Wings of Fate
19 O início perfeito
Notas iniciais
Na verdade foi a ausência de barulho que acordou Soluço. Normalmente naquele horário um dragão impaciente teria exigido a sua atenção e por um segundo ele se perguntou onde estava Banguela e por que seu pai não o havia acordado ainda. A luz acinzentada do nascer de um novo dia atrás das cortinas revelou que ele não estava em seu quarto em Berk. Ele se moveu com cautela e fitou a mulher na cama com ele. Ela estava deitada de costas, o cabelo displicentemente jogado por sobre o travesseiro. O lençol descansava abaixo de seu umbigo e Soluço roubou um olhar de seu peito nu antes de se voltar para seu rosto. Seus lábios estavam entreabertos e seus olhos fechados. Era incrível como aquela expressão nela a fazia parecer inocente e vulnerável, as duas últimas qualidades que poderiam defini-la.
Estavam casados. Trocaram votos, fortaleceram a aliança e realizaram a consumação física. A lembrança surgiu em sua mente. Alguns dos conselhos que seu pai havia lhe dado vieram a tona em sua cabeça. Ele não tinha estado particularmente interessado nos conselhos de Estóico no momento, parecia apenas uma ladainha sem nenhum contexto, mas agora que ele tinha alguma ideia do que acontecia, ele teve que admitir que seu pai talvez soubesse do que estava falando. Ele iria ser melhor na próxima vez.
Uma mecha teimosa de cabelo caiu sobre o rosto de Merida, e ele a tirou com cuidado, inclinando-se sobre ela suavemente e deixando seus lábios pousarem na testa dela.
– Eu te amo. — ele sussurrou as palavras bem baixinho. Depois deitou-se outra vez, puxou o lençol sobre o peito dela e adormeceu novamente, caindo em um sono sem sonhos.
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Ela se obrigou a ficar dormindo o máximo que pôde, mas seu estômago rebelou-se contra ela, exigindo comida. Ela cobriu os olhos com o antebraço, de repente consciente da presença dele a seu lado. Sem abrir os olhos, Merida sorriu quando as lembranças da noite passada reapareceram em sua mente.
– Bom dia. — ele murmurou, sua voz rouca. Era engraçado como essas duas palavras faziam o estômago dela se revirar de uma forma completamente diferente agora.
– Bom dia. — Ela começou a se sentar e em seguida congelou ao se lembrar que estava completamente nua por baixo dos lençóis, segurando o lençol firmemente contra o peito. Ela não havia vestido sua camisola e pelo que parecia ele estava tão nu quanto ela. Soluço lhe deu um sorriso simpático enquanto ele deslizava para se encostar à cabeceira da cama.
– Acho que essa coisa de ficar casado talvez leve um tempo para se acostumar. — ele comentou, fechando os olhos e passando a mão pelos cabelos, jogando-os para trás daquele jeito que ela adorava. — E acho que é para isso que serve a lua de mel.
"Entre outras coisas", Merida pensou, roubando um olhar de seu peito nu. Ela se sentou, segurando o lençol e considerando suas opções. Ela não poderia pedir que ele se virasse, poderia? O que sua mãe faria? Ela refletiu, se sentindo um pouco idiota. Casaram-se, pelo amor dos deuses. Ele já a havia visto sem roupas na noite passada e provavelmente iria ver essa noite de novo. A memória de seus olhos sobre ela, sua pele deslizando contra a dela, sua respiração em seu ouvido a fez corar completamente e todo o seu corpo se aquecer em resposta. Antes que a timidez pudesse tomar conta dela outra vez, Merida pulou da cama agarrada do lençol com um movimento súbito, ignorando o grito de protesto de Soluço quando ela o deixou com nada além dos travesseiros na cama. Ela desfilou até o banheiro com um sorriso vitorioso no rosto, parando na porta para espiá-lo. Ele tinha um rosto vermelho e um travesseiro estrategicamente posicionado no colo. Ela riu.
Após realizar sua higiene matinal e vestir roupas limpas, Merida voltou ao quarto, deparando-se com Soluço sério e compenetrado sentado na beira da cama. Ele havia vestido uma cueca de linho azul escura e sua perna esquerda descansava sobre o joelho.
