Winter
1 I'm quite hot now.
– Apaguem as luzes!
A ordem de Rick chegou até mim junto com uma rajada de vento que passava por entre as frestas da madeira que tampava uma janela quebrada.
Peguei a pequena lanterna que estava ao meu lado no chão e desliguei-a, lá no andar de baixo, pude ouvir as pessoas caminhando em direção as suas celas.
O som do metal das grades, o ranger de molas das camas.
Tudo chegava até mim, tirando-me o pouco sono que eu tinha.
Era cedo, á essa hora no verão, ainda estaríamos lá fora, cumprindo nossas obrigações diárias.
Mas era inverno, ficar lá fora era quase impossível á noite.
Percebi que como sempre as vozes lá embaixo iam se dissipando aos poucos, todos tentando ao máximo se esquentar.
Poucos dias após o inverno ter começado, muitas pessoas decidiram abrir mão de ter uma cela apenas para si e foram juntar-se a outros.
Rick, Carl e Judith.
Hershel e Beth.
Sasha e Bob.
Até mesmo Tyreese e Michonne, para minha mais completa surpresa.
No final, sobramos apenas eu e Carol.
Mas eu não poderia dividir a cela — até mesmo a cama, como os outros estavam fazendo -, com Carol.
Não seria uma boa ideia com tudo o que estava acontecendo.
Depois da morte de Sophia, á tanto tempo, nós havíamos criado um laço muito forte, nós havíamos nos tornado amigos.
E eu não poderia estragar isso.
Carol era sempre tão boa comigo, sempre me dando espaço, nunca insistindo em algo.
Ela me deixava confortável para falar sobre qualquer coisa.
Mas ás vezes, ela conseguia me deixar completamente sem graça e geralmente quando isso acontecia, eu perdia completamente o sono.
Hoje era um desses dias.
As brincadeiras de Carol deixavam-me sempre sem respostas, o que era ridículo.
“Você poderia vir me esquentar esta noite, quando todos estiverem dormindo.”
Quando ela disse isso hoje, tudo que pude fazer foi corar.
O que me deixou completamente irritado.
Eu odiava corar na frente de Carol.
Eu tentei pensar naquilo apenas como uma brincadeira, levando em consideração o sorriso divertido que ela me lançou.
Mas eu não conseguia.
Carol tem um jeito peculiar de falar sério, ao menos comigo.
Ela sempre me lançava aqueles sorrisos que me tiravam o folego e me faziam questionar o que estava acontecendo comigo.
Eu nunca sabia a resposta.
Tudo estava silencioso ao meu redor. A não ser pelo vento que ricocheteava lá fora.
A brincadeira tentadora de Carol impedia que o sono chegasse até mim, fazendo-me imaginar coisas que são impossíveis de acontecer.
Mais uma rajada de vento entrou pela janela, vindo em minha direção.
Meu corpo todo tremeu em contato com o frio.
Puxei o fino cobertor com mais força contra meu corpo e tentei não pensar em nada. Queria apenas dormir, deixar minha mente vagar no inconsciente.
Mas aqueles olhos azuis tomaram a frente de meus pensamentos, fazendo-me suspirar.
Carol com certeza estava dormindo em sua cela, sozinha.
Posso sentir aquele impulso corriqueiro tomar conta de mim.
Eu quero levantar-me e ir até a cela de Carol, apenas observá-la dormindo; assim como eu fiz várias e várias vezes antes do inverno chegar e me impedir até mesmo de querer abrir os olhos todas as manhãs e sair para fazer minhas tarefas.
Mas hoje eu vejo que é diferente.
A brincadeira de Carol mexeu comigo de uma forma que nenhuma das outras mexeu, eu simplesmente não entendo.
Eu suspiro fortemente e desisto de tentar dormir, sei que isso não vai ser possível essa noite.
Levanto-me e ignoro o frio que toma conta de mim.
Lentamente eu desço a escada, tentando não fazer barulho algum.
Não preciso que ninguém acorde e me veja indo para a cela de Carol. Já tenho que aguentar as insinuações estúpidas de Glenn sobre haver um romance entre mim e ela.
O frio toma conta do meu corpo mais do que depressa e mesmo com os dentes batendo, eu continuo a ir em direção ao meu destino.
