Wings of Fate

3 Um olhar mais atento


Soluço caminhava, cada vez mais perdido em pensamentos. Sentia-se mal por estar em Dunbroch e desejava nunca ter ido. Quando mais jovem, em Berk, teria dado qualquer coisa para ser outra pessoa e viver em outro lugar. Mas agora que estava tão longe de sua casa, a saudade esmagava seu peito. As palavras do lorde MCintosh não lhe saíam da mente: “Como é que um garoto sem uma perna poderia matar tal criatura, ainda que ela existisse?”

Aquelas palavras não foram ditas para justificar sua deficiência. Aquilo fora dito para diminuí-lo perante os outros. Membros ausentes eram comuns em Berk. As pessoas nunca os mencionavam. Apenas não era o jeito viking de fazer as coisas. Era considerado grosseiro e inconveniente. Mas aquele homem fez questão de lembra-lo de uma forma pública e dolorosa que ele sempre seria um homem incompleto e menos capaz do que os outros. Em Berk ele poderia ser uma pessoa normal vivendo uma vida normal, mas ali ele era apenas um garoto com uma perna faltando. O que mais o magoara fora o fato de que as pessoas riram as custas dele. Todos os três clãs, divertindo-se às custas de uma mutilação que ele sofrera. Os escoceses diziam que os povos vikings eram cruéis, mas ninguém em Berk faria um comentário como esse, ainda que dirigido ao pior dos inimigos.

Lembrou-se de uma tarde na forja antes de perder sua perna, a única e última vez que ele questionara Bocão sobre o acontecido:

Bocão utilizava uma das suas próteses intercambiáveis para afiar um machado, enquanto Soluço girava a engrenagem para que a pedra de amolar rodasse.

– Foi muito ruim? – perguntou baixinho. Não foi preciso explicar melhor. Os dois sabiam a que ele se referia.

Bocão não respondeu por um bom tempo. Manteve-se afiando o machado e por um momento Soluço achou que ele não iria responder. Mas subitamente ele parou e respondeu, os olhos fitando o vazio:

– Logo que aconteceu, pensei que não era algo tão ruim. Outros vikings sofreram ferimentos piores. Alguns morreram. Tive mais sorte que eles. – Respirou bem fundo e soltou o ar devagar. – Tentei pensar que não era tão ruim. Que seguiria com minha vida. Mas não. A vida para. Muita coisa se perde. Perde-se tudo. – Pousou o machado na bancada e em seguida, completou: – Quando sonho, eu tenho duas mãos.

Como Bocão, Soluço encheu-se de coragem e tentou parecer otimista. Sua vida seguiria. Lamentar-se sobre um braço ou uma perna que não estava mais lá era considerado fraqueza. A fraqueza não tinha lugar em Berk. Filhos fracos eram enterrados cedo. Ovelhas fracas eram comidas pelos dragões. Ele tinha que parecer forte, pelo bem de Berk e dos dragões. Achava que se tentasse e se esforçasse muito, poderia até vir a acreditar nisso. Mas passado um tempo, quando ele pôde ficar sozinho outras vezes com Banguela, havia percebido que as coisas não eram bem assim. Ele nunca seria inteiro outra vez. Sentiu um profundo pesar quando pensou nisso, lembrando-se que graças a ele, Banguela nunca mais seria inteiro também.

O dragão empurrou seu corpo com a cabeça e ele quase tropeçou. Ouviram o som de água corrente próxima, e após mais alguns minutos de caminhada encontraram um ribeiro pedregoso. Soluço não sabia, mas alguns anos antes uma bela princesa havia pescado ali com sua mãe transformada em ursa. Os peixes subiam o rio, lutando contra a correnteza, pulando por cima das pedras. A visão deixou Banguela em êxtase. O dragão posicionou-se em uma elevação do ribeiro, a bocarra aberta à espera de um peixe, as patas meio dentro da água meio fora, abanando a longa cauda em antecipação. Soluço tirou a bota e foi até ele, equilibrando-se como podia entre as pedras, parando bem próximo do amigo. A sensação da água fria em seu pé era deliciosa, mas havia lodo entre as pedras. A última coisa que ele queria era cair e se molhar inteiro. Um dos peixes saltou bem próximo da boca dele e Banguela se antecipou, impelindo o corpo para a frente. Mas as patas de Banguela avançaram rumo a uma vala, e ele afundou com a parte da frente do corpo quase que instantaneamente. Soluço riu como uma criança até que sua barriga doesse e Banguela lançasse a cauda contra seu tornozelo e o derrubasse.