– Você pode vir aqui um instante? — ele perguntou em voz baixa, e ela parou de vasculhar o baú de roupas para sentar-se ao lado dele. Então ele explicou a ela como encaixar o soquete em sua perna e como amarrar todas as correias. Merida ouviu e observou atentamente. Quando ele terminou, levantou-se e olhou para ela com uma expressão nervosa. Mas Merida apenas sorriu, colocou-se na ponta dos pés e lhe deu um beijo tão ardente que fez a noite anterior parecer uma brincadeira entre crianças. Ela se separou dele, interrompendo o beijo com um selinho e terminou de se vestir, com Soluço seguindo seu exemplo.
–Nós realmente temos que ir até lá? — ele perguntou, pensando em como seria constrangedor descer e tomar café da manhã com os pais de Merida, quando eles sabiam o que ele tinha feito com ela na noite passada.
– É onde a comida está. — Ela respondeu com um risinho até ver a expressão dele. — Tem alguma ideia melhor?
Ele tinha. Uma janela e um dragão.
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Em sua sala privada, Elinor aguardava pacientemente sentada em um catre acariciando a pequena Vigilante sobre o colo. Não demorou muito, porém. Logo pôde ouvir o som dos passos apressados no corredor. Maudie sempre fora assim. Sempre que a rainha a mandava chamar, a Governanta vinha correndo, deixando todas as coisas que estava fazendo para trás, não importava se estava dobrando um lençol ou salvando a vida de uma pessoa. As batidas na porta se fizeram ouvir, e Elinor chamou-a.
–Entre.
E Maudie entrou, fechando a porta, virando-se para a rainha e esboçando uma vênia curta, mas respeitosa.
– Mandou me chamar, senhora?
Elinor sorriu. Há muito que ela havia isentado Maudie de chamá-la de Majestade. A governanta e a rainha se conheceram logo quando Elinor havia se casado. Ela se sentia sozinha naquele castelo imenso, e logo fez amizade com a robusta criada. Mas Maudie nunca deixara a formalidade para trás entre elas. Podia não haver " vossa alteza" ou "majestade" entre as duas, mas o "Senhora" estava sempre lá.
– Sim, Maudie. Mandei. Por favor, sente-se. Temos que conversar.
A governanta obedeceu, um pouco nervosa.
– Maudie, eu perguntei a você sobre Merida, mas nunca lhe perguntei como foi a sua estadia em Berk.
– O clima é agradável... — ela balbuciou. — as pessoas são gentis e hospitaleiras, apesar de um pouco mais rudes do que estamos acostumadas — nesse momento, Maude corou e desviou o olhar — Gostei muito do período que passei lá, e gostaria de poder voltar, um dia.
– É mesmo? Gostaria de voltar para Berk? — Elinor perguntou, erguendo uma sobrancelha, sorrindo.
– Sim... — a governanta murmurou sonhadora, e depois corrigiu-se, alterando um pouco a voz — Não! Quero dizer, não que eu não goste daqui. A senhora e a sua família tem sido muito bons para mim, eu não tenho do que me queixar e...
– Acalme-se Maudie. Ninguém está dizendo o contrário. A verdade é que quando Merida for para Berk, eu gostaria que você fosse com ela. Você já está familiarizada com a cultura local, e você e Merida se dão bem. É claro que o seu pagamento continuaria vindo integralmente. — a rainha salientou — E não estou ordenando nada, Maudie, entenda, a decisão é somente sua. Se quiser ficar, fique e...
– Eu irei. — ela disse, sorrindo de orelha a orelha. — Nada me faria mais feliz, senhora.
Elinor arregalou os olhos, surpresa com a resposta imediata de Maudie.
– Me fará muito feliz saber que você cuidará dela para mim. — Elinor sorriu, segurando as mãos dela com as suas. — Mas será triste perder uma amiga de tantos anos.
– Nunca deixarei de ser sua amiga, Senhora. Eu irei, mas a um chamado seu voltarei correndo.
Elinor sorriu. Não tinha a menor dúvida quanto a isso.