Quando chego na porta da cela de Carol, coloco dois dedos entre as grades, puxando o pano que eu mesmo coloquei lá – para lhe dar mais privacidade -, e meus olhos encontram o que eu tanto quero ver.
Ela está dormindo tranquilamente, mesmo em uma noite tão fria; resultado dos cobertores extras que eu dei a ela, mesmo sobre fortes protestos dela.
Os grossos cobertores estão puxados até o pescoço, deixando apenas seu rosto de fora.
Ela está calma, isso alivia um pouco a tensão que sinto ao observá-la.
Eu sei que pareço um maníaco dessa maneira, mas quando se trata de Carol, nem que seja de apenas olhá-la, meu autocontrole se dissipa no ar.
Mesmo querendo continuar onde estou e vê-la dormir até o nascer do sol, o frio está acabando comigo.
Dou uma última olhada para a mulher adormecida na cama antes de deixar o pano cobrir o pequeno espaço por onde eu via o interior de sua cela.
Volto rápida e silenciosamente até minha cama no chão, no andar de cima, e encolho-me embaixo do cobertor.
Fecho os olhos e por algum motivo completamente desconhecido, sinto o sono tomar conta de mim.
A inconsciência vem se espreitando por minha mente, deixando-me sem forças.
Mas antes que eu consiga ser consumido pelo sono, sinto a pressão de algo quente em meu braço.
Faço algumas tentativas para abrir meus olhos, já que minhas pálpebras parecem pesar toneladas.
Quando finalmente consigo focar meu olhar em algo, são aqueles olhos azuis que encontro.
A consciência toma conta de mim novamente, eu estou confuso também.
Afinal, o que Carol está fazendo aqui?
– Você está congelado, Daryl. – A voz dela é carregada de doçura, como sempre; mas dessa vez a preocupação também se faz presente.
– Eu estou bem. – Resmungo, tentando me levantar. Mas a mão de Carol – que antes estava em meu braço –, impede-me.
Antes que eu consiga reclamar, sinto que ela levanta uma das pontas do cobertor, e espreme-se ao meu lado.
Tento dar mais espaço á ela, mas o colchão é pequeno, então fico o mais longe que posso do corpo dela.
– Droga, Daryl. – Ela sussurra aproximando seu corpo do meu. – Venha aqui.
Sinto suas mãos espalmadas em meu peito e suas pernas enroscadas as minhas.
– O que você está fazendo, mulher? – Tento soar calmo, mas minha voz sai quase desesperada.
– Estou te esquentando, não é obvio?
Por mais que eu queira responder, minhas palavras recusam-se a sair.
O silêncio estende-se entre nós, isso me incomoda de um jeito inexplicável.
Eu odeio não ter assuntos com Carol, mesmo que ás vezes nosso silêncio diga mais do que as palavras.
Então eu vou apenas ficar quieto, porque realmente não faço a mínima ideia do que falar.
Posso sentir meu corpo reagir á proximidade de Carol, isso não é nada bom.
– Você já dormiu? – O hálito de Carol bate em meu rosto, droga, é inebriante.
– Não. – É o melhor que eu consigo fazer nesse momento, com ela tão perto.
Ela se mexe ao meu lado, colando ainda mais em mim.
A respiração dela agora está contra meu pescoço, deixando-me arrepiado.
– Daryl?
– Hum?
– Olhe aqui.
Viro meu rosto em direção ao seu, seus olhos encontram os meus rapidamente e me perco naquele mar azul.
Sem nenhum aviso, Carol pressiona seus lábios nos meus, deixando-me atônito por alguns segundos.
Ela separa-se de mim depressa e sorri.
– Porque você fez isso? – Falo baixo, as palavras quase nem saindo por entre meus lábios.
O sorriso de Carol continua ali, iluminando seu rosto.
– Eu já disse, estou te esquentando.
Antes que qualquer coisa possa passar por minha mente, seus lábios vem de encontro aos meus novamente.
Dessa vez eu consigo corresponder ao beijo, aprofundando-o; minhas mãos procuram e acham rapidamente a cintura de Carol, puxando-a ainda mais para mim.
Mal consigo me lembrar do frio, pois já não o sinto.
Eu estou completamente quente agora.
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