Banguela virou-se para ele, emitindo um som que era algo muito próximo de uma risada humana. Quando Soluço se ergueu encharcado até os ossos e encarou o dragão, Banguela mostrou a ele o seu típico sorriso desdentado. Soluço apontou o dedo para ele mas parou a meio caminho de dizer qualquer coisa ao ver a expressão do dragão. Não pôde deixar de sorrir também. Em revanche, espirrou água nele e voltou para a margem, sorrindo consigo mesmo. Enquanto desapertava os cordões do colete de couro, ouvia o som das pesadas patas de Banguela chapinhando na água enquanto ele se fartava de peixe. Tirou as roupas e as estendeu em uma grande pedra para secarem, ficando apenas de calças. O clima era agradável naquela parte do mundo, pensou. Em Berk, se tivesse caído na água de qualquer um dos rios provavelmente já estaria congelando.

Sentou-se em uma das pedras mais distantes, sentindo o agradável toque do sol em sua pele branca e levemente tomada por sardas. Observando Banguela, soube que não haveria nada que não faria por ele. “Perderia alegremente a outra perna se isso significasse salvar sua vida.” pensou. Banguela não era apenas um amigo para Soluço. No momento em que Soluço e Banguela se encararam pela primeira vez, Soluço deixou de ser um menino que olhava para o vazio. Ele se transformou em alguém com um propósito. Ao ajudar Banguela a voltar a voar, Soluço esquecia seus próprios problemas, o fato de ser diferente dos outros. O dragão abriu para ele as portas de um mundo totalmente novo e desconhecido, onde toda a negatividade associada ao seu nome se dissipava e ele podia ser apenas ele mesmo.

De repente seu humor suavizou-se. Ao olhar para Banguela brincando na água, e se lembrar de que Berk era pacífica e estava se expandindo cada vez mais, Soluço achou que perder uma perna talvez fosse um preço pequeno a se pagar por tudo o que eles haviam conseguido.

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Quando finalmente conseguiu escapar da vigilância constante da mãe, Merida soltou os cabelos e o espartilho, vestiu uma capa azul escura sobre o vestido, apanhou o arco e a aljava de flechas e foi até o estábulo para buscar Angus. Sua mãe a proibira de sair do castelo, mas Merida queria ver os vikings. O fato deles preferirem acampar ao invés de simplesmente ficarem hospedados no castelo a deixou curiosa. O que eles estariam escondendo? E por que sua mãe dissera aos guarda caças para manterem as pessoas afastadas? Merida decidiu que não daria ouvidos a fofocas e histórias. Formaria sua opinião sobre eles por si mesma. Mas para isso ela teria que vê-los. Com agilidade, Merida subiu para a garupa de Angus e segurou as rédeas, batendo de leve os calcanhares nos flancos do cavalo para que andasse. Com um pouco de sorte, ninguém a veria. Entraria na floresta e espiaria os vikings escondida entre as árvores. Merida crescera naquela floresta. Nada nem ninguém poderia encontrá-la lá.

Merida e Angus seguiram pelas trilhas já conhecidas até encontrar a preferida de Merida que levava ao ribeiro onde ela e sua mãe pescaram juntas pela primeira vez. O sol estava alto e ela decidiu dar de beber ao cavalo antes de ir espionar o acampamento viking. O vento atirou seu capuz para trás expondo seus longos cachos indomáveis. Quando ouviu o som da água, parou e desmontou. Há quanto tempo não ia ali? A rotina de aprendizado no castelo se tornara cada vez mais rígida e o tempo que ela tinha para si mesma era muito menor do que a alguns anos atrás. As suas obrigações sufocavam-na: Recepções de clãs distantes, jantares, bailes, costura, etiqueta e postura, geografia e música. Habilidades que ela não queria ter para exibir a pessoas de quem ela não gostava. Sua mão guiou Angus pelas rédeas enquanto seus sentidos recordavam as sensações, os sons, os cheiros. Estar novamente na floresta era como receber o abraço de um velho amigo. Onde quer que houvesse uma floresta, Merida estaria em casa.

Foi então que um som desconhecido a colocou em alerta máximo. Um rosnado, diferente de tudo o que ela já ouvira. Sua mente trabalhou rápido, avaliando as possibilidades. Com toda a certeza não era um urso. Merida já ouvira um rosnado de urso e não era nada como aquilo. Fez sinal para que Angus ficasse. O cavalo estava nervoso, erguia os cascos do chão e as narinas dilatavam-se nervosamente. Apanhou o arco e colocou uma flecha entre os lábios, esgueirando-se entre as árvores, silenciosa como uma sombra. Logo a frente estava o conhecido ribeiro e era de lá que o som tinha vindo. Uma fileira de pedras erguia-se diante dela e ela continuou seu caminho um pouco curvada para evitar ser vista. Logo adiante alguma coisa se movia. Se ela pudesse apenas ver mais de perto!