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O dia da partida de Merida finalmente chegara e o cais ficou pequeno para receber tanta gente. Todos queriam se despedir da princesa. Criados do castelo, guardas, os Lordes e seus filhos e até mesmo aldeões e humildes agricultores das proximidades haviam enfrentado uma longa viagem para vê-la uma última vez. Os vikings carregavam os navios, as vezes com a ajuda de dragões, as vezes usando seus próprios músculos. Merida levara muitas das peças de madeira que a velha bruxa lhe vendera, mas não todas. Queria que algo daquela época ficasse em Dunbroch, assim uma parte dela sempre permaneceria ali. Seu coração apertou-se ao ver sua família se aproximar no cais. Sua mãe, como sempre mantinha sua postura régia, com Vigilante empoleirada em seu ombro. Os trigêmeos abraçavam Maudie, a eterna vítima de suas travessuras, não se importando nem um pouco em deixar rolar as lágrimas. Quando Merida parou a alguns passos de subir na rampa do navio, virou-se para seu pai e não pôde conter as lágrimas. Foi como se recordações a atingissem como pedras rolando de uma montanha e ela não pôde conter os soluços ao abraçá-lo com força. Elinor esperou pacientemente sua vez, estreitando-a em seus braços assim que o marido a soltou. Suas lágrimas eram tão sinceras quanto as do pai, embora um pouco mais contidas. Elinor era a força do clã Dunbroch. Se ela desmoronasse, tudo desmoronaria. Por sobre o ombro, ela murmurou:
– Nós teremos uma a outra para sempre. Não importa o que aconteça ou a distância, sempre estaremos ligadas.
Merida assentiu, e disse a única coisa que pareceu sensata no momento:
– Eu te amo, mãe. — ela falou com a voz trêmula, cedendo novamente ao pranto.
Quando Elinor se afastou, Merida se viu rodeada por três pares de braços. Como sempre, seus irmãos falavam todos ao mesmo tempo, mas ela não os censurou dessa vez. Concentrou-se em ouví-los falar sobre ela visitá-los, sobre a falta que sentiriam dela, sobre cuidar de Fachen para eles, sobre enviar cartas e pedir a Astrid para escrever. Os passos atrás de si a fizeram se virar para ver Soluço descer do navio ao lado de Estóico, que trocou apertos de mão calorosos com o Rei Urso e dirigiu uma vênia à rainha Elinor. Fergus puxou Soluço para um abraço que o fez parecer dez vezes menor e distribuiu tapinhas nas costas dele até o deixar sem ar. Quando o soltou, Elinor simplesmente segurou-lhe os dois lados do rosto e deixou um beijo delicado em sua testa, abraçando-o logo em seguida, fazendo-o corar, como sempre. Ele não conseguiu pensar em nada para dizer além do que já havia dito antes em privado, que cuidaria de Merida, que a amaria, que aprenderia e ensinaria com ela e que sempre a protegeria, acima de todas as coisas. O olhar verde susteve o castanho e ela pôde ver em seu rosto todas as palavras ocultas, todas as promessas, então soube que naquele momento, nada do que dissesse seria suficiente. Ele tomou a mão de Merida na sua e os dois subiram a rampa para o navio, com Banguela atrás de si. Velas foram soltas e infladas pelo vento, apesar de que não seriam necessárias por muito tempo. Tão perto da costa logo encontrariam escalderíveis que os puxariam suavemente de volta para Berk. Soluço acenou para eles do navio, observando Merida de canto de olho. Ela mal conseguia parar de chorar, e seu coração ficou apertado ao ver que ela não acenava de volta. Então, em um impulso súbito, puxou-a pela mão e a conduziu até Banguela.
– Vem comigo, Merida. — ele pediu.
Ela obedeceu, sem entender muito e os dois subiram na sela. O vento estava contra eles, mas o dragão lutou contra as correntes e pousou no cais, dando a Merida a chance de abraçar toda a sua família junta uma última vez, antes de se virar para subir em Banguela e voltar ao navio. Dessa vez, ela sorria, mesmo com os olhos marejados, e acenava vigorosamente para seus pais e irmãos, que em terra, acenavam de volta.
