado. Observo meu quarto, a porta dele estava fechada, o que me daria uma vantagem. Não havia nada que poderia servir como arma, nada eficiente o bastante. Ando cautelosamente e pego o vaso em meu criado mudo. Ele era suficientemente pra, com um golpe certeiro, imobilizar a vítima.
Limpei o suor do rosto, e parei ao lado da porta, pensei em me precipitar e sair de uma vez. Ouvi os passos, eles estavam terminando a escada. Abaixei-me para olhar pelo buraco da fechadura, com cuidado me apoiei no chão. O corredor estava escuro, a única luz vinha do banheiro. Numa tentativa desesperada de ver o que estava vindo, bato minha cabeça na porta. O invasor se assusta e para.
Uma sensação de terror invade meu corpo, seguida de uma vontade assassina. Com cuidado, abri a porta, apesar de saber que era um pouco impensado, atirei o vaso na direção do invasor. O vaso erra por cerca de um metro (eu teria acertado se não estivesse nervoso) e rola se despedaçando pela escada. A figura estava inerte na minha frente. Racionalizando a situação, olho para a pessoa. Era uma mulher... Minha filha.
Por alguns instantes me senti aliviado. Parei de suar, meu corpo relaxou. Sentia cede e uma vontade de me deitar que igualava a sensação de ficar por horas andando numa trilha acidentada. Mas logo isso passou, minha filha estava ali, havia desobedecido minhas ordens, saído escondida de casa e provavelmente para fazer algo não apropriado para sua idade. Ela era só uma garota.
Sem saber o que fazer, minha filha, tenta respirar para falar algo, ela resmunga algumas palavras com uma expressão apavorada no rosto. Eu a censuro rapidamente com um grito:
- Eu não quero ouvir suas explicações! Quero que você vá para seu quarto nesse instante! Durma. E amanhã teremos uma séria conversa sobre disciplina.
A frase anterior foi dita com um fôlego sobrenatural, minha voz ecoou pela casa e podendo ser escutada por toda rua, creio. A menina com lágrimas nos olhos abaixa a cabeça e, com passos pesados, vai na direção de seu quarto.
- E nem pense em bater essa porta! Faça isso que eu arranco seus olhos e seu coração para vender no mercado negro!
Ela tinha medo de mim. Desde a morte da mãe, ela tem sido uma garota distante. Anda sempre com uma expressão desafiadora no rosto. Ela precisa é de disciplina. Coisa que no momento eu não estava sendo apto para dar.
Um calafrio subiu minha espinha. Fui ao banheiro, lavei o rosto e fiquei observando o espelho. Eu ainda estava branco, com olhos arregalados e meu coração ainda batia rapidamente. Uma imensa sensação de que algo ruim ia acontecer. Esfregando os olhos, tento entender a minha situação.
Eu estava apenas nervoso. Só isso. O inverno me deixava irritado. Resolvi parar de pensar no assunto e ir para o quarto. Passando pelo corredor, olhei parao quarto de minha filha. A luz estava acesa ainda. Gritei.
-Vá dormir logo! – O grito não saiu com a força desejada, e nem foi apavorante como eu esperava que fosse. Talvez por isso ela não tenha respondido.
Entrei no quarto e peguei meu livro. Senti uma enorme irritação quando percebi que a página em que eu havia parado não estava marcada. Sentei na cama tentando encontrar a página quando ouvi um barulho.
Dessa vez não me assustei. Foi um barulho estranho – que certamente vinha do quarto de minha filha – barulho como se algo tivesse caído no chão de madeira. Não algo metálico, pois o barulho não tilintava, não algo pequeno, pois senti vibrar o chão do quarto.
-Se você continuar com esses barulhos eu vou até aí, e você vai implorar por sua vida!
Todos sabiam que essas ameaças não eram verdadeiras, talvez eu só as usasse para assustar, por isso mesmo minha filha sempre retrucava dizendo que eu não tinha coragem para fazer qualquer coisa daquelas. O que era verdade.Mas dessa vez ela permaneceu em silêncio. Um silêncio absoluto que deveria ser acompanhado pela mais fúnebre das marchas.
Me levantei da cama, deixei o livro de lado, dessa vez tomando cuidado para não perder a página, e fui em direção ao corredor. Pela fresta da porta pude ver que a luz do quarto de minha filha estava apagada. Lembrei-me que havia deixado a luz do banheiro acesa. Andei devagar até ele e a apaguei. Voltei ao corredor. Ainda andando devagar, fui em direção ao quarto de minha filha. Abri a porta com cuidado, estava bastante escuro, a janela fechada não deixava a luz da lua entrar.
O silêncio continuava. Eu fiz barulho o suficiente para ser percebido entrando, mas ela não reagiu com minha presença. O ar no quarto estava pesado. Coloco a mão na parede áspera e procuro o interruptor, passo a mão por alguns instantes es consigo acender a luz. Vejo então a imagem mais perturbadora de minha vida.
Aqueles olhos vazios, fitando os meus com um ar de desaprovação. Os pés descalços, o corpo imóvel. Pendurada pelo pescoço com a boca entreaberta eu quase podia ouvir minha filha dizer: “Eu te odeio”.
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