Um passo a mais e a seguir outro. Quando pôs os olhos no que estava procurando, o coração de Merida foi parar nas botas. Aquilo definitivamente não era um urso! A criatura tinha escamas negras como a noite. Estava distraído a comer os peixes que subiam o rio e não viu nem ouviu Merida se aproximar. A criatura ergueu-se em duas patas para agarrar um peixe e Merida pôde vê-lo em sua totalidade. Era um dragão! Uma criatura saída de lendas e contos de fadas que ela ouvia quando criança. Perigoso e voraz devorador de homens. Só então Merida se deu conta da situação terrível em que se encontrava. Sozinha na floresta com uma fera mítica. Se tentasse sair correndo agora a criatura a perseguiria com certeza. A única solução seria lutar ou retirar-se silenciosamente. A segunda opção não era muito viável. Os cascos de Angus em fuga fariam um escândalo e aquela criatura tinha asas! Decidiu pela primeira opção.

Lentamente e sem fazer ruído, Merida ficou de pé. A criatura não a notou enquanto ela encaixava suavemente a flecha no arco e a puxava para trás em quase toda a totalidade da corda. Como muitas vezes antes daquela Merida inspirou profundamente, arqueando os músculos das costas e dos braços, quase juntando as omoplatas enquanto se concentrava em seu alvo. Não poderia errar. Um movimento em falso e sua vida estaria perdida para sempre. Semicerrou os olhos preparando-se para acertar a cabeça da besta quando uma mão atravessou o seu campo de visão e segurou a flecha, milésimos de segundo antes de ser atirada.

Quando deu por si, Merida se viu encarando um par de olhos verde-floresta, totalmente petrificada.

– Por favor, não faça isso. – disse Soluço. Sua expressão estava séria, sua voz calma e controlada, mas seus olhos eram súplica. Um observador menos atento não teria notado. Aquilo não era um pedido. Apesar da aparente calma externa, ele estava quase implorando.

Merida e Soluço permaneceram assim por alguns segundos, bem próximos, olhando um para o outro. Ela quase se esqueceu do monstro que a havia atraído até ali. Quase. Seus olhos desviaram-se dos de Soluço e voltaram-se para a fera. Soluço acompanhou seu olhar e compreendeu que ela estava com medo.

– Abaixe o arco, princesa. – ele disse, fixando os olhos nos dela outra vez. – Ele não vai te machucar.

– Como pode ter tanta certeza? – ela mordeu os lábios, olhando novamente para o dragão.

– Você confia em mim?

Merida hesitou. Estava entre o fogo e as brasas. De um lado, uma fera mitológica que poderia parti-la em pedaços em segundos. Do outro, um viking, um antigo inimigo do seu povo que estava pedindo que confiasse nele! Mas estranhamente, por algum motivo, ao olhar nos olhos dele, Merida soube instantaneamente que poderia confiar nele. Com uma lentidão agonizante ela abaixou o arco, sem nunca deixar os olhos de Soluço. Colocou seu arco no chão, juntamente com a flecha. Ao erguer-se, Soluço sorria para ela e Merida ruborizou ao ver que ele estava nu da cintura para cima. Uma fina camada de pelos castanhos cobria-lhe o peito e descia pelo ventre, até desaparecer dentro das calças. Seus olhos detiveram-se em cada camada de músculos dele e quando ele se virou de costas para ela, o olhar da princesa quedou-se em onde uma tatuagem de grande minuciosidade e beleza lhe enfeitava a carne.

Um dragão magnífico descansava em suas costas, cobrindo parte das sardas delicadas na pele branca. O corpo longo enrolava-se sobre si próprio, e o focinho assustador quase se encontrava com a cauda logo abaixo. Ela quase sentiu que se chegasse mais perto, poderia ver os detalhes das escamas desenhadas sobre a pele dele. Ao olhar mais atentamente, Merida notou que aquele não era o desenho de qualquer dragão. O que ela estava vendo era a réplica quase exata da criatura no ribeiro, tão perfeita que quase parecia se mover e respirar sob a pele de Soluço. Ele olhou por cima do ombro e sorriu para ela.

– Eu vou chama-lo até aqui. Não tenha medo, ele não vai te machucar princesa.

– Só...Me chamo Merida. Me chame de Merida.

Soluço assentiu. Voltou-se para Banguela, que tinha um peixe metade dentro e metade fora da boca.

– Banguela. Venha até aqui, garoto.