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A recepção em Berk fora calorosa, com direito a uma segunda festa de casamento, que durou três dias. Muitos dos vikings não puderam deixar Berk para assistir ao casamento de Soluço, então a ideia mais simples foi realizar uma festa em Berk só para eles. Houve uma corrida de dragões em homenagem aos noivos, que contou com a participação de Soluço. Como era mais do que esperado, ele venceu, e dedicou a vitória à esposa. Assim como em todas as festas vikings, a comemoração de seu casamento foi regada a muita comida, bebida e música. Merida dançou com quem lhe pedisse, primeiro com Estóico, depois com Bocão, em seguida passando para os braços de Perna de Peixe e Cabeça Dura. Mas antes que Melequento pudesse se aproximar para pedir uma dança, Soluço adiantou-se e reclamou-a para si, dançando com ela pelo resto da noite. Ele nunca admitiria, é claro, mas foi, em parte, o ciúme que o motivou a tomar a iniciativa. A outra coisa que foi ver como ela ficava linda dançando com ele pelo Grande Salão, o rosto corado, o peito subindo e descendo, ofegante, os cabelos em movimento quando ele a girava, o sorriso radiante em seu rosto. Naqueles momentos ele se perguntava se seria possível morrer de felicidade, pois era exatamente assim que ele se sentia. Na terceira e última noite, após receber os parabéns pelo seu matrimônio pela segunda vez, o casal despediu-se de todos no Grande Salão. Cabeça Quente parou junto a Astrid, com os olhos marejados e a voz um pouco rouca.
– Eles formam um casal tão lindo... Depois de tudo o que passaram, ficaram juntos... É o final perfeito.
Astrid sorriu diante do sentimentalismo da amiga, mas fez que não com a cabeça.
– Não. É o início perfeito. — ela a corrigiu.
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Berk — 1 ano depois
Ela acordou no meio da noite, muito antes do primeiro som das gotas de chuva tamborilando no telhado. Ela ignorou o máximo que pôde a sensação estranha em seu estômago, sabendo que aquilo logo passaria. Silenciosa como uma sombra ela se levantou da cama e apanhou um xale na cabeceira, envolvendo seus ombros com ele.
Apesar do dragão dormindo no outro extremo no quarto e do fogo crepitando na lareira, ainda estava frio. O inverno seria rigoroso este ano, ela pensou. Lançou um olhar para o Fúria da Noite. Quem o visse dormindo desse jeito jamais imaginaria que ele era cria profana do raio e da própria morte. Banguela estava deitado de barriga para cima, com uma das patas sobre a cabeça, exatamente como se tivesse caído no sono no meio de uma coceira.
Na ponta dos pés, Merida foi até a janela. Berk estava quieta lá fora e algumas poucas tochas iluminavam as casas. Ela sabia, homens e dragões descansavam sob o som suave da chuva caindo lá fora, tamborilando calma, mas firmemente contra o telhado plano de madeira acima de suas cabeças. O cheiro de terra molhada e folhas mortas logo se ergueu do solo, mas de uma maneira estranha, aquilo havia feito o estômago de Merida revirar. Ela franziu a testa com a reação exagerada de seu corpo. Ela sempre adorara aquele cheiro.
Sentou-se em uma cadeira próxima, sem emitir o menor ruído. Seus olhos foram para as gotas de chuva escorregando pelo beiral, incessantes e ela deixou seus pensamentos vagarem. Não era a primeira vez que aquela suspeita lhe tirava o sono. Mas não era mais do que isso, uma suspeita. Devia falar sobre isso com ele? Devia contar a Astrid? Talvez não fosse nada. Claro, suas regras que antes eram sempre pontuais estavam uma ou duas semanas atrasadas. Mas isso não significava absolutamente nada! Talvez ela apenas não estivesse se alimentando direito e várias vezes ouvira dizer que preocupar-se demais a respeito disso só as faria atrasar mais.
Como tantas vezes antes daquela seu olhar pousou no corpo dele. Vestia apenas calças e tinha os lençóis emaranhados nas pernas, deixando seu pé direito descoberto. Estava deitado de costas, uma das mãos repousando no abdômen e a outra jogada ao lado do corpo, pendurada na cama. A barba estava crescendo de novo, e ela sabia que a luz do dia ele iria beijá-la e sentir sua pele arrepiar-se ao esfregar o queixo contra o pescoço dela, naquele ponto exato que fazia seus joelhos tremerem sempre que o tocava. Ela sorriu com o pensamento de que talvez ela não fosse muito diferente de um dragão. Uma palavra calma lá, a pressão suave dos dedos aqui e seus olhos encontrando os dela a haviam dominado.
Ele havia prometido na frente de seu povo e do dela que a protegeria, que colocaria sua própria segurança acima da dele própria, e que se fosse necessário, a seguraria sempre que ela caísse. Muitas daquelas promessas ele já havia cumprido, e também outras, aquelas feitas em privado, sussurradas na noite e murmuradas sobre sua pele entre beijos que a fizeram corar de surpresa e prazer. Aquelas ele havia cumprido também, com sua língua ágil e dedos forjados pelo vôo.
Era óbvio que ela confiava nele. Então porque não contava a ele o que estava pensando? Se era só uma suspeita boba, qual era o problema?
– Eu posso sentir os seus olhos em mim. — ele murmurou, a voz rouca pelo sono, sem nem mesmo abrir os olhos.
– Muito sagaz da sua parte ser capaz de saber isso com os olhos fechados. — ela rebateu, com ironia.
Ele assentiu quase imperceptivelmente, ainda de olhos fechados.
– Não conseguiu dormir? — ele perguntou.
– A chuva me acordou. — ela mentiu. Já estava acordada muito antes disso. Então porque não dizia a ele? Por que era estranho e difícil dizer o que estava pensando?
Ela viu sua cabeça virar-se na direção dela e seu peito subir e descer devagar, em uma respiração profunda. Seus olhos estavam fechados, mas o fantasma de um sorriso irônico passou sobre sua expressão. Era óbvio que ele não acreditava nela. Nenhum dos dois acordava no meio da noite sem uma boa razão.
– Valeu a pena? — ele perguntou. Seus olhos ainda estavam fechados, mas dessa vez eles estavam mais apertados e as sobrancelhas franzidas, como se ele estivesse com medo da resposta.
Ela pensou em tudo o que viveram juntos. Nas coisas que deixara para trás, a terra que a viu crescer. Montes e montes de servos leais, o luxo de uma vida na realeza. Sua família. Mas também pensou nas coisas que ele lhe dera, no que ela ganhara dele. O amor de seu povo por ela, a tranquilidade de seu lar que viera junto com a ausência de deveres formais, uma melhor amiga, a visão maravilhosa do sol se escondendo atrás do mar todas as tardes, a sensação incrível do vento nos cabelos, a alegria de estabelecer um elo com seu próprio dragão, a liberdade de poder ser ela mesma... E o presente mais valioso de todos: o amor que ela via em seus olhos todos os dias quando olhava para ela. De repente as coisas que ela deixara para trás pareciam um preço pequeno a se pagar por tudo o que ela tinha agora.
– Sim. — ela respondeu, embora sua voz falhou um pouco, inesperadamente motivada por seu coração.
Ele havia confundido a preocupação dela com tristeza, mas quem poderia culpá-lo? Ambos conheciam o medo e a tristeza, assim como eles conheciam seus próprios batimentos cardíacos. Mas a presença um do outro havia feito tudo isso ser deixado muito para trás.
A noite ficava mais fria enquanto ela ouvia a respiração dele. Silencioso demais para estar realmente dormindo. Em seguida houve um movimento entre as roupas de cama, seu braço se libertou alisando os lençóis para dar espaço a ela, seus dedos curvados ligeiramente, como um convite.
– Você vai voltar? — ele perguntou e ela viu que seus olhos estavam bem abertos agora, procurando-a nas sombras.
Ela cerrou os dentes e seu coração afundou por ter dado razões para que ele duvidasse dela. O xale foi abandonado sobre a cadeira e ela cruzou o vazio entre eles no espaço de uma respiração longa, subindo na cama e aninhando sua cabeça no peito dele, jogando uma perna por sobre sua cintura, beijando sua pele de leve antes de responder:
– Eu sempre vou voltar para você. — ela prometeu.
Soluço então beijou-lhe o topo da cabeça e ela suspirou, sorrindo. Seu lugar era ali, perto dele, o suficiente para ouvir sua respiração, sentir seu coração batendo o calor de sua pele. Ela não precisava ter medo. Subitamente ela se decidiu. Contaria a ele o que estava sentindo. Mas não agora. No dia seguinte, quando amanhecesse e ela pudesse claramente ver a expressão em seu rosto. Agora ela iria apenas abraçá-lo e ficar junto dele, bem ali, onde era o seu lugar no mundo.
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