O dragão voltou-se para ele e fez seu caminho entre as pedras, terminando de engolir o peixe durante o trajeto. Estacou diante de Soluço e quando o viking ergueu a mão para tocá-lo, Banguela enfiou a cabeça debaixo dela e esfregou-se nele de uma maneira que fez Merida pensar em um gatinho. Soluço riu e coçou o pescoço da fera.

– Pode se aproximar, se quiser.

– É seguro? – ela inquiriu, receosa.

– Sim. Mas deixe o seu arco no chão.

Merida obedeceu e aproximou-se dele. O dragão pareceu notá-la pela primeira vez, suas pupilas negras dilatadas e uma expressão curiosa na face. Ao ver que ela não iria avançar mais, Soluço estendeu-lhe a mão, convidando-a a pegar a sua.

– Me permite? – ele sorriu para ela de sobrancelhas erguidas.

Merida assentiu e ele tomou sua mão, guiando-a lentamente e até o dragão, aproximando-se mais e mais da cabeça. Quando Merida percebeu o que ele pretendia tentou puxar a mão mas Soluço a segurou, forte, mas gentilmente, pousando-a com cuidado na pele escamada do dragão. Banguela grunhiu suavemente, um som parecido com um ronronar, cavo e profundo.

Soluço soltou a mão de Merida e ela acariciou a fera, sorrindo. A expressão de surpresa em seu rosto fez Soluço sorrir também. Ele a observava enquanto ela acariciava o dragão, agora com as duas mãos, sem nenhum resquício do medo interior. “Ela é linda”, pensou. Seus olhos eram azuis como o céu em um dia claro e o nariz fino era levemente arrebitado. Havia algo em sua expressão que rescendia a desafio. E todo aquele cabelo... Como conseguiram enfiar todos aqueles cachos dentro do toucado?

Banguela grunhia e se contorcia satisfeito enquanto ela acariciava o dragão. Soluço a encarava deliberadamente agora e quando Merida cruzou o olhar com o dele ficou levemente ruborizado. Aproximou-se de Banguela e se pôs a acariciar também, para evitar o olhar dela.

– Chamamos isso de Elo. Quando um dragão se permite ser tocado assim, pela primeira vez. Significa que você ganhou sua confiança.

Ela sorriu para ele, e seus olhos baixaram novamente para o peito exposto. Soluço finalmente notou a causa de seu embaraço. Ela era uma princesa afinal. Não estava acostumada a ver homens sem camisa por aí. A voz de Astrid soou em sua cabeça, cortante como uma navalha afiada “Se nos envergonhar vou arrancar a sua pele e fazer com que me veja vestida com ela!”

– Desculpe, princesa. Quero dizer, Merida. – ele afastou-se e foi até onde suas roupas estavam secando nas pedras. Vestiu-a rapidamente e voltou até eles. De súbito, enquanto acariciava Banguela no pescoço, os dedos de Merida tocaram um ponto sensível abaixo da cabeça e Banguela arregalou os olhos, caindo repentinamente em um sono profundo. Merida olhou para suas mãos, incrédula, e depois para Soluço.

– Me desculpe! Não sei o que eu fiz, eu só estava... Não foi de propósito, não queria machucá-lo!

Soluço riu, lembrando-se de sua reação quando pusera Banguela para dormir daquele jeito sem querer pela primeira vez.

–Está tudo bem. Ele só está dormindo. Veja. Olhe para ele.

Merida olhou e Banguela ressonava baixinho, uma expressão de plena satisfação na face.

– Você quer um peixe? – Soluço perguntou.

Soluço e Merida passaram a tarde toda em volta da fogueira que ele fizera. Comeram peixe assado, observando Banguela dormir e conversando. Merida fazia perguntas sobre os dragões e Soluço descrevia para a ela as espécies, suas habilidades e características. Merida notou que ele gesticulava muito enquanto falava, erguia e abaixava os ombros. Soluço notou que Merida roncava de uma maneira estranha quando caía na gargalhada.

– Ah minha nossa! – ela ergueu-se repentinamente. – Preciso voltar ao castelo, minha mãe deve estar louca me procurando!

Soluço levantou-se atrás dela enquanto ela seguia na direção das árvores. Encontrou-a parada, encarando a floresta.

– Ah não... Angus não está aqui. Deve ter se assustado com o dragão...

– Quem é Angus? – perguntou Soluço.

– Meu cavalo.

– Ele vai ficar bem sozinho?

– Sim. Ele conhece as trilhas. Sempre volta para casa. Mas como eu vou voltar agora?

Soluço sorriu. Só havia uma resposta para aquela pergunta.

Notas finais
E no próximo capítulo, ação! Já peguei leve demais com vocês.